Os Pobres
V Historia do Gebo
Por fim, na entrada d'esse frio e rigoroso inverno, já tinha vendido tudo, até o oiro da filha. De envelhecido e gasto, de picaro e gordo, dil-o-heis um trapo que se deita fóra ou um doido de cabellos brancos estacados, a falar sosinho. Toda a gente o conhecia.
--Ó Gebo!
--Anh?
A mulher, que fôra sempre bôa, azedára com a pobreza. Nervosa e secca passava horas e horas a chorar, atirada para um canto, ou prégava dias inteiros: monologos cheios de gritos, de sonho espesinhado, todos lavados em lagrimas. Se tudo acabasse!... Mas nem a Morte escuta os desgraçados, nem o tempo se apréssa; vae moendo na sua mó, consumindo-as, as tristezas, as afflicções e o pão negro. O desespero d'aquella creatura cahia em improperios sobre a cabeça do Gebo espantado, a suar, e a quem nem a propria desgraça conseguia impedernir o coração.
Todos os dias eram da mesma fórma eguaes, sombrios e tristes. Isto de chorar um dia e outro dia, dá a impressão de que chove e se não sahe do inverno.
--Déste, emprestáste a toda a gente. E agora? agora?--dizia-lhe a mulher--Riem-se de ti inda por cima, e ninguem te ajuda. Morremos á fome.
--É o mesmo, mulher, é o mesmo. Paciencia...
--O peor é de nós, de mim e da pequena.
--Pois é o que me afflige, que por mim quem me déra morrer!
--Não fosses tolo! olha os teus amigos como trepam.
--Ó mulher, mas que hei-de eu fazer? Tu não me dirás o que hei-de fazer?
--Roubal-o! roubal-o!...
E eram palavras negras, afflicções sem conto. Ás vezes esqueciam-se e ainda palravam em torno d'uma esperança, a qual, agora nascida, logo a desgraça calcava. A mais humilde poeira d'illusão bastava, para que todos tres, gelados pela desventura, se sentassem na enxerga, promptos a edificar os mais altos castellos e esquecidos de tudo. Só a filha, Sofia, era sempre a mesma, sem queixas, magra e linda, e com um sorriso tão triste que lembrava certas horas em que ha sol e chuva misturados. E como o Gebo lhe queria! Pelo seu destino que seria amargo, por a ver rapar miserias, e por ser o unico sêr no globo, que lhe não dizia más palavras.
Lá ia indo pela vida fóra, cossado e com um ar de afflicção que fazia rir. Parecia amachucado: as marcas dos encontrões nunca mais lhe sahiam.
A mulher passava os seus dias n'uma lucta desesperada com a desgraça, arrancando-lhe os ultimos trapos, disputando-os um a um até vel-os desfeitos. Ao fim do dia ouviam-se os passos vagarosos do velho nas escadas e a sua respiração--anh! anh!--suffocada.
--Ahi vem elle...--murmurava a mulher.
O Gebo entrava e ella logo, soffrega, morta por desabafar o que todo o dia ruminára:
--Até que vieste, homem! E então? Conta. Então ha alguma esperança?
--Não ha nada, mulher.
E sentava-se arrazado.
--Tambem ninguem faz caso de ti. Que és tu? Sabes o que tu és?
--Eu não, o quê?
--Um ente inutil. Não ha ninguem que se não ria de ti, das tuas desgraças, das tolices que tens feito... Que é do dinheiro que tanto nos custou a poupar?
--Eu sei lá agora do dinheiro. Não falemos mais n'isso... O que lá vae, lá vae.
--Pois é o que tu queres... Mas hei de falar, has-de-me ouvir. Déste cabo de tudo, davas dinheiro a toda a gente... Tinhas-me a mim, tinhas a pequena. Reparasses, era a tua obrigação.
--Ó mulher, ora tu que todos os dias vens com a mesma sécca. Não me basta a minha afflicção!... De que serve isso agora?
--De que serve? Serve de muito!
Á noite, á luz do petroleo, o Gebo fazia escriptas com um cobertor pelos hombros e as mãos geladas de frio. A filha, sumida na sombra, compunha-lhe a roupa, e a mulher ralhava, passeando na sala. Batia a luz do candieiro na cara oleosa do Gebo, no nariz enorme, nos seus olhos tristes, e, do outro lado da meza, só se viam illuminadas as mãos de Sofia, toda a noite trabalhando sem ruido e sem descanço.
--Já tive uma lettra tão linda e agora... Os desgostos cansam a gente.
--É de ti! é de ti! Outros têem penas, desgostos, cahem e tornam a levantar-se...--dizia-lhe a mulher.
--Têem sorte, é o que é. Para tudo é preciso sorte.--E curvado sobre os livros contando, murmurava mais baixo:--E vão sete--...
--Sorte! sorte! A culpa é tua que não tens energia nenhuma. Procura! Deixas-te ficar espapaçado p'ra ahi... Tu o que queres é comer e dormir.
--Ó mulher!...--E erguia o carão afflicto, onde batia a claridade de chapa. Viam-se-lhe os olhos aguados.--Ó mulher, a gente tambem perde as forças... Sempre a desgraça! sempre a desgraça!...
--Tudo nos corre torto!
--Mas...
--Tudo! Deixa-me!...
E desatava a chorar. Então o Gebo, afflicto, a mão curta e gorda ronronando no papel, mentia para lhe dar animo.
--Qualquer dia entro ahi n'um negocio, tu verás... Não te afflijas.--E vão cinco...--Tambem ha-de chegar o nosso S. Miguel. A desgraça ha-de-se cansar de nos perseguir.
E o pão que trazia para casa era quasi uma esmola. Mas tanto mentia, que chegava elle proprio a illudir-se.
A velha reanimava-se. E outra vez passeava na sala, embrulhada no chale rapado.
--Não, que é preciso sahirmos d'este atoleiro.
--Agora vae, agora vae, tu verás. Ando ahi com um negocio... Sabes tu que mais?... Deixa-me trabalhar.
Ia a mãe deitar-se e Sofia, até ahi silenciosa, dizia erguendo-se:
--Pae não se afflija.
--Eu não, filha, eu não. Aquillo é genio, coitada. Ella tem razão, tem soffrido muito. Vae tu tambem p'ra cama. Dá cá um beijo... Assim. Eu cá fico com a escripta.
--Muito boa noite.
Sósinho o Gebo scismava muito tempo, olhando a luz. Depois, horas e horas, ouvia-se a penna correr do papel, parar, tornar...--E vão cinco, e vão sete... noves fóra nada...--até que a vista se lhe toldava, e a deshoras, embrulhado no cobertor, tombava sobre a meza, soluçando:
--Não posso! não posso mais! E tinha uma lettra tão linda!...
Na propria desgraça cahem por vezes resquicios de sol. Assim houve tempo em que respiraram. Tinham-lhe dado escriptas, mas ia-lhe faltando a luz dos olhos, e a vida d'expedientes tornára-se mais aziaga. Achavam-no ridiculo, ninguem o tomava a serio, a esse homem gordo e chorão, que vivia com esta pedra a gastal-o--a sorte da filha. Escondido da mulher empenhára a casinha onde moravam, e passava as noites trabalhando nos livros.
Quasi sempre ao deitar falavam da filha.
--É o que nos vale a nossa filhinha.
--Sempre nos dá mais animo.
--É tão boa, tão nossa amiga!...
A velha trabalhava, ruminava projectos desconnexos para enriquecerem; a roupa andava defendida e cuidada até ás ultimas. Luziam as coisas e quasi não comiam para poupar, sobretudo ella que tudo guardava para o Gebo e para a filha.
--Ó homem, mas então? Toda a gente, se arranja e tu estás sempre na cepa torta!
--Deixa estar, mulher! As coisas não vão como tu pensas.
--Ora não vão! não vão!...
Era ella afinal que o empurrava, áquelle ser gordo e inutil. Fortalecia-o.
--Por vossa causa é que eu lucto,--dizia elle sempre.
Ás vezes visitava-os uma parenta afastada, a tia Anninhas e as duas mulheres punham-se a falar das pessoas conhecidas. Ha creaturas que só apparecem quando a desgraça entra n'uma casa. Era uma velha, de chale preto sem pello, e que vivia de aproveitar os restos da miseria. Trazia novidades e com que alegria a mulher do Gebo, ao ouvir-lhe dizer, que pessoas suas conhecidas tambem eram infelizes, tinha pena dos que soffriam como ella!
--Ó Anninhas ouvi dizer que a Desideria está por baixo, coitada!...
--Tem tudo empenhado, filha. Passa muita fome.
E ella n'uma ancia:
--Fome? passa fome? Coitada!
--Mesmo fome, filha.
--Que me dizes?
--É isto que te digo. E tu como vaes com a tua vida?
--Agora, graças a Deus, vamos indo. As coisas vão-se remediando.
Entretanto o Gebo ia para uma loja conhecida onde se juntavam os negociantes fallidos, os professores sem discipulos, os burguezes desesperados por terem perdido tudo. Falavam muito, procuravam illudir-se. Enganavam-se uns aos outros, não por mentirem, mas para tornarem mais visivel a sua aspiração, o sonho que traziam escondido. Discutiam imaginarias emprezas, negocios impossiveis.
--Oh como eu sou feliz!...--dizia o Gebo--Agora tenho ahi um logar...
Nem sequer o escutavam e, se um sahia, diziam os outros:
--Cuido que está cada vez peor.
--Um homem que teve um credito na praça!
--Tem a fome á porta.
--Coitado! Eu agora é que trago entre mãos um negocio...
Porque é que elles não trabalham? Porque a quebra, as afflicções, a ruina, tolheram-nos para sempre. Perderam a energia e só sonham em se tornar ricos. Vivem illudidos e tombam no sepulchro gastos e com a scisma em maravilhosos lucros. E não têm porventura razão? Não vão amanhã quinhoar d'essa larga e mysteriosa empreza--a Morte?