Os Pobres
XXIV a Morte
Oh eu já não sei bem, pobre de mim, o que é realidade e o que é sonho. Por vezes me parece que o proprio Hospital se põe a falar pela sua bocca de pedra. Em noites de luar, quando tudo para lá se envolve em algido luar, eil-o que enternecido conta sonhos rôtos e tristes, o sonho dos pobres, dos cegos das estradas, coisas humildes e no entanto vivas, como os fiosinhos d'agua, que apenas convivem com uma lapa e um farrapo de musgo, esquecidos no globo, mas que exhalam uma frescura enorme...
Encontraram hontem o Astronomo estendido na latrina. Ultimamente ia-lhe no craneo um ruido extranho. Constellações de fogo, mundos e coisas terrenas confundiam-se. O olhar absorto, tremendo de frio dentro do casaco d'alpaca, olhava o céo n'um extasi. De que tombára? De fome ou d'um sonho? Consummira-se como um tronco n'um lar.
Deram com elle cahido na taboa molhada d'aquella ignobil latrina de casa d'hospedes. Nos seus olhos, mesmo mortos, ficou luciluzindo uma poeira d'espanto. Morrera surprehendendo algum mundo desconhecido ou descobrindo outro sonho tão vivo, que, de vêl-o, cahira fulminado? Em torno era o asco: as paredes com dedadas, versos obscenos e legendas prodigiosas. Havia um desenho allegorico, um viva a republica! outro, morra a D. Antonia! contas e um soneto bocagiano pela mão do Pitta--e entre aquella lama o Astronomo morto era como a claridade das constellações, que luzem até no fundo das latrinas.
Um rio, dir-se-hia um rio, com coisas tragicas á tona. Só a Arvore cresce e á medida que ella cria forças a Mouca se consomme. A tosse desconjuncta-a. Creou-a a desgraça humana, construiu-a do lodo das ruas e d'abjecção. Mas a dôr vem e purifica: é como o fogo que torna um galho apodrecido, atirado ao lume, num ramo do oiro mais fulgido. Magra, alta, luziam-lhe os olhos d'um brilho estranho. Riem-se os soldados, batem-lhe os ladrões e só ella não ri como outr'ora. Se a fazem soffrer, a Mouca chora. Um dia ao vêr que batiam em Sofia diz-lhe:
--E se nós nos matassemos?
--Calla-te! calla-te!
--Sabe a menina? Eu não sei que tenho, já não me importo de viver. Perdi o amor á vida. Olhe para o meu corpo. Já não tenho senão ossos. Porque será que a gente muda? Diga-me: é p'ra amor do velho que se não quer matar?
--É, está callada.
--Eu cá sou assim, que quer? Ás vezes, quando não tenho com quem falar, ponho-me a falar sosinha. Antigamente não me lembravam coisas que me vem agora á idéa. Esta vida sempre é mais negra, não é?
--É.
--Pois é, eu bem digo e mais não conheci outra. Sempre a gente nasce com cada sina! Olhe quando eu estiver p'ra morrer, não me deixe ir p'ra o Hospital.
--Não fales...
--Porquê? Eu bem sei como estou. Dá-se-me bem! A gente tem de morrer, não é? Então quanto mais depressa melhor...
Uma noite que os ladrões espancaram Sofia, a Mouca poz-se a olhal-a como um cão ao dono. Por fim disse-lhe:
--Vamos ambas ao rio quer? Eu não me importo de morrer. Mais vale acabar. E a menina? Que ando eu a fazer n'este mundo? Se a menina tem medo da agua, eu deito-me primeiro ao rio.
--Não, deixa! não te afflijas!...
--Eu, sim! Bem m'importo!...
De noite muitas vezes tinha afflicções, suffocada. Agarrada a Sofia:
--Ó valha-me!...
No entanto falava de curar-se, quando tornasse o sol. Por ora tudo estava tranzido.
--Na primavera...
--Sim, na primavera.
--Vês a Arvore, vêl-a? Assim que tiver flor, é mais quentinho...
Mas veiu março e depois abril e que transformação! Quasi que nada restava da Mouca, escarneo de ladrões e de soldados. Até a voz se lhe sumira...
Dia soturno, de nevoa, cinzento e humido. Começo da noite. Fóra, na rua, lama e gritos; dentro as mulheres acendem um candieiro fumarento. Vae morrer a Mouca. Limpam lhe as prostitutas o suor da agonia e pé ante pé vem os ladrões e os soldados para ao redor da enxerga vêl-a acabar. Moldado pelo lençol um corpo resequido e no silencio d'espera ouve-se só a rala afflicta, o estertor, a ancia de quem quer ainda vida e que a morte esgana--mais perto! mais perto!...
O Velho, com a bocca enorme some-se no escuro e de lá os seus olhos brilham; á cabeceira Sofia ageita-lhe as repas curtas e humidas. O lenço está ensopado de suor d'afflicção.
--Ajudae-a a morrer--diz uma das mulheres.
--Está a passar?
--Shiu! baixinho...
Chegam-se mais os ladrões e os soldados e curvam-se em volta da enxerga--o Pitta, o Morto, os outros. Nas suas feições crueis, ha espanto e terror.
--Inda fala?
--Shiu!...
Esperam. E a rala enrouquece, mais aguda, como se a morte fosse apertando--mais perto! mais perto!... A Mouca abre os olhos enormes na cara branca e immaterialisada:
--Menina! menina valha-me!...
--Estou ao pé de ti.
--Tenho frio, muito frio...
Juntam-se as caras dos ladrões e dos soldados, todos em roda--e pé ante pé tambem o Velho se chega para a cama. A Mouca abre os braços e d'um lado o Morto, do outro Sofia, seguram-lhe nas mãos.
--Aqui está uma manta--diz o Velho baixinho. E apresenta um farrapo de manta cossada.
--Shiu! já não precisa.
--É melhor deital-a com a enxerga no chão, para acabar de penar--aconselha a patroa.
A Mouca respira afflicta.
--Tenho frio... nas mãos, na cara...
Devagarinho, arrepanhando o lençol, rodeada de todos que a tinham maltratado, do todos os que se tinham rido d'ella, devagarinho se fina; a vida extingue-se-lhe como a ultima gotta d'um fio d'agua que acaba de correr. Haviam ficado em volta immoveis.
Este acto do espirito se libertar é de tal forma grande, o inicio do mysterio, que até o Pitta olhava estarrecido. Fóra disse para os ladrões:
--A morte, rapazes, ensina. Não ha licção mais formidavel. É doloroso e no emtanto pacifica. Vêr morrer, enche de grandes idéas, filhos!...