Parapsicologia: Hoje e Amanhã
IV - Imanência e transcendência
A existência dessa faculdade no reino animal, longe de prejudicar, reforça e confirma a natureza dialética do seu desenvolvimento. Ela surge primeiramente como a tese do psiquismo natural que se desenvolve na elaboração das categorias racionais da mente, e por fim eclode na síntese da precognição. Com esta, o homem supera o espaço e o tempo, o que vale dizer que supera a História, revelando existir, em si mesmo e no Universo, um conteúdo que, segundo a expressão do Prof. Rhine, "transcende a Física".
Murphy delimita o horizonte profético no espaço e no tempo, dando-lhe, de acordo com os seus antecessores na formulação do método cultural, uma posição concreta no processo histórico. Esse horizonte está, segundo afirma, "quase inteiramente limitado ao período que vai do século IX ao século III antes de Cristo, e dentro do Fértil Crescente, como se chama às vezes o espaço que vai da Grécia e do Egito, passando pela Palestina e Mesopotâmia, até à Índia e à China". Temos assim a geografia e a cronologia do desenvolvimento profético. Mas geográfica e temporalmente localizada a profecia se apre-senta como um rompimento dos limites em que se desenvolve, exercendo suas funções psi além do espaço e do tempo.
As experiências de precognição, como as de telepatia, demonstram que não apenas o tempo, mas também o espaço "nada representam para a percepção extra-sensorial". Quando propomos, portanto, a Palingenesia como uma síntese dialética do processo histórico não se pode levantar a objeção de que a Ciência não vai além dos limites de espaço e tempo. Rhine responde que esses limites pertencem à Física e que a Parapsicologia "é o primeiro novo mundo da Ciência a transcendê-los". Com a prova científica da profecia o homem afirma a sua transcendência. O mundo em que ele se encontra já não se limita ao aqui e ao agora, mas se abre indefinidamente sobre o amanhã, essa categoria filosófica espiritual que se opõe ao exclusivismo das categorias existenciais.
A precognição é uma das perspectivas mais desnorteantes da Parapsicologia, porque a verificação científica da sua realidade parece contradizer e invalidar toda a nossa concepção atual do Homem e do Universo. entretanto, quando a encaramos como um simples aspecto da realidade transcendente que escapou ao empirismo científico, compreendemos que ela não contradiz nem invalida, mas amplia e enriquece a nossa cosmovisão. Se podemos profetizar é que podemos ver no futuro. Isso demonstra que não estamos limitados ao dia-a-dia, à rotina das contingências e das circunstâncias, mas que podemos elevar-nos acima dela. Só o preconceito cultural do fisicismo pode repelir essa nova perspectiva do Homem no Universo.
IV - Imanência e transcendência
Ao colocar o problema da transcendência do homem, ou melhor, da sua natureza transcendente, no capítulo anterior, colocamos conseqüentemente o problema da trans-cendência dos fenômenos psi. A ruptura das categorias de tempo e espaço, que verificamos nos fenômenos de precognição, apresenta certas semelhanças com a ruptura das leis físicas nos fenômenos de levitação de objetos à distância, ectoplasmia fantasmal ou ideoplástica, voz-direta ou ruídos sem causa aparente. As primeiras objeções formuladas não ao estudo e à observação desses fenômenos objetivos mas à sua própria possibilidade de existência, basearam-se no aspecto transcendente dos mesmos.
Posteriormente as investigações de William Crookes, Charles Richet e particularmente as de Richet e Imoda, na Itália, e as de Crawford, na Irlanda, mostraram a natureza imanente desses fenômenos. A teoria da alavanca psíquica, de Crawford, comprovada por experiências e fotografias, revelou a existência de um liame material entre o sensitivo e o objeto levitado, de maneira que a lei de gravidade não foi sequer arranhada. Restaram, entretanto, as questões de ordem fisiológica, até hoje não explicadas nem suficientemente investigadas.
Verifica-se nos dois casos, mais uma vez, aquilo que poderíamos chamar de condicionamento dialético. Tanto nos fenômenos subjetivos, quanto nos objetivos, podemos ver nitidamente a oposição dialética do imanente e do transcendente, que produz a síntese fenomênica. No caso da ectoplasmia, por exemplo, a ação direta do sensitivo através da emissão fisiológica da alavanca psíquica é puramente mecânica. Foi providencial que os estudos e as experiências a respeito tivessem sido feitas por um fisiologista como Richet e um catedrático de mecânica aplicada como o Prof. Crawford, da Universidade de Belfast. Mas como explicar a emissão ectoplásmica, e particularmente as causas psicofisiológicas desse processo? Gustavo Geley admitiu, o que fez também Crawford, a existência de controladores espirituais, ou seja, de agentes extrafísicos. Não aceitando essa explicação teríamos de procurar outra, e de qualquer maneira chegaríamos, como aconteceu com Carl Jung, a uma conclusão transcendente.
No caso particular da precognição, de que tratamos no capítulo anterior, surgiu entre os parapsicólogos uma curiosa controvérsia. Não se tratava de negar o fenômeno, suficientemente demonstrado, mas de negar, através dele, a psicocinesia. Esta, como já vimos, é a ação da mente sobre a matéria. Assim, quando as experiências de Rhine provavam que a mente do sensitivo agia sobre os dados lançados à mesa por uma máquina especial, alguns parapsicólogos levantavam a hipótese, inicialmente formulada por Nash, de que o sensitivo antevira pela precognição o resultado do jogo. O curioso, neste caso, é a tentativa de negar o fenômeno objetivo para ressalva das leis físicas, embora se fosse obrigado a admitir o fato transcendente da precognição. Mais uma vez, como se vê, a transcendência se impõe.
A intervenção de Carl Jung — se assim podemos dizer — nos debates parapsicológicos, foi antes de natureza filosófica do que psicológica. Não quis ele negar a validade das pesquisas, mas a validade da interpretação. Jung entendeu que os fenômenos psi, não estando sujeitos aos limites de tempo e espaço, são de natureza transcendente, não comportando nenhum enquadramento nas categorias lógicas de causa e efeito. Sua proposição é a da existência de uma ordem não-causal no Universo, regida pela sincronicidade. Uma volta ao problema colocado por David Hume, mas agora em forma de transcendência, delimitando-se as áreas de causalidade de sincronicidade nos planos da dicotomia platônica de sensível e inteligível.
Todas essas discussões cabem apenas no campo científico, que se apresenta, como sabemos, dividido segundo o esquema platônico. As ciências se interessam pelo objetivo, mas reconhecem, embora como epifenômeno, a existência do subjetivo em forma psicológica e cultural. A própria natureza epifenomênica do subjetivo o condena perante a investigação científica. É natural, portanto, que ao encarar o problema da ação subjetiva nos fenômenos objetivos, apareça logo a reserva e a repulsa ao transcendente. No campo filosófico, entretanto, as perspectivas são outras.
Poderíamos começar por uma pergunta ingênua: qual a natureza da vida? Se admitirmos a vida como epifenômeno (posição típica do materialismo) ela nada mais será do que um efeito das ações e reações íntimas da matéria. Mas, nesse caso, restará o problema da causa dessas ações e reações. E se admitirmos a vida como o resultado dialético da ação de um princípio não-físico sobre a matéria (espiritualismo) reconheceremos a natureza vital, e portanto normal, do paranormal. Quer dizer: a dualidade imanente-transcendente que caracteriza os fenômenos psi não é propriamente uma característica destes, mas de todos os fenômenos ou do universal. Tendemos assim para a aceitação do númeno kantiano e fazemos a eliminação espinosiana do sobrenatural para reconhecermos em tudo apenas a Natureza.