Parapsicologia: Hoje e Amanhã
II - O processo palingenésico
Essa possibilidade abriria, por sua vez, perspectivas extrafísicas para a interpretação do processo histórico. E se a palingenesia puder comprovar-se, como supõe Mariotti, pelo prosseguimento da investigação parapsicológica, teríamos a possibilidade de encarar o problema dos ciclos históricos através do retorno de personagens e circunstâncias ao cenário existencial, uma vez que a precedência histórica da essência, negando também a validade da concepção sartreana, se afirmaria filosoficamente através da Ciência. Aliás, é bom lembrar que, para Sartre, a existência precede a essência apenas no tocante ao homem.
As novas perspectivas históricas reafirmariam os pressupostos hegelianos, oferecendo-nos estas dimensões dialéticas, inteiramente renovadoras das nossas concepções do homem e do universo: o mitológico e o histórico se apresentariam como a tese e a antítese do processo do desenvolvimento humano, que resultaria na síntese da palingenesia. Eis os caminhos que o livro de Mariotti nos aponta e que parecem corresponder precisamente a esta fase de superação cultural que estamos vivendo. Por outro lado essa superação, por sua própria natureza de síntese dialética, não invalidaria o materialismo e o existencialismo, limitando-se a determinar os marcos de validade circunstancial em que os mesmos devem colocar-se, ou seja, dando a cada uma dessas concepções filosóficas o seu lugar no amplo contexto palingenésico.
Dessa maneira teríamos o materialismo histórico situado no plano existencial como a visão objetiva do processo metafísico que determina as transformações sociais. Uma espécie de visão fenomenológica, de natureza descritiva. O existencialismo sartreano (hoje considerado pelo próprio Sartre como um enclave do Marxismo) corresponderia a uma visão objetiva e circunstancial de cada avatar da essência, que se renova e se enriquece no aqui e no agora das etapas da evolução palingenésica.
Mariotti nos mostra o sentido filosófico da revolução parapsicológica nas Ciências. Podemos repetir com Sir Oliver Lodge que se trata de uma revolução copérnica, como veremos mais adiante. Não há motivo para nos admirarmos com a oposição de certos setores ao desenvolvimento da Parapsicologia. Todas as forças conservadoras do processo histórico reagem diante dessa ameaça de desintegração, embora parcial, da cultura atual, da estrutura do conhecimento, segundo a lei de equilíbrio que determina a existência do instinto de conservação nos organismos vivos e nos grupos sociais.
II - O processo palingenésico
A propósito da tese de Mariotti escreve-nos erudito leitor: "Ao contrário de abrir novas perspectivas na concepção do mundo, a volta à palingenesia, proposta por Mariotti, representaria simples retrocesso histórico à metafísica estóica". Defendendo ardorosamente o Materialismo-Histórico, o leitor insiste no caráter retrógrado da posição idealista, que lhe parece "uma fuga romântica à realidade histórica", fuga essa que permite "a volta, em pleno século de conquista do espaço, a superstições soterradas nos escombros do mundo helenístico".
Não entendemos por que estranho motivo a volta à concepção palingenésica seria um retrocesso histórico, enquanto a volta ao atomismo de Leucipo e Demócrito representa evidente progresso que permitiu a investigação cósmica. O temor da volta às velhas superstições, ou mesmo às concepções ingênuas do passado, tem sempre marcado as fases de grande desenvolvimento intelectual. Mas apesar dele a volta sempre se afirmou como uma espécie de necessidade histórica. O próprio materialismo-dialético nada mais é que uma readaptação conceptual, não apenas da dialética hegeliana, mas das próprias con-cepções dos fisiólogos gregos. Nada demais que voltássemos aos estóicos, cuja metafísica se enraíza profundamente em Heráclito, tão querido e exaltado pelos materialistas dialéticos.
Os escombros do mundo helenístico são extraordinariamente fecundos e deles podem brotar, não apenas os cogumelos venenosos das explosões atômicas, mas também os que fornecem alimento e vida ao pensamento moderno. Neste caso, como demonstra Humberto Mariotti em seu livro Parapsicologia y Materialismo Histórico (e sopesamos o verbo demonstrar antes de usá-lo) encontrase a concepção palingenésica do mundo, que constitui o centro da metafísica estóica. É evidente que não tratamos de uma simples volta, de um retrocesso puro e simples, mas de um retorno cíclico à maneira dos que verificamos, por exemplo, no caso atômico, na própria questão da dialética-materialista ou ainda no caso da concepção comunista da sociedade.
Pede-nos o leitor, por outro lado, "um maior esclarecimento do processo dialético da história em bases palingenésicas". Pareceu-lhe confusa a proposição de que o mitológico e o histórico podem apresentar-se como a forma de contradição da qual resultaria a síntese palingenésica: "mesmo porque — acentua — a palingenesia não seria uma síntese, mas apenas um momento de" volta, de regresso ao estado anterior". Antes de mais nada devemos assinalar que não há, no processo dialético, um momento de volta puro e simples, pois toda volta só pode verificar-se como resultado do choque ou da fusão das proposições contraditórias. Não há "regresso ao estado anterior", mas avanço qualitativo ou enriquecimento histórico, segundo o velho símbolo hindu da "serpente que morde a ponta da cauda".
No plano do desenvolvimento histórico encontramos duas fases que se opõem, não apenas em sentido cronológico, mas também e principalmente em sentido qualitativo e portanto significativo. A primeira dessas fases é a mitológica, em que vemos a humanidade sair de uma espécie de "indiferenciação psíquica", correspondente aos períodos primitivos de sua evolução, para tentar a racionalização do mundo através do pensamento mítico, ainda densamente impregnado das emoções primárias. Huntersteiner realizou um belo trabalho, a que deu o título de Fisiologia do Mito, mostrando a natureza específica do mito, regido por uma lei fundamental que é a metamorfose. A esta lei, que parece antes imaginária que real, se opõe a concepção progressiva da história, estruturada numa seqüência racional de causa e efeito.
A oposição do mitológico ao histórico é o que poderíamos dizer: um fato evidente por si mesmo. Quando remontamos, por exemplo, à história chinesa antiga — história que não é história, mas apenas mitologia — e vemos o tumulto das dinastias partir da nebulosa divina e nela perder-se, compreendemos claramente a natureza indiferenciada da fase mitológica. Somente a partir da concepção histórica judaica, desenvolvida pelo Cristia-nismo, a seqüência dos eventos se define como um processo, e o que é mais importante, de natureza teleológica. Os acontecimentos se delineiam e se encadeiam com precisão cronológica, objetivando sempre um fim, e o processo antes confuso se esclarece e adquire significação. Impõe-se a analogia spenceriana entre o desenvolvimento coletivo e o desenvolvimento individual do homem, a partir da indiferenciação psíquica infantil para as fases de diferenciação progressiva e definição racional do amadurecimento orgânico e psíquico.