Os Melhores Contos Fantásticos

Flávio Moreira da Costa · Capítulo 1 de 2 · parte 28/28

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Os Melhores Contos Fantásticos

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 28 partes.

pareciam abom inação e afronta. Odiava a vida. Mas deitava-se e sentia

palpitar as fragas: os m ontes eram seios duros, as árvores cabelos ao vento.

Para não ver, encerrava-se no Palácio construído dum bloco de pedra, e

sozinho ficava então de olhos postos na árvore. Contem plava-a. Com o o Rei,

ela era seca e hirta — fora-o sem pre — e os seus frutos cadáveres ou corvos.

À passagem de Abril e dos m endigos, tudo à volta se transform ava: só ela

quedava inerte diante da vida e do am or, a árvore trágica que havia séculos

servia de forca.

Um dia o Rei soube que dois seres felizes haviam transposto as fronteiras e m andou-os logo prender. Nas últim as noites sentira-os nos espinheiros

túm idos, nos sapos dos cam inhos que pareciam extáticos, nas coisas que

estrem eciam , na noite m agnética cheia de m urm úrios, no vento que atirava

para o castelo ram os de árvores lum inosos. Punha-se de ouvido à escuta, e a

terra, a noite e o m ar sufocados iam talvez falar, iam enfim falar!...

Quando os soldados os trouxeram ao Palácio, com eles entrou um bafo

novo: cheiravam a sol e à lam a dos cam inhos e pegava-se-lhes húm us aos pés

descalços. A vida rom peu por aquele túm ulo dentro e, pois que iam m orrer,

dir-se-ia que a m orte, em lugar da foice sim bólica, pela prim eira vez trazia nas m ãos um ram o de árvore.

Dois m endigos e am avam -se! Nem sequer eram extraordinariam ente belos,

m as deles irradiava um a força im ensa — daquela m oça sardenta, com

resquícios de palha pegados aos cabelos, daquele hom em cuj a

carne aparecia entre os farrapos. Não davam pelo Rei, não davam pela Morte.

Am avam -se. Atreviam -se num país que ele m andara assolar para que nunca

m ais diante de seus olhos pudesse aparecer a im agem da vida e do am or!

Olhou-os o Rei durante alguns m inutos em silêncio, e depois fez um gesto

aos carrascos, que logo se apoderaram deles e os levaram . Sorriam -se os

m endigos cheios de terra e ervas, e, enlevados, olharam um para o outro,

ignorando o que se passava em volta — olhos nos olhos, m ãos nas m ãos...

Noite negra, o Rei subiu sozinho ao terraço. Restos de nuvens, restos de

m antos esfarrapados arrastavam -se pelo céu. A árvore onde os dois haviam

sido enforcados, m al se distinguia no escuro; m as de lá vinha um frêm ito, a

sua agonia talvez, e um a claridade, os seus corpos decerto. Em vão reduzira

tudo a cinzas — por baixo das cinzas latej ava a vida. Toda a terra parecia

ferm entar. Ouvia m urm úrios. Se as árvores falassem ! se as árvores e as coisas

dissessem tudo que sabem ! A água chalrava, perdia-se em fios pela terra. Mas

então ele não m andara secar as fontes? Vozes, m ais vozes ainda no escuro, a

voz baixinha e hum ilde das árvores cheias de folha, que o vento chegava um as

para as outras... Mas então ele não m andara despir para sem pre as árvores?

Pior... Mais fundo ainda, no negrum e opaco da noite, o sussurro da vida —

com o se ele não tivesse m andado espezinhar a vida!... Encostado à m uralha,

passou a noite absorto. As nuvens galopavam , o grasnido dos corvos afligia-

o... Porque não iria ele tam bém ser m acieira, m endigos, húm us? transform ar a

dor em felicidade? beber o sol arrastado na aluvião da vida? Oh com o odiava a

m ocidade, a ternura, os lábios m oços que se beij am !...

Só a árvore esgalhada e seca o prendia ainda. a árvore sinistra que no seu

reino servia de forca.

Ficou até de m anhã de olhos postos naquele fantasm a triste e enorm e,

negro com o as idéias negras que tecia, seco com o a sua própria alm a — a

árvore desm edida que no seu reino servia de forca... Com eçaram os cerros a

tingir-se de violeta, as árvores a azular, e a forca, em que se absorvia, a

destacar-se de entre a névoa, a árvore esgalhada e im ensa que havia séculos

perdera a seiva e a vida.

Súbito ficou im óvel de espanto. Aquecida com o am or de dois m endigos,

tinha o galho em que pendiam enforcados cheiinho de flor. Dura e m á com o as

pragas j untara no ram o que os cobria toda a flor que a terra assolada não pudera produzir. Era nada, quase nada. algum as flores

m iudinhas prestes a sum irem -se ao prim eiro sopro — era dor estrem e e sonho estrem e. Nos seus braços haviam sido enforcados m uitos desgraçados e as

suas raízes m ortas pelas lagrim as de aflição. Tolhida com os gritos, não bebia água nem sugava húm us. Vira passar hom ens, prim averas e reinados, sem se

com over, m ão arrepelada a am aldiçoar a terra e o castelo. Assistira a

transform ações de solo, a tem pestades, a cataclism os e a guerras, sem pre

petrificada com o a m orte — e naquela noite, trespassada pelo am or dos dois

m endigos, desentranhara-se em ternura, com o se nela se concentrasse toda a

paixão, a prim avera e o noivado da terra — a árvore m aldita que desde séculos

servia de forca.

João Guim arães Rosa

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O fantástico nesse conto — e isso valeria para tantas páginas de Grande sertão : veredas — não tem as tintas fortes que caracterizaram, por

exemplo, o fantástico do século XIX. Ele vem com cores suaves,

aquareladas quase, mesclando-se com tonalidades metafísicas ou, vã lã,

espirituais. Na tranqüila cidadezinha de Serro Frio, em Minas, "deram-se os fatos de pavoroso acontecer". Nas palavras de Jose Kekende, uma

versão capiau do "idiota da aldeia": "... o rojo de vento e grandeza de nuvem, em resplendor, e nela, entre fogo, se movendo uma artimanha

amarelo-escura, avoante trem, chato e redondo, com redoma de vidro

sobreposta, azulosa, e que, pousando, de dentro, desceram os arcanjos,

mediantes rodas, labaredas e rumores.” Disco voador; seres

extraterrestres? O que importa aqui é a chegada de um estranho perso-

nagem (arcanjo?) na comunidade: não um anjo exterminador — como na Bíblia, em Buñuel ou Pasolini. Apenas um homem muito branco: "Tão

branco; mas não branquicelo, senão que de um branco leve, semidourado

de luz: figurando ter por dentro da pele uma segunda claridade.” E o que

ele provoca nos matutos do Serro Frio roseano e na ação da estória, é o

que o leitor vai ler: "Um moço muito branco" é um dos mais marcantes contos de Primeiras Estórias (1962). Nos sessenta anos da publicação de

Sagarana e cinqüenta de Grande sertão: veredas (em 2006, quando

termino esta antologia), incluir João Guimarães Rosa numa antologia

vale como tripla homenagem: a ele, ao leitor e a nós, organizadores, pois,como se sabe, e rara a presença do autor em obras coletivas.

Um m oço m uito branco

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NA NOITE DE 11 DE NOVEMBRO DE 1872, na com arca do Serro Frio. em Minas

Gerais, deram -se fatos de pavoroso suceder, referidos nas folhas da época e

exarados nas Efem érides. Dito que um fenôm eno lum inoso se proj etou no

espaço, seguido de estrondos, e a terra se abalou, num terrem oto que sacudiu

os altos, quebrou e entulhou casas, rem exeu vales, m atou gente sem conta;

caiu outrossim m edonho tem poral, com assom brosa e j am ais vista inundação,

subindo as águas de rio e córregos a sessenta palm os da plana. Após os

cataclism os, confirm ou-se que o terreno, em raio de légua, m udara de feições:

só escom bros de m orros, gotas escancaradas, riachos longe transportados,

m atos revirados pelas raízes, solevados novos m ontes e rochedos, fazendas

sovertidas sem resto — rolam entos de pedra e lam a tapando o estado do chão.

Mesm o a distância do astroso arredor, a m uita criatura e criação pereceu, soterradas ou afogadas. Outros vagavam ao deus-dar, nem sabendo m ais, no

avesso, os cam inhos de outrora.

Donde, no term o de sem ana, dia de São Felix, confessor, o caso de vir ao

pátio da Fazenda do Casco, de Hilário Cordeiro, com sede quase dentro da rua

do Arraial do Oratório, um coitado fugitivo desses, decerto persuadido da

fom e: o m oço, pasm o. O que foi quando subitam ente, e era m oço de distintas

form as, m as em lástim a de condições, sem o restante de trapos com que se

com por, pelo que enrolado em pano, espécie de m anta de cobrir cavalos,

achada não se supõe onde; e, assim em acanho, foi ele avistado, de m uito

m anhã, aparecendo e se

escondendo por detrás do cercado das vacas. Tão branco; tuas não branquicelo, senão que de um branco leve, sem idourado de luz: figurando ter

por dentro da pele um a segunda claridade. Sobrem odo se assem elhava a esses

estrangeiros que a gente não depara nem nunca viu; fazia para si outra raça.

Sej a que da m aneira ainda hoj e se conta, m as transtornado incerto, pelo

decorrer do tem po, porquanto narrado por filhos ou netos dos que eram

rapazes, quer ver que m eninos, quando em boa hora o conheceram ,

Hilário Cordeiro, sendo hom em cordial para os pobres. tem ente e bom , e

m ais ainda nesse pós-tem po de calam idade, em que parentes dele m esm o

tinham sofrido m orte e arrasos totais, não duvidou em lhe deferir

hospedam ento, cuidando de adequar-lhe roupa e botinas, desde lhe dar o de

com er. E o que era m ister de benem erência, porquanto o m oço, com os sustos

e baques, passara por desgraça extraordinária: perdida a com pleta m em ória de

si, sua pessoa, além do uso da fala. Esse m oço, pois, para ele sendo igual

m atéria o futuro que o passado? Nada ouvindo, não respondia, nem que não,

nem que sim ; o que era coisa de com paixão e lam entosa. Nem fizesse por

entender, isto é, entendia, ás vezes ao contrário, os gestos. Dado que um a

graça j á devia de ter, não se lhe podia pôr outro nom e, não adivinhado; nem se soubesse de que geração fosse — o filho de nenhum hom em .

De tanto que chegou lá, e nos dias, com pareceram os vários m oradores, por

sua causa, de há-de o que achassem . Tonto, não era. Só aquela intenção

sonhosa, o certo cansaço do ar. Surpreendente, contudo, o que assaz

observava, resguardado, até espreitasse por m iúdo os vezos de coisas e

pessoas; o que, porém , m elhor se viu pelo depois. Gostou-se dele. Quiçá m ais

o preto José Kakende, escravo m eio alforriado de um m úsico sem j uízo, e ele

próprio de idéia conturbada; por últim o, então, delirado varrido, pelo fato de padecidos os grandes pavores, no lugar do Condado: girava agora por aqui e

ali, a pronunciar advertências e desorbitadas sandices — querendo pôr em pé

de verdade portentosa aparição que teria enxergado, nas m argens do Rio do

Peixe, na véspera das catástrofes. Do m oço, pois, só não se engraçou, antes j á de abinício o m alquerendo — e o reputando por vago e m alfeitor a rebuço,

digno, noutros tem pos, de degredo em África e nos ferros de el-rei — um

cham ado Duarte Dias, pai da m ais bela m oça, por nom e Viviana; e do qual se

sabia ser hom em de gênio forte, além de m aligno e inj usto, sobre

prepotências: naquele coração não caía nunca um a chuvinha. Não se lhe deu

exata atenção.

Mas levaram o m oço à m issa, e ele portou-se, não fez m odos de crer nem inerer. Cantoria e m úsicas do coro, escutasse, no sério sentim ental. Triste, dito, não; m as: com o se conseguisse, em si, m ais saudade que as dem ais

pessoas, saudade inteirada, a salvo do entendim ento, e que por tanto se

apurava num a m aior alegria — coração de cão com dono. Seu sorriso às vezes

parava, referido a outro lugar, outro tem po. Sorrindo m ais com o rosto, senão

com os olhos; suposto que nunca se lhe viram os dentes. Padre Bay ão, antes

de com ele bondosam ente conferir, de im proviso lhe representou diante o

signo-da-cruz: e ele não m ostrou o desagrado da m atéria. Estava nas altas

atm osferas, aum entava a sua presença. " Comparados com ele, nós todos, comuns, temos os semblantes duros e o aspecto de má fadiga constante.”

Traços estes consignados pelo m esm o padre, em carta de punho e firm a, para

testem unho do esquisito, ao cônego Lessa Cadaval, da Sé de Mariana. Na qual

igualm ente dá m enção do preto José Kakende, que na m esm a ocasião se lhe

acercou, com altas e despauteradas falas, por im por sua visão da beira do rio:

... "o rojo de vento e grandeza de nuvem, em resplendor; e nela, entre fogo, se movendo uma artimanha amarelo-escura, avoante trem, chato e redondo,

com redoma de vidro sobreposta, azulosa, e que, pousando, de dentro,

desceram os arcanjos, mediante rodas, labaredas e rumores.” E, com o

m esm o risonho José Kakende, veio Hilário Cordeiro trazendo de volta para

casa o m oço, num extrato de desvelo, com o se o vero pai dele fosse.

Mas à porta da igrej a se achava um cego. Nicolau, pedidor, o qual, o m oço

em o vendo, olhou-o sem m edida e entregadam ente — contam que seus olhos

eram cor-de-rosa! — e foi em direitura a ele, dando-lhe rápida partícula, tirada da algibeira. Ora, estando o cego debaixo do sol, e corrido de suor, a alm as

cristãs devia de causar m editação o contraste de tanto padecer o calor do astro-rei aquele que nem as belezas da luz podia gozar. O cego, apalpando a dádiva na m ão, em guisa de cogitar em que estúrdia casta de m oeda ela consistisse, e

se dissertando logo que nenhum a, a levou prestes à boca; ao que, seu m enino

guia o advertiu: que não seria artigo de se com er, m as espécie de caroço de

árvore. Então o cego guardou, com irados ciúm es e por diversos m eses, aquela

sem ente, que só foi plantada após o rem ate dos fatos aqui ainda por narrar: e

deu um azulado pé de flor, da m ais rara e inesperada: com entreaspecto de

serem várias flores num a única, entrem eadas de m aneira im possível, num

prim or confuso, e, as cores, ninguém a respeito delas concordou, por

desconhecidas no século: definhada, com pouco), e

secada, sem produzir outras sem entes nem m udas, e nem os insetos a sabiam procurar.

No que, porem , acabada de se passar aquela cena, surgia no adro Duarte

Dias, m ais uns com panheiros e serviçais, para opor a surpresa de um a

exigência e fazer problem a: queria carregar consigo o m oço, sobre

fundam ento de que, pela brancura da tez e delicadezas m ais, devia de ser um

dos Rezendes, seus parentes, desaparecidos no Condado, no terrem oto; e que,

pois, até o reconhecim ento de algum a notícia, com petia-lhe o ter em custódia,

pelo costum e. Sendo que Hilário Cordeiro pronto contestou o postulado, e o

argum ento por um nada term inava em desavença séria. Duarte Dias porfiando

e se excedendo, do que só tornou em si ante o parecer de Quincas Mendanha,

do Serro, notável na política e provedor da Irm andade.

E, todavia, de seu zelo, m ais para diante. Hilário Cordeiro iria ter m elhor

razão, eis que tudo lhe passou a dar sorte, quer na saúde e paz, em sua casa,

sej a no assaz prosperar dos negócios, cabedais e haveres. E não que o m oço

lhe facultasse aj uda, na suj eição de serviço ou no vagar a algum ofício, em

que, de feito, nem pudesse dar descargo de si — com as m ãos não calej adas,

alvas e finas, de hom em -de-palácio. Ele andava m uito na lua, passeava por

todo o lugar e alhonde, praticando aquela liberdade vaporosa e o espírito de

solidão; parecesse alquebrado de um feitiço, segundo os dizeres do povo. Não

em bargando que grandes partes tivesse, para o que fosse de funções de

engenhos, ferram entas e m áquinas, ao que se prestava, fazendo m uitas

invenções e desem baraçando as ocasiões, ladino, cuidoso e acordado. De

estranha m em ória, só, pois, a de olhar ele sem pre para cim a, o m esm o para o

dia que para a noite — espiador de estrelas. Que vezes, porém , m ais lhe

prouvesse o divertim em o de acender fogos, sendo de reparo o quanto se

influiu, pelo São João, nas tantas e tam anhas fogueiras de festa.

Do que adveio, j usto, o caso da m oça Viviana, sem pre m al contado. O que

foi quando ele lá apareceu, acom panhado do preto José Kakende, e deu com a

m oça, m ui bonita, m as que não se divertia ao igual das outras: e ele se chegou m uito a ela, gentil e espantoso, lhe pôs a palm a da m ão no seio,

delicadam ente. Ora, sendo assim a m oça Viviana a m ais form osa, tinha-se

para adm irar que a beleza do feitio lhe não servisse para transform ar, no

interior, a própria e vagarosa tristeza. Mas. Duarte Dias, o pai, e que a isso assistia, prorrom peu em pleiteantes brados de: — "Tem que casar! Agora, tem de casar!" — com instância. Afirm ava

que o m oço era hom em , e um , e ainda m ancebo, e lhe infam ara a filha, devendo-lhe de a tom ar por consorte e arcar com o estado de casado. O m oço

ouvia, de boa concórdia, e nem por isso. Mas a grita de Duarte Dias só teve term o, quando o padre Bay ão, e outros dos m ais velhos, lhe rej eitaram tão

descabidas fúrias e insensatez. Tam bém a m oça Viviana, com radiosos

sorrisos, o serenava. Ela, que, a partir dessa hora, despertou em si um enfim de alegria, para todo o restante de sua vida, donde um dom . Apenas que. Duarte

Dias — o que não se entende — ia produzir ainda outros lances de

estupefação, eis-aqui.

De tal guisa que, para o alvoroço de todos, no dia da m issa da Dedicação

de Nossa Senhora das Neves e vigília da Transfiguração, 5 de agosto, ele veio

à Fazenda do Casco, requerendo falar com Hilário Cordeiro. Tam bém o m oço

lá estava. Outrovisto, e nunca desairoso — a gente espiava, e pensava num

logo luar. Então. Duarte Dias declarou: suplicava deixassem -no levar o m oço,

para sua casa. Que queria assim , e necessitava, m uito, não por am bicioneiro

ou im postor, nem por interesses som enos, m as por a ele ter cobrado, com

contrições de escrúpulo, a fortíssim a estim a de afeição! Dizia, e desgovernava as palavras, alterado, enquanto que dos olhos lhe corriam bastas lágrim as. Ora, não se com preendendo o descabelo de passo tão contrariado: o de um hom em

que, para m anifestar o am or, ainda não dispunha m ais que dos arrebatados

m eios e m odos da violência. Mas, o m oço, claro com o o olho do sol, o pegou

da m ão, e, com o preto José Kakende, o foi conduzindo pelos cam pos —

depois se soube que a terras dele m esm o. Duarte, aonde à tapera de um a

olaria. E lá indicou que m andasse cavar: com o que se achou, ali, um a grupiara de diam antes; ou um panelão de dinheiro, segundo diversa tradição. Por arte

de qual prodígio. Duarte Dias pensou que ia virar riquíssim o, e m udado de

fato esteve, da data por diante, em hom em sucinto, virtuoso e bondoso,

surpendentem ente, consoante o asseverar sobrem aravilhado dos coevos.

Mas, por contra, no dia da venerada Santa Brígida, de voz com um de novo

dele se soube: o m oço, plácido. Disse-se, que saíra, na véspera, de paragem ,

pelos altos, num de seus desapareceres: era um tem po de trovoadas secas. José

Kakende contava som ente que o aj udara a acender, de secreto, com form ato,

nove fogueiras: e, m ais, o Kakende soubesse apenas repetir aquelas suas

velhas e divagadas visões — de nuvem , cham as, ruídos, redondos, rodas,

geringonça e entes. Com a prim eira luz do sol, o m oço se fora, tidas asas.

Todos singularm ente se deploraram , para nunca, m al em pensado.

Duvidavam dos ares e m ontes; da solidez da terra. Duarte Dias, de dó, veio a

falecer; m as a filha, a m oça Viviana, conservou sua alegria. José Kakende

conversou m uito com o cego. Mario Cordeiro, e outros, diziam experim entar

um a saudade e m eia-m orte, só de im aginarem nele. Ele cintilava ausente,

aconteceu. Pois. E m ais nada.

Murilo Rubião

O fantástico, na modernidade, é aquele que passa por Kafka e pelo

surrealismo (leia-se a descoberta do inconsciente por Freud), e um bom

exemplo desta contemporaneidade é o nosso Murilo Rubião (1916-1991).

Como se isso não bastasse, ele foi o precursor do chamado realismo mágico

latino-americano surgido com Carpentier Garcia Márquez e outros, só nos

anos 1960. O livro de estréia de Murilo. O ex-mágico, é de 1947. Seus

livros subseqüentes — A estrela verm elha (1953), Os dragões e outros contos (1965), O pirotécnico Zacarias (1974) e O convidado (1974) —

configuram uma obra pequena e sólida dentro da nossa literatura. Ele

conseguiu, sendo "filho" de Kafka e de Machado de Assis, nos legar uma obra pessoal. Em "Teleco, o coelhinho", o autor utiliza, como diz Bráulio Tavares, "um tema clássico do fantástico (a metamorfose) e outro dos

contos mitológicos e populares (os animais falantes) para construir uma

narrativa que tem por sob seu feitio surrealista um conflito emocional

puramente humano, como num curta-metragem de animação".

Teleco, o coelhinho

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"Três coisas m e são difíceis

de entender. e um a quarta

eu a ignoro com pletam ente:

o cam inho da águia no ar.

o cam inho da cobra sobre

a pedra, o cam inho da nau

no m eio do m ar,

e o cam inho do hom em

na sua m ocidade."

Provérbios, xxx, 18 e 19.

— MOÇO, ME DÁ UM CIGARRO?

A voz era sum ida, quase um sussurro. Perm aneci na m esm a posição em

que m e encontrava, frente ao m ar, absorvido com ridículas lem branças. O

im portuno pedinte insistia:

— Moço, oh! m oço! Moço, m e dá um cigarro?

Ainda com os olhos fixos na praia, resm unguei:

— Vá em bora. m oleque, senão cham o a polícia.

— Está bem , m oço. Não se zangue. E, por favor, saia da m inha frente. que

eu tam bém gosto de ver o m ar.

Exasperou-m e a insolência de quem assim m e tratava e virei-m e, disposto a

escorraçá-lo com um pontapé. Fui desarm ado, entretanto. Diante de m im

estava um coelhinho cinzento, a m e interpelar delicadam ente:

— Você não dá é porque não tem , não é, m oço?

O seu j eito polido de dizer as coisas com oveu-m e. Dei-lhe o cigarro e

afastei-m e para o lado, a fim de que m elhor ele visse o oceano. Não fez

nenhum gesto de agradecim ento, m as j á então conversávam os com o

velhos am igos. Ou, para ser m ais exato, som ente o coelhinho falava. Contava-m e acontecim entos extraordinários, aventuras tam anhas que o supus com m ais

idade do que realm ente aparentava.

Ao fim da tarde, indaguei onde ele m orava. Disse não ter m orada certa. A

rua era o seu pouso habitual. Foi nesse m om ento que reparei nos seus olhos.

Olhos m ansos e tristes. Deles m e apiedei e convidei-o a residir com igo. A casa era grande e m orava sozinho — acrescentei.

A explicação não o convenceu. Exigiu-m e que revelasse m inhas reais

intenções:

—

Por acaso, o senhor gosta de carne de coelho?

Não esperou pela resposta:

—

Se gosta, pode procurar outro, porque a versatilidade e o m eu fraco,

Dizendo isto, transform ou-se num a girafa.

— À noite — prosseguiu — serei cobra ou pom bo. Não lhe im portará a

com panhia de alguém tão instável?

Respondi-lhe que não e fom os m orar j untos.

Cham ava-se Teleco.

Depois de um a convivência m aior, descobri que a m ania de

m etam orfosear-se em outros bichos era nele sim ples desej o de agradar ao

próxim o. Gostava de ser gentil com crianças e velhos, divertindo-os com

hábeis m alabarism os ou prestando-lhes aj uda. O m esm o cavalo que, pela

m anhã, galopava com a gurizada, à tardinha, em lento cam inhar, conduzia

anciãos ou inválidos as suas casas.

Não sim patizava com alguns vizinhos, entre eles o agiota e suas irm ãs, aos

quais costum ava aparecer sob a pele de leão ou tigre. Assustava-os m ais para

nos divertir que por m aldade. As vítim as assim não entendiam e se queixavam

à polícia, que perdia o tem po ouvindo as denúncias. Jam ais encontraram em

nossa residência, vasculhada de cim a a baixo, outro anim al além do coelhinho.

Os investigadores irritavam -se com os queixosos e am eaçavam prendê-los.

Apenas um a vez tive m edo de que as travessuras do m eu irrequieto

com panheiro nos valessem sérias com plicações. Estava recebendo um a das

costum eiras visitas do delegado, quando Teleco, m ovido por im prudente

m alícia, transform ou-se repentinam ente em porco do m ato. A m udança e o retorno ao prim itivo estado foram bastante rápidas para

que o hom em tivesse tem po de gritar. Mal abrira a boca, horrorizado, novam ente tinha diante de si um pacifico coelho:

— O senhor viu o que eu vi?

Respondi, forçando um a cara inocente, que nada vira de anorm al.

O hom em olhou-m e desconfiado, alisou a barba e, sem se despedir, ganhou

a porta da rua.

A m im tam bém pregava-m e peças. Se encontrava vazia a casa, j á sabia que

ele andava escondido em algum canto, dissim ulado em algum pequeno

anim al. Ou m esm o no m eu corpo sob a form a de pulga, fugindo-m e dos

dedos, correndo pelas m inhas costas. Quando com eçava a m e im pacientar e

pedia-lhe que parasse com a brincadeira, não raro levava trem endo susto.

Debaixo das m inhas pernas crescera um bode que, em disparada m e

transportava até o quintal. Eu m e enraivecia, prom etia-lhe um a boa surra.

Sim ulando arrependim ento. Teleco dirigia-m e palavras afetuosas e logo

fazíam os as pazes.

No m ais, era o am igo dócil, que nos encantava com inesperadas m ágicas.

Am ava as cores e m uitas vezes surgia transm udado em ave que as possuía

todas e de espécie inteiram ente desconhecida ou de raça j á extinta.

— Não existe pássaro assim !

— Sei. Mas seria insípido disfarçar-m e som ente em anim ais conhecidos.

O prim eiro atrito grave que tive com Teleco ocorreu um ano após nos

conhecerm os. Eu regressava da casa da m inha cunhada Em i, com quem

discutira asperam ente sobre negócios de fam ília. Vinha m al-hum orado e a

cena que deparei, ao abrir a porta da entrada, agravou m inha irritação. De

m ãos dadas, sentados no sofá da sala de visitas, encontravam -se um a j ovem

m ulher e um m ofino canguru. As roupas dele eram m al talhadas, seus olhos se escondiam por trás de uns óculos de m etal ordinário.

—

O que desej a a senhora com esse horrendo anim al? — perguntei,

aborrecido por ver m inha casa invadida por estranhos.

—

Eu sou o Teleco — antecipou-se, dando um a risadinha.

Mirei com desprezo aquele bicho m esquinho, de pêlos ralos, a denunciar

subserviência e torpeza. Nada nele m e fazia lem brar o travesso coelhinho.

Neguei-m e a aceitar com o verdadeira a afirm ação, pois Teleco não sofria

da vista e se quisesse apresentar-se vestido teria o bom gosto de escolher

outros traj es que não aqueles.

Ante a m inha incredulidade, transform ou-se num a perereca. Saltou por cim a dos m óveis, pulou no m eu colo. Lancei-a longe, cheio de asco.

Retom ando a form a de canguru, inquiriu-m e, com um ar extrem am ente

grave:

—

Basta esta prova?

—

Basta. E daí? O que você quer?

—

De hoj e em diante serei apenas hom em .

— Hom em ? — indaguei atônito. Não resisti ao ridículo da situação e dei

um a gargalhada:

— E isso? — apontei para a m ulher. — É um a lagartixa ou um filhote de

salam andra?

Ela m e olhou com raiva. Quis retrucar, porém ele atalhou:

—

É Tereza. Veio m orar conosco. Não é linda?

Sem dúvida, linda. Durante a noite, na qual m e faltou o sono, m eus

pensam entos giravam em torno dela e da cretinice de Teleco em afirm ar-se

hom em .

Levantei-m e de m adrugada e m e dirigi à sala, na expectativa de que os

fatos do dia anterior não passassem de m ais um dos gracej os do m eu

com panheiro.

Enganava-m e. Deitado ao lado da m oça, no tapete do assoalho, o canguru

ressonava alto. Acordei-o, puxando-o pelos braços:

— Vam os. Teleco, chega de trapaça.

Abriu os olhos, assustado, m as, ao reconhecer-m e, sorriu:

− Teleco?! Meu nom e é Barbosa. Antônio Barbosa, não é. Tereza? Ela,

que acabara de despertar, assentiu, m ovendo a cabeça. Explodi, encolerizado:

— Se é Barbosa, rua! E não m e ponha m ais os pés aqui, filho de um rato!

Desceram -lhe as lágrim as pelo rosto e, aj oelhado, na m inha frente,

acariciava m inhas pernas, pedindo-m e que não o expulsasse de casa, pelo

m enos enquanto procurava em prego.

Em bora encarasse com ceticism o a possibilidade de em pregar-se um

canguru, seu pranto m e dem oveu da decisão anterior, ou, para dizer a verdade

toda, fui persuadido pelo olhar súplice de Tereza que, apreensiva, acom panhava o nosso diálogo.

Barbosa tinha hábitos horríveis. Am iúde cuspia no chão e raram ente

tom ava banho, não obstante a extrem a vaidade que o im pelia a ficar

horas e horas diante do espelho. Utilizava-se do m eu aparelho de barbear, da m inha escova de dentes e pouco serviu com prar-lhe esses obj etos, pois

continuou a usar os m eus e os dele. Se m e queixava do abuso, desculpava-se,

alegando distração.

Tam bém a sua figura tosca m e repugnava. A pele era gordurosa, os

m em bros curtos, a alm a dissim ulada. Não m edia esforços para m e agradar,

contando-m e anedotas sem graça, exagerando nos elogios a m inha pessoa.

Por outro lado, custava tolerar suas m entiras e, às refeições, a sua m aneira

ruidosa de com er, enchendo a boca de com ida com auxílio das m ãos.

Talvez por ter-m e abandonado aos encantos de Tereza, ou para não

desagradá-la, o certo é que aceitava, sem protesto, a presença incôm oda de

Barbosa.

Se afirm ava ser tolice de Teleco querer nos im por sua falsa condição

hum ana, ela m e respondia com um a convicção desconcertante:

— Ele se cham a Barbosa e é um hom em .

O canguru percebeu o m eu interesse pela sua com panheira e, confundindo

a m inha tolerância com o possível fraqueza, tornou-se atrevido e zom bava de

m im quando o recrim inava por vestir m inhas roupas, fum ar dos m eus cigarros

ou subtrair dinheiro do m eu bolso.

Em diversas ocasiões, apelei para a sua frouxa sensibilidade, pedindo-lhe

que voltasse a ser coelho.

— Voltar a ser coelho? Nunca fui bicho. Nem sei de quem você fala.

— Falo de um coelhinho cinzento e m eigo, que costum ava se transform ar

em outros anim ais.

Nesse m eio tem po, m eu am or por Tereza oscilava por entre pensam entos

som brios, e tinha pouca esperança de ser correspondido. Mesm o na incerteza,

decidi propor-lhe casam ento.

Fria, sem rodeios, ela encerrou o assunto:

— A sua proposta é m enos generosa do que você im agina. Ele vale m uito

m ais.

As palavras usadas para recusar-m e convenceram -m e de que ela pensava

explorar de m odo suspeito as habilidades de Teleco.

Frustrada a tentativa do noivado, não podia vê-los j untos e íntim os, sem

assum ir um a atitude agressiva.

O canguru notou a m udança no m eu com portam ento e evitava os lugares

onde m e pudesse encontrar.

Um a tarde, voltando do trabalho, m inha atenção foi alertada pelo som ensurdecedor da eletrola, ligada com todo o volum e. Logo, ao abrir a porta,

senti o sangue afluir-m e à cabeça: Tereza e Barbosa, os rostos colados,

dançavam um sam ba indecente.

Indignado, separei-os. Agarrei o canguru pela gola e, sacudindo-o com

violência, apontava-lhe o espelho da sala:

— É ou não é um anim al?

—

Não, sou um hom em ! — E soluçava, esperneando, transido de m edo

pela fúria que via nos m eus olhos.

À Tereza, que acudira, ouvindo seus gritos, pedia:

— Não sou um hom em , querida? Fale com ele.

— Sim , am or, você é um hom em .

Por m ais absurdo que m e parecesse, havia um a trágica sinceridade na voz

deles. Eu m e decidira, porém . Joguei Barbosa ao chão e lhe esm urrei a boca.

Em seguida, enxotei-os.

Ainda da rua, m uito excitada, ela m e advertiu:

—

Farei de Barbosa um hom em im portante, seu porcaria! Foi a últim a

vez que os vi. Tive, m ais tarde, vagas notícias de um m ágico cham ado

Barbosa a fazer sucesso na cidade, À falta de m aiores esclarecim entos,

acreditei ser m era coincidência de nom es.

A m inha paixão por Tereza se esfum ara no tem po e voltara-m e o interesse

pelos selos. As horas disponíveis eu as ocupava com a coleção. Estava, um a

noite, precisam ente colando exem plares raros, recebidos na véspera, quando

saltou, j anela adentro, um cachorro. Refeito do susto, fiz m enção de correr o

anim al. Todavia não cheguei a enxotá-lo.

—

Sou o Teleco, seu am igo — afirm ou, com um a voz excessivam ente

trêm ula e triste, transform ando-se em um a cotia.

—

E ela? — perguntei com sim ulada displicência.

—

Tereza... — sem que concluísse a frase, adquiriu as form as de um

pavão.

—

Havia m uitas cores... o circo... ela estava linda... foi horrível... —

prosseguiu, chocalhando os guizos de um a cascavel.

Seguiu-se breve silêncio, antes que voltasse a falar:

— O uniform e... m uito branco... cinco cordas... am anhã serei hom em ... —

as palavras saíam -lhe esprem idas, sem nexo, à m edida que Teleco se

m etam orfoseava em outros anim ais.

Por um m om ento, ficou a tossir, Um a tosse nervosa. Fraca, a princípio, ela

avultava com as m utações dele em bichos m aiores, enquanto

eu lhe suplicava que se aquietasse. Contudo ele não conseguia controlar-se.

Debalde tentava exprim ir-se. Os períodos saltavam curtos e confusos.

— Pare com isso e fale m ais calm o — insistia eu, im paciente com as suas

contínuas transform ações.

— Não posso — tartam udeava, sob a pele de um lagarto.

Alguns dias transcorridos, perdurava o m esm o caos. Pelos cantos, a trem er.

Teleco se lam uriava, transform ando-se seguidam ente nos m ais variados

anim ais. Gaguej ava m uito e não podia alim entar-se, pois a boca, crescendo e

dim inuindo, conform e o bicho que encarnava na hora, nem sem pre com binava

com o tam anho do alim ento. Dos seus olhos, então, escorriam lágrim as que, pequenas nos olhos m iúdos de um rato, ficavam enorm es na face de um

hipopótam o.

Ante a m inha im potência em dim inuir-lhe o sofrim ento, abraçava-m e a ele,

chorando. O seu corpo, porém , crescia nos m eus braços, atirando-m e de

encontro à parede.

Não m ais falava: m ugia, crocitava, zurrava, guinchava, bram ia, trissava.

Por fim , j á m enos intranqüilo, lim itava as suas transform ações a pequenos

anim ais, até que se fixou na form a de um carneirinho, a balir tristem ente.

Colhi-o nas m ãos e senti que seu corpo ardia em febre, transpirava.

Na últim a noite, apenas estrem ecia de leve e, aos poucos, se aquietou.

Cansado pela longa vigília, cerrei os olhos e adorm eci. Ao acordar, percebi

que um a coisa se transform ara nos m eus braços. No m eu colo estava um a

criança encardida, sem dentes. Morta.

Duílio Gom es

________________________________

Mineiro de Mariana, o contista. Duílio Gomes (1944- ) entra aqui com "O

ovo com solenidade", marcando a presença do fantástico na sua fase

atual, junto com Murilo Rubião. Cortázar; Buzzati: a exuberância, as

tintas estão longe de serem carregadas como no auge do fantástico

(século XIX), o insólito se reduz (e assim acaba ganhando o primeiro

plano, mas só no final, revertendo a expectativa) a um clima, um bicho

caseiro, a uma eminência de perigo, uma situação, enfim. Tudo muito

cotidiano. E nem por isso menos fantástico,

O ovo com solenidade

______________________________________________

O CEGO ESTAVA QUEBRANDO O OVO para fazer om elete quando o porco entrou na

cozinha. Sentiu-o aos seus pés; em silêncio, cheirava os seus pés. O cego

estava de sandálias e a saliva do porco era um a coisa quente e líquida

m olhando o seu calcanhar direito. Os m úsculos do cego se retesaram . Sua

m ulher e sua filha haviam saído. Elas sabiam do grande m edo que ele tinha de

porcos e por isso os trancavam no chiqueiro. O cego percebeu, dentro da

névoa do seu m edo, que eles haviam arrebentado as tábuas podres do

chiqueiro e saído. A m ulher j á o havia advertido: "As tábuas do chiqueiro estão podres. Precisam os trocá-las.” Eram três porcos gordos e esprem idos no

chiqueiro cuj as tábuas iam apodrecendo debaixo das chuvas e dos carunchos.

Viviam alucinados pelo calor, engordando e envelhecendo com as m oscas que

lhes trepavam nos lom bos,

O cego estava sem pre adiando a data de m atá-los — esperava um a visita

im portante qualquer, j á não sabia há quanto tem po eles estavam em sua casa.

Só sabia de sua aversão por eles e de um a im inente visita im portante, quando

então os m ataria. Havia deixado a casca do ovo cair no chão e o porco agora a

com ia. Pelo menos enquanto ele come não se lembra de mim, pensou. Os

velhos e agudos dentes do porco trituravam a casca e o cego pensou então que

aqueles dentes, apesar de velhos, rasgariam a carne de suas pernas com o se

elas fossem m anteiga. Tinha tanto m edo do porco m order as suas pernas que

elas não obedeciam ao seu intenso desej o de correr, e perm aneciam fincadas

no chão, expostas aos agudos dentes velhos do porco que agora, pelo silêncio,

o cego sabia

ter term inado de com er a casca do ovo e com eçava a cheirar o ar com seu largo, suj o e enrugado focinho de porco velho. As tábuas da escada que dava

do quintal para a cozinha rangeram . Estão subindo os outros, pensou o cego e o seu terror nesse m om ento foi tão intenso que ele sentiu, no escuro poço de

sua vertigem , as pernas bam bearem . Não posso cair, m urm urou, não posso cair. Com o um soco em sua m em ória, o aviso da m ulher: só chegaremos à noite. Haviam saído, ela e a filha, para visitar um a parenta doente e o cego se rendeu, subitam ente, à dolorosa realidade — ter de perm anecer durante longo

tem po com o um m onum ento lívido e frágil em m eio aos porcos. Eles agora

rodeavam as suas pernas, grunhindo. Misturado aos seus roncos, que ecoavam

na cozinha com o a nota m ais grave de um instrum ento de sopro, o cheiro

enj oativo do ovo sobre o prato. O cego lem brou-se, com um a ponta de

desespero, da om elete que nunca com eria e então fez o gesto que talvez o

salvasse da fom e e do ódio dos seus porcos: com as m ãos trêm ulas derram ou o

ovo no chão. Foi um gesto m ecânico e tateante m as que inaugurou nele um a

certa paz — os porcos lam biam o ovo no chão e isso era a trégua; enquanto

eles se alim entavam não se lem brariam de suas pernas. Sua m ulher tinha o

costum e de deixar os m antim entos sobre a pia, na frente da qual se encontrava, e ele tentava agora localizá-los. Sabia que a m enina havia feito a feira naquela m anhã e que enquanto entregava os m antim entos para a m ãe, ia nom eando-os.

Estava tudo na sua frente, além do vácuo negro dos seus olhos. Precisava

detectar os m antim entos e com eles saciar a dura fom e dos porcos. Apalpando

a superfície úm ida da pia, seus dedos tocaram num obj eto m orno. Era um

obj eto m orno e redondo, com um a haste encim ando-o. Abóbora, pensou, e puxou-a pela haste. O ruído seco da abóbora caindo no chão foi o ruído de um a abóbora que se partia e que se ofertava, am arela e lum inosa, à avidez dos

porcos. O ruído que se seguiu ao da abóbora se partindo foi o ruído dos porcos m astigando. Mastigavam com pressa e grunhiam . Havia satisfação nos seus

grunhidos. O cego, então, com um a escura dificuldade, foi localizando e

atirando ao chão o arroz, os quiabos, a couve, até que, não encontrando m ais

nada para atirar, escutou: a bolha de saliva arrebentando. Pelo denso silêncio que subia do chão ele entendeu que a bolha de saliva fora o final do festim .

Entendeu tam bém , com a profunda e m ágica percepção dos cegos, que os

porcos ainda não estavam saciados. E que o rodeavam , pensativos, os olhos

fixos em suas pernas.

Bônus

Flávio Moreira da Costa

________________________________

Escrito nos anos 70, publicado originalmente na revista Planeta, e

republicado inúmeras vezes na imprensa e em sites literários, "Mensch(s)"

faz parte do livro Malvadeza Durão e outros contos, lançado pela Agir em 2006.

Mensch(s)

______________________________________________

OS MENSCHS SAEM DE DENTRO DO CORPO e voltam a ele para se alim entar. A

prim eira coisa que com em é o estôm ago, quando novam ente dentro do corpo.

Depois, saem — e sete dias leva o estôm ago para crescer de novo. Quando

um m ensch volta a seu corpo um a vez m ais, com e o cérebro. Depois,

abandona o corpo e desaparece. Sete dias leva o cérebro para crescer de novo.

E o estranho ser volta e com e as entranhas, cada vez que volta com e um a

parte: o fígado, os rins, os intestinos etc., e em cada sete dias o fígado, os rins, os intestinos etc., nascem de novo. O tipo de alim entação dos m enschs é

conhecido com o autociclagem . No entanto, o que a ciência ainda não

conseguiu descobrir é para onde vai o m ensch cada vez que abandona seu

corpo.

Obras do organizador

_______________________________________

LIVROS DE AUTORIA

Malvadeza Durão e outros contos. Rio de Janeiro: Agir, 2006.

O país dos ponteiros desencontrados. Rio de Janeiro: Agir, 2005.

Três casos policiais de MárioLivramento. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

Nonadas: o livro das bobagens. R io de Janeiro: Francisco Alves, 2000, Crônicas.

Nelson Cavaquinho: enxugue os olhos e me de um abraço. Rio de Janeiro: Relum e-Dum ará/Rio Arte, 2000, Biografia.

Modelo para morrer: i,e,. Jane April no País das Maravilhas. Rio de Janeiro: Record. 1999.

Nem todo canário é belga. Rio de Janeiro: Record. 1998. Contos (Prêm io Jabuti).

O equilibrista do arame farpado. Rio de Janeiro: Record. 1997. Rom ance (Prêm io Jabuti. Prêm io Machado de Assis. Melhor Rom ance da União

Brasileira de Escritores e finalista do Prêm io Nestlé).

Avenida Atlântica. Rio de Janeiro: Rio Fundo, 1992. Rom ance policial.

O almanaque do dr. Ross. São Paulo: Nacional, 1985. Contos e poesias.

Vida de artista. Porto Alegre: Sulina, 1985. Entrevistas.

Os mortos estão vivos. Rio de Janeiro: Record. 1984. Rom ance.

Franz Kafka, O profeta do espanto. São Paulo: Brasiliense, 1983. Ensaio.

Malvadeza Durão. Rio de Janeiro: Record. 1982. Contos (1° lugar no

Concurso Nacional de Contos do Paraná).

Os subúrbios do criação. São Paulo: Polis, 1979. Crítica.

Às margens plácidas. São Paulo: Ática, 1978. Rom ance.

Os espectadores. São Paulo: Sím bolo, 1976. Contos.

As armas e os barões. Rio de Janeiro: Im ago, 1975. Rom ance.

A perseguição ou Eu vi a máfia de perto. R io de Janeiro: Francisco Alves, 1973. Rom ance.

O desastronauta ou Ok, Jack Kerouac, nós estamos te esperando em

Copacabana. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1971. Rom ance.

C inema Moderno Cinema Novo. Rio de Janeiro: José Álvaro, 1966.

Ensaio.

ANTOLOGIAS ORGANIZADAS

22 contistas em campo. Rio de Janeiro: Agir, 2006.

Aquarelas do Brasil – Contos da nossa música popular. Rio de Janeiro: Agir, 2006.

Os melhores contos de medo, horror e morte. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.

Os cem melhores contos populares da literatura universal. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005,

13 dos melhores contos da mitologia da literatura universal. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

As cem melhores histórias eróticas da literatura universal. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003,

13 dos melhores contos de vampiros. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

Os cem melhores contos de crime & mistério da literatura universal. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

Os cem melhores contos de humor da literatura universal. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

Onze cm campo e um banco de primeira. Rio de Janeiro: Relum e-Dum ará,

1998.

Viver de rir ii: um livro cheio de graça. Rio de Janeiro: Record. 1997.

Crime à brasileira. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.

O mais belo país é teu sonho. Rio de Janeiro: Record. 1995.

Viver de rir: obras primas do conto de humor. Rio de Janeiro: Record. 1994.

A Nova Califórnia e outros contos de Lima Barreto. Rio de Janeiro: Revan, 1993.

Plebiscito e outros contos de humor de Arthur de Azevedo. R io de Janeiro: Revan, 1993.

Crime, espionagem e poder. Rio de Janeiro: Record. 1987.

O nze em campo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986.

Antologia do conto gaúcho. São Paulo: Sim ões, 1970.

LIVRO DE ARTE

Rio de Janeiro, marcos de uma evolução, Booklink, 2002.

Organização de Paulo Cohen – Fotos de Milan e Carlos Secchin e texto de

Flávio Moreira da Costa.

INCLUSÃO EM ANTOLOGIAS

Corrupção. Organização de Rodrigo Penteado. São Paulo: Ateliê Editorial.

2002,

Os apóstolos: doze revelações. São Paulo: Nova Alexandria, 2002. Copacabana cidade eterna. Rio de Janeiro: Relum e-Dum ará, 1992.

Contos da repressão. Rio de Janeiro: Record. 1987.

Zitronengras: Neue Brasilianische Erzähler. Köln: Kiepenheuer & Witsch, 1987.

Brazilian Stories, 1956-1977, em The Literary Review, v. 27, n, 4. Madison.

New Jersey, 1984.

Chame o ladrão. São Paulo: Edições Populares, 1978.

O papel do amor. São Paulo: Sim ões, 1978.

Os vencedores. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1978.

Opowiadania Brazylijskie. Cracóvia, 1977.

Assim escrevem os gaúchos. São Paulo, 1976.

Antologia dos novos escritores brasileiros. R io de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1969.

EDIÇÃO

Izabel Aleixo

Jancy Medeiros

PREPARAÇÃO DE ORIGINAIS

Celina Portocarrero

REVISÃO DE TRADUÇÃO

Ana Lúcia Kronemberger

Janaina Senna

Laura Lobato

Marcus Tulius

Nina Schipper

Pina Bastos

Roberto Santos

REVISÃO

Ana Julia Cury

Ana Carolina Ribeiro

Antonio dos Prazeres

Eduardo Carneiro

Elvira Ratamero

Flavia Simão

Izabel Cury

José Carlos Ratamero

Neryanne Rego

Patrícia Reis

Pedro Sangirardi

DIAGRAMAÇÃO

Abreu's System

PRODUÇÃO GRÁFICA

Ligia Barreto Gonçalves

Este livro foi im presso em São Paulo, em abril de 2006,

pela Lis Gráfica e Editora, para a Editora Nova Fronteira.

A fonte usada no m iolo é Berkeley, corpo 11/14.

O papel do m iolo é Master-set 75g/m ², e o da capa é cartão Roy al 250g/m ².

Visite nosso site: www.novafronteira.com .br

...nada m ais borgiano, avant la lettre, do

Diferente do fantástico do século XIX,

que esta m istura de vigília e sono (sonho),

pois passa de um a m aneira indelével pela

realidade e im aginário se confundindo num a

m arca da ficção de Kafka, com o se

coisa só. Eis um a vertente constante da

transform asse assim algum aspecto

literatura fantástica de todos os tem pos. E em

insólito da vida em absurdo da própria

poucas linhas. (Sobre conto de Wu Cheng'en, séc.

vida — um absurdo construído com um a

XVI)

lógica interna rigorosa — Dino Buzzati

Foi ele quem consolidou e introduziu

leva m agistralm ente este tipo de literatura

definitivam ente o fantástico na literatura, no

à contem poraneidade narrativa. (Sobre

século XIX, espalhando sua influência por

Dino Buzzati)

todo o m undo — da França (...) aos nossos

rom ânticos... (Sobre E.T.A. Hoffmann)

Nos sessenta anos da publicação de

Sagarana e cinqüenta de Grande sertão:

"William Wilson" (...) antecipa "Borges e

veredas, incluir João Guim arães Rosa

eu" e outros textos do autor de O Aleph. Leia

com cuidado, leitor — quem sabe duas vezes.

num a antologia vale com o tripla

(Sobre conto de Edgar Allan Poe)

hom enagem : a ele, ao leitor e a nós,

organizadores... (Sobre Guimarães Rosa)

...esse link invisível entre loucura e

literatura fantástica... (Sobre conto de Guy de

Maupassant)

... o delírio é puro fantástico, e o fantástico

é delírio transcriado. Um olhar sobre o m undo

FLÁVIO MOREIRA DA COSTA

que a história j am ais registra — só as

Rom ancista e contista dos m ais prem iados

histórias, as ficções. E um autor quase ausente

dos catálogos editoriais brasileiros. "Vera" não

( de O desastronauta e As armas e os barões),

é o conto m ais explicitam ente fantástico dos

dos prim eiros rom ances aos livros m ais

Contes cruels, de Auguste Villiers de l'Isle

recentes

(O

país dos ponteiros

Adam , m as é sua obra-prim a, aqui publicada

desencontrados e Malvadeza Durão e outros

pela prim eira vez... (Sobre Villiers de l'Isle

contos). Flávio Moreira da Costa é hoj e

Adam)

considerado por m uitos o m elhor

É preciso ler "Tlön, Uqbar. Orbis Tertius"

antologista do país ou m esm o da língua

com cuidado e atenção, com o quem lida com

portuguesa. Seu criativo trabalho de

um m undo novo e desconhecido. Caso

pesquisa, leitura e seleção com eça a

contrário, podem os sucum bir ao espanto: "o

ganhar o m undo, com suas antologias

m undo será Tlön." (Sobre conto de Jorge Luis

agora traduzidas e publicadas na

Borges)

Alem anha, Itália e Portugal. Aos leitores

Tirar coelho de cartola faz parte do oficio

brasileiros, m ais um presente: este Os

de m ágico. (...) Difícil — pois é coisa de

melhores contos fantásticos. De todos os