Parapsicologia: Hoje e Amanhã
II - A história de PSI
Necessário, pois, dividir entre Parapsicologia e interpretações parapsicológicas. A Parapsicologia, como disciplina cientifica, trata objetivamente dos fenômenos paranormais, encontrando-se ainda na orla da praia desse vasto continente em que se estendem as planícies ou as regiões montanhosas das doutrinas religiosas e ocultistas. As interpretações religiosas e filosóficas dos resultados obtidos pela pesquisa parapsicológica podem ser, de acordo com a posição do analisador, favoráveis ou contrárias à sobrevivência espiritual do homem. Mas é evidente que mesmo nessas interpretações existem as que se orientam pelo bom-senso e a honestidade, e as que se desmandam em distorções dos fatos visando a objetivos sectários. Cabe is pessoas de bom discernimento fazerem a distinção necessária.
A Parapsicologia aparece no campo das investigações psicológicas como a conseqüência natural do desenvolvimento da chamada psicologia profunda, a partir de Freud, e da psicologia da forma ou Gestalt, a partir de Wertheimer. A Psicanálise iniciou a investigação do inconsciente, que a Parapsicologia aprofunda, e a Gestalt desenvolveu os estudos da percepção, que a Parapsicologia amplia.
Do encontro e da fusão dialética desses dois ramos da Psicologia surgem a teoria e a pesquisa da percepção extra-sensorial, considerada esta como captação direta da realidade pelo inconsciente, num processo gestáltico de percepção, ou seja, numa forma de percepção global que os sentidos físicos não abrangem. Os limites do psiquismo se ampliam muito além do sensório comum. A Psicologia se liberta da sua sujeição ao físico e mesmo ao fisiológico, sem entretanto esquecer a realidade do condicionamento psicofisiológico. É o que examinaremos mais adiante.
II - A história de PSI
Há uma pequena letra grega, chamada psi, que os nossos estudantes de matemática conhecem muito bem e exerce papel importante na Parapsicologia. Essa letra foi escolhida pelos Profs. Wiesner e Thoules para designar, do ponto-de-vista puramente científico, os fenômenos paranormais. Por que essa escolha? Porque era necessário dar a esses fenômenos uma designação inteiramente livre de implicações interpretativas. Chamando-os de psi, damos-lhes apenas um nome técnico, sem nenhuma intenção ou carga emotiva.
Pelo contrário, quando dizemos que esses fenômenos são espíritas ou espiritóides, metapsíquicos, mesméricos ou hipnóticos e assim por diante, estamos ao mesmo tempo dando-lhes uma interpretação ou pelo menos enquadrando-os numa interpretação já aceita por muitos e rejeitada por outros. Não se trata de dar um novo rótulo a velhos fenômenos, mas de adotar uma terminologia científica livre de compromissos hipotéticos, a fim de que as investigações nesse campo não encontrem novos embaraços.
A escolha foi das mais felizes. E tanto assim que passou logo a ser adotada oficialmente. O I Colóquio Internacional de Parapsicologia aprovou essa designação, juntamente com as especificações feitas posteriormente por Wiesner e Thoules, com a junção a psi de outras letras gregas para a designação dos dois campos fundamentais dos fenômenos em causa. Os fenômenos psi ficaram assim divididos em dois campos hoje bem conhecidos: o dos fenômenos psigama e o dos fenômenos psikapa.
Antes de entrarmos em maiores detalhes, façamos um esquema ilustrativo dessa posição dos fenômenos, utilizando-nos dos próprios símbolos gregos que os designam. Os fenômenos teta foram recentemente acrescentados:
(Psi) ψ ⎨ ψχ ⎧ ψγ (Psigama) θ (Teta) ⎩ Psikapa θ ( ) (Teta)
A própria designação de psi divide-se também em dois campos: chamamos funções psi ao desconhecido mecanismo mental que produz os efeitos paranormais, e fenômenos psi a estes efeitos. Temos, portanto, uma relação de causa e efeito bem determinada, que nos oferece uma visão dupla do campo parapsicológico. De um lado estão as funções psi, que pertencem à mente e são de ordem subjetivo-causal; de outro lado os fenômenos psi, que pertencem ao mundo exterior ou mundo fenomênico, dos efeitos.
Essa divisão corresponde à velha concepção dualista, tão veementemente refutada pelas Ciências. Mas é preciso compreender que se trata de um recurso metodológico, à semelhança dos que são usados em todas as Ciências para facilitar o estudo dos problemas. Na verdade existe em psi uma reciprocidade complexa, que o Prof. Rhine explica como polaridade. Psi é uno, mas tem dois pólos. Se quisermos, psigama é o seu pólo positivo e psikapa o seu pólo negativo. Essa interpretação arbitrária só deve ser admitida como meio de compreendermos a complexidade de psi, que é ao mesmo tempo una e dupla.
Outra explicação do Prof. Rhine parece-nos muito útil para melhor compreensão do assunto: não existe em psi urna dualidade absoluta, mas relativa. E o mesmo tipo de dualidade que encontramos nas relações psicofísicas. Na verdade, essa dicotomia, que tanta celeuma provocou na Filosofia e na Ciência, pode ser reduzida, segundo pensamos, a termos de teoria e prática. Conseguimos atingir uma concepção monista do universo e do homem, mas ela é sempre uma pura concepção. Teoricamente somos monistas, mas na prática não escapamos ao dualismo.
Assim acontece com psi. Concebemos psi como uma unidade indivisível: funções e fenômenos, da mesma maneira que psigama e psikapa, fundem-se num todo conceptual. Mas praticamente não podemos tratar de psi como um todo. Temos de dividi-lo em campos diversos, a começar da distinção inevitável entre funções e fenômenos. Para melhor compreendermos isso basta lembrar que o todo não é simples, mas orgânico. A complexidade orgânica do todo explica a necessidade de dividi-lo para compreendê-lo.
A descoberta científica das funções psi foi realizada pelo Prof. Rhine e sua equipe de pesquisas na Universidade de Duke, Carolina do Norte, Estados Unidos. Praticamente podemos dizer que Rhine descobria a pólvora, pois essas funções e toda a fenomenologia delas decorrente já eram conhecidas das antigas civilizações e até mesmo dos povos primitivos. Em nenhum momento da história humana, e mesmo da pré-história, podemos assinalar o desconhecimento dessas funções e desses fenômenos. A literatura clássica e a religiosa de todos os povos estão repletas de relatos de fenômenos psi. E a própria Ciência já havia feito algumas incursões audaciosas por esse terreno, com êxito muitas vezes espantoso.
Mas a verdade é que Rhine teve de provar com enorme dificuldade a sua descoberta. O Prof. William McDougall, conhecido psicólogo inglês, pronunciando uma conferência na Universidade de Clark, em 1926, declarou peremptoriamente que a Ciência não deve temer as investigações paranormais, mas enfrentá-las através das Universidades. Em 1930, por sua iniciativa, criava-se o primeiro Laboratório de Parapsicologia do mundo na Duke University, e o Prof. Joseph Banks Rhine era incumbido de dirigi-lo.
Dado esse primeiro passo, Rhine entregou-se ao trabalho. Começou por reconhecer a antigüidade do conhecimento humano desses fenômenos e o grandioso trabalho de investigação realizado pela Metapsíquica, bem como pelas Sociedades de Pesquisas Psíquicas da Inglaterra e dos Estados Unidos. Prestou sua homenagem a Charles Richet, o criador da Metapsíquica, ao físico William Crookes e aos demais sábios que se haviam dedicado às pesquisas nesse terreno, mas declarou que colocava todas essas investigações e experiências entre parênteses, deixava-as em suspenso, para reiniciar a pesquisa com mé-todos modernos e o mais absoluto rigor científico.
Não foi nada fácil realizar essa tarefa. As funções psi eram tão conhecidas quanto duvidosas. As investigações anteriores haviam sido rechaçadas pelo mundo da Ciência. Rhine entregou-se exclusivamente à aplicação do método estatístico, iniciando a investigação com fenômenos simples, em experiências rudimentares. Era necessário pro-var, sem qualquer possibilidade de dúvida, que os fenômenos existiam. Provar para a Ciência, para os homens de Ciência, para os Tomés do método experimental. E foi isso o que realmente ele conseguiu fazer. Mas depois de quantos sacrifícios, quantos esforços, quanta paciência! Havia o fantasma da fraude, consciente ou inconsciente; o problema do acaso, a suspeita da crendice. Mas Rhine aplicou pacientemente o método escolhido, usando o cálculo de probabilidades para exclusão do acaso e os recursos técnicos modernos para exclusão da fraude e dos efeitos da crendice.
As funções psi que foram objeto do interesse imediato da pesquisa, na Duke University, eram a clarividência e a telepatia. Mas a clarividência esteve em primeiro lugar. Num período de dez anos, através dos trabalhos de Duke e de várias outras Universidades norte-americanas e européias, já então interessadas na pesquisa de psi, foi ela o objeto das mais rigorosas e exaustivas experimentações. Em 1940, como declara Rhine: "A clarividência estava firmemente comprovada". Mas a telepatia continuava em dúvida. A tendência geral era de considerar este fenômeno como simples aspecto da clarividência. Foram necessárias experiências especiais de telepatia pura a fim de comprovar-se cientificamente a sua existência.
O conjunto dessas experiências, que constitui a mais audaciosa e volumosa realização de pesquisas científicas de todos os tempos — para o simples fim de verificar a existência ou não de alguma faculdade humana — acabou demonstrando de maneira irrefutável que possuímos a capacidade de percepção extra-sensorial. Assim a Ciência ratificava o conhecimento vulgar do passado, do mais remoto passado humano. O homem pode perceber por outra via que não a dos sentidos físicos. E o mais importante é que pode "adquirir conhecimentos verdadeiros sobre a matéria por vias não materiais".
Essa conquista científica era da mais alta importância, destinada a ampliar de maneira imprevisível o campo até então bastante restrito da Teoria do Conhecimento. E essa ampliação se fazia particularmente no plano do autoconhecimento. A própria concepção do homem e dos seus poderes teria de ser modificada, não no sentido de uma destruição do que já havíamos conquistado, mas no sentido de um acréscimo de enorme significação.
Rhine não teve dúvidas em afirmar, logo que os dados da pesquisa lhe forneceram os elementos necessários, que a percepção extra-sensorial não era de natureza física. Essa afirmação equivalia ao mesmo tempo a uma evolução e uma involução — segundo os preconceitos científicos — na interpretação do homem. Evolução porque avançava além das fronteiras físicas das Ciências. E involução porque, nesse avanço, fazia-nos retroceder às concepções místicas do passado, àquelas mesmas concepções dogmaticamente impostas que por tanto tempo haviam impedido o desenvolvimento científico.
Quais as razões de Rhine? Primeiro, a própria natureza da percepção extra-sensorial — que não depende dos sentidos físicos — demonstrava a sua independência das leis físicas. Depois, as grandes experiências de telepatia à distância provaram que essa forma de percepção não estava condicionada pelo espaço. E depois, ainda, as provas de precognição e retrocognição, surgidas espontaneamente no desenvolvimento das experiências, provaram uma coisa ainda mais espantosa, ou seja: que essa percepção não estava sujeita ao condicionamento do tempo.
O homem pode perceber o que acontece não apenas no presente, o que existe não somente no "aqui" e no "agora" existenciais, mas também as coisas e os fatos do futuro e do passado. A adivinhação e a profecia estavam provadas cientificamente.
É fácil compreendermos a reação dos meios científicos a essas declarações. A Parapsicologia estava ameaçada do mesmo descrédito que havia asfixiado a Metapsíquica e a Pesquisa Psíquica do século anterior. E isso apesar da sua prudência, dos métodos rigorosamente científicos de que se utilizara. Apesar de se haver restringido a pesquisas de fenômenos rudimentares, na periferia do grande mundo desconhecido dos fenômenos paranormais. E foram precisamente os psicólogos os que mais se opuseram, os que mais obstinadamente rejeitaram os resultados apresentados por Rhine e seus colaboradores e continuadores.
Ficou célebre a enquête realizada em 1938 entre os membros da American Psychological Association. Dos 515 psicólogos consultados, apenas 360 responderam, e desses, somente 16,6% mostravam-se dispostos a reconhecer que estava demonstrada a existência da percepção extra-sensorial, ou pelo menos a sua possibilidade. A consulta havia sido feita pelo Prof. Lucien Warner. Pelos dados acima vemos que apenas uma sexta parte dos psicólogos de renome, que responderam à enquête, admitiam a existência ou possível existência dos fenômenos psi. Não obstante, 89% consideravam a investigação como legitimamente científica e 78% a consideravam como enquadrada no procedimento da Psicologia.
Na verdade, mais de dois terços desses psicólogos — que opinaram a respeito — não haviam lido jamais qualquer informe oficial sobre as pesquisas. E Rhine acentua que um em cada três declarou basear-se apenas em "raciocínios a priori". O que vale dizer, como Rhine comenta, que "mais de 30% desses psicólogos sabiam, sem nenhuma espécie de prova, que a percepção extra-sensorial não existe". Não poderia haver maior prova da existência do preconceito científico, ou seja, da atitude anticientífica dentro da própria Ciência.
Surgiram posteriormente a Questão Matemática e a Questão Experimental. A primeira se constituía de uma série de críticas ao procedimento matemático de controle e apuração das experiências. A segunda, de críticas ao procedimento metodológico. Rhine submeteu o procedimento matemático ao exame da reunião anual do American Institute of Mathematical Statistics, de 1937, e as condições experimentais à reunião anual, de 1938, da American Psychological Association. Esses dois congressos aprovaram a legitimidade dos procedimentos experimentais e matemáticos das pesquisas parapsicológicas, pondo fim àquelas duas questões.