Parapsicologia: Hoje e Amanhã

J. Herculano Pires · Capítulo 2 de 32

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Parapsicologia: Hoje e Amanhã

Primeira parte - Parapsicologia hoje

 

I - O que é Parapsicologia

 

Parapsicologia é o processo científico de investigação dos fenômenos inabituais, de ordem psíquica e psicofisiológico. É uma disciplina científica, mas não propriamente uma ciência, pois o seu lugar científico é nos quadros da Psicologia. Os próprios fundadores da 'moderna Parapsicologia sustentam a sua natureza dependente, embora reconhecendo a necessidade de sua autonomia transitória. É necessário compreendermos isso para não atribuirmos à nova disciplina uma posição excepcional no plano do conhecimento, e sobretudo para não lhe darmos um sentido ou um caráter misterioso.

Colocando as coisas em seu devido lugar, podemos dizer que a Parapsicologia é uma nova forma de desenvolvimento das pesquisas psicológicas. A ambição dos parapsicólogos, dos primeiros momentos até agora, tem sido uma só: conquistar para a Psicologia uma área de fenômenos psíquicos ainda desconhecidos. Não quiseram e não querem transformá-la numa ciência independente. O objeto da Parapsicologia são os fenômenos psíquicos não-habituais, mas apesar disso naturais, comuns a toda a espécie humana. E mais do que isso: comuns às demais espécies vivas, pois há também a Parapsicologia Animal.

Embora situada no campo científico da Psicologia, a Parapsicologia liga-se naturalmente a outras áreas das Ciências. Porque os fenômenos parapsicológicos são de ordem vital, psíquica e física. Sua complexidade é a mesma de todas as formas de manifestações vitais. Por isso, eles podem ser estudados e interpretados de várias maneiras, a partir de diferentes posições. Por exemplo: os parapsicólogos norte-americanos e europeus, da escola de Rhine, encaram os fenômenos como de natureza psicológica; e os parapsicólogos russos, da escola soviética, encaram os fenômenos como de natureza fisiológica. Os primeiros afirmam, atualmente, a natureza extrafísica, ou tipicamente psíquica, desses fenômenos, que nada teriam de material; os segundos sustentam a sua natureza fisiológica, e portanto material.

Essa e outras discrepâncias não invalidam nem prejudicam o desenvolvimento da Parapsicologia, que se processa com a mesma rapidez nos dois campos ideológicos em que se divide o nosso mundo. Porque, cientificamente, pouco importam as interpretações. O que interessa é o desenvolvimento da investigação, a descoberta progressiva, através de pesquisas científicas bem dirigidas, rigorosamente controladas e criteriosamente avaliadas nos seus resultados, da natureza dos fenômenos parapsicológicos. Somente isso poderá levar a Parapsicologia à conquista efetiva da área ou zona de fenômenos psíquicos e psico-físicos até há pouco inteiramente desconhecida, mas já agora bem demarcada nos mapas.

O livro do Prof. Joseph Banks Rhine, da Duke University, Estados Unidos: O Novo Mundo da Mente, apresenta-nos essa área na forma de um mapa bem delineado. Esse mundo, como diz o autor, só é novo para as Ciências. Porque, na realidade, é conhecido do homem há muitos milênios. Talvez desde que o homem existe. As Ciências atuais, que tratam de questões objetivas, deixaram de lado vastas zonas do conhecimento antigo cuja investigação objetiva era difícil, senão impossível. A zona dos fenômenos parapsicológicos foi uma delas. Mas agora, que as Ciências apresentam um grande desenvolvimento em todas as direções do conhecimento, já se torna naturalmente possível enfrentar o perigo e correr os riscos de investigações nessas zonas.

Não é justo, pois, acusarmos os parapsicólogos de medrosos por avançarem vagarosamente, nem os acusarmos de temerários quando arriscam interpretações como a extrafísica de Rhine ou a materialista de Vassíliev. Os que avançam por zonas desconhecidas devem ter a coragem das afirmações, quando se julgam suficientemente seguros nas suas conquistas. Mas os que ainda não obtiveram os mesmos êxitos têm o direito de duvidar e continuar avançando de maneira cautelosa. Isso acontece em todas as Ciências e em todas as disciplinas científicas e não somente na Parapsicologia. Os que alegam essas divergências como motivo para não tomarem conhecimento das novas descobertas são apenas comodistas. Encontram uma boa desculpa para não se darem ao incômodo de levantar-se de suas confortáveis poltronas, mas continuam cochilando enquanto o progresso caminha com os que andam.

Apesar disso é necessário estabelecer uma diferença entre a audácia dos exploradores legítimos e a impostura dos aventureiros. Estes aproveitam-se das confusões naturais e passageiras do desenvolvimento da nova disciplina científica para mais confundi-la no espírito público, em benefício de seus interesses pessoais ou sectários. É lícito ao investigador honesto, credenciado por seus conhecimentos e sua dedicação à ciência, tirar ilações audaciosas de suas conquistas, mesmo porque o fará dentro dos limites exigidos pelo bom-senso e a honestidade. Mas não é lícito ao aventureiro fazer afirmações infundadas e desonestas, torcendo e distorcendo as coisas para defender a sua opinião pessoal ou de grupo.

A Parapsicologia tem sido vítima desses aventureiros, que o povo não sabe distinguir dos investigadores e dos estudiosos honestos. Costumam dar espetáculos públicos em nome da nova disciplina científica, iludindo as pessoas desprevenidas, como se a Parapsicologia fosse uma nova forma de magia e ilusionismo. Arrastam as pessoas dotadas de sensibilidade especial às salas de espetáculo e as exibem às câmaras de televisão, sem o menor respeito pelo critério científico. Dão cursos de Parapsicologia sobre "comunicações com os mortos", e coisas semelhantes, como se problemas dessa natureza já estivessem resolvidos pela pesquisa parapsicológica, que mal os aflorou ainda, sem chegar a qualquer resultado definitivo. E tudo isso parece ter por finalidade o desprestígio da Parapsicologia, com objetivos obscurantistas.

O mesmo já sofreu a Psicologia, em passado recente. O mesmo sofreram outras Ciências e disciplinas científicas. Ninguém pode impedir que a ignorância, a má-fé interesseira, ou mesmo a ingenuidade promovam arruaças desta espécie em zonas pouco policiadas, como as da divulgação científica. Mas é evidente que as pessoas interessadas no conhecimento verdadeiro da Parapsicologia e do que se faz, nos grandes centros universitários do mundo, a seu respeito, não podem deixar-se embair por esses charlatães. Até mesmo nas instituições científicas, dedicadas exclusiva e rigorosamente ao tratamento científico da nova disciplina, eles têm conseguido infiltrar-se, defendendo teses absurdas, sustentando hipóteses duvidosas como verdades comprovadas ou fazendo exibições anticientíficas de sujets paranormais.

Os interessados em Parapsicologia devem compreender, antes de mais nada, que uma disciplina científica não comporta exibições de tipo teatral. O verdadeiro parapsicólogo, ou simplesmente o verdadeiro estudante de Parapsicologia, jamais se apresentará num programa de televisão ou num salão para dar espetáculos de ilusionismo e malabarismo ou para tentar as conhecidas "demonstrações" de telepatia pelo método de esquina de rua. A Parapsicologia se fundamenta na pesquisa científica de laboratório, arduamente realizada, com todos os rigores necessários do controle científico, obtendo resultados que são submetidos a tratamento matemático para que possam ser legitimamente avaliados. Fora disso, o que temos é simples empirismo, charlatanismo ou ingenuidade.

Os cursos populares de divulgação parapsicológica são benéficos, quando dados por instituições científicas idôneas com a finalidade de esclarecer o público e adverti-lo contra as mistificações. Seus certificados e diplomas têm apenas o valor de um atestado de boa-informação. Esses cursos não formam parapsicólogos. Apenas informam os seus freqüentadores quanto aos problemas e aos objetivos da nova disciplina. É assim, apenas assim, que devem ser encarados. Quando, pois, um pretenso parapsicólogo se propõe a "ensinar" que a Parapsicologia nega a existência de espíritos, de comunicações espirituais, de princípios religiosos e filosóficos, como o da reencarnação e o da existência de Deus, os seus diplomas e certificados não têm sequer o valor de atestado de informação sobre o assunto.

Convém deixar bem claro que alguns parapsicólogos de renome mundial, sérios e altamente capacitados, chegaram a sustentar, com base nas ilações que tiraram de suas investigações, a supervivência da mente após a morte física. O Prof. Whately Carington, da Universidade de Cambridge, responsável pelas famosas experiências de telepatia com desenhos que forneceram as primeiras provas científicas da precognição, chegou a formular uma teoria parapsicológica da existência post-mortem. O Prof. Harry Price, catedrático de lógica da Universidade de Oxford, sustenta a mesma tese afirmando que a mente humana sobrevive à morte e tem o mesmo poder da mente do homem vivo, de influir sobre outras mentes e sobre o mundo material. O Prof. Soal, da Universidade de Londres, realizou com êxito experiências de "voz-direta", nas quais a voz do comunicante vibra no espaço independentemente do sensitivo ou médium. O Prof. Rhine, em O Novo Mundo da Mente, reconhece que nas experiências examinadas por sua esposa, a Profa. Louise Rhine, na Duke University, há casos que sugerem a participação de uma entidade extracorpórea.

Enquanto isso, Robert Amadou, na França, sustenta a posição católica segundo a qual os fenômenos paranormais são de ordem inferior, relacionados com o psiquismo animal, de maneira que não podem provar nada a respeito da alma e sua sobrevivência. "A rigor, escreve Amadou, podemos aceitar que alguns elementos inferiores do psiquismo conservem, depois da morte funcional do corpo, uma existência própria, e continuem, assim, não propriamente uma individualidade ilusória, que durante a vida era tomada pela verdadeira personalidade, mas aquilo que a tradição chinesa denomina de influências errantes. Tratar-se-ia de imagens e lembranças que não estariam ligadas a nenhuma consciência, de fatos psíquicos isolados, segundo a expressão do Prof. Broad, de fragmentos capazes de inspirar o médium" (La Parapsychologie, 4.a parte, cap. III, A questão da sobrevivência).

Essa posição de Amadou e Broad coincidem com a teoria teosófica de Helena Petrovna Blavatsky da existência dos "cascões astrais" ou corpos espirituais abandonados por almas ou espíritos. Teoria, aliás, considerada absurda por alguns teósofos, como se vê no livro de P. A. Sinnet: Incidentes da Vida da Senhora Blavatsky. Sinnet considera essa teoria como simples resultado de uma precipitação de Blavatsky. E acrescenta: "Todos quantos, posteriormente, estudaram ocultismo, sabem hoje que o plano astral desempenha na vida de além-túmulo um papel muitíssimo mais importante do que a errônea teoria dos "cascões" nos fez inicialmente supor" (Cap. VIII: Residência nos Estados Unidos). Mas é evidente que tudo isto nos serve para mostrar que a Parapsicologia em si, como disciplina científica, não nega nem prova a realidade da sobrevivência espiritual e suas conseqüências. A controvérsia a respeito existe no campo parapsicológico como em qualquer outro.