Os Pobres
XIX o Gabiru Treslê
Noite de luar. A Arvore mergulha os braços n'um oceano de luar translucido, biliões de atomos luminosos errando. É um collosso de verdura e de bondade, uma construcção cheia de frescura e rumores. Cruzam-se as pernadas solidas, torcidas, esgalhadas, d'onde partem ramos, folhas que se agitam e vivem uma vida mysteriosa e grande. E o luar é tanto que faz afflicção. Sente-se a satisfação gigantea da Arvore, por mergulhar as raizes no seio da terra e por ser forte, simples e bondosa. Por pouco ouvil-a hieis falar... Escutae-a na noite callada, branca e cheia de tanto luar que faz afflicção. Por entre os raminhos tremuleiam fios de luar esquecidos, coados por entre as folhas sobrepostas. No chão a sombra faz mancha e os fios de luar dão-lhe vida. Dirieis que alli anda folego vivo. Fóra da Sombra é tanto o luar que só se vê uma brancura.
O Gabiru scisma. Os olhos abertos, todo elle dolorido, deita-se ainda a scismar. Vivera sempre tão transido e pobre, tão sosinho--que lhe não fugisse o seu sonho--e nada lhe ficara entre as mãos. Só escarneo! só escarneo!...
Bate o luar em cheio n'aquella figura exotica e transforma-a. Não é ridiculo. Corre-lhe o luar nos olhos, nas mãos estendidas, e cheio de luar sorri extasiado...
Hein, que queres tu? Nasce uma creatura para a desgraça. Em pequena anda rôta, quasi nusinha, e o pão da vida dão-lh'o os ladrões e soldados. Maltratam-n'a, irmã da terra, raza como a terra. Nada sabe do sonho--e que culpa tem ella de não sonhar? Violam-n'a, tornam-n'a egual das pedras, secca como as pedras, mesquinha, e arrancam-lhe todas as aspirações, cospem-lhe em todos os sonhos. Só soffre. Vêm uns, vêm outros para a fazerem gritar, e ella um dia põe se a rir e ri-se até da desgraça.
Julgarieis que na sombra, sob a arvore, o luar constroe e tece, á medida que o Gabiru vae tecendo. É não sei o quê de incerto que mexe--fio de luar ou vento que passa e vae transir a sombra mysteriosa. O Gabiru olha extasiado.
Da terra dilacerada surgem fórmas de prodigio. Quanto mais revolvida a materia, mais bella é a eclosão do sonho. Da vida da Mouca que começou a soffrer em pequenina, logo a principio se creou algo de radioso. Ella ri, a Mouca, escarnecida e calcada, sem ter tido quem a ampare senão prostitutas e ladrões. Nasceu para gritar--e ri. Mas nada se perde na vida. Ella que tudo ignora, rolada como as pedras no enxurro, conhecerá o extraordinario sonho. D'aquella materia espesinhada vae nascendo uma maravilhosa forma de luar.
O philosopho sorri extasiado para a Sombra. Eil-a! Uma physionomia pallida, onde os olhos cegos se perdem, tenue, construida de luar ou construida de sonho. Dirieis que essa figura esguia, sustentada a luar, de negros cabellos de sombra, desapparece no escuro, torna a surgir nos fios de luar...
--Fui eu que te criei, és minha!--diz elle absorto, erguendo-se. Caminhas para mim alheada, não me querendo olhar e não me podendo fugir, pallida e tremendo. Vens sob o tecido do luar. Oh que palavras te hei-de dizer, ajoelhado, que singulares monologos feitos de nada e enormes, arrancados á via lactea, com palavras que nunca aprendi, nem soube dizer, mas que me brotam da alma como nascentes! Quem me déra ser a noite, a arvore, o luar, que me enche d'afflicção! Juro-o, as arvores falam com o luar, as montanhas namoram-se ao luar. Brilham perdidas tantas estrellas pelo céu, meu amor!... Os sapos, confundidos deante da gigantea natura, cantam n'esses pios que, ao longe, na solidão, magoam como ais d'alguem a quem aconteceu desgraça...
Olha: eu sento-me distante de ti, para que não fujas desfeita em luar. Gostava tanto de sentir a tua mão pousada na minha cabeça, tanto! Olha!...
Sob a Arvore--realidade ou illusão?--uma figura se constroe de luar, na sombra opaca uma tremulina toma forma. Juntam-se os fios de luar, amontoam-se nevoas e alguma coisa treme, prestes a fugir--mas viva! viva!... Dirieis que é só um sorriso, um olhar muito triste... O Gabirú corre e tudo se esvae... Só a Sombra resta e um ruido de gotas de luar tombando sobre folhas.
Elle sorri e diz:
--Eis como se cria uma alma!
Todas as noites, muito tarde, volta para ao pé da Arvore.
--Uma é terra, outra é luar,--murmura. Quanto mais a Mouca soffre, mais esta se cria. Oh, não me fujas! Vens com a noite, melancholica e pallida como as mortas arrancadas ao sepulchro. Criei-te de lagrimas. Os teus cabellos esparsos perdem-se na sombra. Nunca vi na escuridão os teus olhos, mas sinto a irradiação da tua alma!...
O Gabiru, na noite branca e callada, sente-a approximar-se e olhal-o muito tempo.
--Minha alma!
Nem um murmurio. Noite a noite era mais o luar. Absorvia tudo. A sua claridade mysteriosa diluia a terra e as coisas. A Arvore, esmaecida, toda se desfazia em pó claro. E noite a noite tambem a Sombra opaca se tornava mais espessa e funda. A certas horas o silencio estremecia, n'um ai baixinho e triste. Era a creação! A alma da Sombra acordava. Eil-a! eil-a!...
--Minha vida!
Via-a perfeitamente. O oval do rosto pallido, os negros cabellos compridos, inteiramente feita de sonho e de lagrimas. Só os olhos se perdiam em duas sombras, cega talvez de tanto ter chorado--por a outra rir.
--Não fujas!
Correu um dia para a Sombra. Lua cheia, lua alta. O mundo, todo imbebido em luar, era como um grande sonho de belleza. Logo a imagem se esvaiu e na sombra funda, na sombra opaca, restavam apenas manchas vagas e dispersas, luar desfeito... Apalpou a terra. Havia um ruido ainda--pelo chão corria um fio de agua ou um fio de choro...
--Meu amor! meu amor!