Parapsicologia: Hoje e Amanhã

J. Herculano Pires · Capítulo 20 de 32

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Parapsicologia: Hoje e Amanhã

VII - Implicações sociológicas

A doutrina de Carington, mesmo que desprezemos as suas ilações metafísicas, contribuiu para abrir novas perspectivas à investigação dos fenômenos psi. A rigidez es-quemática do processo de transmissão telepática, semelhante ao das transmissões telegráficas, foi substituída pelo dinamismo da associação do conhecimento paranormal. O processo de ESP se revelou mais complexo do que parecia até então. As novas experiências, que ainda agora se desenvolvem nessa orientação nova da hipótese de Carington, poderão decidir por uma reformulação fecunda de muitos aspectos da problemática parapsicológica.

Mas voltando à tese da dialética-palingenésica vemos que Carington contribuiu para a sua formulação abrindo as perspectivas para a elaboração de uma verdadeira Parassociologia. As entidades psíquicas de Carington, como estruturas psicônicas, em inter-relações fora do plano material e ao mesmo tempo com suas possibilidades de relações com as estruturas mergulhadas neste plano — caso de Raymond, por exemplo — ampliam o campo sociológico levando-nos de volta à cosmossociologia de que falava Durkheim a respeito das cidades gregas, onde homens e deuses conviviam naturalmente. Carington abriu, dessa maneira, na Parapsicologia, a possibilidade de uma Parassociologia que virá fortalecer a tese da dialética-palingenésica.

Na verdade essa Parassociologia já é, há muito tempo, uma realidade social desconhecida pelas Ciências. No mundo inteiro os homens vivem em permanente relação com criaturas espirituais. O próprio Positivismo não pôde escapar ao reconhecimento de que os mortos governam os vivos, embora apenas através da dinâmica cultural. Carington, à maneira de Rhine, nada mais faz que dar forma científica a uma realidade natural e uni-versalmente reconhecida. Essa realidade só é nova para as Ciências.

Há alguns anos, o sociólogo Gilberto Freyre propunha, em artigo na revista O Cruzeiro, a criação de uma sociologia do sobrenatural para explicar relações extra-huma-nas. Alegava que mesmo admitindo-se apenas a existência imaginária de entidades espirituais não se podiam negar as suas relações com os homens e a sua influência na vida social. Essa tese das relações imaginárias lembra a influência mitológica na dinâmica social. A teoria de Carington oferece a essas relações a possibilidade de uma efetivação no plano da realidade pesquisada e demonstrada pelas Ciências.

 

VII - Implicações sociológicas

 

As proposições de Carington estabelecem teoricamente, no campo da Parapsicologia, o problema das relações metafísicas. Trata-se de um velho problema que nada tem de extraordinário, pois desde todos os tempos os homens se viram embaraçados com ele. Mas Carington tem a vantagem de colocar esse problema em termos de hipótese científica, tomando-se a palavra hipótese no seu verdadeiro sentido científico, ou seja, o de orientação de pesquisa. Parapsicologicamente dispomos, assim, de uma possibilidade de investigar as relações sociais paranormais, que se manifestam de maneira mais evidente no campo das manifestações espiríticas e espiritóides. Por este último termo entendamos os fenômenos anímicos e fisiológicos que podem ser confundidos com manifestações psicônicas, segundo a proposição de Carington.

Mesmo, porém, que deixemos de lado esse problema das relações de entidades extrafísicas com as criaturas humanas, no sentido de uma parassociologia de natureza mediúnica, teríamos ainda pela frente o problema das implicações sociológicas das funções psi. Não podemos ignorar no contexto social a existência dessas funções e o papel que elas exercem. A Sociologia, portanto, vê-se obrigada a desbordar dos seus limites atuais ao impacto das comprovações efetuadas pela investigação parapsicológica. Imaginemos o que isso provocaria no espírito

positivo do Comte ou Spencer e compreenderemos a reação dos sociólogos atuais a uma proposição dessa espécie. Não obstante, à semelhança da Física, que avança dia a dia e inelutavelmente nos rumos da Parafísica, a Sociologia já não mais poderá ignorar os problemas levantados pela constatação da existência das funções psi.

Na vida normal as manifestações psi ocorrem numa verdadeira gama que vai do simples pressentimento até os casos de telepatia, clarividência e precognição. No plano das ocorrências patológicas, como o demonstrou Ehrenwald, essas manifestações adquirem vigorosa significação, pois tanto podem ocasionar desequilíbrios quanto, devidamente estudadas, prevenir e corrigir os estados psíquicos anormais. Carl Wickland, da Faculdade de Medicina de Chicago, publicou há tempos um curioso livro sobre o assunto. Trata-se de um relato de suas experiências na clínica psiquiátrica. Experiências de ordem espirítica, mas que nem por isso deixam de contribuir para o esclarecimento das implicações sociológicas das funções psi. Seu livro tem o título, não raro considerado sensacionalista, mas na verdade apenas explicativo de sua posição: Trinta Anos entre os Mortos.

No capítulo final desse livro diz Wickland: "Ë imprescindível que as investigações psíquicas sejam realizadas por homens de Ciência, que dela se encarreguem homens dispostos a pôr de lado todos os preconceitos, livres de qualquer prevenção, a fim de poderem sopesar todas as provas e classificar os descobrimentos que se venham a fazer". Esse trecho nos mostra que a posição de Wickland não é espirítica no sentido místico, mas na linha do esclarecimento científico do problema, por ele não apenas investigado mas sobretudo vivido.

Casos como este do psiquiatra Wickland e os de William Crookes, Charles Richet, Gustavo Geley, William Crawford e mais recentemente os de Rhine, Soal, Price, Björkheim e tantos outros mostram-nos que as funções psi, no presente como no passado, influem até mesmo nos problemas da Sociologia da Cultura. Poderíamos ainda evocar os casos clássicos de Sócrates, Plotino, Descartes, Joana D'Arc, para acentuar a importância dessa influência no processo cultural. Isso, sem contar as múltiplas ocorrências de intuições e revelações de tipo iluminista verificadas com cientistas, artistas, escritores, poetas e músicos por toda parte e em todas as épocas.

Quando falamos, pois, de uma Parassociologia podemos considerar a proposição em dois planos: no referente às implicações de psi na vida normal ou cotidiana e no referente às ocorrências paranormais, que tanto podem ser as manifestações ostensivas de faculdades extrafísicas quanto os problemas do misticismo e da psiquiatria. As investigações parapsicológicas modificam a posição desses problemas, obrigando-nos a encará-los com mais vasta compreensão. A complexidade do aqui e do agora existenciais se mostra mais profunda e mais exigente diante dos dados dessas investigações.