Os Pobres

Raul Brandão · Capítulo 14 de 26

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Os Pobres

XIV o Escarneo


No ermo da noite o Gabiru vae tecendo a sua teia:

«A materia tambem sonha. N'essa mistura de homens e calháos, torrente que leva comsigo gritos e forças embravecidas, turbilhão arrasto pelo infinito fóra, não é indifferente ir ser pedra ou nuvem, nascer em macieira de quintal escondido e humilde ou na agua fulgindo d'uma fraga. Não é o acaso que reune ou afasta as moleculas, para as fundir n'outras fórmas. Ha corpos que a chimica não consegue ligar, porque os separa o odio, e outros que se reunem com soffreguidão.

Depois da morte a materia entra n'um mar. Rios acarretam as moleculas, até que se encontrem as que se devem juntar. O meu coração unido ao teu ha-de florir n'um simples espinheiro. Será n'um sitio pobre, mas alguem que passe n'esse abril, sentir-se-ha enternecido para sempre. O meu cerebro procurará o teu cerebro para vogarmos juntos na mansidão d'um rio. Ora em terra, ora em pedra buscar-te hei inconscientemente até dar comtigo e te fruir n'esse oceano bravio. Se tu fores fonte, irei topar-te e juntos apagaremos a sede a muita raiz esquecida.


Creaturas simples vão ser arvores que de anainhas a gente se sente commovida ao vel-as; os sonhadores, desfeitos em nuvens, andarão nos poentes do mar salgado, e as penedias, que o sol abraza, as penedias eternas, serão construidas do coração dos máus.


Eil-o o prodigio, o extraordinario milagre, esta vida que o Pitta me mostrou, arvores, nuvens, mar, este monstruoso referver de vida, egual nos montes e nos igneos mundos. E eu pertenço a este pelago como tu, passo os meus dias a contemplal-o!


Fico horas a aparar nas mãos o jorro do sol, olhando-o correr...


Por força existe uma razão superior senão o homem seria Deus, a consciencia do universo, o que se não comprehende: um deus reles, com miserias e gritos, sempre a escalar o infinito e sempre despedaçado pelos tombos.


Sê sempre bom, porque a bondade eternisa o amor.


Os crimes da materia pune-os a materia, os crimes do espirito pune-os o espirito.

Já ouviste que as arvores, o mar e as pedras, tivessem duvidas ou tremessem de pavor?


Vêr o sol, o universo, olhar, já é um prodigioso milagre. Mas tocar, comprehender calháos, almas, ter raizes em todas as estrellas, no céo e no oceano--é o portentoso sonho.


O homem arranca de si proprio universos de belleza.


O homem tem uma scentelha de prodigiosa alma que erra no grande mar de sonho que vae espraiar-se de estrella a estrella e tudo enche, doirado e enorme, e que em si consubstancia o genio, a belleza, o amor. Logo que a materia se dispersa, a immorredoura faisca volta ao atlantico donde tinha sahido.


Creamos cada um de nós um universo d'angustia ou de belleza, resequido ou de fogo. São felizes os bons portanto. Ha no emtanto creaturas que vivem sem suspeitarem que o universo existe.


Ás vezes nos mais simples factos encontra-se mysterio, como n'um punhado de desprezivel terra ha uma força escondida. Parece inerte. Esperae, porém, que março a toque!... Assim esse pobre desageitado, sempre timido e vestido de negro, tinha uma existencia feliz. Na trapeira passava as horas a scismar n'essa rapariga quasi tisica, com um ar de mascara que vae gritar d'afflicção. A Mouca foi amada como as princesas lendarias, e esses amores entre um philosopho esfaimado e uma mulher da vida, tinham não sei que enternecido interesse. Sobre os calhamaços do Gabiru alguem encontrou por vezes flores resequidas e n'essa primavera--caso unico--o vento trouxe por cima dos telhados duas borboletas que vieram noivar no saguão.

Elle era feliz. Que importa ter-se fome, se se ama? O amor e a fé não transformam o mundo até ás suas mais profundas raizes? Quem diz que se não podem construir com aquellas nuvens esparsas marmoreos palacios ou estrophes de luar?

As suas theorias, as suas idéas ia-as tecendo e olhando a Arvore. Pelo tronco corriam já estremeções: os gommos pareciam envernizados. Debruçado na trapeira, fascinado olhava-a de galhos despidos, ainda nua, mas--como direi?--vestida de emoção.

--Aquella Arvore...--murmurava elle scismatico.

Em baixo corria sempre a levada, lagrimas, gritos, gargalhadas, lama espesinhada que fala, lodo misturado de sonho, logo nascido, logo atirado a arena, gebos, prostitutas, monstros em cujo corpo de sapo habita a alma d'um deus. Porque? d'onde? De que ruinas se constroem estes seres que o destino marcou com dedadas tragicas? São feitos de pedaços d'estatuas e loucura. Falam em giria. Se riem são o Riso e é como se dentro d'elles andasse um doloroso palhaço aos saltos. Têm olhares de desespero e de odio. Eis um rio de gritos que já brotou para soffrer. É a Noite que anda a architectar de neblinas os seres destinados a arena? Este esgoto que passa, todo revolvido, pela natureza indifferente, é porventura necessario e fecundante?....

Todos os dias o Gabiru lá vae sentar-se olhando a Mouca entre os ladrões e os soldados, que á noite surgem para se rirem das lagrimas e dos gritos. Entre a turba sinistra vem sempre o Velho, callado e feroz, que só ri com uma bocca disforme, e o Morto, que fala com desprezo do soffrimento, das mulheres, da morte. O Gabiru, encolhido e triste, põe-se ao seu lado a olhar para a Mouca e vae tecendo o seu sonho. Toda a noite é uma mistura de gritos, de lagrimas e risos. Espancam as mulheres e quando ellas choram, cahidas, tornadas em escarneo, infimas como a terra, todos elles riem, com um anh! de satisfação por as fazerem soffrer.

Mas um d'elles d'essa noite repara no Gabiru, perdido a um canto sem vêr nem ouvir, ridiculo, esguio, alheado. Aponta-o e logo a turba emmudece, tragica. O Morto, pondo-lhe a larga mão no peito:

--Ó tu!

--Anh?

--Tu que andas aqui a fazer, ó Gabiru?

Logo o Velho escancara as fauces e todos os outros de repellão se erguem.

--Esperem... Tu não ouves?

--Anh?--diz elle, acordando estonteado.--Anh?

Então o Morto, que aperta sempre uma contra a outra as mãos geladas, como se tivesse vontade de maltratar, clama:

--Acho que é poeta! Dizem que é poeta!...

E em torno pega-se o riso feroz como um mar que sobe. As mulheres, que foram sempre maltratadas, chegam-se rôtas, tisicas, razas como o chão:

--É o poeta!

Ha olhares vesgos, de odio, lume que gela e arde. A maldade resurge. Vão-se rir, vão espesinhar. Logo o côro de gargalhadas e de gritos esturge.

--Olhae p'ra elle... Sabeis como lhe chamam? chamam-lhe o Gabiru.

--É o enguiço,--diz a Mouca.

--Olha lá--avança outro--onde mettes tu essas pernas?

--Anh?--pergunta o Gabiru sem entender ainda, tonto de sonho.

E fita os ladrões e as mulheres que formam roda. Esguio e transido de frio, dentro da sobrecasaca d'alpaca, pela primeira vez descobre, á luz do candieiro fumarento, a triste realidade, as mulheres da vida, os seres de descalabro, as caras dos ladrões. Ha physionomias de pavor e em semi-circulo, chegam-se para elle, de boccas escancaradas, só boccas. Ninguem se ri da dor physica como os pobres, que só admiram a força.

--Tu que andas aqui a fazer, ó Gabiru?

Elle espantado accorda:

--Anh?

Olha-os tonto, magro, esfaimado. Atravez da nevoa do sonho vê a realidade, e entre o circulo dos ladrões e das mulheres acha-se transido, timido e torto. Em redor os outros sentem que vão fazer mal. Vão-se rir do que é pobre e desageitado; vão-se rir do que não comprehendem--do sonho.

--Acho que é poeta!...

E os ladroes ululam. O riso é odio, o riso ignaro é odio da materia contra o espirito. Tem este nome--o escarneo. Ajuntam-se os ladrões e as mulheres para gargalharem d'aquelle sêr encolhido e tôrto.

Tem passado fome, tem vivido só com pão e scisma, preso a nuvens e de subito dá de cara com o escarneo. Ha quem se ria da dor, dos gritos, da tragedia. O mal faz rir? Faz. A dor faz rir? Faz. E a desgraça? Tambem.

Os ladrões e as mulheres têm vontade de espesinhar porque odeiam e não comprehendem o sonho. Arrastem para um tablado as peores ruinas e as mais amargas catastrophes que a multidão gargalha. Ponham a Fome a ulular que a materia ri. Ri de tudo o que é triste, pobre e torto--e do que é bello como os astros.

Resuma raiva o escarneo. N'este riso ha sempre gritos. Toca a gargalhar da Desgraça e da Dor; transformem em farça toda a tragedia humana.

--Diz que estás apaixonado?

O Gabiru calla-se.

--Tu não falas?... Ah tu não falas, enguiço?... É d'esta que tu gostas?

--É de mim? pergunta a tisica e tosse, rindo-se. É de mim?--Está ao pé da cova e espesinha, ri com odio, pelo que soffreu na vida. Cessam n'um momento os risos. O que sentem todos é vontade de calcar, de o tornar razo como elles...

--É por esta? Não? Então tu imaginas que ha alguem que goste de ti, meu desengonçado? Tu!... Vocês vêem-no? Nem sei que parece! Ahi vae o poeta!...

Dá-lhe um encontrão, atira-o e, entre risos e chufas, vae de mão em mão como um trapo. Todos têm vontade de o amachucar, de o tornarem mais reles, mais triste, mais pobre e transido, por não lhe poderem tirar o pão da sua vida--o sonho.

--Ahi vae o poeta!...

Até que o largam. De pé no meio da sala, com a sobrecasaca rôta, amolgado, exclama, não comprehendendo:

--Mas eu que fiz? eu que fiz?....--Vae rir? vae chorar?....

As gargalhadas redobram ao verem-no espantado e picaro. As boccas más clamam, cheias do gritos. O seu olhar afflicto procura a Mouca e vê-a rir-se tambem. Nos olhos reflecte-se-lhe o abysmo que descobre, a seccura dos outros, o sonho calcado e por terra, lagrimas e enternecido espanto.

--Foste tu! foste tu! Tu riste-te de mim!...--diz, apontando a Mouca.

Os ladroes gargalham e só ella se calla, a Mouca que tem rido sempre de tudo, da vida, da morte e até da propria desgraça.

--Ó Mouca! ó Mouca! olha o poeta!--gritam todos á uma.

--Que é? Deixem-me!...

E scisma.


Altas horas da noite... Saio, érro... A pensar em quê? Em coisas desligadas, sem nexo: na ambição, no odio, no exaspero. As ruas seguem monotonas, negras, enlameadas; d'um lado e d'outro as casas parecem construidas de tinta e de lama o ceo que se desfaz e gotteja. Que mundo este!... Na minha frente, reparo, caminha um velho... Não o distingo bem: é a sua sombra que eu vejo, comica e desengonçada e, ao passar pelo lampeão ia jurar que lhe notei cabellos brancos. Aquella sombra agita-se. Mexe os braços, com o chapeu na mão, fala sósinho, discute... Ás vezes tropeça, ergue-se e lá parte a prégar por entre a casaria e o ruido, debaixo da chuva miuda, lama negra que gotteja do céo.

Agora as ruellas apertam-se e já reparei, elle dobra, volta para traz, ha meia hora que gira no mesmo sitio, absorto. A chuva enlamea-lhe os cabellos e o seu braço gesticula n'um redemoinho.

Das alfurjas vae sahindo um ou outro noctivago, que o olha e passa indifferente, murmurando os seus exasperos ou as suas afflicções.

A cidade dil-a-hieis farta de tedio, afundando-se em lama. As nuvens baixas e disformes esfarrapam-se, collam-se aos predios. Os casarões alongam-se pesados e enormes, e onde a onde irrompe um golfão de luz. A sombra caminha, toma por ruellas funereas. Vae sósinha com o seu sonho ou a sua desgraça.

Trez horas n'uma torre. Ha um silencio cavo. Chove sempre a mesma chuva tenaz, com um ceo nublado e afflictivo. A cidade morta, sob o aguaceiro, espapaça-se na lama. Debaixo de cada um d'estes tectos escondem-se as mesmas miserias e os mesmos sonhos. Esta pedra abriga odios, crimes, escarneo. A sombra perde-se no escuro, torna, pára indecisa...

Que me importa o que os outros soffrem? Uma desgraça? O mundo está cheio de desgraçados. Um sonhador que se afunda? O mundo está farto de sonho. Este mesmo céo pesado, esfarrapado e tragico, tem abrigado sempre gritos e catastrophes. Que me importa o que elle soffre? Cada um por si, cada um com as suas lagrimas e os seus odios... O homem por vezes tropeça, cahe; depois lá se arrasta tropego.

Alvorece e, áquella primeira luz, a cidade parece desenterrada. A casaria resurge, immerge da treva, leprosa, cambada, gasta pelo odio, pelas ambições, pelos rancores...

Eil-o que se senta na terra, arrazado. Está enlameado, exhausto... Ao romper da manhã começa de novo a chover e elle chora.

Tanta lagrima! Um dia a desgraça, no outro a desgraça... Aquella sombra é a minha! aquelle homem sou eu!...