Os Pobres

Raul Brandão · Capítulo 7 de 26

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Os Pobres

VI Philosophia do Gabiru[1]



E que tu acreditas na immortalidade da alma? Bem fundo, bem arreigado?

Tenho horas em que creio: é uma esperança, um raio de luz entrando n'um tumulo vasio pela juncta abalada d'uma pedra. Porque crêr? porque não crêr? Theorias, palavras... No intimo, porém, sou materialista como toda a gente. Dormir na terra funda e gorda é bom--dormir para sempre. Ir ser arvore, luz, detricto, correr nas veias da terra, é quasi consolador--excellente somno sem sonhos, depois da lide canceirosa d'um dia.

Na primavera quasi sempre sou materialista, no inverno idealista e com a mesma sinceridade, quasi com ferocidade.


Ser só, sem amigos, sem apertos de mão, sem conhecidos, ser só e livre, que sonho!...

Ser só por cobardia, para não ter este aguilhão da vaidade a espicaçar-me:--Então tu não fazes, e este, aquelle, o diabo, fizeram!--Ser só para sonhar e para vêr este espectaculo unico---a natureza; para passar os meus dias vendo as transformações d'uma d'aquellas arvores que d'aqui contemplo!...

Quando me fecho e estou só, sou tão differente!... Como o homem é desconhecido até de si proprio, porque o tempo passa, vem a morte e elle não esteve sósinho! Se estou só vêm falar-me vozes--eu mesmo--mas com que palavras unicas! Os sêres de que sou composto, se me habituo á solidão, nos primeiros tempos balbuciam, mas depois falam! pregam!...


Tenho a certeza de que fui arvore e é por isso que tanto as amo.


Ha livros que falam baixinho, ha livros que falam alto. Uns têem por si o encanto, outras a força. Ás vezes as palavras murmuradas impressionam mais: passado tempo ainda ellas acordam em nós fibras adormecidas.

Porque é que a agua, até o mais humilde charco, attrahe e faz sonhar os homens de imaginação?


Quanto mais desprezo o homem, mais amo a natureza. Ella é inalteravel.


O homem prende-se com muitas coisas inuteis: a riqueza, a ambição, interesses mesquinhos: vive emaranhado n'uma teia. De forma que não tem tempo de vêr, nem de ouvir, nem de se conhecer. Quantas creaturas, existem que nunca olharam para o céo? A natureza, arvores, montes, rios, esse pelago que vejo do meu quarto deixa-os indifferentes; as horas de preguiça e sonho deixam-os indifferentes. Nunca tiveram tempo para amar as coisas simples e grandes da vida. O que é eterno não no viveram. Por mim antes quero comer pão e scismar, deixar correr as minhas idéas como um regato corre--até onde tem agua. Alguns morrem sem terem reparado que existiram.

É por isso que eu corto sempre com tudo que me não deixa sonhar--e que quando encontro razões para acabar com um amigo tenho um suspiro d'allivio. É uma amarra de menos.

Habituar-se a gente a viver com idéas simples é como habituar-se a andar com fatos velhos e rotos. Indigna os outros. De forma que tem de se viver arredado.


A morte aterra-me pouco. Porquê? Porque só penso na morte como n'uma divida distante. Fica para muito longe ainda.

Ha horas, porem, á noite, de subito, em que, sem ligação, essa idéa rapidamente me toma e abala até ás mais reconditas fibras. Suffoco então aterrado.


Com que facilidade se matam até os entes mais queridos!... Quantas vezes me surprehendo a assassinar eu a desejar a morte--é a mesma coisa, com este acrescimo, a cobardia--de pessoas que soffreram por mim! Por a menor causa, por o mais leve transtorno, o primeiro pensamento é este:

--Se elle morresse...

É claro que protestas logo. Protesta o teu coração, a tua educação, os teus habitos e até a tua hypocrisia. Mas se deixares trabalhar a imaginação á vontade, sem peias, é uma hecatombe--por futilidades.