Os Pobres
XVIII Historia do Gebo
Para nada me importa a historia banal que esse homem gasto conta, abalado pela dor, a suar de afflicção... Morta a mulher, o lar ficou gelado. Por onde a Morte passa deixa muito tempo um frio de tumulo que transe os corações. A filha cahira a um canto sem palavra, e o Gebo poz-se a engordar e a chorar. Se tudo acabasse!... Mas não, era preciso tornar á mesma vida de desespero, pizar sempre o mesmo chão, atraz de esmolas para a sustentar. Nos dias, agora amiudados, de fome, já ninguem o esperava n'uma ancia como outrora:
--E então? então? Arranjaste?....
Sofia, essa pobre rapariga que da vida só conhecia afflicções, não tinha para o Gebo nem más palavras, nem queixas. Amava-o. Aquelle velho todo branco, gordo e chorão, era o seu pae. Escondia as lagrimas para não o affligir.
--Não se consumma! não se consumma!
--Que ha-de ser de ti se eu te falto, filha?
--Sempre havemos de viver. Ha gente mais pobre.
--Acho que não! acho que não!...
Depois da morte da mãe, ella o cuidava como quem cuida um filho. E o Gebo d'olhos postos em Sofia, embevecido, só sabia dizer, n'uma voz molhada de lagrimas:
--A minha filha! a minha pobre filha!...
Fazia falta a mulher, que o atirava para a vida, e muitos dias, sem um exaspero, sem um grito, embrulhado nos farrapos, quieto na enxerga, elle era como uma bola de gordura, d'onde corria um ruido de choro resignado e triste. Se sahia chegava se a todos, pedindo pão, com os cabellos em pé e um ar desorientado, de doido, que fazia rir. Perdera a timidez. Arrastava-se pelos amigos, que o achavam pittoresco, sempre a carpir desgraças, afflicto, cambado, exhausto, e cada vez mais pedinchão e mais gordo. Divertiam-se. Tinham-lhe posto essa alcunha--o Gebo, e perguntavam-lhe coisas obscenas para se rirem:
--Hein, dize lá, ó Gebo, então tu não tens uma filha?
E elle logo com um riso no olhar:
--Tenho, sim, uma filha, a minha filha...
--E que tal, hein, boas pernas, dize, boas pernas?
Humilde, cossado, á espera da esmola, sem forças para protestar, respondia com um sorriso e lagrimas á mistura:
--Boas pernas... boas pernas...
Vida negra, de cão, a que nem sequer resistir podia. Lá ia levado, enlameado e de rastros, a chorar. Illusões? já as não tinha, se illusões não servem senão para se soffrer. Quando viva, a mulher, era quem ainda arcava com a desgraça. Esbracejava. E juntos aquecia-os no mesmo lar, com pedaços de sonho, como quem, depois de repartir os ultimos farrapos, agazalha com a propria alma. Um sonho cahe por terra? Estreia-se outro sonho. Embrulhados no mesmo cobertor, ella, secca e nervosa, prégava-lhes que ainda podiam ser felizes, acalentava-os, e, juntos, todos tres illudidos ficavam n'aquella negrura e desespero, todos tres a scismar.
Mas agora nem isso... Enregelados não apellavam para a illusão. Elle chorava e Sofia, alheada e triste, cuidava, ambos sem palavras que dissessem. Oh seria tão bom morrer, descançar, dormir por uma vez sem mais acordar!... Mas, aguilhoado e ridiculo, aquelle homem picaro, apegava-se como um desesperado á vida. Ainda por cima o Gebo era cobarde: tinha um grande medo á morte.
Assim comiam o pão negro, ajuntando-lhe as lagrimas que choravam. Sob este solo que calcamos atraz, das nossas ambições, anda um humilde rio de lagrimas, um rio subterraneo de dor, de gritos, que se alastra e corre sem ruido...
Já não sahia a pedir todas as madrugadas. Agora cansava, mal podia andar; embrulhado e tiritando de frio, não se erguia da enxerga. Quereis crêr que estava mais gordo e mais picaro?
E como elle dormia! com fome, afflicto, tombava n'um somno de sepulchro, espapaçado, os cabellos todos brancos e a physionomia cansada e amargurada. Nunca se queixava; apenas repetia a miudo:
--Tenho pena de ter sido honrado...
Porque é que a desgraça se não cansava de o perseguir? Este aguilhão cravado no peito não lhe deixava um minuto de descanço: a sorte da filha. Nada lhe custava mais do que deixal-a no mundo ao desamparo.
--Tenho pena de ter sido honrado.
Para que serve ser bom? Os máos que conhecera, estavam ricos e escarneciam-no, os bons espesinhados. Creaturas a quem o Gebo salvára acolhiam-no com risos e só fizera ingratos.
O Gebo não entendia a vida.
--Ó Gebo! ó Gebo!--gritavam-lhe.
E elle meio tonto:
--Anh? anh?.... Se eu não tivesse sido honrado...
Ella era uma creaturinha triste, resignada e pallida. Falava pouco. Scismava. Da vida tudo ignorava, a não ser a historia dos seus: o lar apagado, a afflicção da mãe, o choro do pae ao voltar para casa sem pão. A velha dizia ás vezes más palavras ao Gebo, quando lhe perguntava anciosa:
--Arranjaste?
E elle a bufar, exclamava succumbido:
--Valha-me Deus, mulher!
N'esses dias aziagos ella dizia improperios á vida e ao Gebo, que nem sequer tinha forças para as sustentar a ambas.
--Olha os outros! olha os outros!
E elle atrapalhado:
--Mas que hei-de eu fazer, mulher?
--Vae roubal-o! vae roubal-o!...
Aquillo terminava por lagrimas e por o velho perguntar, perdido de fome, todo o dia na negra faina:
--E agora como ha-de ser?
A mãe tinha escondidos alguns vintens tirados á bocca e em torno do pão, esquecidos, lá se deitavam a falar da sua miseria. Ella dizia que não havia honra nem Deus--tudo no mundo era questão de dinheiro--oiro! Mas quantas vezes a velha repartia com os pobres o pão que lhes fazia falta!... O que a tornava amarga era a lucta exasperada com a má sorte.
De fórma que Sofia nada sabia da vida, e assim fôra crescendo sem queixas, resignada e pura. A Deus resava todas as noites pela vida do velho, pela saude d'aquelle sêr offegante e grotesco, que passava horas e horas a chorar.
--...O pão nosso de cada dia nos dae hoje...
--Filha que ha-de ser de ti!
Engordára, não se podia mexer. Faltavam-lhe de todo as forças. Extendia a mão na rua como os mendigos. Um dia foi preso, e expulsavam-n'o das lojas. A idêa da filha abandonada e com fome, allucinava-o:
--Eu já não posso mais! eu já não posso mais!...
Os dias passaram-se desesperados, identicos, ferozes. Todos os dias se pareciam, como a desgraça se assemelha á desgraça. Até que cahiu por terra e durante a noite inteira correu na mansarda aquelle ruido de lagrimas baixinho e monotono; toda a noite infinita o Gebo chorou prostrado. Quiz tentar, quiz ainda erguer-se, mas a desgraça havia-o emfim aniquilado: engordára-o, exhaurira-o e pregára-o para sempre a chorar n'um colxão de trapos.
Então Sofia, que um dia e uma noite o viu chorar sem tregoas, d'olhos postos n'ella; que outro dia e outra noite, sem gritos nem phrases, o viu todo branco e com fome, d'olhos aguados, no mesmo choro d'afflicção--alheada, mais alta, desceu as escadas e entrou em casa das prostitutas. Todas as tardes descia e tornava altas horas, com pão para o Gebo, que só lagrimejava prostrado, gordo e ridiculo, como uma bola de sebo--e de cabellos brancos estacados.
Oh este cantar das mulheres, esta toada em farrapos, é a voz dos desgraçados, dos pobres, dos que não têm pão, nem felicidade, nem arrimo na terra!...