Os Melhores Contos Fantásticos

Flávio Moreira da Costa · Capítulo 1 de 2 · parte 19/28

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Os Melhores Contos Fantásticos

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 28 partes.

concedeu aos filhos que são am eaçados pelos perigos e que são fracos dem ais

para se defenderem o dom de se confundir com o que os cerca... Mas você

conhece tudo isso. Sabe que as borboletas se parecem com as flores, que

alguns insetos se assem elham a folhas, que o cam aleão pode assum ir a cor

que m elhor o dissim ula, que a lebre polar se tornou branca com o as regiões

glaciais por onde, tão covarde quanto a de nossas cam pinas, foge quase

invisível.

"É assim que esses frágeis anim ais escapam de seus inim igos por um a

engenhosidade instintiva que m odifica seu aspecto.

"E eu, a quem um inim igo persegue sem trégua, eu, que sou m edroso e m e

sinto incapaz de m e defender num a luta, sou com o esses anim ais: confundo-

m e, à vontade e por terror, com o m eio am biente.

"Exerci pela prim eira vez essa faculdade instintiva há um certo núm ero de anos. Eu tinha 25 anos e, em geral, as m ulheres m e achavam

agradável e bem -apessoado. Um a delas, que era casada, testem unhou-m e tanta am izade que não pude resistir. Ligação fatal!... Um a noite, estava eu na casa da m inha am ante. Seu m arido, por assim dizer, havia partido por vários

dias. Estávam os nus com o divindades quando de repente se abriu a porta e o

m arido surgiu, revólver na m ão. Meu pavor foi indescritível e só quis um a

coisa, covarde que era e que sou ainda: desaparecer. Encostando-m e à parede,

desej ei m e confundir com ela. E o acontecim ento im previsto realizou-se de

im ediato. Fiquei da cor do papel pintado e, m eus m em bros se achatando num

estiram ento voluntário e inconcebível, pareceu-m e que eu aderia à parede e

que ninguém m ais m e via. Era verdade. O m arido m e procurava para m e

m atar. Ele havia m e visto e era im possível que eu tivesse fugido. Ficou

enlouquecido e, voltando sua raiva contra a m ulher, m atou-a com selvageria

com seis tiros de revólver na cabeça. Então se foi, chorando

desesperadam ente. Depois de sua partida, por instinto, m eu corpo retom ou sua

form a norm al e sua cor natural. Vesti-m e e consegui sair dali antes que

chegasse alguém ... Conservei desde então essa feliz faculdade, que tem a ver

com o m im etism o. O m arido, não m e tendo m atado, dedicou sua existência ao cum prim ento dessa tarefa. Persegue-m e há m uito tem po pelo m undo todo e eu

acreditava ter-lhe escapado vindo viver em Paris. Mas vi esse hom em , alguns

instantes antes que você passasse. O terror m e fazia bater os dentes. Só tive

tem po para m e despir e m e confundir com a m uralha. Ele passou perto de

m im , olhando com curiosidade para aquele casacão e aqueles chinelos

abandonados na calçada. Você percebe com o tenho razão de m e vestir

sum ariam ente. Minha faculdade m im ética não se poderia m anifestar se eu

estivesse vestido com o todos os outros. Eu não conseguiria m e despir

depressa o bastante para escapar de m eu carrasco e é preciso, antes de tudo,

que eu estej a nu, para que m inhas roupas, achatadas contra a m uralha, não

tornem inútil m eu desaparecim ento defensivo."

Cum prim entei Subrac por um a faculdade da qual eu tinha provas e que

invej ava...

Nos dias que se seguiram , eu só pensava naquilo e m e surpreendia, por

qualquer m otivo, concentrando m inha vontade com o obj etivo de m odificar

m inha form a e m inha cor. Tentei m e transform ar em ônibus, em torre Eiffel,

em acadêm ico, em ganhador da loteria. Meus esforços foram em vão. Aquilo

não era para m im . Minha vontade não tinha força

suficiente e além disso m e faltava aquele bendito terror, aquele form idável perigo que despertara os instintos de Honoré Subrac...

Eu não o via j á há algum tem po quando ele um dia apareceu, descon-

trolado:

— Aquele hom em , m eu inim igo — disse ele —, m e espreita por toda

parte. Consegui escapar três vezes, exercendo m inha faculdade, m as estou

com m edo, estou com m edo, m eu am igo.

Vi que havia em agrecido, m as evitei dizer-lhe.

— Só lhe resta um a coisa a fazer — declarei. — Para escapar de um

inim igo tão im placável: vá em bora! Esconda-se num a aldeia. Deixe-m e cuidar

de seus negócios e vá para a estação de trem m ais próxim a.

Ele m e apertou a m ão, dizendo:

— Venha com igo, eu lhe suplico. Estou com m edo!

Na rua, cam inham os em silêncio. Honoré Subrac virava constantem ente a

cabeça, com ar inquieto. De repente, deu um grito e com eçou a fugir livrando-

se de seu casacão e de seus chinelos. E vi que um hom em vinha atrás de nós,

correndo. Tentei pará-lo. Mas ele m e escapou. Tinha um revólver que

apontava na direção de Honoré Subrac. Este acabava de alcançar um

com prido m uro de quartel e desapareceu com o por encanto.

O hom em do revólver parou estupefato, lançando um a exclam ação de

raiva e, com o para se vingar do m uro que parecia lhe ter roubado a vítim a,

descarregou seu revólver no local em que Honoré Subrac havia desaparecido.

Depois se foi, correndo...

Juntou gente, a polícia veio dispersar. Cham ei então m eu am igo. Mas ele

não m e respondeu.

Tateei a m uralha, ela ainda estava morna e percebi que, das seis balas do revólver, três haviam atingido a altura do coração de um homem, enquanto as outras haviam arranhado o gesso, m ais alto, lá onde m e pareceu distinguir,

vagam ente, o contorno de um rosto.

Tradução de Celina Portocarrero

Saki

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Com um personagem chamado Clovis, o inglês H. Munro (1870-1916) foi um

dos mais populares contistas da Inglaterra. Sob o pseudônimo de Saki,

publicava seus contos nos jornais. Em livro, sua obra completa, editada no seu país, e ainda esparsa pelo mundo afora, reúne centenas de pequenas

histórias. Era uma espécie de cronista da era vitoriana. Seus contos fantásticos são raros, como este que une o poder maléfico à infância (como Henry James desenvolveria à perfeição em A volta do parafuso ).

Sredni Vashtar

I

QUANDO CONRADIN TINHA DEZ ANOS, um m édico deu sua opinião profissional

dizendo que o m enino não chegaria aos 15. O m édico era incom petente e de

pouca reputação e seu parecer não contava m uito, porém , foi endossado pela

sra. De Ropp, cuj as opiniões pesavam em quase todos os assuntos. A sra. De

Ropp era prim a e guardiã de Conradin e, aos olhos dele, ela representava

aqueles três quintos do m undo que são necessários, desagradáveis e reais; os

outros dois quintos, em perpétuo antagonism o com os precedentes, resum iam -

se nele m esm o e na sua im aginação. Naquela época. Conradin pensou que

sucum biria sob a suprem a pressão das coisas necessárias e fastidiosas — tais

com o as doenças, as restrições de afeto e os longos m om entos de enfado. Sem

sua im aginação, que era exuberante sob a espora da solidão, ele teria há m uito sucum bido.

A sra. De Ropp nunca confessaria a si m esm a, m esm o em seus m om entos de m aior honestidade, que não gostava de Conradin, em bora estivesse

vagam ente consciente de que contrariá-lo "para seu próprio bem " era um dever que não considerava de form a algum a m açante. Conradin a odiava com

um a desesperada sinceridade que conseguia disfarçar com perfeição. Desta

form a, os pequenos prazeres que podia inventar para si próprio ganhavam um

sabor m ais intenso com a probabilidade de estarem desagradando sua guardiã,

e do reino de sua im aginação ela era excluída — com o um a coisa im pura, que

deveria ficar de fora.

No m onótono e som brio j ardim , sob a m ira de tantas j anelas que poderiam abrir a qualquer m om ento com um a m ensagem para não fazer isso ou aquilo,

ou um a advertência sobre a hora de tom ar os rem édios, ele encontrava pouca

distração. As escassas árvores frutíferas que ali existiam estavam plantadas

longe de seu alcance, parecendo espécim es raras florescendo no deserto; seria

difícil encontrar um j ardineiro profissional que oferecesse dez xelins pela

produção anual daquele pom ar. Num canto esquecido, contudo, quase oculto

atrás de um triste m atagal, havia um barracão de ferram entas fora de uso que

tinha proporções respeitáveis, e entre suas paredes Conradin encontrou um

refúgio, um lugar que assum ia vários aspectos, desde um quarto de

brinquedos até um a catedral. Ele povoou o local com um a legião de fantasm as

fam iliares, evocados a partir de fragm entos de histórias e de seu próprio cérebro, m as ali tam bém se encontravam dois habitantes de carne e osso. Num

canto vivia um a galinha de plum agem longa e eriçada da raça Houdan, a qual

o m enino dedicava um a afeição que de outro m odo não conseguia exprim ir.

Ao fundo, na parte m ais som bria do barracão, num a enorm e caixa, dividida em dois com partim entos, um dos quais fechado com estreitas barras de ferro,

m orava um a grande doninha, que um sim pático aj udante de açougueiro certa

vez trouxera às escondidas, j á encarcerada em troca de um punhado de

m oedas de prata por m uito tem po guardadas em sigilo. Conradin sentia um

m edo terrível do anim al ágil e de dentes afiados, porém , ele era seu bem m ais

valioso. Sua presença no barracão gerava um a alegria secreta e tem erosa, a ser m antida a todo custo fora do conhecim ento da Mulher, com o ele

confidencialm ente batizara sua prim a. E um dia, sabem os céus a razão,

inventou para o bicho um nom e m aravilhoso, e a partir daquele m om ento,

nasceu um deus e um credo. A Mulher tam bém se dedicava à religião um a vez

por sem ana, num a igrej a próxim a, e levava Conradin com ela; m as para ele a

m issa na igrej a era um rito estranho na casa de Rim on¹. Todas as quintas-feiras, no opaco e bolorento silêncio do barracão, ele realizava um a cerim ônia m ística e elaborada diante da caixa de m adeira, onde habitava Sredni Vashtar,

a grande doninha. Flores verm elhas, quando era a época, e frutos silvestres

escarlates no inverno eram oferecidos ao seu santuário, pois se tratava de um

deus que dava especial ênfase ao aspecto im ediato das coisas, ao contrário da

religião da Mulher, que, até onde

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1 Entidade pagã citada no Antigo Testam ento (N.T.)

Conradin podia observar, seguia m uito além na direção oposta. E nos im portantes festej os, nozes-m oscadas eram espalhadas em frente da caixa,

sendo que um detalhe im prescindível da oferta determ inava que as nozes-

m ascadas fossem roubadas. Esses festej os ocorriam com irregularidade, e

eram principalm ente designados para celebrar algum evento passageiro. Certa ocasião, quando a sra. De Ropp foi acom etida de um a aguda dor de dente

durante três dias. Conradin m anteve os festej os durante todo esse tem po, e

quase conseguiu convencer a si m esm o que Sredni Vashtar havia sido

responsável pela dor de dente da prim a. Tivesse a dor durado m ais um dia, o

suprim ento de nozes-m oscadas teria acabado.

II

A galinha Houdan nunca tom ava parte no culto a Sredni Vashtar. Conradin

há m uito tem po decidira que ela era um a anabatista. Ele não tinha a m ais

rem ota idéia do que era um anabatista, m as, em segredo, esperava que fosse

algo de provocador e não m uito respeitável. A sra. De Ropp era a fonte

essencial da qual extraía sua aversão a toda respeitabilidade.

Passado algum tem po, a dedicação de Conradin ao barracão com eçou a

cham ar a atenção de sua guardiã. "Não é bom para ele ficar zanzando dentro daquele lugar o tem po todo", ela resolveu de repente e, certa m anhã, ao

tom arem café, ela avisou-lhe que a galinha Houdan tinha sido vendida e

levada em bora durante a noite. Com sua visão m íope, ela encarou Conradin,

esperando um a erupção de raiva e contrição, que seria rebatida prontam ente

com um a torrente de preceitos e reflexões valorosos_ Mas Conradin nada

disse: nada havia a ser dito. Talvez algo em sua feição pálida tivesse causado nela certa apreensão, pois na hora do chá havia torradas sobre a m esa, um a

cortesia em geral banida, com o argum ento de que era ruim para ele; e

tam bém porque a preparação "dava trabalho", um inconveniente m ortal aos seus olhos de m ulher de classe m edia.

— Pensei que você gostasse de torradas — exclam ou ela, com um a expressão ofendida, vendo que ele sequer tocara nelas.

— Às vezes — disse Conradin.

Dentro do barracão, naquela noite, houve um a inovação no culto ao seu

deus cativo. Conradin tinha o hábito de entoar suas preces, m as daquela vez

pediu um a dádiva.

— Faça um a coisa por m im . Sredni Vashtar.

Mas não especificou o quê. Com o Sredni Vashtar era um deus, supôs que

ele deveria saber. E reprim indo um soluço, ao olhar para o outro canto vazio.

Conracin voltou para o m undo que tanto odiava.

E todas as noites, na bem -vinda escuridão do seu quarto, e todos os fins de

tarde, na penum bra do barracão. Conradin entoava sua am arga litania: "Faça um a coisa por m im . Sredni Vashtar."

A sra. De Ropp notou que as visitas ao barracão não haviam cessado, e um

dia ela fez outra visita de inspeção.

— O que você guarda trancado dentro daquela caixa? — perguntou. —

Acho que são porquinhos-da-índia. Vou ter de retirá-los dali.

Conradin não disse nada, m as a Mulher vasculhou seu quarto até encontrar

a bem escondida chave e, sem dem ora, seguiu em direção ao barracão para

concluir sua descoberta. A tarde estava fria, e Conradin fora obrigado a ficar dentro de casa. Da j anela na extrem idade da sala de j antar, podia-se ver a

porta do barracão, logo atrás do m atagal, e foi ali que Conradin se posicionou.

Viu a Mulher entrar e im aginou-a abrindo a tam pa da caixa sagrada e

observando com seus olhos m íopes o leito de palha espessa onde, escondido,

repousava seu deus. Talvez rem exesse a palha num gesto de pura im paciência.

E Conradin sussurrou febrilm ente sua prece pela últim a vez. Mas percebeu,

enquanto rezava, que ele não acreditava. Sabia que aquela Mulher sairia do

barracão a qualquer instante, com aquele sorriso atravessado que ele tanto

detestava na cara e, em um a hora ou duas, o j ardineiro levaria em bora seu

deus m aravilhoso, agora não m ais um deus, m as um a sim ples doninha

m arrom dentro de um a gaiola. E ele sabia que a Mulher triunfaria sem pre,

com o acabara de triunfar naquele m om ento, e sabia que sua vida continuaria

sendo cada vez m ais doentia sob a tirania, a opressão e a superior sabedoria

dela, até o dia em que nada m ais im portasse para ele e o m édico visse

cum prido seu prognóstico. E no torm ento e desgraça de sua derrota, ele

com eçou a cantar em voz alta o hino de seu ídolo am eaçado.

III

Sredni Vashtar seguiu em frente

Seu espírito tingido por rubros pensam entos e seus dentes bem brancos.

Seus inim igos pediam paz, m as ele deu-lhes a m orte.

O belo Sredni Vashtar.

E então, bruscam ente, ele parou de cantar e se aproxim ou m ais da j anela.

A porta do barracão ainda estava entreaberta e os m inutos passavam . Eram

longos m inutos, m as ainda assim passavam . Conradin observou os pássaros

correrem e revoarem em pequenos bandos sobre o gram ado; contou-os várias

vezes, um olho sem pre na porta oscilante do barracão. Um a criada de

expressão rabugenta veio preparar a m esa para o chá, e Conradin continuou

em pé, esperando e observando. A esperança cresceu um pouco no seu coração, e então um a expressão de triunfo incendiou seus olhos, que só

conheciam a resignação m elancólica da derrota. Em seguida, sussurrando, ele

com eçou outra vez seu hino de vitória e destruição. Logo depois, seus olhos

foram recom pensados: pela passagem da porta entreaberta, saiu um anim al

com prido e rasteiro de pelagem castanha, com os olhos piscando por causa da

claridade do dia, m anchas escuras e úm idas em torno dos pêlos que envolviam

suas m andíbulas e seu pescoço. Conradin caiu de j oelhos. A poderosa doninha

correu na direção de um pequeno riacho no final do j ardim , bebeu um pouco

d'água e, em seguida, atravessou um a ponte de m adeira e sum iu dentro do

m ato. Assim foi a partida de Sredni Vashtar.

— O chá está pronto — disse a criada rabugenta. — Onde está a patroa?

— Ela desceu até o barracão j á faz algum tem po — respondeu Conradin.

Quando a criada se afastou para avisar sua patroa que o chá estava pronto.

Conradin apanhou um garfo na gaveta da m esa e com eçou a tostar um pedaço

de pão. E, enquanto assava o pão e o lam buzava de m anteiga com vontade,

antes de saboreá-lo. Conradin ouviu os ruídos e silêncios que lhe chegavam

em curtos espasm os lá de fora. O berro agudo e assustado da criada, a

resposta em coro de exclam ações de espanto vinda da cozinha, os passos

apressados e os cham ados urgentes em busca de aj uda exterior e então, após

um instante de calm aria, os soluços intensos e o arrastar dos pés daqueles que transportavam um enorm e fardo para dentro de casa.

— Quem vai contar para o m enino? Eu não seria capaz, j uro! — exclam ou

um a voz estridente. E enquanto eles debatiam o assunto. Conradin com eçou a

preparar m ais um a torrada.

Tradução de Mauro Pinheiro

Horacio Quiroga

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Uma obra-prima de técnica narrativa, o conto em questão é notável por sua

simplicidade e pelàfantástica" realização desta mesma técnica. É a história de quatro cachorros e de um homem, o dono deles. Sobre o homem pouco

ficamos sabendo. A história é narrada do ponto de vista dos cães. Que, aliás, sabem que ele vai morrer: "soube, pela experiência de seus companheiros, que quando uma coisa vai morrer, à coisa' aparece antes". Sem usar os estereótipos explícitos da literatura fantástica, o olhar inusitado e inesperado do gênero confunde-se aqui com o olhar (isto é, o ponto de vista) dos cães.

Horacio Quiroga (1878-1937) começou sob forte influencia de Poe, mas "A insolação" mostra a força de sua própria originalidade.

A insolação

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O CACHORRO OLD SAIU PELA PORTA e atravessou o pátio com passo firm e e

preguiçoso. Deteve-se no lim ite do pasto, tom ou o rum o do m onte,

entrecerrando os olhos, o focinho inquieto, e se sentou tranqüilo. Via a

m onótona planura do Chaco, com suas alternâncias de cam po e m onte, m onte

e cam po, sem m ais cor do que o bege do pasto e o negro do m onte. Este

fechava o horizonte, a duzentos m etros, por três lados da chácara. Em direção

ao oeste, o cam po se alargava e se estendia num vale, que entretanto a

iniludível linha som bria m arcava ao longe.

Naquela hora em que ainda era cedo, a distância, ofuscante de luz ao m eio-

dia, adquiria repousada nitidez. Não havia um a nuvem ou um sopro de vento.

Sob a calm a do céu prateado o cam po em anava tônica frescura que trazia à

alm a pensativa, ante a certeza de outro dia de seca, m elancolias de um

trabalho m ais bem recom pensado.

Milk, o pai do cachorro, cruzou por sua vez o pátio e se sentou ao lado

dele, com um preguiçoso gem ido de bem -estar. Am bos perm aneciam im óveis,

pois ainda não havia m oscas.

Old. que olhava fazia tem po a encosta do m orro, observou:

— A m anhã está fresca.

Milk acom panhou o olhar do cachorro e se im obilizou com a vista fixa,

piscando distraído. Depois de um tem po disse:

— Naquela árvore há dois falcões.

Desviaram a vista indiferente para um boi que passava e continuaram

olhando as coisas por hábito.

Entretanto, o oriente com eçava a adquirir um tom púrpura e o horizonte tinha j á perdido sua precisão m atinal. Milk cruzou as patas dianteiras e, ao

fazê-lo, sentiu um a leve dor. Olhou seus dedos sem m over-se, decidindo-se

por fim a cheirá-los. No dia anterior havia arrancado um a farpa e, à

recordação do que havia sofrido, lam beu longam ente o dedo enferm o.

— Não conseguia cam inhar — exclam ou em conclusão.

Old não com preendeu a que se referia e Milk acrescentou:

— Há m uitas farpas.

Desta vez o cachorro com preendeu. E retrucou por sua vez, depois de um

bom tem po:

— Há m uitas farpas.

Um e outro calaram de novo, convencidos.

O sol saiu e, ao prim eiro banho de sua luz, os pavões do m onte lançaram

ao ar puro o tum ultuoso alarido de sua cantoria. Os cães, dourados ao sol

oblíquo, sem icerraram os olhos, dulcificando sua m oleza com beatífico

pestanej ar. Pouco a pouco a dupla foi aum entando com a chegada dos outros

com panheiros: Dick, o taciturno preferido; Prince, cuj o lábio superior,

rasgado por um quati, deixava ver os dentes; e Isondú, de nom e indígena. Os

cinco fox terriers, estendidos e inebriados de bem -estar, dorm iram .

Ao cabo de um a hora ergueram a cabeça; do lado oposto do bizarro rancho

de dois andares — o inferior de barro e o superior de m adeira, com corredores

e varanda de chalé —, haviam sentido os passos de seu dono, que vinha

descendo a escada. Mister Jones, toalha ao om bro, deteve-se um m om ento no

canto do rancho e olhou o sol, j á alto. Tinha ainda o olhar baço e o lábio

pendente depois de seu solitário serão de uísque, m ais prolongado do que os

habituais.

Enquanto se lavava, os cachorros se aproxim aram e lhe cheiraram as botas,

abanando o rabo com preguiça. Com o as feras am estradas, os cães conhecem

o m enor indício de bebedeira de seu dono. Afastaram -se com lentidão, para se

estirar outra vez ao sol. Porém o calor crescente logo os fez abandonar a

claridade pela som bra dos corredores.

O dia avançava igual aos precedentes de todo esse m ês: seco , lím pido,

com 14 horas de sol calcinante que parecia conservar o céu em fusão e que

num instante gretava a terra esfaqueada em crostas esbranquiçadas. Mister Jones foi à chácara, contem plou o trabalho do dia anterior e retornou ao

rancho. Em toda essa m anhã, nada fez. Alm oçou e subiu para dorm ir a sesta.

Os peões voltaram às duas para a capina, não obstante a hora de fogo, pois as ervas não abandonavam o algodoal. Atrás deles foram os cachorros, m uito

am igos do cultivo desde o inverno passado, quando aprenderam a disputar

com os falcões os verm es brancos que o arado levantava. Cada cachorro se

j ogou sob um pé de algodão, acom panhando com seu arquej o os golpes

surdos da enxada.

Entretanto o calor crescia. Na paisagem silenciosa e cegante de sol, o ar

vibrava de todos os lados, m altratando a vista. A terra rem ovida exalava bafo

de forno, que os peões suportavam sobre a cabeça, envolta até as orelha; no

lenço flutuante, com o m utism o de seus trabalhos de chácara. Os cachorros

trocavam a todo m om ento de planta, à procura de som bra m ais fresca.

Estendiam -se de com prido, m as a fadiga os obrigava a sentarem -se nas patas

traseiras, para respirar m elhor.

Reverberava agora a sua frente um pequeno descam pado de argila que nem

se tentara arar. Ali, o cachorro viu de im ediato Mister Jones, sentado sobre um tronco, fitando-o fixam ente. Old se pôs de pé abanando o rabo. Os outros

tam bém se levantaram , m as eriçados.

— É o patrão — disse o cachorro, surpreendido pela atitude dos dem ais.

— Não, não é — replicou Dick.

Os quatros cães estavam reunidos, grunhindo surdam ente, sem tirar os

olhos de Mister Jones, que continuava im óvel, olhando-os. O cachorro, incrédulo, com eçou a avançar, m as Prince lhe m ostrou os dentes:

— Não é ele, é a Morte.

O cachorro se eriçou de m edo e retrocedeu para o grupo.

— O patrão está m orto? — perguntou ansioso. Os outros, sem responder,

puseram -se a ladrar com fúria, sem pre em atitude tem erosa. Mas j á Mister

Jones se desvanecia no ar ondulante.

Ao ouvir os latidos, os peões haviam erguido os olhos, sem nada divisar.

Viraram a cabeça para ver se algum cavalo havia entrado na chácara e outra

vez se curvaram .

Os fox terriers voltaram a passo rápido para o rancho. O cachorro, ainda eriçado, adiantava-se e retrocedia em curtos trotes nervosos e soube, pela

experiência de seus com panheiros, que quando um a coisa vai m orrer, a m orte

aparece antes.

— E com o sabem que esse que vim os não era o patrão vivo? —

perguntou.

— Porque não era ele — responderam -lhe displicentes.

Logo viria a Morte, e com ela a troca de dono, as m isérias, os pontapés!

Passaram o resto da tarde ao lado de seu patrão, som brios e alertas. Ao m enor

ruído grunhiam , sem saber em direção a quê.

Por fim , o sol sum iu por trás do negro palm eiral do arroio e, na calm a da

noite prateada, os cachorros se puseram em redor do rancho, em cuj o andar

superior Mister Jones recom eçava sua vigília de Uísque. À m eia-noite ouviram seus passos, em seguida, as botas caindo rio piso de tábuas; e a luz se apagou. Os cães então sentiram m ais a próxim a troca de dono e, sozinhos ao

pé da casa adorm ecida, com eçaram a chorar. Choravam em coro, soltando soluços convulsivos e secos, com o que m astigados, num uivo de desolação,

que a voz caçadora de Prince sustentava, enquanto os outros tornavam a

soluçar. O cachorro só podia ladrar. A noite avançava e os quatros cães m ais

velhos, agrupados à luz da lua, o focinho estendido e intum escido de lam entos

— bem alim entados e acariciados pelo dono que iam perder —, continuaram

chorando alto sua m iséria dom éstica.

Na m anhã seguinte Mister Jones foi pessoalm ente buscar as m ulas,

atrelou-as à capinadeira, e trabalhou até as nove. No entanto, não estava

satisfeito. Além de a terra nunca ter sido bem rastreada, as lâm inas não tinham fio e, com o passo rápido das m ulas, a capinadeira saltava. Levou-a de volta e afiou as relhas; m as um parafuso, em que j á havia notado um a falha ao

com prar a m áquina, se quebrou quando ele a m ontava. Mandou um peão à

oficina próxim a, recom endando-lhe cuidado com o cavalo, um bom anim al,

porém fogoso. Levantou a cabeça para o sol de derreter do m eio-dia e insistiu

para que não galopasse em nenhum m om ento. Alm oçou em seguida e subiu.

Os cães, que durante a m anhã não haviam se afastado de seu patrão um

segundo sequer, deixaram -se ficar pelos corredores.

A sesta pesava, agoniada de luz e silêncio. Todo o entorno estava brum oso

pela canícula. Ao redor do rancho a terra esbranquiçada do pátio ofuscava no

sol a pino, parecia deform ar-se em trêm ulo fervor, que adorm ecia os olhos

pestanej antes dos fox terriers.

— Não apareceu m ais — disse Milk.

Old. ao ouvir a palavra aparecer, levantou vivam ente as orelhas. Incitado

pela evocação, o cachorro se pôs de pé e latiu, buscando o quê. Depois de um tem po calou, entregando-se com seus com panheiros a sua defensiva caçada de

m oscas.

— Não veio m ais — acrescentou Isondú.

— Havia um a lagartixa sob a raiz — recordou pela prim eira vez Prince.

Um a galinha, de bico aberto e asas afastadas do corpo, cruzou o pátio

incandescente com seu pesado trote calorento. Prince a seguiu pregui-

çosam ente com os olhos e saltou de um golpe.

— Lá vem outra vez — gritou.

Pelo norte do pátio avançava sozinho o cavalo em que o peão havia ido.

Os cães se arquearam sobre as patas, ladrando com fúria contra a Morte, que

se aproxim ava. O cavalo vinha de cabeça baixa, aparentem ente indeciso sobre

que rum o devia seguir. Ao passar em frente ao rancho, deu alguns passos na

direção do poço e foi se desvanecendo progressivam ente na luz crua.

Mister Jones desceu; não tinha sono. Dispunha-se a continuar a m ontagem da capinadeira, quando viu chegar inesperadam ente o peão a cavalo. Apesar

de sua ordem , tinha de ter galopado para voltar a essa hora. Mal se viu livre, concluída sua m issão, o pobre cavalo, em cuj os arquej os era im possível contar

as palpitações, trem eu baixando a cabeça e caiu de lado. Mister Jones m andou o peão para a chácara, ainda de chapéu e rebenque, para não ter de despedi-lo, se continuasse a ouvir suas desculpas j esuíticas.

Porém os cães estavam contentes. A Morte, que buscava a seu dono, se

havia conform ado com o cavalo. Sentiam -se alegres, livres de preocupação, e

por isso dispunham -se a ir à chácara atrás do peão quando ouviram Mister

Jones que gritava para ele, pedindo-lhe o parafuso. Não havia parafuso: o

arm azém estava fechado, o encarregado dorm ia etc. Mister Jones, sem replicar, pegou o chapéu e saiu ele próprio em busca do utensílio. Resistia ao sol com o um peão e o passeio fazia m aravilhas contra seu m au hum or.

Os cães saíram com ele, m as se detiveram à som bra do prim eiro

algodoeiro; fazia calor dem ais. Dali, firm es sobre as patas, o cenho contraído e atento, viam distanciar-se o dono. Por fim o tem or da solidão foi m ais forte e, com agoniado trote, seguiram atrás dele. Mister Jones conseguiu seu parafuso e voltou. Para cortar cam inho, desde o início, evitando a poeirenta

curva da estrada, seguiu em linha reta para a sua chácara. Chegou ao riacho e

se em brenhou pelo m atagal, o diluviano m atagal de Saladito, que tem

crescido, secado e revivescido desde que existem ervas rasteiras no m undo,

sem conhecer fogo. A vegetação, arqueada em abóbada à altura de seu peito,

se entrelaça em blocos m aciços. A tarefa de atravessá-la j á seria m uito dura

com o dia fresco. Mister

Jones a atravessou, no entanto, bracej ando entre o m ato farfalhante e poeirento por causa do barro que deixavam as enchentes, assolado pela fadiga

e pelas acres exalações de nitrato.

Saiu por fim e se deteve na linha divisória; era porém im possível

perm anecer parado sob esse sol e com esse cansaço. Cam inhou de novo. Ao

calor abrasador que aum entava sem cessar fazia j á três dias, agregava-se

agora a sufocação do tem po im piedoso. O céu estava branco e não se sentia

um sopro de vento. O ar faltava, com angústia cardíaca que não perm itia

concluir a respiração.

Mister Jones se convenceu de que havia transposto seu lim ite de

resistência. Há algum tem po lhe golpeava os ouvidos o latej ar das carótidas.

Sentia-se zonzo, com o se de dentro da cabeça lhe em purrassem o crânio para cim a. Mareava-se olhando o pasto. Apressou a m archa para acabar com isso

de um a vez... E em seguida voltou a si e se achou num local diferente: havia

cam inhado uns cinqüenta m etros sem dar-se conta de nada. Olhou para trás e

a cabeça se perdeu em um a nova vertigem .

Enquanto isso os cachorros seguiam atrás dele, trotando com a língua toda

de fora. Às vezes, asfixiados, detinham -se à som bra de um esparto; sentavam -

se, precipitando seu arquej ar, para em seguida voltarem ao torm ento do sol.

Por fim , com o a casa j á estava próxim a, apressaram o trote.

Foi nesse m om ento que Old. que ia na frente, viu, para além do alam brado

da chácara. Mister Jones, vestido de branco, cam inhando na direção deles. O

cachorro, com súbita lem brança, voltou a cabeça para seu dono e o advertiu.

— A Morte, a Morte! — uivou.

Os outros haviam visto tam bém e ladravam eriçados e por um instante

acreditaram que ia se equivocar; porém , quando chegou a cem m etros, se

deteve, olhou o grupo com seus olhos celestes e seguiu em frente.

— Que o patrão não cam inhe ligeiro! — exclam ou Prince.

— Vai esbarrar nele! — uivaram todos.

Com efeito, a outra, após breve hesitação, havia avançado, não diretam ente

sobre eles com o antes, m as num a linha oblíqua e aparentem ente errônea, que

no entanto devia levá-la exatam ente ao encontro de Mister Jones. Os

cachorros com preenderam que desta vez tudo chegava ao fim , porque seu

dono continuava cam inhando no m esm o passo com o um autôm ato, sem se dar

conta de nada. A outra j á estava chegando. Os cães baixaram o rabo e correram de lado, ladrando. Passado um segundo, o esbarrão aconteceu. Mister Jones se deteve, girou sobre si m esm o e desabou.

Os peões, que o viram cair, o levaram apressados para o rancho, m as toda

a água foi inútil; m orreu sem voltar a si. Mister Moore, seu irm ão por parte de m ãe, chegou de Buenos Aires, passou um a hora na chácara, em quatro dias

liquidou tudo, voltando em seguida para o sul. Os índios dividiram entre si os cachorros, que viveram daí por diante m agros e sarnentos e iam toda noite

com fam into sigilo roubar espigas de m ilho nas chácaras alheias.

Tradução de Rubem Mauro Machado

Franz Kafka

O pesadelo do século xx foi anunciado (a alienação do ser humano em A m etam orfose , a arbitrariedade da justiça dos homens e dos deuses em O

castelo e O processo , e o próprio absurdo da vida nestes livros e em dezenas de contos) pela obra deste judeu checo de formação alemã (principalmente), ao mesmo tempo em que ele, com mais alguns autores, como Joyce. Proust e

Faulkner; mudava o rumo da literatura mundial. O conto que se vai ler — um dos últimos do autor, ainda nos seus 40 e poucos anos — mostra uma

mudança quase que estilística em relação a sua obra anterior; e tem reflexos de sua aproximação no fim da vida com sua cultura judaica de origem. Ou

não será esta fantástica trajetória de uma cantora do "povo dos ratos" uma alegoria da própria história e destino do povo judeu?

Josefina, a cantora ou o Povo dos Ratos

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NOSSA CANTORA SE CHAMA JOSEFINA. Quem não a ouviu não conhece o poder

do canta . Não há quem não se deixe arrebatar por seu canto, prova m aior de

seu valor um a vez que, em geral, nossa raça não aprecia a m úsica. A quietude

é nossa m úsica preferida; nossa vida é dura, não som os m ais capazes, m esm o quando tentam os nos livrar das preocupações do dia-a-dia, de nos elevar a

algo tão distante de nossa rotina visual quanto a m úsica. Mas não nos

lam entam os m uito, nem m esm o nos queixam os; um a certa astúcia prática, que

adm itim os nos ser praticam ente indispensável, é o que consideram os ser nossa

m aior virtude, e com um sorriso proveniente dessa m esm a astúcia

pretendem os nos consolar de todos os problem as, m esm o quando nos invade

— o que j am ais acontece — a falta da felicidade que talvez produza a m úsica.

Josefina é a exceção; ela am a a m úsica e sabe com o transm iti-la; ela é a única; com sua m ore, tam bém a m úsica — quem sabe por quanto tem po — desaparecera de nossas vidas.

Já m e perguntei m uitas vezes o que realm ente significa a sua m úsica.

Porque som os totalm ente não-m usicais; com o podem os então com preender o

canto de Josefina ou pelo m enos, j á que Josefina afirm a que não o fazem os.

pensar que o com preendem os? A resposta m ais sim ples seria que a beleza de

seu canto é tão grande que nem m esm o os m ais insensíveis podem ignorá-la,

m as essa resposta é insuficiente. Se realm ente assim fosse , seu canto deveria proporcionar a quem o ouve um a im ediata e duradoura sensação de algo

extraordinário, a sensação de que de sua

garganta ressoa algo que nunca ouvim os antes e nem m esm o tem os capacidade de ouvir, algo que som ente Josefina, e ninguém m ais, faz com que

sej am os capazes de ouvir. Na verdade, m inha opinião é outra, não é isso o que

sinto e nunca percebi que outros o sentissem . Entre am igos, adm itim os

claram ente que, com o canto, o canto de Josefina nada tem de extraordinário.

Para com eçar, é de canto que se trata? Apesar de nossa falta de

m usicalidade, tem os um a tradição de canto; em tem pos rem otos, nosso povo cantava; isso é m encionado em lendas e algum as canções chegaram a

sobreviver, ainda que atualm ente ninguém sej a capaz de cantá-las. Tem os

então um a idéia do que sej a o canto e é evidente que a arte de Josefina não

corresponde a tal idéia. Assim , é de canto que se trata? Não seria talvez um

sim ples chiado? E sabem os todos que o chiado é a real aptidão artística de

nosso povo, ou, m ais do que um a aptidão, nossa característica expressiva

vital. Todos nós chiam os, m as evidentem ente a ninguém ocorre que nosso

chiado sej a um a arte, chiam os sem pensar, até m esm o sem perceber, e há

m uitos entre nós que sequer sabem que chiar é um a de nossas características.

Então, se fosse verdade que Josefina não canta m as apenas chia e talvez,

com o parece pelo m enos a m im , seu chiado não ultrapasse os lim ites de um

chiado com um — talvez até sua força nem m esm o chegue a igualar nosso

chiado habitual, enquanto um sim ples lavrador pode chiar o dia inteiro sem se

cansar, m esm o fazendo o seu trabalho —; se tudo isso fosse verdade, seriam

então de im ediato refutadas as alegadas habilidades vocais de Josefina, o que

apenas traria à luz o verdadeiro enigm a a ser solucionado, a enorm e influência por ela exercida.

Porque, afinal, é um chiado o som que ela produz. Se nos pom os à escuta

bem longe dela, ou m elhor, se colocam os à prova nosso discernim ento

tentando identificar sua voz quando seu canto nos chega m isturado a outras

vozes, só conseguim os perceber, sem som bra de dúvida, um vulgar chiado

que, no m áxim o, difere dos outros por sua delicadeza ou sua fragilidade. Se,

entretanto, estam os diante dela, j á não ouvim os um m ero chiado; para

com preender sua arte é necessário não apenas ouvi-la m as tam bém vê-la.

Ainda que se tratasse de nosso habitual chiado cotidiano, haveria, antes de

tudo, esta peculiaridade a considerar, o fato de estarm os diante de alguém que se prepara solenem ente para executar um ato cotidiano. Quebrar um a noz não

é exatam ente um grande feito, portanto ninguém se atreveria a reunir um a

platéia a fim de entretê-la

com quebra-nozes. Mas se ainda assim alguém o faz e com isso consegue entre ter a platéia, então j á não se trata de sim plesm ente quebrar nozes. Ou

talvez se trate sim plesm ente de quebrar nozes, m as então descobrim os que

havíam os negligenciado por com pleto a arte de quebrar nozes porque nela

éram os m estres e que esse recém -chegado quebrador de nozes nos está

m ostrando pela prim eira vez sua verdadeira essência, chegando até a

considerar im portante aparentar ser m enos hábil em quebrar nozes do que a

m aioria de nós.

Talvez aconteça o m esm o com o canto de Josefina; adm iram os nela o que

não adm iram os em nós m esm os; a respeito disso, devo dizer, ela concorda

inteiram ente conosco. Eu estava presente, um a vez, quando alguém , com o

m uitas vezes acontece, referiu-se ao chiado popular que se ouvia por toda

parte, referência aliás bastante tím ida, m as para Josefina aquilo era m ais que o suficiente. Eu nunca tinha visto sorriso m ais sarcástico e arrogante do que o

seu naquele instante; ela, que aparenta ser a personificação da delicadeza,

destacando-se m esm o em m eio a nosso povo tão rico de tais tipos fem ininos,

chegou naquele m om ento a parecer realm ente vulgar; aliás, com sua extrem a

sensibilidade, ela im ediatam ente se deu conta do que fazia e se controlou. A

qualquer preço ela nega qualquer relação entre sua arte e o prosaico chiado.

Por aqueles cuj a opinião é contrária, sente apenas desprezo e, provavelm ente,

um ódio inconfesso. Não se trata de sim ples vaidade, porque tais opositores,

com os quais de certa form a concordo, com certeza não a adm iram m enos do

que a m ultidão, m as Josefina não se conform a com a sim ples adm iração, quer

ser adm irada exatam ente do m odo que determ ina, a sim ples adm iração a

deixa indiferente. E, quando nos sentam os diante dela, podem os com preendê-

la; a oposição só é possível à distância; quando se está diante dela, sabe-se: seus chiados não são chiados.

Com o chiar é um de nossos hábitos inconscientes, poder-se-ia supor que as

pessoas na platéia de Josefina tam bém chiariam ; sua arte faz com que nos

sintam os felizes e, quando estam os felizes, chiam os; m as sua platéia nunca

chia, ficam todos quietos com o ratos; com o se nos tornássem os parte da paz

que tanto desej am os, da qual nosso próprio chiado nos afastaria, nos calam os.

É seu canto que nos encanta ou será ainda m ais o solene silêncio que envolve

sua voz pequenina e frágil? Um a vez, enquanto Josefina cantava, um a

criaturinha com eçou inocentem ente a chiar tam bém . Ora, era exatam ente o

m esm o que Josefina nos fazia ouvir; diante de nós o som do chiado que,

apesar de todos os

ensaios, era ainda inseguro, e na platéia o involuntário chiado de um a criança; teria sido im possível distinguir a diferença; m as ainda assim saiam os e

assobiam os para calar o intruso, em bora na verdade isso não fosse necessário,

pois o m esm o teria im ediatam ente se retirado com m edo e vergonha,

enquanto Josefina lançava suas notas m ais triunfais e chegava a ficar fora de

si, abrindo os braços e esticando o pescoço até não poder m ais.

Ela é sem pre assim , qualquer ninharia, qualquer incidente Inesperado,

qualquer aborrecim ento, um estalo no assoalho, um ranger de dentes, um

defeito na ilum inação, tudo lhe serve de pretexto para ressaltar o efeito de seu canto; ela de algum m odo acredita que canta para ouvidos surdos; aprovação e

aplauso não lhe faltam , m as há m uito aprendeu a não esperar pela verdadeira

com preensão, do m odo com o a concebe. Por isso toda perturbação lhe é bem -

vinda; qualquer interferência externa que ofusque a pureza de seu canto, a ser superada com um pequeno esforço, até m esm o sem esforço algum , pelo

sim ples confronto, pode aj udar a acordar as m ultidões, a ensinar-lhes talvez

não a com preensão m as um respeito intim idado.

E, se os pequenos contratem pos lhe prestam tal serviço, o que não fazem

os grandes! Nossa vida é m uito agitada, cada novo dia nos traz surpresas,

apreensões, esperanças e terrores, tanto que seria im possível para um único

indivíduo suportá-la se não puder contar, dia e noite, com o apoio de seus

com panheiros; m as ainda assim tudo fica às vezes m uito difícil; com

freqüência, pelo m enos m il pares de om bros trem em sob um a carga na

verdade destinada a um só. Josefina, então. acredita que sua hora chegou.

Então se ergue, a delicada criatura, abalada por vibrações sobretudo debaixo

do osso esterno, a tal ponto que nos preocupam os com ela, com o se ela tivesse

concentrado toda a sua força em seu canto, com o se toda a energia tivesse

sido retirada de tudo nela que não sej a diretam ente destinado ao canto, quase

toda a força vital, com o se ela se tivesse desnudado, abandonado, entregue

apenas aos cuidados dos anj os da guarda, com o se então, estando ela tão

inteiram ente absorvida e vivendo apenas em seu canto, um sopro frio lançado sobre ela pudesse m atá-la.

Mas exatam ente quando ela assim se apresenta, nós que nos declaram os

seus oponentes costum am os dizer:

— Ela nem m esm o consegue chiar; tem que fazer um esforço tão terrível

para conseguir em itir um canto — não podem os cham ar aquilo de canto —

m as algo parecido com nosso habitual chiado com um .

Assim nos parece, m as tal im pressão, ainda que, com o eu j á disse, inevitável, é efêm era e fugaz. Mergulham os nós tam bém no sentim ento da

m ultidão que, corpos calorosam ente com prim idos uns contra os outros, a

escuta com a respiração suspensa.

E para reunir ao seu redor esse nosso povo que está quase sem pre com

pressa e correndo de um lado para outro por razões nem sem pre m uito claras.

Josefina praticam ente nada precisa fazer além de se levantar, cabeça j ogada

para trás, boca sem i-aberta, olhos voltados para cim a, na posição que revela

sua intenção de cantar. Ela pode fazer isso onde quiser, não é preciso que sej a um lugar visível de longe, qualquer cantinho escondido escolhido no capricho

do m om ento fará o m esm o efeito. A notícia de que ela vai cantar corre

im ediatam ente e logo para lá acorrem procissões inteiras. Mas às vezes, do

m esm o m odo, obstáculos aparecem . Josefina prefere cantar exatam ente

quando as coisas estão m ais agitadas, diversas preocupações e perigos nos

forçam então a seguir por cam inhos errados, nem com a m aior boa vontade do

m undo poderíam os nos reunir tão depressa quanto quer Josefina, e nessas oca-

siões ela fica lá, solene, por um bom tem po, à espera de um público suficiente

— então ela fica realm ente furiosa, sapateia, xinga de um m odo nada virginal, chega até a m order. Mas nem m esm o tal com portam ento m ancha sua

reputação; em vez de refrear um pouco suas exageradas exigências, as pessoas

se em penham em satisfazê-las; m ensageiros são enviados para convocar

novos ouvintes; ela é m antida na ignorância do que está sendo feito; pelas

estradas vizinhas podem ser vistas sentinelas lá postadas, acenando aos

recém -chegados para apressá-los; isso continua até que se consegue reunir

um a platéia razoavelm ente num erosa.

O que leva o povo a fazer tanto esforço por Josefina? Pergunta tão difícil

de responder quanto a que se referia ao canto de Josefina, à qual está

intim am ente ligada. Poderíam os suprim i-la e com binar am bas num a nova

pergunta, se seria possível garantir que por causa de seu canto as pessoas

eram tão incondicionalm ente devotadas a Josefina. Mas não é o caso; a

devoção incondicional é m uito pouco conhecida entre nós; som os um povo

que am a a astúcia acim a de tudo, sem qualquer m alícia, certam ente, e os

cochichos ingênuos e a tagarelice inocente, um a tagarelice superficial,

certam ente, m as gente desse tipo não se entrega à devoção incondicional, e

isso Josefina com certeza percebe, e é contra isso que luta com toda a força de sua frágil garganta. Ao fazer declarações tão generalizadas, é claro, não

deveríam os ir longe dem ais, nosso

povo é realm ente devotado a Josefina, só que não incondicionalm ente. Por exem plo, ninguém seria capaz de rir de Josefina. É preciso adm itir, há m uita

coisa em Josefina capaz de provocar o riso; e o riso em si m esm o nunca está

distante de nós; apesar de toda a m iséria de nossas vidas, o riso tranqüilo está sem pre, por assim dizer, nos rondando; m as de Josefina não rim os. Tive m uitas vezes a im pressão de que nosso povo interpreta sua relação com

Josefina desta m aneira, com o se ela, essa frágil criatura, precisando de

proteção e de certo m odo notável — notável pela sua força lírica, na opinião

dela —, fosse sua responsabilidade e com o se devessem cuidar dela; a razão

de tal sentim ento não é clara, m as o fato parece indiscutível. Mas o que é

responsabilidade de alguém não pode ser m otivo de riso; rir seria faltar ao

dever; a m aledicência m aior de que o m ais m aledicente entre nós é capaz em

relação a Josefina é dizer de vez em quando: "A visão de Josefina j á basta para fazer alguém parar de rir."

Assim cuida o povo de Josefina, com o cuidaria um pai da criança cuj a

m ãozinha — não se pode afirm ar se para pedir ou exigir — lhe é estendida.

Poder-se-ia pensar que nosso povo não é feito para desem penhar tais funções

paternas, m as na verdade ele as desem penha, pelo m enos nesse caso,

adm iravelm ente bem ; nenhum indivíduo poderia fazer o que a esse respeito é

capaz de fazer a totalidade do povo. Em verdade, a diferença em força entre o

povo e o indivíduo é tão enorm e que basta ao protegido ser envolvido pelo

calor de sua proxim idade para estar suficientem ente protegido. Com Josefina,

sem dúvida, ninguém se atreve a m encionar tais idéias. "Sua proteção não

vale um a velha canção", diz ela. Está bem , está bem , velha canção, pensam os nós. E além do m ais, seu protesto não é bem um a teim osia, é m ais um j eito

infantil de ser e um a gratidão infantil, enquanto o j eito de ser de um pai é não dar m uita atenção a isso. Mas há algo m ais por trás disso que não é tão fácil

de explicar através da relação entre o povo e Josefina. Josefina, é preciso que se diga, pensa exatam ente o contrário, acredita que é ela quem protege o

povo. Quando estam os num a crise política ou econôm ica, seu canto é nossa salvação, nada m enos do que isso, e, se não a fasta o m al, ao m enos nos dá

forças para enfrentá-la. Ela não o diz com essas palavras ou com quaisquer

outras, de qualquer m odo ela fala m uito pouco, fica calada entre os tagarelas, m as o que pensa j orra de seus olhos, e em sua boca fechada — poucos dentre

nós conseguem m anter a boca fechada. m as ela consegue — tudo é

perfeitam ente legível. Sem pre que

recebem os m ás notícias — e em m uitos dias as m ás notícias chegam um as atrás das outras, m entiras e m eias-verdades incluídas — ela de im ediato se

Continuar: parte 20 de 28