Parapsicologia: Hoje e Amanhã

J. Herculano Pires · Capítulo 16 de 32

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Parapsicologia: Hoje e Amanhã

III - Da profecia à precognição

O mitológico, numa interpretação dialética, apresenta-se como a tese ou proposição inicial da qual se desdobrará fatalmente a antítese. E isso tanto mais se afirma quando analisamos a natureza sincrética do mitológico, onde não há fronteiras entre o humano e o divino, o temporal e o eterno, o cronológico e a duração. Podemos dizer que a duração ainda não foi segmentada, segundo a explicação bergsoniana. É por isso que a lei do mito é a metamorfose. Não há sucessão cronológica, mas apenas variações na duração. A tese contém em si mesma os germes do desenvolvimento futuro, os elementos que se definirão na fase histórica sob o impacto do deus Marduc da razão, que partirá o caos em dois pedaços para produzir o cosmos.

O processo dialético, entretanto, não se interrompe. Uma vez colocada a oposição, a tese se desenvolve na antítese, mas terá fatalmente de resultar na síntese. A separação dos elementos fundamentais da tese, na produção natural e necessária da antítese, não foi casual, mas causal e por isso mesmo teleológica. Regida por uma causa, dirigia-se a um fim. E este fim, implícito na própria dialética, é o desenvolvimento ou a realização de um estado superior em que os elementos rejeitados pela antítese voltam a incorporar-se no processo, aparentemente interrompido.

Não há outra fase que possamos considerar como uma possibilidade pós-histórica senão a palingenésica. Somente nesta se torna possível a realização da síntese, nos termos da filosofia de Charles Bonnet e de Ballanche ou ainda do próprio Schopenhauer. Eis o momento em que a reencarnação, como um processo não apenas individual, mas coletivo, se impõe nas dimensões estóicas, aclarada pelas conquistas científicas da atualidade. Num mundo de renovações cíclicas, como vemos no desenvolvimento dos reinos naturais — aos quais pertencemos — seria estranho que apenas a Humanidade seguisse um sistema linear de evolução através da História. A constatação do processo palingenésico no plano social surge como um novo fator de reintegração do homem no complexo da evolução universal.

É evidente que ao considerar a sucessão das gerações vegetais e animais não se leva em conta apenas o elemento físico. Este é informado e impelido pelo elã vital de Bergson. Esse elã, por sua vez, não é apenas vital, mas também anímico e mental, como as primeiras experiências parapsicológicas já demonstraram, confirmando as anteriores pesquisas espíritas e metapsíquicas. A palingenesia não é, assim, apenas uma forma de conservação e renovação da matéria, mas um processo de desenvolvimento das potencialidades anímicas das coisas e dos seres — um avanço do inconsciente ao consciente — como Gustave Geley demonstrou em sua obra famosa

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III - Da profecia à precognição

 

Em seus estudos sobre as origens e a história das religiões, John Murphy, da Universidade de Manchester, adotou o método cultural que distingue os sucessivos ho-rizontes históricos da evolução religiosa. O primeiro horizonte é o primitivo; o segundo, o anímico, o terceiro, o agrícola; o quarto, o do aparecimento do espírito de civilização; e o quinto, que nos interessa neste capítulo, é o horizonte profético. Nessa fase da evolução religiosa do homem, acentua Murphy, um dos fatos característicos é o aparecimento das grandes individualidades, como os profetas hebreus e os fundadores de religiões. Podemos falar, assim, de um período histórico caracterizado pelo desenvolvimento e a influência civilizadora da profecia. Murphy assinala em seu estudo que: "O homem é o produto da evolução, tanto no tocante ao corpo quanto ao espírito".

A profecia aparece como uma conseqüência da evolução humana e ao mesmo tempo como uma exigência e uma condição dessa evolução. Estamos eqüidistantes das explicações, ambas simplistas, da teologia e da psiquiatria. Embora Murphy não se interesse pela profecia em si, ele a explica como o desenvolvimento do espírito de civilização que liberta o homem das formas primárias de pensar, ligadas aos horizontes primitivo e anímico e já modificadas na fase de desenvolvimento agrícola. A maior capacidade de formar conceitos, de elaborar uma concepção geral do mundo e da conduta humana, de formular preceitos éticos e orientar as coletividades são para ele as condições fundamentais da individualidade profética .

Embora o sentido etimológico de profecia seja o anúncio do futuro, a tradição religiosa consagra-lhe outro. A profecia, como se vê especificamente nos casos de Jesus e de Maomé, bem como no tocante aos profetas bíblicos, é ao mesmo tempo a revelação de ensinamentos divinos e de acontecimentos futuros. No Cristianismo a profecia assume importância fundamental, pois é a pedra de toque da legitimidade do Messias e a própria base da Revelação. A interpretação teológica da profecia tirou-lhe a naturalidade, convertendo-a numa manifestação mística de cunho sobrenatural. Se isso lhe deu, na antigüidade e na fase medieval, extraordinário prestígio, serviu ao mesmo tempo para desprestigiá-la na época moderna, com o desenvolvimento do pensamento positivo. A pro-fecia passou subitamente para a categoria das superstições, e o que é pior, das manifestações de desequilíbrio ou de perturbação psíquica. O profeta desceu da condição de individualidade superior para a de louco. Daí os livros e as teses como a de Binet Sanglé (La Folie de Jesus), interpretando o próprio Cristo como um teomegalômano-histeróide.

Essa e outras teses são ainda do agrado de intelectuais que se orgulham da firmeza e da clareza positivas de suas convicções, relegando ao lixo do passado as grandes concepções que representam a matriz histórica do espírito contemporâneo. Mas na proporção em que este mesmo espírito se desenvolve, as interpretações do tipo Binet Sanglé vão caindo no passado, para usarmos uma expressão de René Hubert, e rapidamente se transformam em objetos de museu. No caso particular da profecia temos agora a assinalar, além do reconhecimento da sua importância no processo de evolução humana, o reconhecimento científico da sua existência como uma faculdade humana natural, suscetível de experimentação.

Já os Profs. Gustavo Geley e Eugênio Osty haviam verificado, através de numerosas experiências do Instituto de Metapsíquica de Paris, na primeira metade do século, confirmando as conclusões anteriores de Frederic Myers, William Crookes, Charles Richet e outros a possibilidade de comprovação científica da profecia. Agora são as investigações rigorosamente científicas da Parapsicologia, seguidas de experimentações minuciosas, que vêm dar à profecia o direito à cidadania no mundo das Ciências. Com a designação técnica de precognição, implicando a existência da cognição ou percepção extra-sensorial, e ao mesmo tempo a existência da retrocognição, também cientificamente comprovada, a profecia é atualmente uma faculdade humana (e ao que parece também das espécies animais) reconhecida e admitida pela investigação científica em plano universitário e uni-versal.

Chegamos assim, através do estudo de uma faculdade mental ou psíquica (pois o psiquismo, neste caso, não se conforma aos limites de uma definição mentalista) a uma convalidação da hipótese da dialética palingenésica de que tratamos nos capítulos anteriores. O próprio desenvolvimento histórico da profecia, nos termos propostos por Murphy, implica essa dialética. Surgindo naturalmente do processo evolutivo para firmar-se como a característica de uma fase longa e decisiva da história humana, a profecia se revela como uma forma de superação das limitações positivas de espaço e tempo.