Os Pobres

Raul Brandão · Capítulo 4 de 26

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Os Pobres

III as Mulheres


Ao vir a noite põem-se as prostitutas a cantar; entre as pedras resequidas e o ruido humano põem-se as prostitutas a cantar. São pobres, tristes, sêres de descalabro e piedade, lama que o homem géra de proposito para o goso. A treva leva e dispersa essa toada em farrapos, flocos de tristeza, que são como a alma, a afflicção da noite, a soluçar. Noite... Andae, vinde, remorsos, sonhos, soou a vossa hora! De blócos negros se constroe uma cidade. Ha ainda claridades esparsas, neblinas, que a Sombra callada, a tactear, de subito affoga sem rumor. E d'entre as meias portas surgem physionomias como só o remorso as cria: dirieis, de tristes e cansadas, que se vão diluir como as das mortas.

É a hora do gato pingado descer as escadas a passos cavos, do Gebo contar sempre a mesma historia desconnexa, dos pobres sahirem á procura de pão.

No escuro as mulheres falam para se esquecerem. Ás vezes somem-se as boccas e da treva rompe aquella voz de tragedia, como se a treva falasse, ao que d'um canto a escuridão responde:

--Ó tu!...

--Que é?

--Lembrou-me agora uma coisa.

--O quê?

--N'esta vida sabeis o que ha de peor? É nem a gente poder estar triste.

--Ahi começas tu...

Lento e lento, a noite que cahe as affoga e na escuridão sente-se pairar a Desgraça... Callam-se e depois a mesma voz começa:

--Vem um e quer que eu me ria, vem outro e quer-me triste. Quem entra que se lhe importa?

--E então?

--Nada. Mas inda assim olhae que é triste a gente não poder ao menos lembrar-se...

--De quê?

--Do que lá vae...

--Melhor é a gente não se lembrar do que passou.

--Tomára eu ser como morta--affirma outra voz.

--E tu?

--Eu? Tu falas p'ra mim?--pergunta uma magra surgindo do escuro.--Tomára eu não ter memoria, p'ra não tornar a vel-a, como quando a vi estirada no caixão, por vê de mim...

--Quem?

--Á minha mãe.

--Ah!...

--Pois é...--diz a primeira voz--N'esta vida a gente não se deve lembrar. Toca a cantar raparigas... Cantae!

E as mulheres continuam a cantar, n'uma toada esfarrapada, d'uma tristeza immensa. Depois calam-se e uma torna a falar. Dizem sempre as mesmas palavras, mais para fazerem ruido do que para que as ouçam. Ha uma que ri de tudo. É magra, pallida e gasta. Traz um pacho negro n'um olho e ri sempre, com um ar de mascara, de si, das outras, de todas as suas desgraças.

--Eu sou a Mouca--começa ella ás risadas.--A minha mãe deitou-me fóra era eu pequenina, e eu, se tivesse uma filha, botava-a á roda p'ra ganhar a vida. Tomaram conta de mim os ladrões, cresci na rua e a minha cama eram as pedras dos portaes... Tomaram conta de mim os ladrões. Vidas! vidas!...

--Tu não te calarás!

--Em pequena andei todo um inverno com uma camisa rôta. Até foi bom, agora não sinto o frio. Depois moeram-me. Vocês não querem saber? Calcavam-me aos pés por nada. Aprendi. Muito custa a levar a vida... Aos treze annos um ladrão desfructou-me. Era um velho careca que parecia um S. Pedro. Chamavam-lhe o Lesma, vocês hão-de ter ouvido falar. A gente só aprende á sua custa. Vidas! vidas!... Eu sou feita de terra, da terra que todo o mundo piza, mas tambem já tenho calcado. Elle ha desgraças peores, eu sei que ha. Já vi gente morrer por não ter uma codea p'ra a bocca. Olhae que eu conheço a desgraça. Tenho-a encarado... Faz mal quem se abaixa... Um dia a gente põe-se a gostar d'um homem e inda é peor. Que se lhe hade fazer? Todas temos de nos sujeitar, todas somos o mesmo, as ricas e as que não tem uma sêde d'agua. O peor é quando se começa a gostar d'um homem...

Vocês sabem o que é o amor? O amor é cada qual ser como um cão. É a gente ser menos que nada e elles serem tudo. Ahi têm o que é o amor. Elle a bater-me e eu a dizer cá commigo:--Tu que me bates é porque gostas de mim...--Ahi têm o que é o amor, é a gente ser menos que um cão... Eu escrava, elle o senhor. Acabou-se! todas temos de soffrer.

--Todas. Não ha nada peor do que nascer mulher.

--Eu nunca tive sorte. Que me importava a mim que elle me batesse? Punha-me a olhar p'r'as nodoas do meu corpo e a dizer cá por dentro:--Este é meu amigo.--Um dia partiu-me um braço, mas a gente é como os cães, que só gostam d'um dono que lhes dê pontapés. O peor foi que elle botou-me ao desprezo. Os homens são todos o mesmo... Vidas! vidas! Um dia disse-me:--Estou farto de ti.--E sabeis? nunca mais falou p'ra mim. Ai, quanto mais se pena p'r'amor d'um homem mais se lhe vem a querer!--Mas deixa-me gostar de ti...--Vae elle disse-me:--Fóra!--E eu fiquei passada. O meu comer eram lagrimas. E bebia a toda a hora para atormentar uma dor que se me pozera no coração. Mas elle vem! elle torna!... Qual!...

--Como se chamava?

--Que te importa? Não é bom allumiar os mortos. Deixae estar quem está quieto. Ah, se vós o visseis morto como eu vi!... Vêr morto um corpo que se teve nos braços é como vêr no caixão um filho. Por mais que a gente grite não lhe dá vida! Trazia sempre no coração a mesma dôr... Vae uma vez vesti-me socegada e fria como defunta e fui ter com elle.

--A que vens? disse elle. E eu disse-lhe:--A servir-te.--E ri-me.--Já sei que me não podes vêr, acabou-se! não me importo. O que te peço é que me deixes servir-vos. Venho ser vossa creada.--Elle poz-se a rir. Depois veio ella e eu puz-me a rir tambem.--Venho ser vossa moça, quanto me daes de soldada?--Elles cochicharam.--Onde vocês pozerem os pés ponho eu a bocca. Aqui estou, aqui me têm.--Elles riram-se de mim.--Anda escrava!--Vae eu e ria-me.--Que quereis de mim?--Rua, escrava!--e eu ia-me embora. Um dia peguei e dei-lhes rosalgar a comer. Comeram-no. Então, quando o vi morto, puz-me a rir, a rir, que era uma dor do coração. Levaram-me em braços. Na cadeia chamaram-me a perguntas e eu só me ria. Já me doia a cara de tanto rir e via-o sempre morto a meu lado.--Porque o mataste? E eu desatava a rir-me... Aqui têm, cada qual cumpre o seu fado. Todas temos de nos sujeitar e de soffrer. Eu sou a Mouca--terminou ás risadas.


Aquella porta aberta para a tragedia e para o escarneo fica em frente do Hospital. As mulheres dos ladrões e dos soldados moram ao pé da dor. As paredes são negras e humidas: mãos ao roçarem-nas deram-lhes afflicção, gritos abalaram-nas. Acredital-as-hieis construidas do mesmo sonho e da mesma pedra de que é feita a vida.

Lá dentro, a uma luz enfumaçada e oleosa, as mulheres expõem-se como farrapos d'adelo ou mascaras: direis retratos feitos a tresuar d'afflicção, tanto desespero resumam as boccas que gargalham. Duas á porta espreitam, uma scisma com a physionomia petrificada, d'imbebida em magoa, outra canta, e a patroa gorda e desdentada, calcula o ganho. É dura, espremida, de feições crueis e coleras subitas. Ás vezes prega-lhes horas e horas:

--O amor sabe a zinagre. É peor do que a morte... Não no queiram, ouviram?

--A senhora fala! fala!... Bem triste é achar-se a gente sósinha no mundo,--diz uma derreada e tisica.

--E ter o quê? Escarneo, só se fõr...--accrescenta outra.

--Eu de mim, se fosse sósinha no mundo, cuido que me affogava.

--Pois andae! andae!--diz a patroa--Fartae-vos de desgraça. É só fartar. Que sois vós? Menos que terra... Ireis d'este mundo fartas de desgraças. Antes morrer no rio!

--Eu cá--diz outra--tenho o corpo negro, mas que m'importa? Se o meu me deixasse antes queria acabar... Pela minha salvação que ia direitinha ao rio.

--Depois queixae-vos...--ameaça a velha.--Sereis peor do que arroladas.

--Nem as pancadas d'elle me doem, e mais o meu faz-me comer terra,--affiança outra.

--A gente não tem mais ninguem no mundo. Quem quer saber d'uma desinfeliz?

--A gente não tem pae nem mãe, nem folego vivo.

--Se choro, os outros riem-se. Quem entra e sahe que se importa?

--E ninguem n'este mundo póde chorar sósinho...

--Eu cá--diz a Mouca--eu cá estou tão habituada a que me dêm dinheiro, que se o meu amigo fica commigo, escondo moedas no lençol... Quando acordo e as encontro, parece que me pagaram.

As outras riem-se com risos que destoam, e a patroa prega-lhes:

--Vocês nem sequer vêm... O que aconteceu á Maria? Affogou-se e o amante ri. Helia lá foi p'ra o Hospital. É morta. E todas morrem se se deixam ter coração.

--Ás vezes mais vale morrer.

--Morrer!...--exclama a tisica.

--Eu já me matei... E depois? Foi quando me vi sósinha no mundo. Elle tinha-me desprezado. Peguei e bebi um quarteirão de agua-ardente com lumes. Pensaes que estou arrependida? Ah, se a senhora soubesse o que se sente!... Quando me vieram dizer--foi a Mouca--que o meu amigo estava com outra, foi como se tornasse a resurgir deante de mim a mãe que eu matei á força de lagrimas, por me vêr na triste vida. Nem podia gritar. Tinham-me seccado os gritos aqui--na bocca... Sahi, andei...

A porta d'ella estava fechada e alli fiquei até de manhã ao frio. Os homens que passavam diziam o que lhes parecia, porque ninguem ideia o que cada um traz dentro do coração. Scismei, passei a noite ora a scismar, ora a chorar. N'esse dia poz-me elle o corpo negro, como este lenço que trago na cabeça. Olhae... Ainda tenho as marcas. Estas só na cova me passam.--Farta-te, se queres, mas não me deixes...--Vae elle e disse:--Fica-te p'ra ahi, estupor, que te não posso vêr.--Vejam vocês!... Se isto é assim no mundo, se a gente cá vem p'ra isto, p'ra nos deitarem fóra, e não ha mais nada, era melhor morrer... E antes tivesse morrido p'ra não ter mais que penar...

--O Hospital está á espera, raparigas--diz a patroa d'um canto.

--Ouvi dizer que os estudantes cortam a gente p'ra estudar?...

--E a mim que me importa?

--Eu já ouvi a um... E o que elles se riem uns com os outros!...

--Depois da morte a gente não sente.

--Quem é pobre acho que vae sempre p'ra elles aprenderem a estudar.

--Pois a mim é o que me entristece... O meu pobre corpo ser retalhadinho!

--Lá está o Hospital á espera, raparigas!...

--Tu não te calarás!

Riem-se, uma fica scismatica e a patroa continua:

--Filhas inda podeis enriquecer. O que é preciso é muita experiencia da vida. Olhae que na terra só ha dor e vaidade. Não ha nada peor do que envelhecer pobre... O que elles se riem! Se lhes pedis pão, dão-vos escarneo. E põem-se a rir até do nosso odio, ouviram?

--Quem nasce p'ra esta vida mais lhe valia morrer.

--E tu p'ra que vieste?

--Foi o meu fado.

E a velha continua:

--Haveis de querer comer e tereis...

--O quê? diz uma anciosa.

--Pedras.

--Acabou-se! diz outra.

E fica scismatica.

--Mais nos valia morrer.

--Mais valia.

--Andae, andae! Lá está o Hospital á espera. Lá tendes todas uma enxerga e o lençol. E o cemiterio póde sempre com gente. Aquelle nunca se farta.

--Tem sempre fome,--murmura do lado uma sorrindo.

--Pois tem,--affiança a companheira.

--Deixal-o ter!--exclama a Mouca.

--Envelhecei pobres e vereis! vós vereis!...--ameaça a patroa pondo-se de pé.

--O quê senhora?

--Para sempre, traz-se para sempre uma pedra no coração sem se poder arrancar.

--Então para que nasce a gente? Só para soffrer?--pergunta Sofia.

--Só. A este mundo vem-se para soffrer.

--Ah!...

--Enganae-os. Tratae do ganho, de juntar, de juntar muito dinheiro. O resto tudo é fingido...

Mas uma, triste e magra, a tisica:

--N'esta vida todos nos rebaixam e a gente precisa de encontrar alguem, um pobre como a gente...

--Inda que seja um ladrão...--interrompe Luiza.

--Ao pé de quem se não sinta desprezada.

--Metteu-se a gente na triste vida e nunca mais pode sahir--affiança outra.--Olhae que me lembro... Cada qual aqui é menos que nada, é como a terra...


Callam-se e scismam ou passam as longas noites de inverno a cantar, em frente do Hospital tragico. De dia pela porta escancarada vê-se o banco do hospital. Nada mais poído do que essas miseras taboas de pinho seccas, gastas, destingidas, e nada tambem mais commovente. Vivem, estremecem. Ha coisas que á força de serem tocadas por mãos humanas, ganham alma, criam physionomia. Antes da morte alli tombaram os corpos que, como uma pua, a dor brocou. Aquellas taboas mirradas, de se sentirem a toda a hora roçadas pelas mãos de naufragos (todos os que entram no Hospital alli passam, santos, poetas, pobres com a bocca cheia de gritos) começaram uma outra existencia.

Foi a arvore arrancada á terra para amparar os pobres. É ainda mais bella do que levantada no topo do solitario monte, ao nevão, ao sol, á tempestade, ás estrellas. Eil-a emfim sómente erguida para a dôr. Taboas que já deram sombra na floresta, imbebidas de seiva e de azul, vieram servir de encosto a miseros: tem nodoas de sangue, dedadas d'afflicção e suor de desgraçados que se entranhou na madeira.