Os Pobres

Raul Brandão · Capítulo 15 de 26

Páginas do PDF

Os Pobres

XV Fala


Falo. De subito a minha vida surgiu-me como um d'esses dias d'inverno, pardos e monotonos, em que até o resquicio de sonho, que acaso coube em sorte ás pedras, se concentra adormecido. Seccou-me na bocca o riso que ia rir, e accudiram-me idéas em que nunca tinha reflectido... Alguem abala uma arvore até ás suas ultimas raizes. Arranca-a. O grito que a terra revolvida dá foi o meu grito.


Dêm-me a vida que devem viver os sêres e as coisas, a quem ninguem ensina a vida: que bebem a largos sorvos a existencia: em quem a vida corre desordenada e esplendida. Quero emfim isto: sêr: não fingir, mas sêr, não viver da tua vida, mas da minha propria vida.


O momento em que tu deparas, a sós, com a tua alma, que até ahi não tinhas encontrado, toca a loucura--mas depois ouves falar dentro em ti tudo que estava para sempre adormecido...

O que é isto--o escarneo? D'onde vem isto ao mundo? Riem por ventura as arvores? E os montes e os rios tambem riem? O escarneo torce o coração. Riram-se de mim! riram-se de mim!


Surraram-me, seccaram-me. O que eu sei é aprendido, vão, construido de palavras que não são minhas. Nada conheço da vida.


O homem só é feliz quando é elle. Os outros é que o empurram para a desgraça. O homem precisa de se encontrar.


Entras na vida e modelam-te: mestres, amigos, livros, amassam-te e modelam-te. Para quê? Para te fazerem feliz--dizem. Deixem-me ser desgraçado á minha vontade!...


Qualquer arvore incha, cresce e por tal fórma se liga á terra, pelas suas raizes, que a esfuranca como nem o ferro do arado a lavra. Só na minha vida não ha raizes. Amigos não os tenho nem os quero, e tudo me parece pardo e inutil.

Ainda a natureza me prende: fico horas a ver um charco e nunca me commovi como deante da arvore mais humilde.


A desgraça que eu tenho encontrado não é a desgraça, nem isto é a felicidade: quero tragar a vida amarga, mysteriosa, profunda, toda a vida; quero o meu quinhão tal como o têm os miserrimos bichos, os montes ignorados e os pobres...

Ou vou morrer sem ter vivido.


Só em pequeno é que eu senti correr em mim a vida. Guardo ainda o cheiro á essencia dos pinheiros mansos, que eu vi ha muitos annos, o cheiro a bravio que o matto orvalhado tinha de manhã, e que me fazia scismar na vida feliz dos lobos e dos bichos, que respiram o ar livre e são; que dormem sem cuidados nas tocas ou nas sombras fôfas; que matam sem remorsos.

O nosso quintal! No alto ha um muro branco, uma cancella, uma mouta de pinheiros sempre verdes e em dialogo com o mar. Antes d'entrar, voltae-vos... Que immensa serenidade sahe d'esta paizagem!... Mar azul e céo azul confundem-se: tudo é poeira azul. A luz palpita. Um risco d'areal: ao largo talvez um barco e longe montes sem habitações, cobertos de pinheiros, esburacados de sombras, solitarios, fazendo pensar n'uma vida selvagem, livre, n'um paiz sem leis.

Eis o quintal: uma horta com arvores. A principio lembra um labyrintho, uma labareda verde. As couves são do tamanho d'arvores e a agua sussurra, mina por toda a parte, em carreirinhos, imbebe á farta a terra negra e gorda. Bordam os canteiros renques d'alfazema, cravos, roseiras de flor singela, e ao fundo ha uma figueira grande, de folhas espalmadas e carnudas que dá uma sombra subterranea. Todo o quintal esfurancado pela agua resôa como um cortiço. Scintillações, rumores por toda a parte, por toda a parte a solidão.

Alli as arvores eram minhas amigas, as coisas conheciam-me e eu vivia d'uma vida convencida, forte, bravia...

Vieram depois as palavras, os mestres, os amigos, e eu nunca mais achei sabor á vida, até que acordei agora com este grito: Nunca vivi!...


Ponho-me a pensar: quantas vezes a felicidade e a desgraça não são verdadeiras, nem sentidas? Mascaras, só mascaras que afivelamos em determinadas occasiões, porque os auctores, os amigos, todo o trama complicado em que nos enredam, nos ensina:--Em tal situação tu serás feliz...

E nós realmente, por habito confessamos:--Sou feliz...

Mas examina-te... No fundo qualquer coisa de amargo remexe...


Fugi. Isolei-me. Não quiz amigos, quiz isto: ser só.

Para que me chamam o Gabiru? Mettido no ultimo andar do Predio, ponho-me a escutar tudo que dentro em mim fala. Esqueci a realidade, para conhecer a realidade. Deitei fóra o que aprendêra, combati commigo mesmo...


Agora vejo a desgraça! agora encontro a desgraça!...