Os Melhores Contos Fantásticos
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 28 partes.
desaparecendo num a risada distante à m edida que a nuvem escura deslizava,
deixando o céu claro e silente sobre Goodm an Brown. Algum a coisa, porém ,
esvoaçou levem ente pelo ar e prendeu-se no galho de um a árvore. O rapaz
pegou-a, e contem plou um a fita cor-de-rosa.
— Minha Faith se foi! — gritou, depois de um m om ento de estupor. —
Não há nada de bom sobre a terra; o pecado é só um a palavra. Vem , dem ônio;
pois a ti pertence este m undo.
E, tão enlouquecido de desespero que riu alto e longam ente. Goodm an
Brown pegou seu caj ado e pôs-se de novo a cam inho, tão depressa que m ais
parecia voar pela trilha da floresta que andar ou correr. A senda foi ficando
m ais tortuosa e m enos bem traçada, e por fim desapareceu, deixando-o no
coração da floresta escura, a avançar ainda im petuosam ente, com o instinto
que guia o hom em m ortal para o m al. A floresta inteira estava povoada de
sons assustadores — o estalar das árvores, o uivo de anim ais selvagens e o
grito de índios; enquanto o vento às vezes soava com o o dobrar do sino
distante de um a igrej a, e às vezes rugia em torno do viaj ante, com o se toda a
Natureza zom basse dele. Mas ele próprio era o principal horror da cena; os
dem ais não o acovardavam .
— Ah! ah! ah! — rugia Goodm an Brown quando o vento ria dele. —
Vam os ver quem ri m ais alto. Não m e apavorais com vossas diabruras. Vem , bruxa, vem , feiticeiro, vem , xam ã, vem tu m esm o, dem ônio, que aqui vai
Goodm an Brown. Tendes tanta razão para tem ê-lo quanto ele a vós.
Na verdade, em toda a floresta assom brada, não podia haver nada m ais
m edonho que a figura de Goodm an Brown. Ele voava por entre os
pinheiros negros, brandindo seu caj ado com gestos frenéticos, ora obedecendo a um a inspiração de horrenda blasfêm ia, ora gargalhando com tal ím peto que
punha todos os ecos da floresta a rir com o dem ônios a sua volta. Satanás na
sua própria form a é m enos hediondo que o esbravej ar no peito de um hom em .
Assim foi o endem oninhado correndo pelo seu percurso, até que viu diante de
si, trem ulando entre as árvores, um a luz verm elha, com o quando se ateia fogo
aos troncos e galhos abatidos de um a clareira; as sinistras labaredas se
elevando contra o céu na hora da m eia-noite. Deteve-se, num a calm aria da
tem pestade que o im pelira, e ouviu avolum ar-se o que parecia ser um hino,
ressoando solenem ente à distância, engrossado por m uitas vozes. Ele conhecia
a canção; era entoada m uitas vezes pelo coro no tem plo do povoado. Os
versos extinguiram -se tristem ente e foram prolongados por um coro, não de
vozes hum anas, m as de todos os sons da m ata noturnal retum bando j untos em
horrível harm onia. Goodm an Brown gritou, m as seu grito se perdeu no grito
do deserto e nem seu próprio ouvido o ouviu.
No intervalo de silêncio ele avançou furtivam ente, até que a luz o ofuscou.
Na extrem idade de um a clareira, cingida pela m uralha escura da floresta,
erguia-se um a pedra que, em sua aparência rude, natural, tinha algum a
sem elhança com um altar ou um púlpito; era cercada por quatro
resplandecentes pinheiros, seus topos em cham as, seus troncos intactos com o
velas num culto noturno. Toda a m assa de folhagem que crescia acim a da
pedra estava em cham as, com labaredas que se erguiam altas na noite e
ilum inavam interm itentem ente todo o cam po. Cada galho pendente e festão de
folhas ardia. Enquanto a luz verm elha se acendia e apagava, um a num erosa
congregação alternadam ente luzia e desaparecia na som bra, e de novo
brotava, com o que das trevas, povoando de repente o coração das m atas
solitárias.
— Um a gente grave, de roupas escuras — disse Goodm an Brown.
E realm ente era assim . Em m eio às pessoas, indo e vindo entre a escuridão
e o esplendor, apareceram rostos que seriam vistos no dia seguinte no
conselho da província, e outros que, dom ingo após dom ingo, olhavam
devotam ente para o céu ou, benignam ente, dos m ais santos púlpitos da região,
para os bancos apinhados dos tem plos. Alguns afirm am que a senhora do
governador estava lá. Pelo m enos lá estavam dam as de alto coturno m uito
conhecidas dela, e esposas de honrados m aridos, e viúvas, um a chusm a delas,
e velhas donzelas, todas de excelente reputação, e belas m ocinhas, a trem er de m edo que suas m ães as descobrissem . Ou
os lam pej os súbitos de luz ilum inando o cam po escuro estontearam Goodm an Brown, ou ele reconheceu m uitos m em bros da igrej a do povoado
de Salem , fam osos por sua especial santidade. O bom diácono Gookin havia
chegado, e aguardava j unto daquele venerável santo, seu reverenciado pastor.
Mas, m isturando-se irreverentem ente com essas pessoas graves, bem
conceituadas e piedosas, aqueles anciãos da igrej a, aquelas dam as castas e
virgens inocentes, havia hom ens de vida dissoluta e m ulheres de m á fam a,
desgraçados entregues a todos os vícios vis e obscenos, e até suspeitos de
crim es horríveis. Era estranho que os bons não se esquivassem dos
depravados, nem os pecadores se envergonhassem dos santos. Espalhados
tam bém entre seus inim igos caras-pálidas, estavam os sacerdotes índios, ou
xam ãs, que m uitas vezes haviam am edrontado sua floresta nativa com
encantam entos m ais hediondos que qualquer outro que a feitiçaria inglesa
conhecesse.
— Mas onde está Faith? — pensou Goodm an Brown; e, à m edida que a
esperança lhe invadia o coração, trem eu.
Um a estrofe do hino elevou-se, um a toada lenta e plangente, com o o am or
piedoso, m as acom panhada de palavras que expressavam tudo o que nossa
natureza pode conceber de pecam inoso e insinuavam enigm aticam ente m uito
m ais. A sabedoria dos dem ônios é insondável para m eros m ortais. Verso após
verso foi cantado; e o coro dos erm os continuou a se avolum ar entre um e
outro com o o tom m ais grave de um órgão poderoso; com o ribom bo final
desse hino pavoroso, surgiu um som , com o se do bram ir do vento, do ím peto
das torrentes e do uivo das feras, e todas as outras vozes dos erm os
dissonantes se m isturaram e se harm onizaram com a voz do hom em culpado
em hom enagem ao príncipe de todas as coisas. Os quatro pinheiros ardentes
lançaram um a cham a m ais alta, e revelaram obscuram ente form as e
sem blantes de horror nas espirais de fum aça sobre a ím pia assem bléia. No
m esm o instante o fogo sobre a pedra proj etou-se e form ou um a abóbada rubra
e incandescente acim a de sua base, onde apareceu então um a figura. Havia, aliás, diga-se com reverência, um a sem elhança não desprezível, tanto em
garbo quanto em m aneiras, entre ela e alguns graves sacerdotes das igrej as da
Nova Inglaterra.
— Trazei os convertidos! — bradou um a voz que ecoou através do cam po
e ressoou na floresta.
A essas palavras. Goodm an Brown saiu da som bra das árvores e
aproxim ou-se da congregação, com que, m algrado seu, sentiu-se irm anado
pela afinidade dela com tudo que era depravado em seu coração. Poderia ter quase j urado que a figura de seu próprio finado pai, a olhar para baixo de um a espiral de fum aça, lhe fez sinal para avançar, enquanto um a m ulher, os traços
confusos pelo desespero, lhe fez um aceno com a m ão, instando-o a recuar.
Seria sua m ãe? Mas ele não foi capaz de recuar um passo, nem de resistir,
sequer em pensam ento, quando o pastor e o bom diácono Gookin o agarraram
pelos braços e o levaram para a pedra cham ej ante. Para lá rum ava tam bém a
form a esbelta de um a m ulher de rosto velado, conduzida entre Goody Cloy se,
aquela piedosa professora de catecism o, e Martha Carrier, que recebera a
prom essa do diabo de ser rainha do inferno. Um a bruxa celerada, é o que ela
era. E lá estavam os prosélitos, sob a canópia de fogo.
— Sede bem -vindos, m eus filhos — disse a lúgubre figura —, à com unhão
da vossa raça. Encontrastes, ainda tão j ovens, vossa natureza e vosso destino.
Meus filhos, olhai para trás!
Eles se viraram ; e lam pej ando, com o se num a lâm ina de fogo, os
adoradores de Satã apareceram ; um sorriso de boas-vindas brilhava
soturnam ente em cada rosto.
— Ali estão — continuou a figura negra — todos que reverenciastes desde
a infância. Vós os tínheis na conta de m ais santos que vós m esm os, e vos
envergonháveis de vosso próprio pecado, com parando-o com suas vidas de
virtude e oração na esperança do céu. No entanto, cá estão todos eles em m eu
culto. Esta noite vos será perm itido conhecer seus atos secretos: com o anciãos de barba encanecida da igrej a cochicharam palavras libertinas para as j ovens
criadas de suas casas; quantas m ulheres, ansiosas por usar o luto das viúvas,
deram um a bebida aos m aridos na hora de ir para a cam a e os deixaram
dorm ir seu últim o sono em seu peito; quantos rapazes im berbes se apressaram
em herdar as fortunas dos pais; quantas lindas donzelas — não ruborizais,
m inhas queridas — cavaram pequenas sepulturas no j ardim e m e convidaram ,
a única testem unha do funeral de um bebê. Graças à propensão de vossos
corações hum anos para o pecado, farej ais todos os lugares — na igrej a, no
quarto, na rua, no cam po ou na floresta — onde se com eteram crim es, e
exultareis ao ver a terra inteira com o um a nódoa de culpa, um a única e
enorm e m ancha de sangue. Muito m ais que isto. A vós será dado penetrar, em
cada peito, o m istério profundo do pecado, a fonte de todas as artes perversas, que fornece, inesgotavelm ente, m ais im pulsos perversos do que o poder
hum ano —
do que m eu poder, em seu lim ite — pode m anifestar em atos. E agora, m eus filhos, olhais uns para os outros.
Eles assim fizeram ; e, ao clarão das tochas acesas no inferno, o desgraçado
hom em contem plou sua Faith, e a m ulher seu m arido, trem endo perante
aquele ím pio altar.
— Vede, aí estais vós, m eus filhos — disse a figura num tom grave e
solene, quase triste em sua desesperante hediondez, com o se sua natureza
outrora angélica pudesse ainda deplorar nossa m iserável raça. — Confiando
no coração um do outro, havíeis ainda esperado que a virtude não fosse
apenas um sonho. Agora estais decepcionados. Má é a natureza da
hum anidade. O m al deve ser vossa única felicidade. Sede bem -vindos
novam ente, m eus filhos, à com unhão de vossa raça.
— Bem -vindos — repetiram os adoradores de Satã, num grito de
desespero e triunfo.
E ali estavam eles, o único par, ao que parecia, que ainda hesitava à beira
da m aldade neste m undo som brio. Havia um a bacia cavada, naturalm ente, na
pedra. Conteria água, averm elhada pela luz sinistra? Ou seria sangue? Ou,
quem sabe, um fogo líquido? Ali a form a do diabo m ergulhou a m ão e
preparou-se para depositar a m arca do batism o nas frontes deles, para que
pudessem partilhar do m istério do pecado, m ais conscientes da culpa secreta
de outros, tanto em atos com o em pensam entos, do que podiam ser agora das
suas próprias. O m arido lançou um olhar sobre sua pálida esposa, e Faith
sobre ele. Que m isérias im undas seu próxim o olhar m ostraria para cada um
deles, que estrem eceriam tanto pelo que estariam revelando quanto pelo que
estariam vendo!
— Faith! Faith! — gritou o m arido. — Levanta os olhos para o céu, e
resiste ao dem ônio.
Se Faith obedeceu, ele não soube. Mal dissera essas palavras, encontrou-se em m eio à noite calm a e à solidão, ouvindo o arfar do vento que esm orecia
tristem ente através da floresta. Rem exeu-se contra a pedra e sentiu-a fria e
úm ida; enquanto um galho pendente, que havia sido todo queim ado, borrifava
sua face com o m ais frio orvalho.
Na m anhã seguinte o j ovem Goodm an Brown entrou lentam ente na rua do
povoado de Salem , olhando a sua volta com o um hom em aturdido. O velho e
bom pastor, que fazia um a cam inhada pelo cem itério para ganhar apetite para
o desj ej um e m editar seu serm ão, concedeu-lhe um a bênção quando passou.
Ele se esquivou do venerável santo com o de um anátem a. O velho diácono
Gookin fazia suas preces em casa e as palavras
sagradas que pronunciava eram ouvidas pela j anela aberta. "Para que Deus está rezando o feiticeiro?", disse Goodm an Brown. Goody Cloy se, aquela
excelente cristã, tom ava os prim eiros raios de sol debruçada em sua própria
j anela, catequizando um a garotinha que lhe levara um quartilho do leite da
m anhã. Goodm an Brown arrancou a criança dali com o se a livrasse das garras
do próprio dem ônio. Ao dobrar a esquina j unto ao tem plo, avistou a cabeça de
Faith, com as fitas cor-de-rosa, a olhar ansiosam ente. Ao vê-lo, ela explodiu
em tal alegria que saiu aos pulos pela rua e quase beij ou o m arido na frente do povoado inteiro. Mas Goodm an Brown encarou-a severa e tristem ente, e
seguiu adiante sem um cum prim ento.
Havia Goodm an Brown adorm ecido na floresta e apenas sonhado um
sonho desvairado de um a reunião de bruxos?
Acredita nisso se quiseres; m as, ai! Foi um sonho de m au agouro para o
j ovem Goodm an Brown. A partir da noite desse sonho terrível, ele se tornou um hom em severo, m acam búzio, cism arento e desconfiado, se não
desesperado. No dom ingo, quando a congregação cantava um hino sagrado,
não conseguia escutar porque um hino de pecado lhe tom ava de assalto os
ouvidos, ruidosam ente, e abafava o canto abençoado. Quando o pastor falava
do púlpito, com energia e apaixonada eloqüência, a m ão sobre a Bíblia aberta,
das sagradas verdades de nossa religião, das vidas e das m ortes triunfantes dos santos, da futura bem -aventurança ou da m iséria inexprim ível, nesses
m om entos Goodm an Brown em palidecia, tem endo que o teto desabasse com
estrondo sobre o velho blasfem o e seus ouvintes. Muitas vezes, acordando de
repente à m eia-noite, fugia do abraço de Faith; e de m anhã ou à noite, quando
a fam ília se aj oelhava para rezar, ele fechava a cara, resm ungava, olhava
carrancudo para a m ulher, e se afastava. E depois que viveu m uitos anos, e foi levado para sua sepultura com o um cadáver encanecido, seguido por Faith,
um a m ulher idosa, e filhos, e netos, um a bonita procissão, ao lado de não
poucos vizinhos, não se entalhou em sua lápide nenhum versículo de
esperança, porque m orreu na escuridão.
Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges
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O apogeu do século XIX
E.T.A. Hoffm ann
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Foi ele quem consolidou e introduziu definitivamente o fantástico na literatura, no século XIX, espalhando sua influência por todo o mundo — da França
(dificilmente algum escritor francês do século XIX dedicou-se a este tipo de narrativa sem a influência dele) aos nossos românticos (basta ler o Álvares de Azevedo de Noites na taverna). A partir daí, há quem circunscreva o fantástico ao século XIX (e é este o sentido da antologia de Italo Calvino), embora ele venha de antes eprossiga até hoje. As exacerbações do
imaginário eivado do romantismo em pleno "estilo de época" fazem de Hoffmann (1776-1822) um marco indiscutível, mesmo que só parte de sua
obra esteja publicada entre nós. "O Homem da Areia", seu conto mais conhecido, inspirou Freud a escrever seu famoso ensaio (psicanalítico, claro)
"O estranho". Como disse Calvino, trata-se "da escolha mais óbvia" em uma antologia como esta. A tradução é direto do alemão.
O hom em da areia
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Natanael a Lotar
Sem dúvida, estão todos preocupados por não lhes ter escrito durante tanto tempo. Mamãe deve estar zangada, e Clara pode estar pensando que aqui
levo uma boa vida, esquecendo por completo sua querida imagem angelical,
tão profundamente gravada em meu coração e em minha mente. Mas não e
assim; todos os dias e a toda hora penso em vocês todos, e em doces
devaneios aparece a minha querida Clarinha sorrindo-me com seus olhos
tão graciosos, como de costume, quando estava junto a vocês. Ah, mas
como poderia escrever-lhes com o estado de espírito tão dilacerado, que
vem me confundindo todos os pensamentos! Algo de terrível aconteceu em
minha vida! Sombrios pressentimentos de um cruel e ameaçador destino
estendem-se sobre mim quais sombras de nuvens negras, impenetráveis a
qualquer benevolente raio de sol. Agora devo dizer-lhe o que me aconteceu.
Reconheço que é necessário fazê-lo, mas, só em pensar nisso, escapa-me um
riso de louco. Ah, meu caríssimo Lotar, como farei para que de alguma forma você sinta que o que me sucedeu há alguns dias perturbou minha vida
de maneira tão terrível? Se ao menos você estivesse aqui, poderia ver com
seus próprios olhos; mas, tenho certeza, certamente vai me considerar um
supersticioso
visionário. Em sum a, o terrível acontecimento em questão, de cuja fatal influência em vão esforço-me por evitar, consiste simplesmente em que, há alguns dias, exatamente no dia 30 de outubro, ao meio-dia, um vendedor de barômetros entrou em meu quarto e me ofereceu seus instrum entos. Não
comprei nada e ameacei jogá-lo escada abaixo, mas ele então saiu
voluntariamente.
Você pode imaginar que somente circunstâncias bem particulares e
marcantes de minha existência são capazes de explicar o significado desse
incidente, e que a pessoa desse funesto caixeiro-viajante possa ter um efeito pernicioso sobre mim. De fato, todo sangue-frio me é necessário para, com
calma e paciência, contar-lhe detalhes de minha infância, que permitirão a sua mente vivaz compreender tudo de maneira límpida e transparente.
Agora, quando começo, tenho a impressão de ouvir o seu riso e as palavras
de Clara: "Tudo isso não passa de criancice!" Riam, por favor, riam muitode mim! Peço-lhes encarecidamente! Mas Deus do céu! Meus cabelos
arrepiam-se, e é como se eu lhes implorasse, loucamente desesperado, para
que riam de mim, como Franz Moor fez a Daniel ¹. Vamos aos fatos!
À exceção da hora do almoço, eu e m eu irm ão pouco víamos nosso pai durante o dia. Ele talvez estivesse muito ocupado com os seus negócios.
Depois do jantar, que segundo o velho costume era servido às sete horas, íamos todos, mamãe conosco, ao gabinete de papai e nos sentávam os em torno de uma mesa redonda. Papai fumava seu tabaco e bebia um grande copo de cerveja. Muitas vezes narrava-nos histórias maravilhosas, e aquelas narrativas
entusiasmavam-no tanto, que o seu cachimbo sempre se apagava. Cabia a m im , segurando um papel em chamas, acendê-lo novamente, o que consistia no m eu principal divertimento. Freqüentemente também, ele nos dava livros ilustrados, sentava-se mudo e inerte em sua
poltrona e expelia espessas nuvens de fumaça, de forma que todos nós ficávamos como que envoltos na névoa. Em noites como essas mamãe ficava
m uito triste e, mal soavam as nove horas, falava-nos: "E agora, crianças, para a cama, para a cama! O Homem da Areia está chegando, já posso ouvir seus passos." De fato, todas as vezes eu ouvia passadas pesadas e lentas subindo a escada; devia ser o Homem da Areia. Certa vez, aquele andar abafado causou-me uma impressão[
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¹ Personagens de Friedrich Schiller (1759-1803) em Os salteadores.
particularmente aterradora. Perguntei a mamãe, enquanto ela nos levava:
"Mamãe! Quem é mesmo o malvado Homem da Areia que sempre nos separa
de papai? Como é ele?" "Não existe nenhum Homem da Areia, meu filho", respondeu minha mãe. "Quando digo que o Homem da Areia está chegando, isso quer dizer apenas que vocês estão com sono e não conseguem manter os
olhos abertos, como se alguém tivesse jogado areia neles." A resposta de mamãe não me satisfez; em meu espírito infantil desenvolveu-se claramente a idéia de que mamãe só negava a existência do Homem da Areia para que não
ficássemos amedrontados, pois eu ouvia quando ele subia pela escada.
Curioso em saber mais sobre aquele Homem da Areia e sua relação com
crianças como nós, finalmente perguntei à velha criada que cuidava de minha irmã sobre que tipo de homem era aquele, o Homem da Areia.
"Natanaelzinho", respondeu ela, "você então não sabe? É um homem malvado que aparece para as crianças quando elas não querem ir dormir e
joga-lhes punhados de areia nos olhos, de forma que estes saltam do rosto
sangrando; depois ele os mergulha num saco e carrega-os para a Lua, para
alimentar os seus rebentos. Eles ficam lá, empoleirados em seu ninho e, com o bico recurvado como o das corujas, bicam os olhos das criancinhas
travessas ". Aterrorizado, a partir de então considerei o Homem da Areia sob um aspecto noturno. A noite, bastava ouvir o ruído de passos na escada para tremer de medo e horror Mamãe só conseguia arrancar de mim o grito entre
lágrimas: "O Homem da Areia! O Homem da Areia! ", depois eu corria para o quarto, e durante a noite toda atormentava-me a temível imagem do
Homem da Areia.
Eu já estava crescido o suficiente para compreender que aquela história
contada pela ama-seca sobre o Homem da Areia e o seu ninho com crianças
na Lua realmente não podia estar lá muito correta; todavia, o Homem da
Areia continuava sendo para mim um terrível fantasma, e o terror me
arrebatava quando o ouvia não apenas subir as escadas, como também abrir
e entrar violentamente no gabinete de meu pai. As vezes passava muito tempo sem aparecer; depois vinha muitas vezes consecutivas. Isso durou anos, e nãopude me acostumar à sinistra assombração — a figura aterrorizante do
Homem da Areia não saía da minha cabeça. Suas relações com meu pai
passaram a ocupar cada vez mais a minha imaginação, e um medo
insuperável impedia-me de interrogá-lo sobre o assunto, mas, com os anos,
sedimentou-se e germinou em mim a vontade de investigar o mistério, de ver o fabuloso
Homem da Areia. Ele me conduzira para o caminho do maravilhoso, do romanesco, que com muita facilidade instala-se na alma infantil. Nada me
agradava mais do que ouvir ou ler aterrorizantes histórias de duendes,
bruxas e anões. Mas em primeiro lugar estava sempre o Homem da Areia,
que eu desenhava com giz ou carvão, da forma mais estranha e abominável,
em mesas, armários e paredes.
Quando fiz dez anos, minha mãe mudou-me do quarto de crianças para um
pequeno aposento que dava para um corredor não muito distante do gabinete
de papai. Mal batiam as nove horas e ouvíamos o desconhecido entrar,
éramos obrigados a nos retirar rapidamente. Em meu quartinho, percebia quando ele entrava no gabinete de papai, e logo em seguida tinha a
impressão de que se espalhava pela casa um vapor suave e de raro odor Com
minha curiosidade, cada vez mais ardia o desejo de, com coragem e
determinação, travar conhecimento com o Homem da Areia. Muitas vezes,
quando mamãe já havia passado, eu saía rapidamente do quartinho para o
corredor, mas nada podia escutar, pois o Homem da Areia sempre havia
ultrapassado a porta, quando eu chegava ao local de onde ele poderia ser
visto. Levado por um irresistível impulso, decidi esconder-me no gabinete de papai e esperar o Homem da Areia.
Certa noite, pelo silêncio de papai, pela tristeza de mamãe, percebi que o Homem da Areia viria. Dei como pretexto um grande cansaço, deixei a sala
antes das nove e me escondi bem junto à porta do gabinete, num cantinho. A porta da casa rangeu, e passos lentos, pesados e ruidosos atravessaram o
corredor em direção à escada. Mamãe passou por mim apressadamente, com
meus irmãos. Suavemente, bem suavemente, abri a porta do aposento de meu
pai. Corno de costume, ele estava sentado com as costas voltadas para a
porta; calado e imóvel, não percebeu minha presença, e rapidamente entrei e me escondi atrás da cortina que cobria um armário aberto ao lado da porta, onde estavam penduradas roupas de meu pai.
Os passos aproximaram-se mais e mais. Do lado de fora, ouviam-se
estranhas tosses, pigarros e um enigmático murmúrio. Meu coração pulsava
forte, de medo e ansiedade. Perto, bem perto da porta, um passo mais nítido, um golpe violento no trinco, e a porta se abre com violência! Forçando-me a tomar coragem, ponho cuidadosamente a cabeça para fora. O Homem da
Areia está no meio do gabinete e diante de meu pai, o brilho claro das velas ilumina o seu rosto! O Homem da Areia, o
terrível Homem da Areia, é o velho advogado Coppelius, que às vezes almoça em nossa casa!
Porém, a mais aterrorizante figura não me teria provocado tanto horror
quanto aquele Coppelius. Imagine um homem grande, de ombros largos, com
uma cabeça disforme e grande, rosto amarelecido, sobrancelhas fartas e
grisalhas, sob as quais faiscava um par de olhos de gato, esverdeados e
penetrantes, e um nariz gigantesco sobre o lábio superior. A bocarra
retorcia-se com freqüência num riso malicioso, tornando visíveis manchas
vermelhas nas bochechas. Um chiado estranho atravessava seus dentes
cerrados.
Coppelius sempre aparecia num sobretudo cinzento de corte antigo, com o
colete e a calça semelhantes, mas de meias pretas e sapatos com pequenas
fivelas enfeitadas com pedraria. A pequena peruca mal lhe cobria o cocuruto, dois cachos postiços estavam colados acima das grandes e vermelhas
orelhas, e um grande coque afastava-se da nuca, de forma que se via a fivela prateada que fechava o colarinho pregueado. A figura no conjunto era
medonha e abjeta; mas para nós, crianças, o que nos chocava mais eram suas grandes mãos, ossudas e peludas, tanto que evitávamos pegar no que
tocavam. Ele notara essa repugnância, e então se divertia em bolinar com as mãos, sob esse ou aquele pretexto, um pedaço de bolo ou uma fruta que a boa mamãe deixara furtivamente em nosso prato. Nós, com lágrimas nos olhos,
não conseguíamos mais desfrutar; por nojo e aversão, as gulodices antes
destinadas ao nosso prazer. A mesma coisa ele fazia em dias de festa, quando papai nos servia um pequeno cálice de vinho doce. Rapidamente, ele passava a mão em sua borda ou levava o cálice aos lábios azulados, rindo
diabolicamente quando percebia que nos era permitido manifestar nossa
irritação baixinho, aos soluços. Tinha por hábito nos chamar de "pequenas bestas". Não podíamos abrir a boca em sua presença e amaldiçoávamos
aquele homem feio e hostil que conseguia estragar propositadamente a menor de nossas alegrias. Mamãe, como nós, parecia odiar o repugnante Coppelius; pois, quando ele aparecia, sua jovialidade, seu jeito de ser alegre e despreocupado transformava-se numa gravidade triste e sombria. Papai
comportava-se como se fosse ele um ser superior, com cujos maus costumes
devia-se ter paciência e conservar bom humor Bastava uma sutil sugestão
sua, e preparavam-se seus pratos prediletos, que eram acompanhados de
vinhos raros, abertos em sua homenagem.
Quando vi o tal Coppelius, a verdade se me revelou terrível e ameaçadora: ninguém senão ele poderia ser o Homem da Areia! Mas o Homem da Areia
não era mais para mim aquele espantalho das histórias da carochinha, que
vai arrancar os olhos das criancinhas para servir de alimento a sua ninhada de corujas na Lua. Não! Era um monstro fantasmagórico que carregava
consigo, aonde fosse, aflição, miséria e ruína eternas.
Eu estava enfeitiçado. Frente ao perigo de ser descoberto e, como eu
pensava, duramente castigado, continuei ali, ouvindo tudo com a cabeça para fora da cortina. Meu pai recebeu Coppelius cerimoniosamente.
"Ao trabalho", exclamou este, com uma voz rouca e rascante, desembaraçando-se do sobretudo. Calma e sombriamente, papai tirou seu roupão, e ambos vestiram longas túnicas negras. Não percebi de onde as haviam tirado.
Meu pai abriu as portas de um armário, e então constatei que aquilo que eu sempre pensara ser um armário era na verdade um nicho profundo, onde
estava um pequeno fogão. Coppelius aproximou-se, e uma chama azul ardeu.
Havia ali todo tipo de aparelhos estranhos. Ah. Deus! Ao inclinar-se em
direção ao fogo, meu pai parecia outro. Uma dor cruel e convulsiva parecia metamorfosear seus traços na mais horrenda e repugnante imagem diabólica.
Ele se assemelhava a Coppelius! Este brandia tenazes incandescentes e com
elas retirava da fumaça densa massas claras e cintilantes, que depois
martelava com violência.
Tive a sensação de que rostos humanos tornaram-se visíveis a sua volta,
mas não tinham olhos — ao invés deles, profundas e horrendas cavidades negras. "Que venham os olhos, que venham os olhos!", gritou Coppelius com uma voz surda e ameaçadora. Completamente aterrado, soltei um berro e,
saindo de meu esconderijo, caí no chão. "Pequena besta! Pequena bestar, rosnou ele, rangendo os dentes. Subitamente me ergueu e jogou-me sobre o
fogão, de maneira que as chamas começaram a chamuscar meu cabelo:
"Agora temos olhos — olhos —, um lindo par de olhos infantis." Foi o que murmurou Coppelius, pegando com as mãos um punhado de brasas
incandescentes para atirar em meus olhos, enquanto meu pai implorava,
erguendo as mãos e gritando: "Mestre! Mestre! Deixe os olhos de meu
Natanael — deixe-os com ele!" Coppelius gargalhou estridentemente: "Que o rapazinho conserve os seus olhos para choramingar sua sina pelo mundo!
Mas agora vamos observar atentamente o mecanismo das mãos e dos pés."
Com isso,
pegou-me com tanta violência que minhas articulações estalaram, girando minhas mãos e meus pés e recolocando-os ora aqui, ora acolá. "Não ficam bem em lugar nenhum! E melhor deixar como estavam. O velho lá de cima
entendia bem do riscado!" Assim Coppelius silvava e ciciava; mas tudo a minha volta tornou-se negro, escuro, uma súbita convulsão percorreu meus
nervos e ossos — eu não sentia mais nada. Um sopro suave e morno passou
pelo meu rosto e despertei como de um sono de morte. Mamãe estava
inclinada sobre mim. "O Homem da Areia ainda está aí?", balbuciei. "Não, filhinho, já foi há muito, muito tempo, e não lhe fará mal!" Assim falou mamãe, beijando e acariciando o filho predileto, já restabelecido.
Por que fatigar-lhe tanto, meu caro Lotar, contando-lhe todos esses
detalhes, se tanta coisa importante ainda tenho a dizer? Em suma, fui
descoberto enquanto espiava e cruelmente maltratado por Coppelius. Medo e
susto causaram-me uma febre escaldante, e fiquei doente por várias semanas.
"O Homem da Areia ainda está aí?" Estas foram as minhas primeiras palavras concatenadas e o sinal de minha recuperação, de minha salvação.
Devo contar-lhe ainda o mais terrível momento de meus anos de infância;
então ficará convencido de que não é culpa de meus olhos se agora tudo me
parece descolorido, mas que realmente uma fatalidade cobriu minha vida
com um denso véu de nuvens, que só com minha morte, talvez, se dissipará.
Coppelius não apareceu mais. Dizia-se que deixara a cidade.
Mais ou menos um ano depois, estávamos sentados à noite em torno da
mesa redonda, segundo o velho e imutável costume. Papai estava muito
alegre e contava histórias divertidas das viagens que fizera na juventude. Foi quando de repente ouvimos, às nove horas, os gonzos da porta soar, e passoslentos e pesados como ferro avançaram em direção à escada. "É Coppelius", disse minha mãe, empalidecendo. "Sim, é Coppelius", repetiu meu pai com voz frágil e hesitante. Lágrimas rolaram dos olhos de minha mãe. "Meu amigo, meu amigo!", exclamou ela, "precisa ser assim?" "Pela última vez!", ele respondeu, "pela última vez ele virá aqui, eu juro. Agora vá, vá com as crianças! Vão para a cama! Boa noite!"
Eu estava como que petrificado, minha respiração vacilava! Vendome
imóvel, mamãe pegou-me pelo braço. "Venha. Natanael, venha!" Deixei-me levar e entrei no meu quarto. "Acalme-se, acalme-se; vou pô-lo na cama.
Durma, durma", pediu minha mãe. Porém, torturado pela
angústia e presa de profunda inquietação, não consegui fechar os olhos. O
odioso e repugnante Coppelius surgia a minha frente com olhos faiscantes e sorria hipocritamente. Em vão, tentei livrar-me de sua imagem. Já deveria
ser meia-noite quando se ouviu um temível barulho, como se uma artilharia
houvesse começado a disparar Toda a casa estremeceu, perto da porta de
meu quarto passaram ruídos e rumores e então a porta da frente bateu
ruidosamente. "É Coppelius!", gritei assustado, e saltei da cama. Então ouvi um lamento dilacerante e inconsolável e precipitei-me para o gabinete de
meu pai; a porta estava aberta, um vapor sufocante se fez sentir, enquanto a criada gritava: "Ah, patrão, ah, patrão!" Diante do fogão fumegante, no chão, encontrava-se meu pai, morto, com o rosto terrivelmente desfigurado e queimado, e ao seu redor choravam e gemiam minhas irmãs; mamãe a seu
lado, desmaiada! "Coppelius, maldito Satã, você matou meu pai! ", foi assim que gritei, perdendo os sentidos. Dois dias depois, quando foi colocado no caixão, seus traços voltaram a ser suaves e tranqüilos, como em vida. O que foi um consolo, pois imaginara em meu espírito que o seu pacto com o
diabólico Coppelius poderia condená-lo à danação eterna.
A explosão havia acordado os vizinhos. O acontecimento tornou-se público
e chegou às autoridades, que queriam intimar Coppelius como responsável
pelo fato. Este, porém, havia desaparecido sem deixar pistas.
Se lhe disser, caro amigo, que aquele vendedor de barômetros era
justamente o maldito Coppelius, você compreenderá por que interpreto sua
hostil aparição como presságio de uma terrível desgraça. Usava outras
roupas, mas a figura de Coppelius e os traços do rosto estão de tal modo
impregnados em minha memória que não pude deixar de reconhecê-lo. Além
disso, ele nem ao menos trocou de nome. Faz-se passar agora, como ouvi
dizer, por um mecânico piemontês e se denomina Giuseppe Coppola.
Estou decidido a enfrentá-lo e vingar a morte de meu pai, aconteça o que
acontecer.
Não conte nada a mamãe sobre a aparição desse monstro cruel. Dê
lembranças a minha encantadora Clara; escreverei a ela com mais calma.
Saudações etc. etc.
Clara a Natanael
É verdade que você não me escreve há muito tempo, mas mesmo assim
acredito que me carrega no coração e no espírito. Pois com certeza você
estava pensando em mim quando, pretendendo destinar sua última carta a meu irmão Lotai; endereçou-a a mim. Com muita alegria abri o envelope e só então percebi o equívoco às primeiras palavras: "Ah, meu caríssimo Lotar!"
— Não deveria ter continuado a ler; entregando a carta a meu irmão. Às
vezes você brincava comigo, acusando-me de possuir um temperamento tão
calmo e ponderadamente feminino que, se a casa desabasse, eu agiria como
aquela mulher que, antes da fuga rápida, ainda arrumou as cortinas da
janela. Entretanto, posso assegurar-lhe que o início de sua carta me abalou profundamente. Mal pude respirar, meus olhos turvaram-se. Ah, meu querido
Natanael, o que de mais cruel poderia ter acontecido em sua vida? Separar-
me de você, nunca mais voltar a vê-lo, a idéia atravessou minha cabeça como um golpe de punhal em brasa. Li, reli! Sua descrição do repugnante
Coppelius e aterradora. Só agora soube como o seu bom e velho pai teve uma morte tão terrível e violenta. Meu irmão Lotar; a quem entreguei o que lhe era de direito, procurou acalmar-me, mas quase nada conseguiu. O fatal
vendedor de barômetros Giuseppe Coppola me
perseguia sem cessar, e — tenho até vergonha em confessar — conseguiu perturbar até meu sono, normalmente profundo, com toda espécie de sonhos
estranhos. Mas, logo no dia seguinte, vi as coisas sob um aspecto mais
natural. Não me leve a mal, portanto, meu querido, se Lotar lhe disser que eu, apesar de seu estranho pressentimento de que Coppelius irá prejudicá-lo,
estou tão serena e despreocupada como sempre.
Com toda a franqueza, quero confessar-lhe que, a meu ver, tudo de terrível e assustador de que você fala aconteceu apenas na sua imaginação e que o
mundo exterior, real, teve pouca participação nisso tudo. O velho Coppelius era sem dúvida pouco atraente, mas o fato de odiar crianças é que despertou em vocês essa profunda aversão por sua pessoa.
Naturalmente, em sua alma infantil, o terrível Homem da Areia dos contos
da carochinha associou-se ao velho Coppelius, que permaneceu para você,
acredite ou não no Homem da Areia, um monstro fantasmagórico, perigoso principalmente para crianças. As práticas sinistras com o seu pai, à noite, não eram nada senão experiências alquímicas secretas, com as quais sua mãe se afligia, já que certamente muito dinheiro era desperdiçado; além disso, como parece acontecer com quem pratica tais experiências de laboratório, oespírito de seu pai desviava-se da família, já que se concentrava por inteiro na busca ilusória de um saber supremo. Seu pai, com certeza por um
descuido qualquer; causou a própria morte, e Coppelius não poderia ser
acusado. Você acreditará em mim se eu disser que ontem perguntei a um
farmacêutico experiente, meu vizinho, se era possível tal explosão, repentina e fatal? Ele disse: "Sim, claro", e descreveu-me, a sua maneira, detalhada e morosa, como isso poderia ocorrer, citando nomes que de tão estranhos não
fui capaz de guardar. Agora você certamente está irritado com sua Clara e
dirá: "Nesse espírito frio não penetra sequer um raio do Misterioso, que muitas vezes envolve os homens com braços invisíveis; ela contempla apenas a superfície colorida do mundo e alegra-se como uma ingênua criancinha
com a fruta de brilho dourado, em cujo interior esconde-se o veneno mortal."
Ah, meu bem-amado Natanael, pois você não acredita que também os
espíritos tranqüilos, despreocupados e serenos podem abrigar o
pressentimento de uma força obscura, que almeja apoderar-se de nossa
consciência? Mas perdoe-me se eu, simplória moça que sou, atrevo-me a
insinuar, de alguma maneira, o que na verdade penso sobre essa espécie de
combate interior Afinal, quase não encontro as palavras certas e
talvez você zombe de mim; não porque pense algo de muito tolo, mas porque o expresso de maneira tão desajeitada.
Se existe uma força obscura que, hostil e traiçoeira, tece em torno de nós um fio com o qual nos agarra e arrasta através de um caminho pérfido e
destruidor por onde normalmente não passamos, se existe tal força, ela então deve assimilar-se a nós mesmos, tornando-se, por assim dizer; parte de nossa essência; pois só assim acreditaríamos nela e lhe daríamos lugar em nosso
coração para realizar sua obra secreta. Se tivermos a mente suficientemente fortalecida por uma vida serena para reconhecermos sempre, enquanto tais,
as influências estranhas e hostis e seguirmos com passos tranqüilos o
caminho ao qual nossa inclinação ou vocação nos apontou, então essa força
sinistra sucumbirá em seus vãos esforços para nos iludir. É também certo,
acrescenta Lotar, que, se nos entregarmos a essas forças obscuras, nós
mesmos produziremos o principio devorador que nos consome. Assim,
seríamos nós mesmos que atiçamos o espírito que parece falar através dessas formas, exatamente como nossa loucura as faz imaginar: É o fantasma de
nosso próprio ser; cuja estreita ligação e profunda influência sobre o nosso espírito mergulham-nos no inferno ou arrebatam-nos ao céu.
Você pode observar; meu querido Natanael, que nós, eu e meu irmão
Lotar; conversamos longamente a respeito de forças e poderes obscuros,
assumo que agora, depois de ter escrito o essencial, e não sem dificuldades, parece-me bastante profundo. Não entendo muito bem as últimas palavras de
Lotar, mas presumo o que ele pretendia dizer e sinto que está certo.
Peço-lhe que esqueça o horroroso advogado Coppelius e o vendedor de
barômetros Giuseppe Coppola. Convença-se de que essas figuras estranhas
não têm poder sobre você; apenas a crença na força hostil delas ?ode de fato fazê-la hostil a você. Se cada linha de sua carta não expressasse a mais
profunda agitação do espírito, se o seu estado não me afligisse no fundo
d'alma, eu poderia, afinal, zombar do seu Homem da Areia e do vendedor de
barômetros. Tranqüilize-se, por favor! Decidi que serei para você uma
espécie de espírito protetor e espantarei com uma gargalhada o hediondo
Coppelius, se ele se atrever a introduzir-se em seus sonhos. Não tenho medoalgum dele e de suas mãos feias; advogado ou Homem da Areia, ele não irá
estragar minhas iguarias, tampouco lançar areia em meus olhos.
Eternamente, meu bem-amado Natanael etc. etc. etc.
Natanael a Lotar
Foi muito desagradável para mim que, em função de minha própria
negligência e distração. Clara recentemente tenha aberto e lido minha carta dirigida a você. Ela me escreveu uma carta bastante grave e filosófica, na qual demonstra pormenorizadamente que Coppelius e Coppola só existem em
minha mente e são fantasmas de meu eu que se pulverizarão no momento em
que reconhecê-los como tais. Aliás, é difícil acreditar que esse espírito, que muitas vezes brilha como um sonho bom naqueles olhos claros de criança,
encantadores e sorridentes, possa fazer distinções teóricas dignas de mestre.
Ela se refere a você. Vocês falaram sobre mim. Talvez você lhe tenha
ministrado aulas de lógica, para que ela aprendesse a ordenar e distinguir tudo muito bem. Renuncie a isso! De resto, é praticamente certo que o
vendedor de barômetros Coppola não seja o velho advogado Coppelius.
Tenho aulas com um professor de física, recém-chegado à cidade, que tem o
mesmo nome do célebre naturalista Spalanzani, e é também de origem
italiana. Ele conhece o Coppola há muitos anos e, além disso, vê-se por sua pronúncia que se trata realmente de um piemontês. Coppelius era alemão,
mas não me parece que fosse legítimo. Não estou inteiramente tranqüilizado.
Você e Clara podem me considerar um sombrio visionário, mas não
consigo me livrar da impressão que o maldito rosto de Coppelius produziuem mim. Fico feliz que ele tenha deixado a cidade, como me informou
Spalanzani.
Esse professor é um tipo esquisito. Um homenzinho arredondado, o
rosto de salientes bochechas, nariz afilado, lábios carnudos, olhos
pequenos e penetrantes. Melhor que qualquer descrição, porém, é vê-lo
num retrato de Cagliostro feito por Chodowiecki², num almanaque
berlinense qualquer Spalanzani parece-se com ele. Recentemente, subindo as escadas, percebi que uma cortina, que normalmente permanece bem
fechada sobre uma porta de vidro, estava um pouco aberta. Eu mesmo não
sei o que me levou à curiosidade de espiar através dela. Uma mulher alta
e muito magra, esplendidamente vestida, estava sentada no quarto diante
de uma mesinha, sobre a qual pousara os braços, com as mãos cruzadas.
Estava sentada diante da porta, de forma que pude ver com clareza o seu
belo rosto angelical. Ela pareceu não me notar, e seu olhar tinha algo de
fixo, diria até que não via nada, como se ela dormisse de olhos abertos.
Aquilo me pareceu muito desagradável, e precipitei-me silenciosamente
em direção ao anfiteatro que fica ao lado. Mais tarde soube que a figura
que eu vira era a filha de Spalanzani. Olímpia, que ele mantém reclusa,
por motivos singulares e suspeitos, de maneira que a ninguém é permitido
aproximar-se dela. Talvez realmente haja algo de estranho com ela, talvez
seja demente ou coisa parecida. Por que lhe escrevo tudo isto? Teria sido
melhor narrar-lhe tudo pessoalmente e com detalhes. Saiba que em duas
semanas estarei com vocês. Preciso rever meu doce anjo, minha querida
Clara. Então se dissipará essa sensação que, devo confessar, quis
apoderar-se de mim depois daquela judiciosa carta que me escreveu. É
por isso que hoje não lhe escreverei.
Muitas lembranças etc. etc. etc.
Não se poderia inventar nada de m ais estranho e singular do que o ocorrido
com o m eu pobre am igo, o j ovem estudante Natanael, e que agora decido
contar-lhe, caro leitor. Algum a vez, benevolente leitor, você j á vivenciou
algo que houvesse ocupado todo o seu peito, m ente e pensam entos, deixando de lado o resto? Quem nunca experim entou a
______________________
² Daniel Nikolaus Chodowiecki (1726-1801), pintor e gravador alem ão.
sensação de um a fervura interna que, incandescente, percorre o sangue nas veias, colorindo o rosto de um encarnado som brio? Seu olhar, então, torna-se
estranho, com o se você quisesse apreender, no espaço vazio, form as invisíveis
a seus olhos, e as palavras se diluem em som brios soluços. Em vão, os am igos
lhe perguntam : "O que está acontecendo, m eu caro? O que tem , honrado
am igo?" E então você descreveria sua sensação íntim a em todas as suas cores ardentes, som bras e luzes, lutando inutilm ente para encontrar as palavras que
pudessem refletir seu pensam ento. Mas era com o se você precisasse resum ir
logo na prim eira palavra tudo o que de m aravilhoso, esplêndido, terrível,
divertido e cruel lhe aconteceu, causando a todos a sensação de um choque
elétrico. Mas cada palavra, cada sílaba, tudo lhe pareceria sem cor, frio e
m orto. Você procuraria e procuraria, gaguej aria e balbuciaria, e as tím idas
perguntas dos am igos arrefeceriam , com o um sopro de vento gelado, o seu
ardor interior até que este se apagasse. Mas se, com o um pintor destem ido,
esboçasse você, com poucos e ousados traços, o contorno de sua pintura
interior, então facilm ente você passaria a colori-la gradualm ente, e o vivo
tum ulto de figuras m ultiform es arrebataria seus am igos, e eles, com o você, se
veriam nesse quadro criado por sua im aginação!
Devo confessar, caro leitor, que ninguém m e pediu que contasse a história
do j ovem Natanael; m as você bem sabe que pertenço à particular espécie de
autores que, carregando consigo algo com o o que acabei de descrever, tem a sensação de que todos que se aproxim am , e ainda o m undo inteiro,
perguntam : "O que aconteceu? Conte, m eu caro!" Foi essa força que m e arrastou a contar o fatal destino que assaltou a vida de Natanael. O
m aravilhoso e estranho dessa aventura arrebatou m inh'alm a, e eis por que,
caro leitor, eu precisava despertar em você a inclinação para o fantástico, o
que não é nada fácil, e m e esforçar para com eçar a história de Natanael de
form a significativa, original, surpreendente: "Era um a vez..." — o m ais belo com eço para qualquer história, m as m uito tím ido; "Na pequena cidade do
interior. S., m orava..." — um pouco m elhor, pelo m enos prepara para o
clím ax. Ou logo medias in res: "`Vá para o diabo', exclam ou o estudante Natanael, lançando olhares ferozes, quando o vendedor de barôm etros
Giuseppe Coppola..." — na verdade, eu com eçara assim , quando acreditei
sentir nos olhares ferozes do estudante Natanael algo de burlesco; m as a
história, porém , nada tem de divertida. Não m e ocorreu nenhum discurso que
pudesse, pelo m enos, refletir o brilho colorido do quadro que eu elaborara no
espírito.
Decidi então sim plesm ente não com eçar. Aceite portanto, caro leitor, as três cartas que o am igo Lotar gentilm ente m e cedeu, com o o esboço da im agem à
qual a partir de agora m e esforçarei para dar m ais e m ais cor. Talvez eu
consiga rabiscar algum as figuras com o um bom pintor de retratos, fazendo
com que você ache parecido sem conhecer o original, sim , com o se você
tivesse a sensação de ter visto a pessoa m uitas vezes com os próprios olhos.
Talvez, então, o leitor acredite que nada é m ais fantástico e louco do que a
vida real, e que o escritor só poderia apreender tudo isso com o um reflexo
confuso de um espelho m al polido.
Para que fique m ais claro o que é preciso saber logo de início, convém
acrescentar às cartas precedentes que logo em seguida à m orte do pai de
Natanael. Clara e Lotar, filhos de um parente afastado, tam bém falecido,
foram acolhidos pela m ãe de Natanael. Clara e Natanael cultivaram um a
grande afeição um pelo outro, contra a qual ninguém apresentou qualquer
obj eção; assim , estavam noivos quando Natanael deixou a cidade para
continuar seus estudos em G. É lá que se encontra ao escrever a últim a carta, e é lá que assiste às aulas do fam oso professor de física. Spalanzani.
Agora eu poderia continuar a narração tranquilam ente; m as neste m om ento
a im agem de Clara está tão viva diante de m im , que não consigo desviar os
olhos, o que sem pre acontecia quando ela m e fitava com um sorriso tão
encantador. Clara não poderia ser considerada bonita; era o que diziam todos
que entendiam de beleza por ofício. Mas os arquitetos elogiavam as
proporções delicadas de seu corpo, os pintores viam algo de casto na form a de
sua nuca, om bros e colo, m as apaixonavam -se era pelos m aravilhosos cabelos,
que lem bravam a Madalena de Correggio, e falavam m uito das tonalidades de
sua tez, digna de um Battoni3. Um deles, de m uita im aginação, estranham ente com parou os olhos de Clara a um lago de Ruisdaël4, onde se refletem o céu claro, de raro azul, bosques e cam pos floridos, a rica paisagem de um a vida
colorida e serena. Poetas e artistas, porém , iam m ais longe e falavam : "Que lago que nada, que espelho que nada! Será que podem os olhar para a m oça
sem que seus olhos irradiem m aravilhosos e divinos cantos e sons que
penetram em nossa alm a, de form a que tudo se torna vivo e anim ado? Se não
cantam os nada de autêntico, então nada de autêntico existe em nós, e isto
lem os nitidam ente no
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3 Referência a um quadro do pintor barroco Pom peo Battoni (1708-1787).
4Jacob van Ruisdael (1628-1682), pintor holandês de paisagens.
fino sorriso em torno dos lábios de Clara, quando nos atrevem os a tartam udear-lhe algo que tem a pretensão de ser m úsica ou poesia, em bora
apenas alguns sons estej am sendo em baralhados."
De fato, era assim . Clara tinha a vigorosa fantasia de um a criança alegre e
despreocupada, um coração profundam ente fem inino e doce, um a inteligência
penetrante e lúcida. Os espíritos levianos e presunçosos tinham nela um a
difícil adversária; pois sem falar m uito, o que aliás condizia com sua natureza silenciosa, aquele olhar nítido, aquele sorriso refinado e irônico diziam -lhes:
"Queridos am igos! Com o podem im aginar que eu considere essas som bras
difusas com o figuras reais, com vida e calor?" Por esse m otivo. Clara era vista por m uitos com o fria, insensível e prosaica. Mas outros, que conseguem
captar a vida com sua transparente profundidade, gostavam m uito da m oça
cheia de vida, sensata e com espírito infantil. No entanto, ninguém a am ava
m ais que Natanael, que se dedicava então com força e entusiasm o ao m undo
da ciência e da arte. Clara am ava-o de todo o coração; as prim eiras som bras
surgiram no m om ento que a deixou. Qual não foi sua alegria ao voar em seus
braços, quando ele, conform e dizia na últim a carta a Lotar, realm ente chegou
à cidade natal e entrou na sala da casa de sua m ãe! Tudo aconteceu com o
Natanael esperava; pois no m om ento em que reviu Clara, não pensou nem no
advogado Coppelius nem na racional carta de Clara. Desaparecera qualquer
irritação.
Entretanto. Natanael tinha razão ao escrever a seu am igo Lotar que a
repugnante figura do vendedor de barôm etros. Coppola, de fato entrara de
form a hostil em sua vida. Todos sentiram isso, j á que logo nos prim eiros dias
Natanael m ostrara-se diferente do que habitualm ente era. Mergulhou em
divagações som brias e logo com eçou a agir de m odo estranho, com o ninguém
vira antes. Tudo, toda a vida era para ele sonho e pressentim ento; falava
sem pre que toda pessoa, j ulgando-se livre, só fazia servir a poderes obscuros, num j ogo cruel, contra os quais é inútil revoltar-se; devia-se subm eter
hum ildem ente àquilo que designara o destino. Chegou a afirm ar que achava
tolice considerar a criação, na arte e na ciência, um ato de vontade; pois o