Parapsicologia: Hoje e Amanhã

J. Herculano Pires · Capítulo 29 de 32

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Parapsicologia: Hoje e Amanhã

XVI - Os padres mágicos

Assim, as novidades parapsicológicas, que deviam "aturdir os ingênuos espiritistas" nada mais fazem do que reafirmar tardiamente as teorias espíritas, já confirmadas pelas experiências do Espiritismo há mais de um século. Não é de admirar que os adversários do Espiritismo queiram reduzir a Parapsicologia à triste condição de um pavlovismo ou um behaviorismo paranormal. É o único recurso que lhes resta diante do avanço das Ciências na comprovação progressiva das pesquisas e teorias espíritas.

A posição de Rhine no tocante à questão da sobrevivência é declarada nos seus últimos livros e artigos. O Prof. Jorge Ayala, da Universidade do México, declarou-nos pessoalmente: Rhine segue por etapas — a primeira foi a prova de que os fenômenos existem; a segunda, a prova de que a mente não é física; a terceira será a da sobrevivência espiritual do homem. A equipe de Puhariche, que realizou pesquisas com Arigó e outros médiuns, tem o mesmo objetivo.

É importante assinalar que até agora as pesquisas parapsicológicas não provaram nada contra o Espiritismo. Pelo contrário, só têm confirmado, passo a passo, a doutrina espírita em seu aspecto científico.

 

XVI - Os padres mágicos

 

O desinteresse dos meios universitários e das instituições científicas no Brasil pelo desenvolvimento mundial da Parapsicologia deixou-nos expostos à invasão da charlatanice. É uma lei do progresso cultural, já bastante conhecida. Em todos os campos em que a Ciência se recusou a entrar com a sua frágil mas eficiente lanterna, surgiram os charlatães de tocha em punho. Os fenômenos paranormais ocorrem entre nós, tanto como entre todos os povos. Mas devem haver algumas circunstâncias que nos favorecem nesse terreno. Possuímos, talvez, maior número de médiuns que qualquer outro país. Muitos deles se transformaram em charlatães porque não encontraram amparo e orientação e nem mesmo a mais leve atenção de parte das organizações científicas, a não ser para persegui-los e processá-los.

O caso Arigó teria sofrido essa metamorfose, não fosse a simplicidade rústica e a honestidade natural do médium. Os nossos meios científicos tudo fizeram para converter Arigó num charlatão e depois metê-lo na cadeia. Como a transformação foi impossível, insistiram até os seus últimos dias em prendê-lo mesmo assim. Parodiando conhecido ditado popular, pensam os nossos homens de Ciência que mais vale um médium na cadeia do que mil em liberdade. Mas por mais que fizeram, Arigó resistiu. Foi uma rocha de inabalável minério. E além disso os médiuns em liberdade se multiplicam por •toda parte. A ciência indígena se desespera e pede ajuda à religião. Já que não é possível acabar com os médiuns, que pelo menos possamos exorcizá-los. É aí que entram em cena os padres mágicos.

Louis Pawels e Jacques Bergier entendem que estamos no momento do despertar dos mágicos. O livro de ambos, traduzido e publicado no Brasil, não fez o sucesso esperado. Porque entre nós os mágicos já haviam despertado antes. E o fizeram da maneira mais apropriada, respeitando a mais antiga tradição espiritual: no meio sacerdotal. Num ambiente cultural subdividido por numerosos conflitos, os padres mágicos surgiram sob aplausos. Vinham explicar aquilo mesmo que Pawels e Bergier explicavam em seu livro: que o fantástico é uma realidade natural, acessível aos que não dormem o sono intelectual. E o faziam de maneira muito mais simples, através de cursos populares ilustrados por exibições hipnóticas e mágicas de teatro.

De um momento para outro vimos surgirem algumas figuras curiosas que ensinavam a doutos e incultos, a cientes e incientes, várias ciências novas. Frei Boaventura Klopemburg, por exemplo, e Irmão Vitrício, "introdutor da letargia no Brasil", que se esparramou em espetáculos de teatro e televisão, "provando" que os fenômenos mediúnicos nada mais eram do que encenações letárgicas. Até hoje ninguém conseguiu uma prova de que a letargia seja uma ciência diferente da hipnologia. Mas para que provas, quando temos as exibições teatrais? O Padre jesuíta Oscar Gonzalez Quevedo invadiu escolas superiores, estações de televisão, auditórios e páginas de jornais e revistas para ensinar uma nova parapsícologia "made in Madri" que fez furor em todos os setores. O iluminado sacerdote dava cursos sobre comunicações de além-túmulo e provava que médiuns e estudiosos do Espiritismo não passavam de beócios e ingênuos. A verdade escorria dos dedos do padre como chuva de verão, fácil e passageira: O inconsciente é um gênio desconhecido; quem faz tudo isso é o inconsciente.

Simpático, sorridente, estribado numa auto-suficiência de espantar mouros da costa, o F. Quevedo distribuiu os seus cursos pelo meio universitário, concedeu entrevistas farfalhantes a jornais, revistas ilustradas e estações de televisão e acabou publicando um calhamaço que reúne a sua profunda sabedoria: A Face Oculta da Mente. O que há de oculto nesse grosso volume foi revelado pelo conhecido estudioso do assunto, o metapsiquista e espírita Carlos Imbassahy, com seu livro A Farsa Escura da Mente. Basta confrontar os dois volumes para se ver a que despropósitos chegou a ciência infusa do P. Quevedo, no seu afã de provar a genialidade do inconsciente.

No fundo, as conclusões do padre são mais otimistas que as do famoso doutor Pangloss. Não existem fenômenos espíritas, mas, em compensação, todos nós somos ge-niais. Que importa se não podemos provar a sobrevivência do homem após a morte? Temos uma prova muito mais valiosa: a de que cada um de nós carrega um gênio oculto no inconsciente. É verdade que, conscientemente, podemos ser uns pobres diabos. Mas isso é passageiro. Lá dentro, nas criptas e furnas secretas do inconsciente, que o pobre Dr. Freud não foi capaz de penetrar, dorme sempre o gênio desconhecido. O P. Quevedo penetra nas furnas, sacode o dorminhoco, desperta-o, admira-se ele mesmo da sua façanha e exclama, como na conhecida anedota: "Che vedo!".

Somos uns gênios incubados. Talvez a morte nos desperte para a genialidade inconsciente. Não basta isso? Não, o P. Quevedo ainda não se contenta com isso. Seu otimismo encontra apoio nas teorias do maravilhoso Dr. Giuseppe Galigaris: Podemos refletir o Universo na pele! Seria possível maior maravilha? Que campo novo para os dermatologistas! Antigamente podíamos ter o diabo na pele. Hoje, podemos ter o Universo. O P. Quevedo explica a razão dessas coisas espantosas: " .. a manifestação das faculdades paranormais é o resíduo do extraordinário poder que possuía a natureza humana quando foi criada, poder que desfrutaria num paraíso terrestre" (A Face Oculta da Mente, pág. 329). Dessa maneira, o padre nos revela uma herança que desconhecíamos. Até agora, só nos haviam ensinado que herdamos o pecado. O padre descobre e nos conta que herdamos também os poderes celestes de nosso pai Adão, o pecador. Podemos recuperar um pouco do paraíso perdido através das mágicas geniais do nosso inconsciente.

Na verdade, as mágicas não são do inconsciente, são do padre. Ou melhor, dos padres mágicos que andam fazendo exibições de palco e televisão, no afã de negar a possibilidade de comunicação espiritual com os que partiram da Terra. Curiosas contradições humanas! Quem diria que justamente os sacerdotes, incumbidos de lembrar aos homens a sua natureza imortal, iriam voltar-se contra as provas da sobrevivência e apelar até mesmo para os truques de magia e os passes hipnóticos a fim de provarem que os fenômenos espíritas não existem? Pois é o que temos aí, aos nossos olhos. Padres e frades faquirizando contra o Espiritismo, organizando grupos de sensitivos previamente treinados para exibições teatrais, fazendo artes em público e afirmando que somos herdeiros de poderes paradisíacos, puramente materiais.

Mas surgem, às vezes, coisas inesperadas. O P. Quevedo declarou insistentemente que entendia de magia teatral. Mas como afirmou, muitas vezes mais, que pelo poder da mente dominava o corpo, impedia o fluxo sangüíneo nos ferimentos e suprimia a dor, ninguém pensou nos seus poderes mágicos. Até que alguns mágicos de verdade, mágicos profissionais, que trabalham em palcos e circos, ganhando honestamente a vida na prática de uma velha arte, tão nobre como qualquer outra — sem jamais enganarem a ninguém, pois todos sabem que se trata de uma arte e não de poderes estranhos — resolveram assistir os cursos do padre. Assistiram, viram tudo e ficaram indignados. Sim, porque o padre fazia mágicas e dizia que estava fazendo ciência! Então, modestamente, os mágicos de verdade resolveram protestar. E o fizeram com o maior respeito pela genialidade inconsciente dos ilustres reverendos.

A revista "Miríade Mágica", órgão do Núcleo Mágico de Niterói, resolveu tratar do assunto em seus números 9 e 10, de abril-maio de 1965. Num artigo sério, intitulado A propaganda e seus efeitos, os mágicos aplaudem as habilidades do padre mas discordam de certos exageros. Vejamos um trecho, com a devida vênia:

 

"Ainda agora, com o objetivo de adquirirmos alguns conhecimentos, para melhoria

de nossos trabalhos, freqüentamos as conferências proferidas pelo ilustre professor de parapsicologia P. Oscar Gonçalves Quevedo, S. J., no curso intensivo dessa ciência, e ficamos convencidos de que se deve apoiar e co laborar no sentido de combater as superstições e crendices que levam a humanidade a inferiorizar-se, acreditando em fraudes conscientes e inconscientes".

 

Até aqui, como se vê, a maior boa vontade, a intenção de aprender e o evidente respeito para com o ilustre professor. Mas, a seguir, os mágicos reagem na defesa da profissão e também na defesa da lealdade mágica, como se vê neste trecho:

 

"... embora reservemo-nos o direito de discordar de certas afirmativas do

reverendo professor, como a de que o ilusionismo frauda, principalmente pela sua declaração de ser cultor de nossa Arte e havê-lo demonstrado efetivamente, em todas as ilustrações do curso, como sejam: visão paraótica, estrada hipnótica, visão através dos corpos opacos, baralho-rosário, pantominesia, mnemotecnia, advinhação extra-sensorial, cumberlandismo ou crime simulado, hipnose teatral e um pouco de faquirismo, espetando um estilete no braço".

 

Está aí o rol de mágicas que o P. Quevedo oferece aos seus alunos de parapsicologia. No curso acima referido, segundo o articulista, o padre declarou "alto e bom som" que se tratava de experiências científicas entre aspas. Na maioria dos cursos, e mesmo em programas de televisão, não apareceram essas aspas. Pelo contrário, tivemos a oportunidade de ver apenas as aspas do touro da verdade vacilando ante as negaças do toureiro espanhol. Mas voltemos aos mágicos. Ouçamo-los:

 

"... em o Jornal do Brasil vimos uma sua fotografia com o estilete espetado no

braço, e no históríco a afirmativa de que ficara um buraco de cinco milímetros de diâmetro, sem sangrar e sem que o

paciente sofresse qualquer dor. Ora, embora não pratiquemos esta faceta do ilusionismo, sabemos como é praticada, por havermos auxiliado a apresentá-la e conhecermos os seus truques "científicos". Acreditamos que a alegação (mentirosa) do buraco, pode gerar crendíce até em pessoa ilustrada. Quanto à dor, a letargia apresentada entre nós pelo Irmão Vitrício já a explicou suficientemente (para empregarmos um termo também bastante pretensioso), além de devermos considerar que o maior dorimento é o da periferia, e, por isso mesmo, o estilete é biselado (o truque)".

 

A seguir, o articulista explica que o ilusionista não pretende fraudar, iludir ou enganar, mas apenas ilusionar. E acentua: ilusionista que não ilusiona comete fraude. Assinala ainda que o ilusionismo não pretende atacar nenhuma religião, nenhuma crença. É apenas uma arte. Todos os que vão assistir a um espetáculo sabem que estão vendo artifícios e não fenômenos de qualquer espécie. Que bonita lição de honestidade profissional nos dão os mágicos, em sua modesta revista! Ouçamo-los ainda:

 

"Se alguém faz a levitação sem truques (os corpos celestes aí estão para o

comprovar) não se depreende daí que o contestemos. Apenas declaramos que usamos truques para simularmos o que é, ou o que asseveram ser real".

 

Para encerrar o artigo, que se refere especialmente ao problema da publicidade, o articulista de "Miríade Mágica" exclama, certamente aturdido com as "maravilhas" que havia presenciado: "Cuidado pois com a publicidade! Não permitamos os exageros que nos poderão prejudicar". E nada mais foi dito. Mas significativamente recebemos um exemplar desse número da revista, cuja distribuição é feita apenas entre os mágicos profissionais. Esperamos que o remetente não se aborreça com a publicidade eventual que estamos fazendo da sua revista e da sua profissão. Não temos outra intenção senão aquela mesma que o orientou: a de mostrar aos homens de boa-fé que, segundo a lição evangélica, devemos ser mansos como as pombas mas não podemos esquecer a prudência das serpentes.

De tudo quanto aí fica, tire o leitor as suas conclusões. Os padres mágicos constituem um dos capítulos mais curiosos da história da Parapsicologia no Brasil. Não podíamos deixar de registrá-lo neste volume, como uma contribuição para os futuros historiadores. E também (porque não?) como uma justa homenagem à habilidade dos padres mágicos, que têm dominado platéias numerosas e conquistado auditórios ilustres. Aliás, o Livro de Atos refere-se a alguns mágicos da era apostólica, como o caso de Elymas, o encantador (13:6-12), a quem Paulo advertiu que não continuasse a perturbar os retos caminhos do Senhor, e o tão conhecido caso de Simão, o mago (8:9-24), a quem Pedro repreendeu, por não ter o coração reto diante do Senhor.

Novo livro do P. Quevedo foi publicado recentemente, em dois volumes, com o título de As Forças Físicas da Mente. Afirma o autor que existem duas forças nos fenômenos paranormais: "... umas vezes há exteriorização de força material, outras vezes de força espiritual". Isto é o que se chama descobrir a pólvora, pois tanto no Espiritismo, quanto na Metapsíquica e na Parapsicologia todos os autores sabem disso. Os dois volumes do padre não vão além do emaranhado de contradições de seu livro anterior: A Face Oculta da Mente. Sua finalidade é apenas combater o Espiritismo.

O curioso é um padre publicar dois volumes para contradizer a principal descoberta científica do século, feita e proclamada pela escola de Rhine: a de que a mente não é física. A mente, pois, não possui forças físicas, e como ensina Rhine, age "por vias não físicas sobre a matéria". Nos fenômenos físicos paranormais exteriorizam-se forças físicas do médium sob a ação das forças mentais ou espirituais do próprio médium ou dos Espíritos. Essa interação mente-corpo é princípio básico bastante estudado e confirma cientificamente a relação alma-corpo que é fundamento das religiões. Gustave Geley explicou a emissão do ectoplasma como o resultado da ação de "controladores espirituais" sobre os médiuns. Este problema só continua a ser problema para os materialistas.