Parapsicologia: Hoje e Amanhã

J. Herculano Pires · Capítulo 10 de 32

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Parapsicologia: Hoje e Amanhã

IX - GI - Gravação do inaudível

 

As gravações do inaudível ainda não tiveram a sua classificação parapsicológica nem receberam a sua sigla. Mas depois que o Dr. Konstantin Raudive apresentou ao III Congresso Internacional de Parapsicologia de Puchberg seu relatório sobre 30.000 das 80.000 gravações que havia obtido, fazendo-o na qualidade de psicólogo e parapsicólogo, o assunto passou ao campo parapsicológico e está sendo submetido a pesquisas intensivas. Não há mais dúvida quanto à realidade do fenômeno nem quanto à sua qualificação como paranormal. As vozes gravadas provêm de entidades espirituais, muitas delas identificáveis. Foi o que convenceu Raudive. A primeira voz que ouviu, dirigindo-se a ele e chamando-o pelo nome, foi de Margarete, moça que fora empregada de sua mãe por muitos anos e havia morrido há pouco tempo.

Na verdade, a única novidade desse fenômeno é o fato de se gravarem as vozes em fitas magnéticas de gravadores comuns. Para os cientistas esse fato é importante: dá-lhes maior segurança na pesquisa e reveste o seu trabalho de um aspecto novo, atualizado, segundo os moldes da era tecnológica. Mas para os espíritas a gravação de vozes tem seus antecedentes nos fenômenos de voz-direta e de escrita-direta. Kardec, servindo-se da mediunidade do jovem Didier, filho do seu editor, obteve vários fenômenos de escrita-direta e até mesmo de impressão tipográfica por esse processo. Essas experiências foram relatadas na "Revista Espírita" e hoje podem ser lidas na nossa língua, pois a coleção da Revista foi traduzida e editada em São Paulo. Vários cientistas obtiveram resultados semelhantes. São das mais famosas as experiências do Prof. Frederico Zöllner, da Universidade de Leipzig, na Alemanha. Era Catedrático de Física e suas pesquisas foram relatadas no livro Física Transcendental. Há uma edição paulista com o título de Provas Científicas da Sobrevivência, lançada pela EDICEL.

Os fenômenos de voz-direta e de escrita-direta incluemse na classificação espírita de efeitos físicos, que corresponde à classificação parapsicológica de psikapa. Decorrem do princípio de ação da mente sobre a matéria. E dependem naturalmente da mediunidade, ou seja, das funções psi de sujeitos paranormais. A fita magnética não exerce nenhuma influência especial no caso. Sua função é a mesma do papel ou da lousa: receber passivamente a influência da voz, que nela se grava como a de qualquer pessoa viva. A aparelhagem técnica moderna substitui o papel e a lousa. Pode-se alegar que a voz gravada é inaudível. Ninguém a ouve no momento da gravação. Mas o mesmo se dá com a escrita-direta. Usa-se o papel ou a lousa sem necessidade de lápis ou caneta. Ninguém vê os elementos invisíveis que vão grafar as palavras. A tinta do lápis ou da pena só aparece no ato mesmo da escrita. No caso da impressão tipográfica isso é mais tocante. Ninguém vê os tipos, nem a máquina de impressão, nem a tinta usada, nem ouve o barulho da máquina, e não obstante a impressão sai tão perfeita que se pode notar o rebaixo dos tipos no papel. A mensagem impressa não é um texto formal, mas um bilhete, um aviso, uma carta. E o fenômeno pode ser repetido à vontade.

Assim, a gravação do inaudível confirma a tese de que as comunicações espirituais são intrinsecamente de natureza psíquica. Segundo Kardec elas não dispensam o médium, pois só este pode fornecer às entidades extra-corpóreas os elementos vitais necessários. Os gravadores registram as vozes inaudíveis quando o pesquisador é médium ou dispõe de médiuns ao seu serviço. O pesquisador italiano Dr. Giuseppe Crosa, neuropsiquiatra d.e Gênova, tem mediunidade e grava músicas e vozes com facilidade, mesmo quando não está realizando pesquisas. Outros pesquisadores nada conseguem se não dispuserem de médiuns ao lado. Isso parece liquidar o sonho das máquinas-mediúnicas, destinadas a substituir a mediunidade humana. Não há máquina que possa substituir o homem, porque o destino das máquinas é servir ao homem.

O descobridor do fenômeno de gravação do inaudível foi o pintor estoniano Friedrich Jürgenson, que durante a última guerra mundial se refugiara na Suécia. Morando numa casa de campo em Mölnbo, próximo a Estocolmo, tentava gravar o canto dos pássaros para fazer a trilha sonora de um filme. Precisamente às 16 horas e 5 minutos do dia 12 de junho de 1959 (contava então 50 anos de idade) instalou o seu gravador numa tenda armada no bosque e pôs o microfone para fora. Um pássaro cantava. Quando parou, Jürgenson quis ouvir a gravação. Estava perfeita, mas além do canto ouviam-se rumores estranhos de vozes humanas à distância e acordes musicais. Estava descoberto o novo fenômeno, embora Jürgenson, a princípio, não compreendesse do que se tratava.

Coube ao Dr. Raudive, alemão que também se refugiara na Suécia durante a guerra, esclarecer o problema de Jürgenson e colocar cientificamente a questão no campo da Parapsicologia. Jürgenson conta em seu livro Sprechfunk Mit Westorbenen, já editado em português com o título de Telefone para o Além (Editora Civilização Brasileira) a decepção que sofreu com alguns cientistas, entre os quais o Prof. Olander e elementos da Faculdade de Parapsicologia da Universidade de Estocolmo. Björkhem, famoso investigador sueco, professor universitário, foi o único a levar a questão a sério, mas já no fim da vida, sem tempo nem forças para se dedicar ao assunto. Jürgenson havia já desistido de contatos com os cientistas quando de surpresa foi bater-lhe à porta o Prof. Konstantin Raudive, formado em Psicologia e Filosofia pelas Universidades de Paris, Upsala e Edimburgo. Um homem arejado, de profundos conhecimentos e com experiência parapsicológica. Foi ele o novo Zöllner da pesquisa psíquica alemã, que em breve se colocou em evidência mundial com suas pesquisas metódicas e suas irrefutáveis gravações do inaudível.

O famoso parapsicólogo alemão Hans Bender, de Friburgo, interessou-se também pelas gravações do inaudível. O médico alemão Felix Kersten, que durante a segunda guerra mundial exerceu grande influência sobre Himmler, também se interessou. O Rev. Leo Schmidt, da Igreja Católica da Suíça, formado em Ciências pela Universidade de Friburgo, destacou-se logo como um dos maiores interessados na pesquisa do fenômeno. O médico Felix Kersten, autor do livro Conversas com Himmler, comunicou-se com Jürgenson após a morte, revelando-lhe que morrera de um colapso cardíaco. O Dr. Kjell Stenson, Chefe da Técnica de Som da Radiodifusão Sueca, interessou-se pelas experiências e divulgou-as, sustentando sua legitimidade. A participação dos técnicos de rádio e TV no controle e aprimoramento das pesquisas tem sido intensa.

As pesquisas de Raudive em Bad Krozingen, Alemanha Ocidental, atraíram numerosos cientistas internacionais. Jürgenson, naturalmente entusiasmado com a sua descoberta, insiste em afirmar que as gravações do inaudível constituem "os primeiros fenômenos paranormais a serem pesquisados por meios fisiotécnicos na história da humanidade". Um perdoável exagero, pois as pesquisas de Crookes, Zöllner, Richet e outros no passado, e principalmente as pesquisas parapsicológicas atuais, na América e na Europa, bem como na Rússia, têm sido feitas com a utilização desses meios, com o emprego de aparelhagens especialmente construídas. Mas, como acentuamos, os aparelhos, por mais aprimorados que sejam, nunca dispensaram a presença do médium ou sujeito paranormal. São apenas instrumentos destinados a dar maior eficiência às pesquisas e garantir maior exatidão no controle dos resultados.