Os Pobres
XXIII a Outra Primavera
Os dias passaram-se e a Arvore era um collosso.
N'essa noite o Sabio encontrou o Pitta desvairado, com o chale-manta ao vento.
--Pitta você tem um ar estranho.
E o Pitta, transido, murmurou:
--Você deve tel-os visto. Nascem, irrompem da treva...
O outro, cheio de serenidade, affiançou:
--Foi a primavera.
--A primavera isto! O amigo desvaira. Como a primavera? Elles só apparecem de noite, criam-se nos saguões. Deparo com creaturas que nunca vi. Uns são lama viva, outros que são?.... Homem, dir-se-hia que todos os sonhos tomaram corpo.
--Tomaram. Tenho pensado n'isso. Pois foi a primavera. Você tem visto um charco, lama e agua revolvida? Vem a primavera e aquillo transforma-se. O mesmo sôpro que faz bater mais alto o coração dos montes, cria n'aquelle palmo negro a vida--murmurios, gritos, um arrancar de mysterio. A primavera faz isto; transforma o humus inerte n'uma vida furiosa. Eu já vi...
--Então...
--Então, Pitta, você medite, é isto... Esta lama que se cria nos saguões, homens, gebos, emparedados, poz se com estas noites a crear... Veio d'alli--e apontou para os lados do Hospital--um effluvio, o mesmo que faz nascer as arvores, e elles estremeceram abalados.
--A noite tem realmente qualquer coisa que afflige... Oppressão, mysterio...
--Emoção que foi até ás tocas onde elles criam. Pozeram-se a sonhar e crearam. Ora escute... Ouve um fremito, o escachoar d'um riachão, gritos?.... E, como se a gente pozesse o ouvido d'encontro á terra...
--Crearam?
--Crearam. Isto que nós vemos não são elles, são apparições. É o que elles sonharam. Os sonhos dos desgraçados tomaram corpo. Só nós é que não podemos sonhar.
--Nós não, nunca mais... Os sonhos dos desgraçados tomaram emfim corpo!
--Tanto sonharam! tanto sonharam!...
--Mas foi a Noite então?....
--A Noite. Uma primavera negra, feita de emoção e de noite. Elles só deitam flôr á noite e só podem sonhar á noite.
--E você como soube?
--Meditei.
--São afinal, é certo, sonhos. Uns parecem estatuas vivas, outros são disformes...
--Eu tenho visto. É uma amalgama singular. Creaturas de fogo, outras de crime. Dil-as-hieis revolvidas, homens e sonhos misturados, um rio que tudo acarrete...
--O que elles sonhariam para chegar a materializar!
--De cada canto surgem. É inesperado e imprevisto. E dos sitios mais negros é que elles irrompem em braza. Hontem vi um que parecia uma flôr---branco, todo branco ou de luar gelado...
--E falam!
--Falam, pregam! Ouve-lhe os gritos?
Era na realidade uma mistura de sonho e vida. O Predio tremido até aos alicerces, queria elle proprio crear. O rio subterraneo estrupia coleras, engrossára, rompera para a luz; o esgoto acossado carreava oiro, como as poças que reflectem um poente. O Gabiru prégava aos desgraçados. O Pitta mostrando-lhe ao pé os montes, as arvores, a natureza, desvairara-o. Viam-n'o curvar-se sobre os miseros e falar-lhes baixo, precipitado, ronco. Deixava-os a scismar d'olhos febris.
As suas palavras ardiam. E subterraneo, incansavel, ferreo, minava. Ia á procura de odios para as atiçar. Prégava-lhes, apontando o Hospital:
--É alli! alli!...
Falava dos montes e das aguas, mas confundia tudo: aquella manhã de março esbraseara-o.
--É uma coisa esplendida! É ao mesmo tempo a frescura e o fogo, um incendio verde que pacifica e estanca toda a sêde. Aguas a rolar e arvores esgalhadas falando... Sabeis o que são arvores? Ha alli montanhas de riqueza, thesouros... Deitae abaixo! deitae-o abaixo!...
Todos os desesperados conheciam essa figura que surdia com a noite, esguio como um enterro.
--Ha montes todos d'oiro erguidos para o céo, ha oiro nas arvores, oiro nos montes e no tojo... Todas d'oiro são as aguas a rolar. Ha seda viva e arvores... Ha arvores! E tantas vozes a falar. Tudo fala! tudo fala!
E os pobres, os transidos, os homens encardidos de desgraça, escutavam-n'o e punham-se a falar sósinhos. As palavras do Gabiru empoeiravam-n'os d'inquietação e tristeza, e a noite era como um brazido que alguem remexe. Ouvira-se primeiro o murmurio, a zoada do sonho affastado; ouvia-se agora rolar como um rio que incha e trasborda.
--Ha oiro! para lá ha oiro!...
E era como se do globo tivesse irrompido uma torrente de sonho. O Predio parecia abalado. Todo aquelle terriço de creaturas o esbrazeara.
--Tanto sonharam! tanto sonharam!...
Pobres que fariam senão deitar as mãos tabidas a um outro universo que elles presentiam igneo?
Á força de sonhar materialisaram o sonho.
Eil-os gastos e ardidos. Depois de dar luz, um toro converte-se em cinza, e no rescaldo todos os toros se confundem. Não conheciam da vida senão a dôr. Gesticulavam, olhavam absorvidos, perdidos de emoção, como quem descobre nova terra e deitavam-se a falar uns para os outros sem se entenderem. Nem sequer se ouviam. Cada um narrava a sua ancia, dizia a historia pobre ou doirada da sua alma. Pelos sotãos, nas mansardas e nos saguões, encontrava-se aquella levada scismatica, tolhida de sonhar. De uns para os outros ia o Gabiru, falando com palavras que os doloriam e lhes faziam precipitar as illusões represas... É verdade afinal que ha arvores e fontes todas d'oiro? Porque é que eu nasci para soffrer? Porque é que existem vidas, como a de certas sementes, que não chegam a ter força para germinar?
Tocados d'essa primavera negra, de que falára o sabio, juntavam-se para se queixar e cada um, á força de sonhar, creára uma figura, desdobrava-se. Dos seres tragicos, rotos, calcados, nascera uma apparição d'uma belleza estranha; d'outros nevoa, phantasmas. Todos traziam o seu companheiro--e havia homens acompanhado por arvores, pelo odio, pelo riso, por monstros...
--Eil-os que deitam flôr! eil-os que deitam flôr!...
E na noite elles botavam realmente flôr, e de tanto falarem nas arvores e nos montes até as pedras cheiravam a terra arada.
Sonhos tristes, mealhas, almas que nem sequer podiam exhalar illusões, sonho de sébes, de calháos, de tudo que no planeta se cria de ignorado e humilimo.