Os Pobres

Raul Brandão · Capítulo 8 de 26

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Os Pobres

VII Primavera


O Gabiru sentiu-se aquecido, como a terra quando vem a primavera. Ia crear! ia crear!... Aquelle chão que só o arado do sonho lavrára, eil-o atravessado por este veio turvo, que tudo remexe e transforma--a Vida. Consumira-o o sonho, tornando-o cambado e gasto, esguio e d'olhos perdidos de scisma...

Acordára emfim para a realidade e elle, que tinha passado a vida a revolver um brazido d'idéas, longe da terra e do seu lodo, amou a Mouca, raza como o chão. Todos se riam d'ella, magra e pallida, de pacho n'um olho, com um ar de mascara que vae gritar d'afflicção.

O seu ideal prendera-lhe os olhos tal'qual nol-os prende o lume, de fórma que ao erguel-os, déra de cara com a vida e perguntára: Que é isto? o mundo, a tempestade, tudo o que do cubiculo vejo, arfando ao sol, penetrado de ruidos e de sombras? Arvores acenando-me com os braços, vozes d'aguas fartando as terras imbebidas? Isto?... Tudo é luz, é uma chamma? E como tudo é bello!

Vêr ao pé arvores e montes, a esse esguio philosopho habituado a conviver com velhos cartapacios, parecia-lhe tão irrealisavel como subir ás estrellas. Nos alfarrabios fala-se de tudo menos da vida. Por isso acordando espantado, interrogava as ondas luminosas, os rios correndo, o extraordinario mar: «Vós que me quereis?» E no alto da mansarda sorria para a terra, pencudo e triste, esguio como um enterro.

--Porque a amas tu, philosopho?

--Sei lá! Amo-a. Dá-me vontade de chorar ao vel a. Amo os seus olhos tristes, o seu feitio do cão espancado. Amo-a, porque qualquer outra me desprezaria, envelhecido a sonhar. Ella é parecida commigo, talvez tenha pena de mim.

Todos somos constructores. De terra e de emoção andamos pelo mundo a amassar estatuas; de realidade e de sonho architectamos as figuras que se misturam na nossa vida. Ellas existem mais pelo que lhes damos de nós mesmos, do que pelo que na realidade são. De saudade, de sonho, de lodo e piedade, construira uma figurinha offendida e triste, andando no mundo aos tombos, sem pão e sem abrigo. A elle que passára a vida inteira a atear um brazido, cabia-lhe em sorte a Mouca, escarneo de ladrões e de soldados.

A casa das mulheres de dia é funebre, mas de noite, á luz do petroleo que esvoaça e deixa tudo n'uma meia tinta d'afflicção--candieiros partidos, luzes fumarentas--lembra um circo de desgraça, onde palhaçadas tragicas façam gargalhar e onde os ladrões e as mulheres enfarinhadas representem a serio vicios e crimes, com risos e choros á mistura, para que o publico que paga se possa rir. Vem um Velho, que sem falar gargalha toda a noite ao vel-as maltratadas, e o Morto, palido e soturno, com um laivo na cara. Tem as mãos osseas e enormes sempre frias e as mulheres temem-no pela sua crueldade, pelo seu sorriso tragico. Despreza a dor e os gritos. Sente-se que d'elle não ha a esperar piedade. Só a Mouca se atreve a resistir-lhe. Apparecem outros e toda a noite, se ouvem insultos, choros, gargalhadas.

Cada um alli arranca a mascara, transforma-se, fica um ser nu: as feições endurecem, o riso é atroz. O homem tem vontade de ouvir gritos. Paga, maltrata. É lodo, não ha que ter piedade. E as mulheres cantam sempre na mesma toada triste e soluçante... Nenhuma fala do passado, com medo ao escarneo, mas guardam-no para si, sem o esquecerem. A historia é identica, o eterno humus amassado em lagrimas. Ellas sabem que nasceram para soffrer e resignam-se: o esgoto é necessario. Tudo na vida se alimenta de gritos, como as raizes na terra se sustentam d'agua. Enganam nas e não se queixam. É o Fado. Não têem odio a quem as illudiu; ao contrario não esquecem esse fio de sonho espesinhado, que ainda sentem correr na vida, longiquo e triste, quasi a sumir-se de todo. O Fado as faz nascer e as traga. Triste é sempre a vida--lagrimas, pancadas, pão e assim as leva a sorte até á cova. Ouvi: esta seiva dolorida fará nascer um dia alguma mysteriosa Arvore.

São irmãs e unidas, sustentam-se na desgraça. Os amantes moem-nas e ellas humildam-se, tão triste é não ter ninguem a quem amar. E as desgraçadas, aquellas que, de confundidas com a lama, se não enxergam, são as que de todo se sacrificam por elles. Miseras creaturas, a quem se paga com injurias, quanto mais afundadas na desgraça e mais pobres, quanto mais perto da enfermaria e da morte, mais se fazem pequeninas para que as amem. Ficam dias sem pão para que os amantes o tenham. Tiram a ultima camisa do corpo para lhes dar de comer. As arroladas matam-se se as desilludirem. Sêres de ignominia só amam idealmente. Assim será o amor das hervas, dos sapos, das nascentes, de tudo o que na natureza é pequenino ou disforme. O Sonho para o esgoto é a unica realidade.


A casa é tragica, de tectos negros, sumidouros, corredores onde toda a noite agonisa uma luz de petroleo.

Ha mulheres tisicas, com tosse e a taboa do peito raza; ha-as que insultam quem entra para serem espancadas. A filha, do Gebo, Sofia, é alta, curva, cansada, e tão cheia de resignação que parece morta; outra, Luiza, a quem chamam a Asylada, quasi não fala. Olha soturna, com os negros cabellos violentos todos soltos e a physionomia empedrada de magoa.

Ao fundo divide a casa um corredor com cubiculos. Ás vezes, altas horas, tudo sereno, ouve-se na escuridão um ruido de choro suffocado.

Fóra vê se o Hospital e a rua negra, onde o enxurro humano sem cessar carreia detrictos, lagrimas, sonho. Especadas ás esquinas creaturas esperam... Parecem pedaços de noite destacados da propria noite. Fazem-lhe nicho as arcarias e arrancaram á treva para se embrulharem um farrapo do seu manto. Ás vezes da escuridão sae um perfil, mãos que querem arrepellar, mas logo tudo se some entre roupagens, que têm a rigidez tragica das estatuas. Só a mão, que o lampião illumina, fica decepada. Por vezes toda a figura baça e amolgada surge, para logo se anniquilar. A lama faz-lhe pedestal, passa o enxurro, e ellas nem se mexem, petreas: se choram são a Dor. Algumas, de viverem d'um passado de fogo, parecem mirradas, outras procuram mingoar, extinguir-se, não occupar logar na terra. E entretanto as mulheres vão cantando na mesma toada de catastrophe, que a noite traga, como farrapos de sonho espesinhado...


Todas as noites o Gabiru lá vae sentar-se a um canto a scismar. Olha a Mouca sem palavra e sonha. Conhecem-no os ladrões e os soldados e ellas vendo-o entrar, esgrouviado e triste exclamam:

--Lá vem o enguiço!

A Mouca ás risadas diz:

--Cá temos o enguiço!...

Mas em vão! Elle, com as enormes pernas dobradas, alheado, a penca cahida, sem vêr nem ouvir, pensa n'um amor ideal e monologa baixinho, entre as mulheres, os ladrões e os soldados:

«O que eu sonho! Eu que sou tão timido, ponho-me a falar e a scismar... E tanto scismo!... Troco tudo. Como é que tu gostas de mim, que nem te sei sorrir?

Ando a inventar uma lingua nova, que seja como a das fontes e a das arvores, quando desponta março, para te exprimir o que sinto. Todas as palavras me parecem mirradas e servidas.

Olha, dize-me: chamas-te Maria, não é?»

E entretanto os ladrões e as mulheres conversam:

--«Tu não te callarás, estupor!»

E uma tisica, magra, só com a pelle e o osso, explica:

--Uma mulher da vida... Que estão vocês a dizer das mulheres da vida? Eu inda queria vêr... Quando tu não tens pão quem t'o dá?

E o ladrão responde:

--És tu.

--O pão que eu ganho com o meu corpo com quem o parto?

--Commigo.

Mas outra do outro lado berra:

--A gente aqui é como os cães. Toca a rir, raparigas! Se uma mãe adivinhasse para o que cria aos seus peitos uma filha!...--E virada para um que entra:--Olha lá, ó coisa, pozeste-me o corpo negro n'outro dia... Tu imaginas que uma pessoa é de ferro?

--Abaixo as patas!

Uma mulher pergunta a um velho ladrão calvo, que a um canto só ri, com uma bocca disforme, escancarada na sombra:

--Tu que eras, ó velho?

Mas elle ri-se com a bocca aberta sahindo do escuro--só bocca--como a fauce desdentada d'um lobo, e um outro é que responde:

--O velho era lavrador. Olhae-lhe p'ras mãos. Cheira a terra e a pobre.

O philosopho a um canto scisma, olhando a Mouca entretida a falar com os soldados:

--«Tenho muito que te dizer--tanto!...--e não sei o que te hei-de dizer!...

Se me perguntam:--Tu que tens?--parece-me que acordo e que me puxam para a terra.

As arvores levam todo o inverno a sonhar inchadas e um dia acordam desfeitas em sonho. É o que lhes acontece.

Ora vem ahi março, já rebentaram novas fontes... Maria é um nome tão lindo!»

Falam aos grupos, n'um borborinho. Andam todas mal vestidas e com frio. Uma traz meias amarellas e outra, a quem a tosse desconjuncta, anda com um chale de seda que a não aquece.

--E tu que eras?

--Eu nada. Basta de conversas. Dás-me um beijo?

--Tira-te! A ti um beijo!... Antes queria morrer. Nem morta eras capaz de me dar um beijo. Com essa cara! Olhae p'ra elle, raparigas... Já viram alguem rir-se assim?

--Ó minha arrolada!

E deu-lhe um pontapé.

Entretanto duas mais afastadas conversam no escuro:

--N'esse dia tomo uma bebedeira, que ha-de dar que falar.

--Tu?

--Sim.

--A mim minha mãe é que era a capa. Encobria-me.

E ninguem se importa com o Gabiru, que tece, vae tecendo a sua teia, toda de emoção e de nuvens, encolhido a um canto, absorto, sem vêr nem ouvir:

--«Não sei bem o que sinto, que nunca me vi assim. Do meu coração sahe uma bica que rega as coisas mais seccas. E ouço! o que eu ouço!... Ao luar, lá em cima, ouço as montanhas em dialogo e falarem arvores e pedras!...»

E a tisica, voltada para o ladrão, diz-lhe:

--Que queres mais que te eu dê?

E elle, rindo:

--Ora! dinheiro...

--Nem p'ra pão já o tenho, quanto mais!... Já o não ganho. Quem me quer, se todos dizem que estou tisica? Estarei...

--Tu arranjas sempre.

--Aonde? os meus trapos estão no prego, este chale é emprestado por misericordia. O lenço que hontem trazia, vendi-o p'ra pagar á patroa. E amanhã entro para o Hospital.

Elle lentamente ergue-se para sahir. Quasi á porta murmura:

--Bem sei onde ir buscal-o.

Magra, desconjunctada, a tossir, a tisica exclama:

--Pois vae! vae!... Se outras te dão mais, vae!... Deixa-me!...

--Pois vou...

E logo ella, arrependida, torna:

--Espera. Dei-te tudo. Escuta... Tens sido como quê? como um filho meu...--E para as outras com um amargo sorriso:--Ó raparigas, quem ha ahi que me empreste algum dinheiro pelas almas?

Uma abaixa-se. D'entre a meia e o sapato tira uma moeda e a tisica, estendendo a mão:

--Já a não ganho com o meu corpo.

E beija as cruzes ao dinheiro.

--Toma.

Dá-lha e baixinho põe-se a pedir-lhe:

--Antes de eu morrer, promettes que me vaes vêr ao Hospital? Todos dizem que estou tisica. Não é por nada, mas vae-me custar morrer, sem vêr ninguem ao pé de mim... Quem hei-de eu vêr? Agora olha como te portas sósinho, ouviste? Inda te levam para o chelindró. Vocês em se pilhando á solta, adeus meu amigo!... Entro amanhã de manhã para o Hospital e na quinta é dia de visita. Não te esqueças de mim, ouviste? A gente prende-se e depois custa-lhe. Ora! que é que eu faço n'este mundo?.... Tu ha boccado disséste que bem sabias onde ir buscar o dinheiro. Era á Gorda, pois era? Podes dizer que eu bem sei. 'Stou prompta! Sou um cangalho, só sirvo de tropeço... Mas olha que fui sempre tua amiga. Já agora deixa-me acabar, p'ra lhe não dares esse gosto... Só te peço uma coisa. É que me vás vêr antes de eu ir p'ra a cova. P'ra a terra! Isto de a gente morrer sem mais nem menos até me parece exquisito... Que haverá no outro mundo?... Estou prompta. O medico hontem disse:--Estás prompta!--E atiram assim com a gente p'ra o cemiterio!... Eu ainda queria que me dissessem o que é que a gente cá vem fazer...

--Sei lá!

--Chorar. Só se fôr... E levar má vida.

Apertando-lhe as mãos, envergonhada:

--Então vê lá se te esqueces de mim.

--Ágora!...

E ella sorrindo com um sorrir triste e piedoso, que lhe illumina a bocca descorada como um reflexo de sol:

--Ágora! é o que vocês sabem dizer. Os homens são todos o mesmo, falam todos pela mesma bocca. A gente, coitada, prende-se, mas vem a morte e tudo leva comsigo.

O Gabiru, desenroscando as pernas, ergue-se e murmura de si para si:

«Que tempo este em que estamos. Parece feito de emoção... E tudo vae sonhando o seu sonho, que eu bem sei, bem n'o sinto nas arvores, nas pedras e na terra, até na terra mirrada... E eu tanto te queria dizer! tanto!... Olha, sempre te chamas Maria?»