Os Pobres
XVI Historia do Gebo
Assim a miseria foi crescendo nas mansardas destelhados do Predio, para onde a sorte os atirára n'esse inverno. Muitos dias lhes faltava o pão e o frio era tanto que não sahiam da enxerga. Viviam mais pobres que os pobres e não pediam esmola. Elle sahia logo de manhã escovado, limpo, com a roupa no fio e as botas rotas sem sola. Cheia de tristeza dizia lhe ainda a mulher:
--Homem, vê se te dão um emprego...
--Anh? Eu vejo! eu vejo!... Não te afflijas, mulher.
Um emprego! quem dá ahi pão ao Gebo, amachucado e ridiculo, envelhecido e tropego, e que já mal sabe escrever, de cego e tonto? Aguilhoado, todos os dias se levantava para a humilhação e para a correria atraz d'uns miseros cobres. Era quasi esmola que elle pedia, a chorar--de cabellos brancos estacados.
Um dia andára, rondára, a tresuar d'afflicção. Todos o repelliam. Era em certa terça feira aziaga d'esse inverno enregelado e torvo. Nem andar podia de amargura e cansaço, e via chegar a noite, horas de voltar para o casebre, onde a mulher decerto o esperava anciosa:
--Então? então?.... Arranjaste?
Oh se o Senhor lhe valesse! se o Senhor que tudo vê lhe acudisse na sua miseria profunda! Nada. Todas as portas fechadas, todas as almas fechadas a sete chaves. Então, a chorar, aquelle velho ridiculo e gordo, estendeu a mão a um desconhecido que passava, dizendo palavras desconnexas. Tinham fome em casa... E pediu a um a outro, encolhido, escondido, bebendo as lagrimas, para que lh'as não vissem, n'uma afflicção de rachar pedras. Na mansarda as duas esperavam esse triste e amargurado pão, e elle nem dava pelas ruas por onde caminhava com passos incertos, de bebado. Supplicava n'um choro humilde, e n'essa noite--terça aziaga--se o Gebo ainda tinha vaidade ficou-lhe aos farrapos na lama.
--Então? arranjaste?
--Valha-me Deus! cá está, mulher! cá está!... Apezar dos ralhos, todos tres se queriam d'um profundo, d'um admiravel amor. A desgraça anniquilava-os juntando-os. Deixava um de comer, fingindo-se farto, para que o outro tivesse mais pão; se qualquer adoecia, os outros nem dormir podiam, e um dia a mulher emfim tombada, inutil, sem poder erguer-se, chamou Sofia para lhe dizer baixinho:
--Olha se cuidas de teu pae. Nunca o abandones. Foi sempre um santo.
Desde então ninguem mais lhe arrancou palavra. Com os olhos aguados, seguia-os pela casa, até que ficou morta. Acabou gasta de luctar um dia e outro com a desgraça sempre, depois d'uma vida de desespero. Ella era o arrimo, a energia, a força que os sustentava a ambos e impellia para a vida; era ella quem disputava--em vão!--braço a braço com o destino ferreo tentando amparal-os, e arrancando-lhe os ultimos trapos e restos de felicidade. Em dias de fome ella a primeira a fingir-se farta. Ordenava, mandava, batalhava. Matou-a a hora em que teve de despedir-se das arvores do seu quintal, que vira crescer, da agua da bica que correra sempre inexgotavel como as suas lagrimas. Morta deram pela falta que lhes fazia, como só se medem os troncos depois de tombados.
Vestida com o seu ultimo vestido, pelas mãos do Gebo e da filha, ficára branca, mirrada, embebida de serenidade, mais feliz de que os que ficavam. O velho cahira exhausto, a chorar, a um canto, e no casebre toda a noite se ouviu aquelle ruido monotono, triste, infantil. Chorava e scismava:--Amanhã lá tenho de ir á procura de pão...--Sempre a mesma vida, sem tregoas, agora sós os dois e a Desgraça. Quando a mulher era viva, apezar de tranzidos, ainda cuidavam:--Para o anno, talvez para o anno a má sorte se canse de nos perseguir...--E assim se gastára a a ultima energia e os trapos que, de usados, nem sequer aqueciam. Toda a esperança murchára. O velho ouvia risadas na noite profunda e boccas a clamarem:
--Ó Gebo! ó Gebo!...
--Anh? ahi vou! ahi vou!...
Levaram-n'a para a valla commum n'um caixão de pinho e elle ficou abraçado á filha, soluçando.
--Se Deus nos levasse!...
Tropego, velho, cansado, só sabia chorar, e a filha tinha de o levar pela mão como quem guia uma creança.