Os Pobres

Raul Brandão · Capítulo 5 de 26

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Os Pobres

IV o Gabiru


No ultimo andar do predio móra o Gabiru, um solitario philosopho, esguio e triste como um enterro, armado da mais formidavel penca e da mais estranha sabedoria que Deus tem creado. Nunca viveu. Tudo que existe para lá do Hospital é para elle um grande mar ignorado e verde.

A realidade tambem não na entende: solitario e pencudo, da vida só se fartou com soffreguidão d'esta fonte que trasborda--o sonho. Tem o olhar extactico e, mettido na trapeira com ignobeis calhamaços, deixa correr as suas idéas á solta como os rios. Assim, metaphisico e pobre, de raras palavras, deitou-se a amar a Mouca, escarneo de soldados.

Nasceu para sonhar. Tem um suspiro d'allivio quando se fecha na mansarda e exclama:--Vou idear!...--Sabe palavras, theorias, cartapacios, e nunca viu ao pé os rios, os montes, nem as arvores. Remexe em idéas profundas e nunca encontrou a realidade.

É assim feliz e triste. Posto á janella do cubiculo sente correr o doirado jorro dos dias, scisma n'um portentoso sonho e ama. Entre as idéas que vae tecendo surge aquella figura tragica, que todo o dia ri com os ladrões e os soldados.

Mas elle ignora a vida. Alguma coisa porém existe de immaterial--emoção violeta e oiro--que o rodeia, quasi o toca e subito foge magoada e aos soluços. E fio a fio vae tecendo e constroe a sua theoria:


«Oh como eu tremo deante das arvores, do luar que corre branco e sem murmurio, da natureza esplendida!... Passo por doido e na verdade eu quasi grito de pavor deante do espantoso universo. Olhae a treva a escutar, o mysterio, a agua que brota sem ruido, a arvore de braços erguidos, o caliginoso mar...

O homem passa indifferente, mas eu sinto-me enlouquecer deante das coisas mais simples: d'um farrapo de nuvem como um sudario a rasto, d'um raio de luz em pó, todo d'oiro vivo, que entra no meu quarto. Nunca me pude habituar a olhar a natureza cara a cara. Isto! que significação tem isto? É um sonho, um grito de belleza, uma alma? Montes verdes e ethereos, constellações infinitas, nevoa que do mar nasce e sobre o mar vae, como um portentoso rolo, como um giganteo phantasma...

E não adquiro o habito. Todas as manhãs é como se pela vez primeira me achasse deante da monstruosa natura--verde, oiro, azul, como os seus rios, florestas, o mar a bramir e arvores que são sêres!... Por isso, sobretudo n'estes dias d'inverno, em que anda uma prodigiosa voz d'Adamastor a prégar á terra e ás coisas dilaceradas, eu me ponho, escondido e só, a discutir o enigma...


Devo, porém, notal-o: eu sou uma creatura singular. Ha até quem me supponha doido. Todos os que são apenas restos de sonhos vivos e despedaçados como eu, têm este feitio encolhido e transido. A esta hora da noite em que o universo parece deshabitado e em que até o rumor da penna no papel me faz medo, fecho-me sobre mim mesmo e escuto-me: alguma coisa, que não sou eu proprio, se põe então a murmurar baixinho. E eis-me perdido, no canto d'uma negra trapeira, encolhido e esguio, a sonhar em quê? N'esta belleza infinita, o universo igneo...

Deshabituei-me de falar, mas sonho. Ha vozes esplendidas dentro em mim; de mim brotam arvores, estatuas mutiladas, pedaços vivos de sonho. Oh eu creio que cada creatura é um composto d'almas de montes, de pedras, d'aguas, e creio tambem que existe uma mysteriosa ligação entre o homem e os mundos. Estou preso ás estrellas e aos cardos humildes.

Dizem rindo se eu passo encolhido e esguio:

--Lá vae o Gabiru!

Deixal-o dizer! Eu sou mais feliz do que aquelles que riem, e antes quero conviver com os desgraçados do que com os outros. D'elles tiro emoção para o meu sonho. Depois fecho-me n'esta trapeira alta, construida nos telhados e donde se vêem sêres admiraveis: labaredas verdes que se agitam--e são arvores; nuvens pousadas sobre a terra com oiro a flux ou então d'um violeta desfallecido--e são montes; e rôlos que correm vivos e fluidos--e são rios. Muito tempo levei a decifrar-lhes o nome. Nenhum dos desgraçados o sabia, porque o Hospital enorme entaipa a cidade, e essa vida humida, nóras, torrentes de detrictos, arvores, primaveras, gritos de sol, é desconhecida a todos os que soffrem lá em baixo, entre o granito resequido. Só outro pobre, o Pitta, da trapeira contigua vê como eu a prodigiosa natura--a Mãe.

Oh! e ha horas, quando uma neblina de sol cahe sobre as coisas estarrecidas, todas verdes, em que eu quasi toco o mysterio. Ouço as palavras da natura, n'uma linguagem gigantea, de que não comprehendo o sentido. Os sons são syllabas perdidas, umas d'oiro, outras verdes. O ar é fino, alma empoada de luar, as arvores desmaiam e os grandes montes pallidos, onde o sol deixou fuligem, que vae esmorecendo até ao vir da noite, falam baixinho, entontecidos. Mais timido é o murmurio dos fontes, como se não quizessem perturbar o espantoso dialogo.

É esta a melhor hora para se ouvir e em que eu quasi entendo as palavras. Ha coisas desfallecidas: arvores vão tombar cheias de emoção e de tudo o que existe sahe uma prodigiosa alma etherea e viva, que me envolve e toca, e que fala! que vae falar!...

Donde nasce esta belleza? d'onde vem tudo isto?... Se um homem cahe prostrado e grita as suas palavras igneas são apenas sons, que misturados a outros gritos de dor, formam palavras d'um monologo giganteo. E credes que existam montanhas, aguias, o mar, credel-o por ventura?.... São syllabas, são vozes da Terra que entra no dialogo. E mundos, estrellas, são palavras d'Aquelle que no infinito préga. É sempre a mesma força, a unica força que cria a belleza e o sonho, a força donde brota a Vida.

Eu tinha visto que a dor era sempre necessaria para se produzir alguma coisa de bello e de giganteo: para se agarrar um pedaço de sonho, que, apenas entrevisto, foge: para que nas nossas mãos esqualidas fique um farrapo d'essa figura de prodigio: para que a vida tenha um fim: para amar: para crear: para que alguma coisa de duradouro reste. N'um grito existe sempre viva uma porção de belleza. Da cova nascem coisas materiaes, fórmas, arvores, nuvens--da dor jorra a belleza absoluta.

E com que fim? dir-me-hão.

Imaginem um estatuario: para compor uma marmorea figura, para realizar um phantasma entrevisto, precisa de soffrer. Depois tritura o barro, petrifica a dor. E acaso se pergunta se o barro soffre? Assim Deus esmaga o barro que nós somos para construir alguma coisa de extraordinario: mundos, a Vida e a Morte, alma infinita que tudo atravessa.

De que precisam os poetas para fazer uma obra de genio? De dor. O soffrimento cria. Lembram-se das figuras de marmore, para sempre debruçadas sobre os tumulos antigos? O luar que vem pela rosacea gothica ao tocar-lhes dá-lhes uma vida de sonho, fal-as todas de poalha: estremecem, levantam vôo, dir-se-hia. Pois a dor, fio a fio, como o luar, dá vida ao sonho.

Para se crear é preciso soffrer-se. Hoje e sempre só a dor é que deu vida ás coisas inanimadas. Com um scopro e um tronco inerte faz-se uma obra admiravel, se o esculptor soffreu. Mais: com palavras, com sons perdidos, com immaterialidades, consegue-se este milagre: fazer rir, fazer sonhar, arrancar lagrimas a outras creaturas. Com as simples e seccas lettras do abecedario, um desgraçado com genio, mettido n'uma agua furtada, edifica uma coisa eterna, uma construcção mais solida e mais bella, do que se fosse arrancar os materiaes ao coração das montanhas.

O que é então a dor, milagre extraordinario, que consegue dar vida ás fragas? o que é esse assombroso fluido, que se communica, alma arrancada da propria alma e que se póde repartir como o pão? Nunca houve sob o sol creatura que soffresse da verdadeira dor cujo soffrimento não consolasse ou salvasse. Até as mais humildes, tal como arvores que ainda depois de mirradas, vão aquecer e allumiar os pobres.

A dôr dá a vida e não é a propria vida: cria, redime, obra prodigios e nada ha que se communique, que convença, que torne os homens irmãos, como ella... Para onde vão pois todos esses gritos, unidos n'um só grito? Visto que nada se perde, que é que se sustenta no infinito com essa enxurrada de lagrimas? Deus?

Por muito tempo escutei o ruido de vozes, de exasperos, de gritos de creaturas. Vinham da guerra, do Hospital, da miseria humana.

E d'esse mar espesinhado nasciam clarões, as nebulosas d'onde surgem mundos. Esse eterno rio de gritos, a correr desde que o homem existe, vae desaguar no infinito.

É que a dôr é a unica força que verdadeiramente cria e destroe: é a Força. Alimenta Deus e o limo. É um atlantico de fogo, é o espirito do universo. Cria claridades na alma dos desgraçados e faz nascer montanhas.


As arvores são emoções da terra.


Sonhae! soffrei!


Este mundo é talvez, como disse um philosopho desconhecido, uma gotta cahida d'um oceano infinito de belleza.

O universo é o sonho dolorido de Deus.


Nada se perde. A alma, as idéas e as emoções, fazem parte da força que faz florir o céo e os humildes pomares ignorados.


Eu colleciono a dor. Passo a vida a juntar farrapos d'esse manto em fogo.

O mundo é mysterioso, cheio de gritos. A cada passo um tumulo d'onde renasce uma amalgama, uma poeira verde, azul, doirada, cóva onde o Desconhecido remexe fórmas: o mar, as creaturas, as pedras, as tempestades, tudo vivo e a falar! O homem passa inconsciente mas eu tremo de pavor.

Estas pobres creaturas que vivem ao mesmo predio em que eu habito, ladrões, philosophos, coveiros, mulheres perdidas, são esmagadas para que alguma coisa se crie. Geram o mysterio, o mar bravo da dor, e as macieiras anãs. Sob a nossa vista indifferente a cada passo se cumpre um milagre: sol, agua a nascer, pinheiros bravios e vivos!...


Escutae... As coisas choram. N'esta noite de frio inverno--ventania--o que as coisas dirão!... Estão transidas--ha que dias chove!...--o vento despedaça-as e é sempre triste ouvir cahir tantas lagrimas. Por momentos quedam-se n'uma quietação, como se ficassem a escutar ou se pozessem a falar baixinho entre si...

Eu tremo e, para me esquecer, deito-me a escrever o meu livro A Arvore. É do lodo d'estas coisas humildes, que eu construo a minha estatua disforme... Ora uma tarde d'estas, imbebido nos meus pensamentos como n'um largo horisonte, não reparei que pela porta aberta alguem entrára. De fórma que tive um sobresalto, ao ouvir a meu lado n'uma voz pausada:

--Maquinações philosophicas, meu preclaro amigo...

--Hein?

Era o Pitta, mas o Pitta transfigurado e triste; o Pitta com dentes a menos e não sei que doloroso sorriso; o Pitta mais velho e mais sordido.

--Maquinações philosophicas meu preclaro amigo. A realidade é triste e amarga. Isto que d'aqui vê e não comprehende, arvores, montes e aguas, é no fundo tão revolvido e espesinhado como o lodo humano. Vem uma raiz e despedaça outra raiz, um braço que se crie empurra logo outro braço. Cada monte gera tanto odio como o coração do homem.

--Por ventura o amigo já viu arvores ao pé? Eu só vi a do saguão.

--Sim, conheço-as não só dos bons auctores, como de ter dormido á sua sombra movediça e fresca... São differentes: são vivas e enormes...

--E o mar?

--O mar, que d'aqui vê longinquo, todo do poeira verde, é tragico e feroz. Brame de furia, despedaça. É esverdeado e cheio de coleras... Só eu n'este momento lhe posso dar informações cathegoricas, reaes, absolutas, só eu, Pitta da Conceição, é que possuo no universo esse segredo temeroso.

--E a Mãe, a natureza?

--Uma amalgama, um cadinho cheio de gritos; fórmas revolvidas e trituradas, boccas que não pódem gritar. Veja...

Para lá do Hospital havia ainda tremulos de luz, fios esquecidos de sol emaranhados nas arvores, presos nos espinhos do monte. Dir-se-hia no emtanto que a vida redobrava: cresciam e murmuravam os pinheiros, gorgolejava a seiva ao trepar nos troncos. De certo a agua tinha um ruido mais vivo, e a terra, que o sol queimára, bebia-a toda d'um trago. As nóras cansadas pingavam ainda o seu ultimo suor, e da noite que descera irrompia um murmurio, vozes de arvores e rios e montanhas.

--Maquinações philosophicas, meu preclaro amigo...»