Parapsicologia: Hoje e Amanhã

J. Herculano Pires · Capítulo 25 de 32

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Parapsicologia: Hoje e Amanhã

XII - PSI e o problema da crença

Muitos perguntam o que entendemos por uma razão que supera a si mesma. Basta olhar para a graduação do processo racional em nosso mundo para ter a resposta. Vamos da razão da ignorância à razão da astúcia (a chamada razão diabólica), até à razão do sábio. Mas acima desta existe a razão do sábio-santo, que é o verdadeiro sábio, a razão iluminada pela intuição e a M.

Porque a razão é a experiência vital dinamizada no espírito em forma de categorias mentais. Essa experiência e suas categorias dinâmicas se elevam ao plano da intuição e com ela se fundem na visão global e endopática do todo. A razão que supera a si mesma é a que rompe os limites sensoriais e se eleva além do tempo e do espaço nas asas de psi.

 

XII - PSI e o problema da crença

 

Ao estudar as relações de psi com o problema da crença tocamos inevitavelmente na velha questão da origem das religiões. O que são as religiões primitivas, senão simples crenças? Mas de onde provêm essas formas de crença, tão difundidas que tanto as encontramos nas regiões polares quanto nas zonas tropicais, nas épocas remotas, reveladas pela paleontologia, quanto na atualidade? Como sabemos, a tese da chamada antropologia inglesa, a partir de Tylor e Spencer, é a da excitação da imaginação primitiva pelo mistério do mundo. Mas há uma tese contrária, além da teológica. Ë a dos antropólogos espiritualistas como André Lang, Max Freedom Long, Cesare de Vesme, Ernesto Bozzano que situam no plano da fenomenologia supranormal o problema da crença na sobrevivência.

Particularmente importante, para o estudo do caso, é o livro de Bozzano, Popoli Primitivi e Manifestazioni Supernormali, que ainda em 1946 foi reeditado por Edizioni Europa, de Verona, com introdução de Gastone de Boni. Importante porque Bozzano apresenta uma sinopse do problema, acrescentando informações valiosas sobre as investigações de Freedom Long entre as tribos da Polinésia e enriquecendo o volume com numerosos casos que equivalem a demonstrações positivas de suas próprias conclusões. Discípulo de Spencer, a quem presta homenagem no texto, Bozzano chega mesmo a propor uma extensão da teoria spenceriana, de maneira curiosa mas rigorosamente lógica, ampliando as proposições sensoriais do mestre no plano da percepção extra-sensorial.

A unanimidade esmagadora da crença na sobrevivência por todos os povos do mundo, em todas as fases da História, bastaria para nos indicar a origem natural dessa crença. A tese teológica, endossada pela proposição cartesiana da idéia inata de Deus, não tem condições para enfrentar as exigências científícas modernas. Mas a tese paranormal ou supranormal de Bozzano enquadra-se nessas exigências, encontrando possibilidades de comprovação experimental no campo das atuais investigações parapsicológicas. Consideradas as funções psi como naturais, como faculdades comuns da espécie humana, compreende-se que as suas manifestações nos povos primitivos dessem motivo à crença na sobrevivência. Essa crença, como o afirma Bozzano, não teve a sua possível origem na simples imaginação — tanto mais que a imaginação primitiva não parece susceptível de ilações abstratas dessa natureza — mas na realidade objetiva dos fatos, dos fenômenos paranormais.

Richet propôs no Traité de Metapsychique a teoria do condicionamento da percepção extra-sensorial ,à crença. Soal comprovou em experiências de voz-direta, realizadas em Cambridge, a importância desse possível condicionamento. Mas o fato de haver a sujeição de deternaminados fenômenos psi à crença dos sensitivos não nega a validade dos mesmos. Pelo contrário, esse fato colonaca imediatamente o problema da origem da crença, mos-trando a relação direta desta com as funções psi. O sensitivo católico, por exemplo, que ao perceber uma visão extrafísica luminosa empresta-lhe as características do santo de sua devoção, ou o sensitivo espírita que lhe dá a forma de um espírito de pessoa sua conhecida estão condicionados pela crença. Mas essa crença, por sua vez, tem um condicionamento de origem, pois surgiu no passado em virtude da existência dos fenômenos psi e pos-teriormente se desenvolveu no processo natural de racionalização das experiências.

Não estamos, é evidente, diante de uma nova questão de prioridade, semelhante à do ovo e da galinha, porque neste caso a crença requer um motivo para formar-se. Ao mesmo tempo o motivo está suficientemente demonstrado na própria investigação histórica, uma vez que a manifestação do paranormal é um fato histórico inegável. Assim as funções psi, agora cientificamente demonstradas, como manifestações de faculdades naturais do homem (e até mesmo dos animais) modificam a nossa posição diante do problema da origem das religiões. Essa modificação é de tal importância que vale, como o demonstrou Bozzano, por uma revisão da escola antropológica inglesa à luz das novas conquistas da Ciência.

Seria temerário afirmarmos, segundo o argumento ontológico, que a idéia de Deus nos prova a sua existência porque corresponde a uma percepção extra-sensorial do Ser Supremo. Não se pode dizer que psi confirma a Teologia, o que seria absurdo. Mas é evidente que psi confirma a origem empírica da crença e conseqüentemente a origem natural da religião. As conseqüências deste fato são de tal alcance que bastariam para justificar a investigação dos fenômenos psi. Diante da realidade extrafísica demonstrada pela Parapsicologia, a posição do homem no Universo modifica-se fundamentalmente. Já não podemos pensar na vida humana como uma ocorrência efêmera e sem sentido na ordem natural, uma vez que ela revela possuir um substrato de natureza transcendente, ou em última instância ser esse próprio substrato. Assim as aspirações universais de transcendência do homem impõemse ao nosso raciocínio com a força das constatações objetivas.

Este problema nos leva a considerar em maior amplitude a tese de Rhine referente à polaridade dos fenômenos psi. Se a percepção extra-sensorial é o pólo subjetivo desses fenômenos e a psicocinesia é o seu pólo objetivo, então o problema da crença deixa de ser apenas subjetivo. A posição individual do homem diante da possibilidade de existência de formas de vida superiores, não materiais, passa imediatamente para o piano das experiências coletivas.

Explica-se dessa maneira a passagem histórica da crença, como fenômeno individual, de ordem psicológica, para o plano social e portanto para a ordem lógica. Noutras palavras: a crença deixa de ser uma posição pessoal da mente diante da experiência individual para se transformar no processo de racionalização religiosa, consubstanciando-se nos dogmas de fé. Temos assim a polaridade de Rhine no piano histórico: a crença como o pólo subjetivo da percepção do Universo extrafísico e a religião como o seu pólo objetivo, aquele em que a realidade abstrata se concretiza no plano social.