Parapsicologia: Hoje e Amanhã
V - Razão da dialética palingenésica
De uma maneira ou de outra, com o epifenômeno ou com o númeno, não conseguimos fugir ao transcendente. Porque o próprio epifenômeno, como o indica a etimologia do termo, é um processo de transcendência reconhecido na sociologia marxista como superestrutura. Assim, ao contrário do que pretende o próprio Prof. Joseph Banks Rhine em suas digressões filosóficas e políticas sobre as conseqüências da investigação parapsicológica, a prova científica da existência de psi não nega a validade do Materialismo Histórico, mas apenas delimita essa validade no plano do imanente. Não sendo possível, nem mesmo para o materialismo científico e filosófico, negar o transcendente, que sempre subsiste, será forçoso reconhecer a sua presença e a sua importância no processo histórico. Esse reconhecimento não invalida, mas amplia e enriquece as conclusões da observação e da experimentação na matéria (Ciências físicas) .
Reafirma-se, portanto, através desse curioso problema do imanente e do transcendente nos fenômenos psi, a tese da dialética-palingenésica. Transcendente e imanente mostram-se de maneira clara, porque ainda não suficientemente fundidos, quando estudamos a fase pré-histórica do Mitológico. Posteriormente, na História, o imanente se sobrepõe ao transcendente na elaboração da síntese. Esta, entretanto, só se verifica no plano da Pa-lingenesia, no momento em que o Mito e a História se fundem, para que imanente e transcendente de novo transpareçam na Natureza através da Vida. E então, só então, na realidade palingenésica, o agora existencial revela o seu verdadeiro sentido, ou seja, como quer o relativismo-crítico, o presente como síntese do passado e do futuro.
Cada vez que nos defrontamos com o agora no processo palingenésico, estamos ao mesmo tempo diante do ontem e do amanhã. No agora somos o resultado do que éramos no ontem, realizamos a essência que, segundo Sartre, lá se encontrava "em suspenso". Mas, por outro lado, temos novamente "em suspenso" a essência que realizaremos no amanhã. Isto está mais de acordo com a concepção existencial do homem como projeto concepção que Sartre limitou ao transcurso de uma única existência, por isso mesmo frustrada.
Assim, a frustração sartreana do homem, "essa paixão inútil", não é uma realidade objetiva nem subjetiva, mas apenas uma limitação mental do filósofo. Numa perspectiva palingenésica Sartre poderia enxergar o futuro do homem dentro das próprias condições dialéticas do Marxismo, dessa Filosofia que ele considera a única do século, mas cujas raízes hegelianas autorizam a volta ao espírito.
V - Razão da dialética palingenésica
A proposição da tese da dialética-palingenésica pareceu precipitada a alguns estudiosos, que nos advertiram quanto aos resultados ainda precários da investigação parapsicológica. Podemos resumir assim os principais argumentos contrários: se a Parapsicologia ainda não saiu da simples verificação de alguns fenômenos mentais, não superou o campo da mente, não podemos avançar, apoiados nos seus dados rudimentares e imprecisos, no campo das vastas ilações históricas. Outros, ironicamente, perguntaram-nos: "Pode o jogo de dados do Prof. Rhine mudar a nossa concepção do mundo?".
A resposta não nos parece difícil. Basta formularmos outras perguntas, como estas, por exemplo: o. jogo de objetos de Galileu, na torre de Pisa, não mudou a antiga concepção? A dança das rãs, de Galvani, não abriu novas perspectivas às Ciências? A chaleira de Fulton não modificou a navegação mundial e os transportes terrestres? Porque não poderiam o jogo de dados e mesmo o baralho do Prof. Rhine produzir efeitos semelhantes? Tanto mais que essas duas formas de jogo, os dados e o baralho, têm o seu lugar de honra na história das grandes concepções humanas.
Mas não nos percamos em divagações e procuremos analisar essas objeções. 0 Prof. Rhine partiu das observações mais simples, utilizando-se de objetos comuns em respeito às exigências de objetividade e clareza da metodologia científica. Para verificar a existência ou não dos fenômenos de telepatia e submeter as ocorrências ao controle estatístico recorreu às cartas de baralho. No início as do baralho comum. Foi o seu colaborador, o Prof. Karl Zener, quem idealizou as cartas parapsicológicas que têm hoje o seu nome: cartas Zener.
Tratando-se de apenas cinco figuras, cada maço de baralho com 25 cartas, uma vez embaralhado, apresenta com absoluta segurança a margem de acaso ou azar na realização das experiências. O Prof. Soal, como já vimos, substituiu essas figuras por animais: o elefante, a girafa, o leão, o pelicano e a zebra. Cada uma dessas figuras tem a sua marca dramática e as letras iniciais dos nomes são diversas, não permitindo confusões ou ambigüidades na verificação experimental. Poderíamos também falar ironicamente no jogo do bicho do Prof. Soal. Mas esse jogo produziu os mais belos resultados, provando cientificamente a existência da telepatia.
Quanto aos dados do Prof. Rhine vimos que eram a princípio os dados comuns de jogo. Posteriormente foram aperfeiçoados com a finalidade de assegurar-se maior garantia na sua livre queda. Também a maneira de atirá-los sobre a mesa evoluiu, fabricando-se aparelhos especiais para evitar o contato das mãos. No caso dos dados as cautelas deviam ser as mais rigorosas, pois tratava-se de verificar a ação da mente sobre a matéria de maneira direta. Uma função mental considerada absurda, e até mesmo intrinsecamente impossível, não obstante a nossa própria existência nada mais seja do que essa mesma ação mental sobre a matéria.
Rhine teve de partir de coisas simples e concretas, seguindo as exigências de clareza e distinção do método cartesiano, ainda imperantes na metodologia científica. E se a Parapsicologia não conseguiu até o momento elevar-se das experiências humildes até is grandes investigações da antiga Ciência psíquica inglesa ou da Metapsíquica francesa isso ainda se deve a esse mesmo respeito pelas exigências das Ciências. Mas apesar de todas essas limitações físicas impostas à investigação de fenômenos extrafísicos, a verdade é que a Parapsicologia já avançou o suficiente para provar a existência, como sustenta Rhine, de um universo não-físico. Embora obrigada a rastejar na mesa de jogo ela conseguiu arrancar a mente das limitações sensoriais. Não é isso admirável?
Hoje, nos grandes centros universitários da Europa, da Asia e da América a Parapsicologia ê uma ciência que tem o seu campo objetivo bem definido e permite o doutoramento na defesa de suas teses. A telepatia, a clarividência e a precognição estão provadas e comprovadas através de milhares de experiências e investigações. E a psicocinesia ou ação direta da mente sobre objetos do mundo exterior é também considerada como demonstrada, por cientistas da envergadura de Rhine, de Soal e de Price, além de outros cuja citação exigiria uma longa lista. E isso apesar de ser a psicocinesia o grupo fenomênico menos estudado e investigado, em virtude da intensidade dos preconceitos científicos referentes à possibilidade dos fenômenos incluídos na sua denominação.