Parapsicologia: Hoje e Amanhã

J. Herculano Pires · Capítulo 26 de 32

Páginas do PDF

Parapsicologia: Hoje e Amanhã

XIII - PSI e o realismo

Lembremos um exemplo. Tales de Mileto afirmava: "O mundo é pleno de deuses", ou seja, é cheio de deuses. A afirmação decorria de uma crença ou de uma visão paranormal? Tales via os deuses ou apenas aceitava a tradição mitológica? (Deuses eram todas as enti-dades espirituais, pois sua condição era divina, superava a condição humana.) Pelo que sabemos dele, não era um homem de crenças. Sócrates ouvia o seu daemon ou gênio e contradizia as crenças do seu tempo. Ambos estavam diante de fatos positivos, de realidades transcendentes mas objetivas (como são objetivos os elementos abstratos da Matemática e da Lógica) e revelavam o que percebiam pelos seus próprios sentidos físicos, os olhos de um e os ouvidos do outro.

Dessa experiência sensorial (pois o extra-sensório se traduzia em percepções sensoriais) ambos Tales e Sócrates, elaboraram novas crenças. A percepção do Universo extrafísico se traduziu, para ambos, nas formas subjetivas da crença. Mas quando Tales e Sócrates quiseram concretizar suas crenças no plano social, em forma de novas religiões, tiveram de enfrentar a reação da religião dominante.

O problema da polaridade de psi se torna bem claro nesse exemplo: a crença é o pólo subjetivo do fenômeno religioso e a religião (como estrutura social) o seu pólo objetivo.

 

XIII - PSI e o realismo

 

O estudo que procuramos fazer, no capítulo anterior, das relações de psi com a crença, levou-nos naturalmente a outro tipo de relações: as de psi como realismo. Não obstante a ambigüidade do termo, sua origem literária o tem definido ultimamente como uma posição existencial. O real aparece em nossa atitude diante do mundo como o aqui e o agora, o presente, e conseqüentemente o dado imediato ou o amanual de Heidegger. Assim, realismo é a nossa integração no real, a nossa vivência das coisas como elas são dadas ao nosso aqui e ao nosso agora, no espaço e no tempo. Humberto Mariotti, que já citamos várias vezes, ao colocar o problema das relações entre a Parapsicologia e o Materialismo Histórico, indica a necessidade de um "realismo espiritual", que supere o "realismo marxista". Este é o problema fundamental do momento e não pode ser resolvido apenas no campo religioso ou filosófico: terá de sê-lo no campo científico.

O materialismo marxista não é outra coisa senão uma atitude realista. Mas qual a realidade encarada pelo Marxismo? A realidade do dado imediato, mas um dado submetido à elaboração ideológica, um dado convertido em esquema. A realidade marxista é a da coisa no seu] sentido existencial. A realidade linear de Zola ou o realismo do objeto, levado à tela pelo cinema italiano. A força desse realismo está precisamente no seu imediatismo. Contra ele ergue-se o idealismo religioso e filosófico — essa dupla forma de fuga para Passárgada — que só pode interessar aos que amam a ilusão e buscam a utopia, segundo afirmam os chamados espíritos positivos.

Mariotti encara de frente o problema e adverte: "Se o realismo marxista não for superado por um realismo espiritual que o supere em tudo, a consciência materialista continuará a se impor, e vãos serão os protestos dos idealistas e religiosos. As realidades espirituais, se de fato existem, deverão ser expostas ao homem moderno com a mesma objetividade dos fenômenos físicos e sociais". A esta posição de Mariotti só temos a opor uma objeção: a de que não podemos dividir a realidade e criar outra forma de realismo esquemático, a título de espiritualismo. Elaborar um "realismo espiritual" seria opor um esquema a outro, pura e simplesmente.

Ao provar, como afirma Rhine, a existência de um universo extrafísico, a Parapsicologia não nos oferece uma nova realidade mutilada, mas, pelo contrário, propõe-nos o restabelecimento da realidade total. No campo da Física e da Biologia abremse novas perspectivas para esse restabelecimento, com os progressos da Física Nuclear, o desenvolvimento da Biônica e da Cibernética. Mas, enquanto essas novas direções mergulham no imediato, perfurando sem querer o poço do futuro, emaranhadas na velha concepção materialista, a Parapsicologia, pelo contrário, rasga deliberada e corajosamente o véu conceptual do organocentrismo para mostrar o reverso da medalha. Com isso nos coloca num imediato de duas faces, oferecendo-nos um novo tipo de realismo com a inevitável polaridade físico-psíquica. É uma felicidade que na própria União Soviética o Prof. Vassíliev, por exemplo, tenha preferido o estudo das funções psi ao exame das simples estruturas orgânicas da vida.

As relações de psi com o realismo foram evidenciadas quando tratamos do problema da origem das religiões. Do meio-realismo de Spencer vimos Bozzano partir para o realismo total de Lang e Freedom Long, distendendo as perspectivas teóricas do organicismo spenceriano na direção do extra-sensorial. Temos aí um exemplo clarodo que psi pode oferecer-nos, no tocante à superação do realismo marxista. Embora essa superação esteja sendo feita, como já vimos, de maneira histórica e portanto irreversível, em todas as zonas ontológicas do objeto, pelas várias Ciências que alargam as suas possibilidades de investigação, somente a Parapsicologia realiza o avanço conceptual necessário.

Podemos dizer que de certa maneira a natureza analítica das Ciências continua fiel a si mesma nesta hora de transição cultural. As Ciências procedem por unidades, partindo da análise do átomo para a análise das moléculas e das células, nesse esmiuçamento típico da experimentação materialista, da investigação sensorial. A Física descobre o reverso do átomo; a Biologia, a contraparte da célula; a Química, a face oculta da molécula. Mas a Psicologia, ampliando-se nas áreas marginais da investigação parapsíquica, retorna inevitavelmente à sua natureza filosófica ao defrontar-se com a realidade de psi e constatar a impossibilidade de seccionar novamente o imediato. Essa exigência lógica de enfrentar o todo de maneira gestáltica faz da Parapsicologia uma espécie de Renascença Psicológica. Como acentua Rhine, a Psicologia volta ao seu objeto perdido — a alma — e o faz da mesma maneira por que o Quatrocento italiano voltou à cultura clássica, ou seja, procurando compreendê-la de novo em maior profundidade.

O realismo de psi não é nem pode ser apenas psi. Felizmente isso parece bem compreendido pelos principais parapsicólogos que não pretendem fazer das suas inves-tigações o abrete sésamo do conhecimento total, mas pretendem apenas conquistar o terreno esquecido, a terra de ninguém que se estende aos lados do nosso saber científico. O simples fato de considerar-se a Parapsicologia como disciplina complementar, de natureza efêmera, destinada a sondar as áreas paralelas ao campo da Psicologia revela a sua humildade. A importância das pesquisas parapsíquicas não está na teoria ou no ato em si das pesquisas, mas nas conseqüências que delas advêm.

Opor, não ao realismo marxista, mas a este, ao positivismo, ao materialismo e ao existencialismo sartreano uma forma nova de realismo é a missão da Parapsicologia. Para tão grande feito não necessita ela de se transformar numa ciência autônoma, nem de gerar uma nova filosofia. Basta-lhe a glória humilde de provar, como o está fazendo, através dos próprios métodos de investigação do materialismo, a existência de outro componente da realidade, negligenciado pelo imediatismo. Quando essa tarefa estiver cumprida as pretensões atuais da Biônica e da Cibernética, que se desenvolvem nos rumos de uma con-cepção mecanicista da vida, tendente a fazer do homem uma espécie de robot cósmico, estarão frustradas naturalmente. Mas a contribuição de ambas para o aclaramento dos problemas científicos será tão importante, na medida dos respectivos limites, quanto a da Parapsicologia.