Os Pobres

Raul Brandão · Capítulo 20 de 26

Páginas do PDF

Os Pobres

XX a Mouca


Noite de chuva, d'esta chuva miuda que enlameia e entristece como uma angustia. Na rua Sofia passa com o chale de rastro. Ha um clarão de tochas á porta. Vae sahir um enterro. Morreu o pequeno do gato pingado. Trouxe-a para casa uma noite, a essa creança que encontrou cahida na rua. Um rapaz de dez annos, abandonado e com uma pneumonia... Que lhe quer o gato pingado fazer, não me dirão?...


Estava a chorar. Deu-lhe para chorar sobre o caixão d'um garoto, que não lhe é nada. Elle que não tem onde cahir morto, chora o pão que tiraria á propria bocca para o dar a outro.


Morreu-lhe hontem. É decerto um gato pingado a menos.

Primeiros farrapos da noite a esvoaçar, d'essa noite de primavera negra, em que todos se põem a contar baixinho os seus sonhos á escuridão.

--Deitam flôr á noite...--diz o Sabio.

A treva entupe os buracos das ruellas. As tochas tem debaixo da chuva sinistros clarões d'incendio. Vae uma balburdia na rua e o redemoinho da noite traga o bairro acastellado. Eis o enterro. Vão mulheres perdidas e a Rata, a tossir, vae o Astronomo, e na frente d'um caixão de passarito, comboiando a turba, lá marcha o gato pingado, de brandão em punho, chapeo alto e casaca a esvoaçar... A que irão elles deitar fogo na noite tragica, de lama e chuva? Mulheres perdidas, ralé, o velho tisico... Na volta vêm decerto a cahir de bebados.


Todos os dias desapparece alguma das mulheres levada para o Hospital. Mas cantam, cantam sempre. Sofia sorri resignada. Na vida que lhe resta? O Gebo a sustentar.

Todas as manhãs sobe á mansarda onde o velho dorme, levando-lhe pão, que elle mastiga com um nó na garganta. Olha-a com lagrimas e só diz:

--Filha!

A existencia é como um circo. Não ha piedade.


Dizem-me: a que recanto espantoso vae a natureza buscar esta ignea bondade? A que esconderijo, a que veio occulto? De que força é que se constroe, de que chimica é que se forma a bondade profunda, inabalavel, inextinguivel, que sustenta e ampára os pobres?...

As prostitutas que dantes odiavam Sofia, chamam-lhe agora menina, depois que a vem sua egual. Repartem com ella o pão que ganham, e ao vel-a tombada, chorando, ficam afflictas, pois não sabem consolal-a.

--Mais lhe valia deitar-se a afogar,--diz uma.

--Isto aqui é uma vida de cão.

--Olhae que ter fome!... Sempre a fome é negra,--conclue outra.


Só a Mouca a odeia. Ella que foi sempre a mais maltratada, maltrata agora. Se podesse, pizal-a-hia aos pés. Ella, de quem todos se riram com escarneo, cuspida pelos soldados, queria emfim fazer soffrer. Não havia ser mais degradado, não porque fosse má, mas porque era como todas as creaturas filhas da terra, que o homem cria para o gozo.

A principio todas faziam soffrer Sofia. Tinham vontade de a rebaixar, de a verem chorar lagrimas d'afflicção, para a igualarem.

--Cá temos a menina!

--Quem no diria? Não falava a ninguem a mosquinha morta! É para aprender!

--Deixae-a!

--Deixae-a o que? Ella é como as outras.

--Deixae a pobre, que não faz senão chorar. Vocês não tem coração.

--Tambem a gente soffre.


Riam-se, empurravam-n'a para os peores tratos, mas pouco e pouco, deante d'aquella dôr silenciosa e profunda, callaram-se e pozeram-se a amal-a. Tratavam-n'a por menina. Uma queria penteal-a, outra ajudal-a. Só a Mouca lhe tinha o mesmo odio.

--Olha lá, ó parida!

--É commigo que fala?

--Faz-te tola! Acaba lá com esses ares de senhora. Já estou farta. Tu aqui és tanto como eu, sabes?

--Sei--diz Sofia.

--Tu conheces-me? Olha se me conheces, senão ensino-te quem sou. Acabou-se! embirro com isso. Pareces uma sonsinha... Tu falas?

Sofia olha-a silenciosa.

--Ah, tu não falas? Olhas p'ra mim com cara d'escarneo? Não quero que olhes p'ra mim, não quero, ouviste? Ai, não falas? Toma!

E deu-lhe uma bofetada.

--E agora? agora? Quizeste, ahi tens. Toma. Tu aqui és uma desgraçada como eu. Aqui não ha meninas. E agora? agora? pensas que és mais do que as outras?

--Sou mais desgraçada.

E poz-se a soluçar.

Mas de subito a Mouca clamou:

--Perdão! perdoe-me, menina! Eu era por inveja. Saiba: não a podia ver por inveja. Fui sempre assim. Não me fique com raiva. Eu dizia cá commigo: Então os outros tem mãe e eu nunca a tive? Os outros são infelizes um dia, mas eu fui infeliz desde que nasci. Sou filha da terra. Crearam me os ladrões, já deve ter ouvido. Tenho sido muito má p'ra a menina, peço-lhe que me perdoe. Era por inveja. Peço-lhe que se ria p'ra mim, para me mostrar que não está zangada commigo. É bôa! eu dizia cá por dentro: Hei-de pôl-a tão raza como eu. Que é ella mais do que eu? Sabe porque lhe tinha esta osga? Por vêr que a menina era infeliz e bôa p'ra todos. Eu sou assim, sou como um cão. Peço-lhe uma coisa... Bata-me para eu acreditar que é minha amiga.