Parapsicologia: Hoje e Amanhã

J. Herculano Pires · Capítulo 19 de 32

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Parapsicologia: Hoje e Amanhã

VI - Carington e a Parassociologia

Assim, embora a Parapsicologia esteja ainda na fase de descoberta de um novo mundo, as provas que já conseguiu efetivar são suficientes para abalar a rigidez da concepção física ou materialista que até agora imperou na Ciência moderna. Se juntarmos a essas provas do campo psicológico as que nos são oferecidas no próprio campo físico pelas descobertas da Física Nuclear — que assume dia a dia as proporções de uma verdadeira parafísica — veremos que Pitirim Sorokin, da Universidade de Harvard, tem razão ao acreditar que nos encontramos numa fase de transição para nova forma de cultura.

Se até agora a nossa cultura se limitou aos dados do campo sensorial — apesar das dúvidas de Descartes e das experiências psicofísicas de Webber e Fechner sobre os limites das sensações — é evidente que não podíamos conceber a dialética histórica senão nas suas possibilidades concretas. Mas no momento em que rompemos o arcabouço físico da nossa formação cultural, abrindo perspectivas novas dentro da própria investigação científica da Natureza, seja no plano subjetivo ou no objetivo, é evidente que a dialética histórica do Marxismo se projeta de volta no rejeitado espiritualismo hegeliano. Queiram ou não queiram os que, como Bertrand Russel, insistem na sustentação da concepção materialista, a verdade é que a natureza não-física do Universo se abre diante dos nossos sentidos atônitos como uma vasta perspectiva.

Dessa maneira, não há nenhuma precipitação na formulação de uma hipótese da dialética-palingenésica. Hipótese, aliás, que não se apóia apenas nas investigações parapsicológicas e no desenvolvimento extrafísico da própria Física, mas num poderoso, vasto e profundo substrato histórico que desde a era tribal vem marcando a presença do espírito nos acontecimentos humanos. Outra conseqüência natural da Parapsicologia é esse descondicionar do pensamento que representa a reintegração do homem na realidade natural. Rompendo o condicionamento artificial da evolução científica, feita nos limites estreitos do raciocínio fisicista, a Parapsicologia nos liga novamente às raízes espirituais da espécie.

Dois fatos científicos de maior importância apóiam a tese da dialética palingenésica: a descoberta da antimatéria (que mostra a possibilidade de um antiuniverso) e a teoria do Universo oscilante de Ernst Õpik, que restabelece a hipótese grega do desaparecimento periódico do Universo e sua reconstrução cada trinta milhões de anos. Hipótese, dirão. Sim, mas hipótese baseada em dados rigorosos da investigação científica e aceita pelo mundo científico. O Universo que se destrói e reconstrói é um Universo palingenésico.

 

VI - Carington e a Parassociologia

 

A nova forma de cultura a que alude Pitirim Sorokin não pode ser inteira ou absolutamente nova. Sua novidade está na reformulação das bases atuais da Teoria Geral do Conhecimento. Mas essa reformulação, por sua vez, será apoiada em elementos fundamentais da cultura atual. Elementos que, como a pedra rejeitada da parábola, vão agora servir para construção de um edifício amplo e mais arejado, de um novo templo do saber, para usarmos essa expressão mística bem adequada às fases de renovação.

Esses elementos são justamente aqueles que foram postos de lado pelo desenvolvimento do racionalismo iluminista como resíduos de um passado místico: os conceitos de uma realidade não-física e da sobrevivência espiritual do homem. Aos dados que apresentamos no capítulo anterior, justificando a tese da dialética-palingenésica, podemos acrescentar os da doutrina parapsicológica de Whately Carington, que realizou experiências de importância substancial no Laboratório de Psicologia da Universidade de Cambridge sobre a transmissão telepática de desenhos, como vimos anteriormente.

Carington era desses parapsicólogos que não têm medo de palavras. Para ele não havia palavras feias no dicionário. Por isso não teve dúvidas em aceitar a dicotomia espírito-matéria para tentar uma explicação dos fenômenos observados. E graças a essa coragem ofereceu à Parapsicologia uma contribuição das mais fecundas. Preocuparam-lhe sobretudo os desvios de percepção no processo extra-sensorial. E a investigação nesse sentido revelou-lhe coisas curiosas, induzindo-o a uma medida de economia de hipóteses: a redução de toda a ESP (percepção extra-sensorial) a uma forma única, a telepatia precognitiva.

O próprio Carington admitiu que "forçava a mão" para fazer essa temerária redução. Mas partindo do princípio de que é preferível trabalhar com firmeza em âmbito menor, atreveu-se a realizá-la. Ao mesmo tempo, porém, que economizava em hipótese, quanto às modalidades dos fenômenos, via-se obrigado a esbanjar no sentido interpretativo. Essa contradição é plenamente justificável, pois se a simples existência da telepatia já lhe acarretava tantas preocupações de ordem qualitativa, que dizer da multiplicidade de ESP, que o obrigaria a esforços muito maiores?

Carington verificou que o objeto telepático em si, e portanto o objeto material, "nada tinha a ver com o fenômeno". Quer isso dizer que a transmissão telepática se efetuava de mente a mente, sem qualquer relação com o mundo objetivo. Vejamos como isso aconteceu. Carington abria um dicionário, tomava a primeira palavra utilizável para o caso, fazia um desenho e o afixava em seu gabinete. O sensitivo captava, à distância, não aquele desenho, mas o que seria feito no dia seguinte. entretanto, nem o próprio Carington sabia qual ia ser esse novo desenho que dependia da palavra a lhe ser novamente oferecida pelo dicionário. Era um caso típico de precognição.

A única maneira de explicar essa ocorrência, encontrada por Carington, foi a hipótese do associacionismo paranormal. Essa hipótese consistia na existência de um sistema de relações inconscientes que permitia o processo telepático, não como simples transmissão e recepção de mensagens, mas como uma forma de comunhão mental. Assim, quando o percipiente se dispunha a receber as mensagens de Carington, sua mente comungava com a do experimentador e todas as ocorrências ligadas ou associadas à experimentação em marcha se lhe tornavam acessíveis.

A conseqüência lógica dessa hipótese era a admissão da existência de entidades psíquicas que Carington designou por psícon e sensa. A mente, e portanto o espírito humano, seriam uma estrutura de átomos extrafísicos: os sensa produzidos sensorialmente pelo contato com o mundo exterior; e os psícon, imagens sutis daqueles, de natureza puramente mental. O espírito voltava a ser o feixe de imagens de Berkeley. Nada mais justo que esse feixe, uma vez ocorrida a morte do indivíduo humano, subsistisse no plano extrafísico. Desapareciam os sensa mas sobreviviam os psícon.

Partindo daí Carington sustentou a hipótese da sobrevivência da estrutura psicônica após a morte do homem. E acrescentou que essa estrutura — o espírito liberto do corpo — poderia entrar em relação com outras estruturas da mesma natureza e conseqüentemente comunicar-se com os vivos através dos processos mediúnicos. Analisando, por exemplo, o livro Raymond, de Sir Oliver Lodge, declarou não haver nada de estranho em que o filho de Lodge, morto na guerra de 1918, revelasse ao pai a existência de um mundo extrafísico semelhante ao mundo físico. E isso porque os psícon de Raymond haviam sido formados pelos sensa da sua vida física.