Os Pobres

Raul Brandão · Capítulo 25 de 26

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Os Pobres

XXV a Arvore


O Morto tinha um feitio singular. Uma força desconhecida--d'essa corrente a que estamos sujeitos toda a vida--impellia-o para o mal. A sua maneira de falar era curiosa, como a de todas as pessoas que vivem sós e a quem o tempo sobra para reflectir.

--Quem és tu? disse-lhe o Gabiru.

--Sou filho do crime. Que te importa o meu nome? O meu nome ao certo ninguem o saberá. Não tenho familia.

--Quem te creou?

--Os ladrões.

--Se não tens onde dormir, deita-te lá em cima.

E emquanto o ladrão dormia aos solavancos, acordando d'estacão, para de novo mergulhar n'um somno profundo, o Gabiru scismava, olhando-o.

Ás vezes o ladrão tornava e o philosopho repartia com elle o seu pão. Depois dizia-lhe:

--Dorme.

Mas n'essa noite o Morto não quiz dormir. Sentados á beira um do outro falam durante largo tempo.

--Não sei porquê este tempo afflije--começa o Morto--Não devia haver este tempo.

--Qual?

--Este, de primavera. Até na cadeia, quando n'uma noite assim o luar consegue entrar pelos buracos, os ladrões acordam sobresaltados. Tenho visto assassinos abalados. Havia d'uma vez um velho, que matou uma creança por nada, para se rir, e que n'uma noite d'estas encostou a bocca ás grades para respirar com soffreguidão e desatou a cantar. Este tempo tira a força.

--Escuta. Não ouves nada?

--Nada... Durante o tempo que persisti na cadeia conheci cada um... Os que matam inda são os que tem melhor coração.

--Tu para que roubas?

--Roubo porque tenho de roubar. É o meu fado. Cada um tem o seu. Tudo o que a gente faz está escripto no livro do destino. Eu bem sei que inda hei-de fazer peor quando soar a hora...

--Que hora?

--A minha hora. Todos n'este mundo têem uma hora em que cumprem aquillo para que foram creados. Cada qual nasce para o que nasce. Ha-os, por exemplo, que chegada a sua hora matam. Pensa que é para roubar? Matam uma creança que nunca lhes fez mal.

--De que serve fazer mal?

--Em primeiro logar é fazer mal, e quando a gente nasce para fazer mal, é sempre bom fazel-o. Tenho horas em que tudo em mim--tudo!--me préga que faça mal e as minhas mãos procuram logo quem matar. Ás vezes sonho que mato. É signal que a minha hora ainda não soou.

--E Deus?

--Deus foi que me creou, Deus não se importa. Que tenho eu que fazer n'este mundo? Só mal. É porque Deus me creou para o mal.

--Resiste.

--Quando a gente é creada para isto, não ha nada que nos impeça.

--Antes viver com um sonho, ignorando tudo.

--Mas viver!... Viver com toda a força! Tu não vives. Morrer sem ter vivido!... Que sabes tu da fome? E da desgraça? Que sabes tu de ser perseguido e de fugir? E do minuto em que se mata?.... Que sabes tu de seres tu? Ha instantes em que se vive uma vida inteira. Para se viver é preciso cumprir se um fado, com todo o nosso sêr, é preciso a gente sentir-se só contra todos e no entanto proseguir o seu destino... Andar inda que esmague. Para onde? É para o mal? Que importa!...

--Mas o mal...

--Que sabes tu do mal?

--Nada.

--O mal sabe... Ter as mãos ensanguentadas e esmigalhar nas mãos!... Fugir de noite com os pés nas pedras, perseguido, sem poder respirar; encher depois o peito, com o coração a estalar, escondido n'um canto negro ou estender-se a gente no chão e sentir na bocca o travor da terra!... Não respirar e ter a noite por amiga!... A gente poder fazer chorar! Eu ter entre as mãos uma vida e vel-a finar-se!...

--E eu que tinha pena de ti!...

O Gabiru reflecte. A noite é espantosa. Toda a lua se desfaz em luar e, no silencio branco, vem-se da trapeira, os montes, o mar e as arvores, com fórmas de sonho.

--Pobre de ti!--diz por fim o philosopho--Tu és a terra, tu és a terra a falar... Tu és só terra. Eu não vivi? Tu és como a forja apagada e eu não, eu não, eu ardo!... Olha! Olha!...

Mostrava-lhe os montes, o rio, os pinheiros transformados ao luar?

--Não, não quero ver. Isto tira a força á gente.

--Olha! olha!

Mostrava-lhe, esguio e parecendo um D. Quichotte banhado de luar, um sonho que o outro não podia vêr...


Foi esta noite! foi esta noite! Ha dias em que eu sinto como uma torrente impetuosa que vem do outro lado do Hospital. As pedras estremecem impellidas. Ha como uma ligação entre a Arvore e o que para lá existe. Os seus galhos engrossaram quasi a rebentar e hontem á tarde eu vi que a Arvore já não era a mesma. Foi quando, como agora acontece sempre desde março, o sol lhe deixou poeira d'oiro nos galhos. Vae-se o sol embora e ainda--vou jural-o--lhe fica sol nos ramos. Hontem á tarde parecia transformada, dirieis haver n'ella não sei o quê d'extraordinario. Tinha o ar d'um heroe ou d'uma mãe. Puz-me a vel-a tronco por tronco, depois as pernadas e os raminhos e emfim descobri perdida, quasi sumida, uma flôr tão miuda, tão tenue... Qualquer sôpro do vento leval-a-hia para sempre.


A noites estremecia despedaçada. Uma nevoa viva, torrente luminosa, arrastando comsigo no alvorecer, o primeiro halito dos montes e das aguas acordadas, humedecia as arestas dos muros, o granito da cidade ainda em bloco, meia sumida na noite. O Pitta sentiu que alguma coisa d'extraordinario se passava n'essa madrugada d'abril: um jorro de vida brotára, uma apparição, um sonho realisara-se tornado em materia. A propria luz dir-se-hia enternecida, estremecendo ao tocar na Arvore. Envolvia um fluido, um rastro d'emoção. Erguida, enorme, transformára em flor a dor que as suas raizes tinham bebido. Com um grito o Pitta viu o Gabiru pendurado n'um ramo.

Namorára sempre, depois do escarneo da Mouca aquella Arvore, scismando n'um encontro ethereo para depois da cova. A tisica, nos ultimos dias, quando a morte a tocára, não tirava dos troncos despidos o olhar absorto.

--Aquella Arvore,--dizia--aquella Arvore...

Não sei se repararam... As creaturas mesmo antes da agonia pertencem mais a um outro mundo do que á terra. A materia está já toda imbebida de mysterio, ha mais luz do que noite... As coisas que pertencem ao corpo emmudecem e põe-se a falar dentro em nós a poeira d'astros de que é feita a alma.

--A Arvore! a Arvore!...--dizia ella para Sofia--Donde nasce aquillo--olhe--que a faz tremer? Engrossa e de noite irradia luz... Lembra-se do anno passado que p'ra alli veio um passarito morar? E da sua voz? Parecia agua a cahir...

Quando para sempre a levaram o Gabiru mergulhou na dor. Isolou-se mais. Monologava e os olhos esqueciam-se-lhe nos sitios que ella amára. As noites tinham já esse encanto que alheia, cheias de gritos, de vida no escuro, de palores esquecidos...

Altas horas á janella, todo o céo pontilhado d'estrellas, ouviu soluços na quietude da noite. Cahia um luar enorme e a treva tacita parecia esperar escutando. Só muito ao longe, no silencio que lhe pareceu presago, dir-se-hia que uma nascente deixára correr um fio de agua--só um fio... Ou talvez fosse luar que corresse... Dirieis lagrimas. Poz se a olhar inquieto. A Arvore mais esguia ao palor do luar, parecia transformada. Acenavam-lhe os ramos--e que voz era aquella, fina e meiga, que o chamava?.... Ou seria agua nascendo ou um fio de luar a correr?

Desceu tres a tres os degráus e eil-o no quintal. Vestira o luar a Arvore e sob a magia da noite a eclosão fizera-se. Cobriam-na flores--cheiinha--e todas ellas eram como pequeninas boccas a chamal-o, com uma voz conhecida.

Ao luar, na luz indecisa da noite, lhe pareceu a Arvore como um branco phantasma a fugir e a chamal-o. Baixaram-se os seus troncos para o tomar e ouvindo aquella voz amiga, desfalleceu apertado, morto, levado pelos ramos...