Parapsicologia: Hoje e Amanhã
Segunda parte - Parapsicologia amanhã
No campo da Parapsicologia estamos em nosso próprio elemento. Os outros é que chegaram depois, e muitos como arrivistas mal intencionados. Podemos dizer sem receio que o terreno é nosso, de direito e de fato. Como Tertuliano no caso das escrituras sagradas, podemos evocar a figura jurídica do usucapião em nosso favor. Muito antes de Rhine e McDougal já estávamos nesse terreno, com Kardec, Richet, Croockes e outros. E sempre com ampla liberdade, por imperativo exclusivo da consciência e na busca livre da verdade, sem preconceitos nem interesses secundários. Continuamos, pois, em nossa posição, agora na boa companhia dos parapsicólogos honestos.
Antes de encerrar esta parte voltamos ao problema do canhotismo, em virtude do aparecimento do livro Destros e Canhotos do Prof. José Quadros França (Edições Melhoramentos, São Paulo, 1969). Esse livro confirma a absoluta carência brasileira de estudos e dados estatísticos a respeito. Hossri supõe, como vimos, 10% de canhotos na população, mas França informa que as estatísticas norte-americanas acusam a média de 12,5% equivalente a 125 canhotos em cada 1.000 pessoas. Hossri supõe 90% de canhotos corrigidos e França declara: "Não encontramos aqui no Brasil levantamentos estatísticos sobre o fenômeno".
No tocante aos efeitos da correção do canhotismo o Prof. França se limita ao problema da gagueira e a conseqüências psíquicas ainda não comprovadas, apenas supostas. Referindo-se a estudo do Dr. Werner Kemper publicado no n.° 51 da "Revista Brasileira de Medicina" (novembro de 1951) França examina a fragilidade das teorias científicas ali expostas sobre o canhotismo. Tudo isto vem confirmar a temeridade da hipótese de qualquer relação entre a correção do canhotismo e o desenvolvimento das funções psi.
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Segunda parte - Parapsicologia amanhã
I - Palingenesia: síntese dialética
Em livro há pouco publicado em Buenos Aires, pela Editorial Victor Hugo, Humberto Mariotti estuda o Materialismo Histórico à luz da Parapsicologia, concluindo pela evidente abertura de perspectivas ontológicas na Ciência contemporânea, graças às investigações da fenomenologia paranormal. Mariotti já teve um de seus livros traduzido para o português e publicado no Brasil. Trata-se de Dialética e Metapsíquica, resultante de um debate com o marxista Emílio Troise.
O que ressalta de mais importante neste novo estudo de Mariotti é a sua negação da validade da concepção materialista da História — sem negar a realidade do processo dialético — e a afirmação da importância da palingenesia como um conteúdo histórico que somente a investigação parapsicológica poderá revelar, através do método científico de investigação e experimentação.
Para os que conhecem a maneira cautelosa por que a Parapsicologia avança, passo a passo, nas suas investigações, pode parecer temerária a afirmação de Mariotti. Para os que, porém, sabem ligar historicamente a Parapsicologia à Metapsíquica — o que Mariotti faz com extraordinária lucidez — não há nenhuma temeridade no seu procedimento. Tanto mais que ele não se lança à formulação de qualquer hipótese, limitando-se a mostrar a possibilidade, já revelada pelas conquistas parapsicológicas, de um novo acesso à problemática ontológica no plano científico.
Esse acesso decorre naturalmente da constatação científica das faculdades paranormais. Aliás, o próprio Prof. Joseph Banks Rhine alude ao problema, em seu famoso livro The New World of the Mind, ao referir-se às pesquisas universitárias realizadas por sua esposa, a Profa. Louise Rhine. Bem antes, ainda no plano histórico da Metapsíquica, Ernesto Bozzano afirmara que a prova científica da percepção extra-sensorial implicava, de maneira logicamente irrevogável, a existência de estâncias ontológicas desconhecidas, capazes de sustentar a validade das teorias metafísicas do homem.
As provas científicas da Metapsíquica foram rejeitadas, não pela negação dos fatos observados ou da validade dos experimentos, mas pela perplexidade que provocaram. Entendeu-se que os fenômenos •estudados por William Crookes, Charles Richet, Eugênio Osty, Gustavo Geley, Schrenck-Notzing, Alexandre Aksakoff, Oliver Lodge e tantos outros eram intrinsecamente impossíveis. A objeção, como se vê, era filosófica e não científica. Robert Amadou, atualmente, em seu livro La Parapsychologie, lembra que os metapsiquistas poderiam responder, à maneira de Galileu, que apesar da impossibilidade alegada os fatos existem. E tanto isso é certo que a Parapsicologia está hoje refazendo meticulosamente, no plano da investigação universitária, em âmbito mundial, os caminhos já feitos pela Metapsíquica. Através do método quantitativo de investigação o procedimento qualitativo da Metapsíquica se comprova. E como acentua Jan Erhenwald, exige mesmo a volta ao exame qualitativo.
Por falar em Ehrenwald, é bom lembrar que esse psiquiatra propõe, no seu livro sobre a telepatia, a conjugação de três métodos para a investigação dos fenômenos telepáticos, em sua ocorrência no plano patológico. entende Ehrenwald que as estâncias psicanalíticas da personalidade podem revelar novos aspectos, à luz da investigação parapsicológica. E para tanto afirma a conveniência de se conjugar, nos casos possíveis, os métodos qualitativo e quantitativo e o método significativo da interpretação psicanalítica. Vê-se, assim, que as novas perspectivas ontológicas de Mariotti são uma realidade que se revela também na clínica psiquiátrica.
Mas o que importa, no tocante à palingenesia, é a negação da validade materialista da concepção dialética da História. Lembra Mariotti que a dialética hegeliana não se compadece com nenhuma forma de materialismo, sendo, pelo contrário, a própria lei da negação da negação aplicada ao materialismo. Quando se coloca a ênfase do processo histórico, não no seu aspecto material, considerado em si, mas na sua dinâmica, ou seja, no seu processo dialético, o problema se desloca, sob o ponto-de-vista lógico, para a Metafísica. Passamos a lidar com o abstrato e a reconhecer imediatamente os fundamentos imateriais do processo histórico.
Diante disso Mariotti releva a importância da investigação ontológica, nas perspectivas que se abrem através da Parapsicologia, para a reformulação da concepção dialética num sentido de volta às proposições hegelianas. De nossa parte entendemos que não cabe apenas à Parapsicologia, mas também à Física Nuclear um papel fundamental nesse terreno. Por mais que Bertrand Russel procure salvar a concepção materialista, sustentando que a negação científica da matéria não implica a negação das leis físicas, é evidente que o rótulo que se mantenha para essas leis nada importa e nada significa. A realidade científica atual é a da colocação do problema ontológico entre duas séries de perspectivas que se abrem, cada vez mais amplamente, nas Ciências da Natureza e nas Ciências do Homem, com a negação do organocentrismo e a possibilidade do reconhecimento de formas de vida além das que se manifestam nos organismos materiais.