Os Pobres

Raul Brandão · Capítulo 13 de 26

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Os Pobres

XII Philosophia do Gabiru


Em todo o caso se a immortalidade existe deve ser bem differente de tudo o que se tem sonhado.



Ser despedaçado, opprimido, calcado, torna quasi sempre o homem grande, porque abala e acorda vozes adormecidas.



Comprehendo o materialista sincero, o idealista sincero. Num predomina a nuvem, no outro a terra. Tudo o que é verdadeiro, arraigado e fundo, é bello--até o crime.



Não importa saber donde nasceu a idêa da immortalidade, o que importa é saber se a immortalidade existe. Todos a sentem até os mais materialistas, todos sabem que ella brilha no fundo do nosso sêr. Podem-na abalar, abafar, com theorias, palavras, explicações mesquinhas, o que não podem é arrancal-a. É como certas arvores que, deitadas abaixo, deixam sempre profundas e inabalaveis raizes no solo. Para as extinguir seria necessario tornar esteril a terra.

Cada homem tral-a comsigo como uma certeza ou como uma aspiração... Ella remexe sob todas as cinzas.

Mas que immortalidade?



Tomo tudo a serio, até as coisas sem importancia--outra razão para ser desgraçado.



E quando é que eu cumpro o meu destino?--dirás. Interroga-te.



Se as arvores não fossem necessarias, existiriam arvores? Se os criminosos não fossem necessarios existiriam por ventura criminosos?



A educação que nos dão o melhor que ha a fazer é esquecel-a. E esquece-se porque ella nada tem com a vida, é uma coisa á parte. A que adquirimos á custa de nervos, de sangue, de suor, a que se aprende na peleja, essa acompanha-nos até ao tumulo. É a verdadeira.



O homem procura sempre uma philosophia onde caiba o seu temperamento, os seus erros--e até os seus crimes. Se não existe, inventa-a.



Acho que, ao contrario do que se diz, não sou amigo de ninguem senão nos primeiros tempos. A principio os angulos não apparecem ou disfarçam-se. Depois começamos a ser duros.

Creio que só ha amigos até aos vinte annos, quando ainda se não pensa na vida. Depois endurece-se. Raros são os homens que atravez da vida a serio e dos interesses conservam ainda amigos.

Para ficarmos amigos tenho ou de me submetter ou de te submetter.



Não, a morte não destroe a essencia da vida, mas desorganizando uma forma destroe a consciencia d'essa forma, que é formada de milhares de consciencias...

A acção do que se chama espirito sobre a minha materia produz o meu eu, com os seus erros, sonhos, desesperos, odios. A mesma força tira harmonias differentes d'uma harpa ou d'um orgão. O que resta, pois? A essencia da vida?



A predominancia de certas moleculas produz o sonhador; a predominancia de outras o heroe, etc... Eis a futura chimica.



Não se trata de ser feliz ou desgraçado mas de se cumprir o destino para que se nasceu.



Que idéa tão falsa a de se suppor que a vida tem um fim--a felicidade ou a desgraça! Não é isto subordinar o universo ao homem?

Se a vida tem um fim--é viver. Viver, deixar que cumpramos o fim para que fomos nascidos. Isto é logico, inevitavel, maior decerto do que o que suppomos, mais bello, mas cêdo ainda para se entrever.



O homem é uma fonte onde a vida corre limpida ou turva, n'um fio que a emoção torna d'oiro ou n'um jacto negro de colera. Eu ouço assim correr a minha existencia...

Um dia a fonte secca-se.



A terra ha-de sempre crear os seus typos, quer os homens queiram quer não. O homem não é senão a essencia do universo e nasce para que tudo tenha bocca. Podemos tentar abafar isto, pôr diques, retardar a torrente, mas um dia o largo rio da Vida e do Destino irrompe.



Não, não é justo que a gente morra de subito sem protestos, sem palavras, sem gritos, com os seus erros, as suas ambições, os seus sonhos... Abre-se de subito uma cova... Não se pensa mais, não se vê, não se ouve... E o que custa não é deixar pessoas queridas, nem habitos--é não viver. Morrer quando a vida continua da mesma fórma harmonica e impassivel--eis o horror.



Nenhum outro homem no universo existe realmente para o homem; nenhuma outra vida senão a sua vida.



Ao chegar dos trinta annos abandonam-se os amigos. Se alguns restam é por habito ou por interesse: é por calculo. Se queres continuar a amar os outros, afasta-te, torna-te um solitario. Ou deixas de ser sincero e passas a morar com a mentira. A peleja começou: é preciso arredar, vencer--e cada um n'essa edade é o que é. Já se não amolda: é um ferro desembainhado, sahido da forja; tem já os seus habitos, vaidade, mentiras. Tudo o que estava apenas esboçado endureceu; é de pedra.

De fórma que se quizeres viver com os outros tens de representar. Da tua edade ha centenas que vão comtigo pelo mesmo caminho e para o mesmo fim. Adiante de ti estão os homens de quarenta annos, que é preciso arredar, conquistar ou illudir. Cada um d'elles é de aço. Para triumphares tens de os lisongear, tens de ser elles e não tu...

Os que têm uma forte individualidade arredam-se porque nunca podem agradar. O triumpho pertence não aos mais fortes, nem aos mais intelligentes, mas aos que, sem pessoalidade, pódem ser todo o mundo...

Ser parecido lisongea: d'ahi tens d'afivelar uma mascara egual á do homem que precisas conquistar.



Sim a vida é uma tragedia esplendida, com todos os seus crimes, sonhos, odios. Falam em nós as montanhas, as arvores, as nuvens, e fala até, n'um murmurio, o que é ainda desconhecido.

Que é preciso para que cada um se encontre? Que é preciso para que as arvores abaladas se carreguem de flor? A Primavera--a Dor.

Tu és a mãe, terra; tu a fecundaste, Dôr, e até nós veiu como o murmurio apagado dos seus gritos.

Amo-te nos bichos, no sol, na luz, nas pedras; na terra onde mergulho as mãos até as ennegrecer, na agua que m'as banha; no ar que respiro; no sonho; na morte; na desgraça; no que é humilde ou grande não importa.


XIII

ESSA RAPARIGUINHA...


Quédo-me a scismar tão sósinho n'este velho casarão!... De noite ouço vozes, logo suffocadas, que me querem falar e não podem. Só os meus crimes d'outr'ora (ha tanto esquecidos!) se põem a prégar dentro em mim. Arqueja o lume no escuro e sinto em redor toda a treva povoada.

Foi ha vinte annos e no emtanto hoje, como em certas horas presagas, alguma coisa remove e acorda dentro em mim. Oh não! Bem sei, por demais conheço a fórma porque as ideias se ligam, até as mais contradictorias, e como um nada recorda um velho crime abafado. Mas não é isto: é do fundo do meu sêr que esta imagem irrompe, desligada, sem nexo, como um phantasma. Ás vezes estou só e esquecido e um estalido atraz de mim alembra-me, outras acordo de subito, altas horas, já a pensar n'essa pobre creaturinha explorada. O rumor da vida, outros crimes amontoados, podem fazer-me esquecer a sua imagem, mas um dia vem em que grito:

--Abandonada! abandonada!...

E no emtanto o facto em si é simples e banal, vulgar como essa rapariguinha das ruas, molhada até aos ossos, a quem nem mesmo soube o nome, porque nem sequer lh'o perguntei.

Convenci-a a que me seguisse por vaidade, para ser como os outros, ao encontral-a uma tarde, sem pão, expulsa de casa, vagueando na tristeza das ruas. Teria quinze annos? Teria. Disse-me a medo que sim. E eu, levando-a para a casa de passe, sentia, não orgulho nem prazer, mas oppressão e vergonha. Perguntava-me já: como me hei-de ver livre d'ella?

Nada mais ignorante, mais puro, mais simples... Foi um crime. Deixei-a rapidamente, dando dinheiro á mulher, gorda e vesga, que sorria, e fugi como quem foge ao remorso.

Mais nada. Porque é então--e já lá vão muitos annos--que a certas horas de silencio me lembra essa pobre creatura e as suas palavras ingenuas, o sorriso da mulher vesga e o pobre corpo magrinho e encharcada da chuva, todo dorido da vida?

Vejo-a aqui, aqui no escuro, descalça, molhada até aos ossos e a sorrir-se para mim, com um sorriso piedoso, todo lagrimas, com um sorriso tão triste que me piza o coração.

Arqueja o lume no escuro todo povoado de vozes, que vão prégar, mas que logo se callam suffocadas. A ventania passa lá fóra e na escada soam os passos do gato pingado; as mulheres gargalham e eu fico sósinho, a scismar, n'este velho casarão, com os olhos presos no lume que esmorece...

Eil-o que pára no patamar a tossir, com o peito escalavrado e roto!...

Na verdade não conheço outro homem tão nullo, banal como a propria banalidade. A sorrir, a amar, e até com o coração despedaçado, esse homem fazia sempre rir. Os proprios inimigos tinham por elle piedade ou desprezo. Sim, piedade ou desprezo, porque S. José era incapaz de odios. Nunca podera aprender a vingar-se e sabiam-n'o. A mim mesmo me fez algum bem que depois lhe retribui em esmolas, ao encontral-o estatelado na rua. Nunca lhe encontrei interesse: a sua vida é a vida de todas as creaturas que se afundam por falta de tino pratico para a lucta: enlamear, mentir, triumphar emfim. A vida (oh todas as solidas philosophias o ensinam) é de quem possue a força e aptidão... Mas hoje estou n'um dia enervado e sinto-me sósinho n'este velho casarão. Parece que a noite tem vozes e que os meus crimes d'outr'ora (ha tanto esquecidos!...) encontram emfim palavras e se põem a falar dentro em mim.

É talvez para fugir a esta obsessão que me deito a scismar na vida d'este homem banal como a propria banalidade.

Nem sei como conte, com que palavras faça a narração d'uma existencia, que é como um trapo que se deita fóra todo molhado de lagrimas.

Sim, um doido. E nunca foi feliz. Veiu um dia a catastrophe e incendiou-lhe a casa: mais tarde enganaram-n'o, mentiram-lhe. E não faltou a doença a escalavral-o brocando-lhe a cara e a tisica a romper-lhe o peito com tosse, nem a miseria a deprimil-o. É por isso que elle, ao saccar das casas o caixão dos mortos como quem o arranca do peito dos que ficam, decerto ri por dentro, ha-de rir consolado.

Quem foi a tua mãe, ó S. José?...


Apedrejam-n'o os garotos ao vel-o passar para os enterros, fogem d'elle os visinhos e só a Rata fala ao gato pingado.

A Rata é sua egual, tão maltratada pelo destino como elle. Foi sempre assim: rachitica, triste e feia. A vida para ella tem sido mourejar. Sustentou primeiro a mulher que a tirou do asylo, depois o homem com quem casou, e que logo a deixou sósinha. Com o S. José conversa ás vezes. Diz sempre as mesmas coisas e com que mesquinhas palavras! Mal sabe exprimir-se. Falam os dois como podem communicar entre si as pedras, os sêres que o acaso rola juntos no mesmo vagalhão da vida. Nem se queixam--e de que se hão-de queixar? Deus os sustenta na sua mão de pae.

--A gente é pobre--diz elle.

--A gente é pobre--torna-lhe ella.--E ás vezes passa fome.

--Passa.

--Quando a minha mãesinha era viva, eu rapava fome. Era preciso dar-lhe o sustento e eu mal o ganhava para mim. Até que acabou de penar os seus trabalhos. Tudo se acaba um dia.

--Peor do que isso é não ter ninguem. É peor do que a fome.

--É o peor de tudo.

--Que se ha-de fazer?

--Sabe vocemecê? olhe que eu ás vezes ponho-me a scismar porque é que a gente soffre...


E o vento ulula. No coração do inverno o enxurro leva as lagrimas que ensoparam a terra e a lufada arrasta os gemidos para um destino ignorado. Rola as lagrimas dos pobres n'alguma nuvem perdida e gemidos, ais, palavras leva-as o vento comsigo. Noite negra! noite negra! Arqueja o lume e o predio sob a ventania arqueja.

Eis-me a scismar absorvido nas brazas, fascinado pelo seu escarlate, ou com os olhos postos n'esse outro lume, o Hospital, que brilha na escuridão como um brazido de gritos.

A pedra de que o construiram dil-a-hieis transida. Foram-n'o acrescentando: ao granito ligaram o granito, conforme a miseria cresceu. Arrancaram-n'o ao coração da terra. A ossada dos montes, abraçada pelas raizes, a fraga escondida que com a agua viveu e em si a guardou, sentindo-a bolir no seu seio, minar para a luz, a pedra irmã da terra, sepultada na terra, veio ter este destino--abrigo de miseros.

Ao pé da pedra a Arvore cresce. Prega o universo e ella retempera-se. As suas raizes vão sob a terra até ao Hospital e os seus braços quasi cobrem o predio. D'um lado o Hospital, do outro a Arvore. Só elles prosperam. Deita a Arvore pernadas e a cada inverno o granito augmenta, qual outra arvore de pedra. Num corre seiva, no outro gritos. O Hospital tem raizes em toda a cidade.

A Arvore é quasi uma construcção. O tronco é corroido e as pernadas em cima torcem-se e esgalham-se. Suas raizes vão sugar no Hospital. Com os annos enlaçaram o granito, pouco e pouco desconjuntaram-n'o, abriram fendas para mergulharem mais fundo na miseria humana.

E para lá? o que ha para lá? Ao findar dos dias sinto um ar vivo que é a respiração dos montes adormecidos, batendo nos muros compactos do Hospital e ruidos, claridades, mistura d'oiro e verde, gorgolejos de minas, chuva de sol e d'agua, tombando. Arfa a terra, incham os montes e vogam no ar aspirações de arvores, murmurios de fontes, o halito das plantas ignoradas. Oh cahem noites encharcadas de luar, em que se ouvem as lagrimas das noras paradas, cahindo uma e uma na terra sequiosa e se presentem dialogos de sonho entre os grandes pinheiros bravios...

E a Arvore, a este ruido, fica entontecida, abalada até ás suas raizes mais fundas.


Esperae! esperae!... A ventania redobra. Depois ha um silencio prostrado, um silencio peor do que a lufada, em que eu ouço o esforço que o mundo, que povoa a escuridão, faz para gritar. A treva arqueja e a ultima braza reluz ainda no lar, cujo escarlate arqueja, arqueja e vae esmorecendo...

Grito! É sempre a mesma rapariguinha que resurge, magra, pallida e triste, com um pobre vestido encharcado de chuva ou ensopado de lagrimas. Sorri para mim, descalça, estendendo-me os braços. Eil-a! eil-a!... Só uma braza ainda vive no lume, misturando na escuridão uma poeira escarlate. E vae apagar-se! extingue-se...

Toda a vida é uma construcção de gritos, a cada passo para a frente ha sempre uma creatura espesinhada... Que queres tu?

Não é odio que ella tem por mim, porque o seu sorriso, que eu sinto molhado de lagrimas, é triste mas resignado. No emtanto o remorso acorda, o remorso põe-se a rugir... Vejo a mulher gorda e vesga dar-lhe dinheiro; vejo-a depois partir atravez das ruas, encharcada até aos ossos, sem perceber porque foi vilipendiada, enganada e expulsa... Vae gritar? De que servem os gritos na terra, não me dirão?

Para quem ha-de ella apellar no mundo? E não entende. Descalça caminha pelas ruas desertas á chuva; pela vida asperrima ao abandono. Vem depois outro e engana-a, mente-lhe. Para que servem os gritos na terra? Tem de soffrer e de se resignar á brutalidade, ao escarneo, aos risos; tem de se affazer a ser explorada, á mentira, á infamia... E assim caminha, ensopada de lagrimas, afundada na desgraça pelos que passam e riem; assim vae pela vida fóra até onde?... Até onde?

Oh aquella braza que ainda reluz como uma poeirinha d'oiro, aquella braza que vae morrer no lar quasi de todo apagado!... A lufada doida passa lá fóra aos gritos. Quanta gente grita n'este valle de lagrimas! A esta mesma hora quantos berram espesinhados, sem mão que os ampare? De que servem os gritos, não me dirão?... Aquella restea de lume é como o ultimo fio d'uma alma que vae findar!...

E ella ahi volta, ahi torna! Pobre corpo murcho, nascido para o soffrimento, já dorido da vida, vestido d'uma sainha e d'um sorriso resignado de quem já presente o que a espera--quantos gritos! quantas lagrimas pela existencia fóra!...


Cerrou-se de todo a escuridão. Suffoco!...