Pensar o discurso no webjornalismo

Edson Fernando Dalmonte · Capítulo 10 de 26

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Pensar o discurso no webjornalismo

A materialização do discurso jornalístico

As concepções acerca da noção de destinatário estabelecem os efeitos de sentido sob uma ótica menos determinista, focada nos "possíveis". O campo das possibilidades, desde esse patamar, permite visualizar a relação entre enunciador e destinatário como pautada pela necessidade de aproximação para que se valide o processo comunicacional. É a mensagem, portadora de significados, segundo as gramáticas de produção e de reconhecimento, o elemento capaz de promover a ligação entre as expectativas do emissor e do co-enunciador.

 

A materialização do discurso jornalístico

No contexto do discurso literário e partindo da palavra francesa récit, que pode ser traduzida tanto como "relato" quanto como "narrativa", Genette (1995, p. 23-24) propõe uma conceituação da narrativa, a partir de três noções distintas. Num primeiro momento, narrativa significa o enunciado narrativo, a discursividade, oral ou escrita, que descreve um acontecimento. O outro sentido designa uma sucessão de acontecimentos, reais ou não, encadeados a tal discurso, respeitando-se as relações de oposição, repetição etc. Por fim, a noção mais antiga, que designa um acontecimento, mas não acontecimento puramente, e sim o ato de narrar determinado feito.

Pelo exposto, constata-se que o ato de narrar um feito deve ser considerado movimento do narrador, resultante de seu empenho, que, portanto, se reflete na enunciação. Como lembra Genette, "sem acto narrativo, pois, não há enunciado, e às vezes nem sequer ‘plano narrativo’" (1995, p. 24). Com base em tal premissa, aqui é adotada a expressão "plano narrativo", designando os elementos escolhidos para a composição do relato que se pretende enunciar. Tal escolha é intencional e está marcada pelo efeito de sentido que se quer produzir.

É a materialização das intencionalidades e as investiduras de sentido, cristalizadas na forma de texto, que interessa à Análise do Discurso. Cada organização discursiva adota estratégias para assegurar o efeito de real, isto é, para conferir a si uma legitimidade. Com o discurso jornalístico, da mesma forma, ao longo de sua consolidação, observa-se que vários elementos asseguram coerência à narrativa, centrada na divulgação de fatos vistos como relevantes para o cotidiano. A valorização dos acontecimentos e sua seleção estão situados entre os elementos que aferem o sentido de veracidade aos fatos reportados pela mídia. Para tanto, é necessário ter clareza quanto ao que se concebe como notícia.

A definição do que é notícia é relevante para que se aceite o discurso jornalístico como uma construção discursiva fiel ao real. Pode-se falar, dessa forma, dos critérios para a definição do que é notícia. Segundo Hohlfeldt,

a noticiabilidade é um conjunto de regras práticas que abrange

um corpus de conhecimento profissional que, implícita e

explicitamente, justifica os procedimentos operacionais e

editoriais dos órgãos de comunicação em sua transformação

dos acontecimentos em narrativas jornalísticas. Reúne o

conjunto de qualidades dos acontecimentos que permitem uma

construção narrativa jornalística e que os recomendam

enquanto informação jornalística. (2001, p. 209, grifos do autor).

Para que se perceba que esta não é uma questão nova, as concepções acerca do que é notícia já são apresentadas na primeira tese sobre jornalismo, elaborada por Tobias Peucer, De

relationibus novellis, 1 defendida em 1690, na Universidade de Leipzig, Alemanha. Dentre as questões abordadas, estão a autoria, a verdade e a credibilidade. O autor apresenta reflexões concernentes aos critérios de noticiabilidade, apontando o que deve e o que não deve ser publicado.

Pois bem, como estes fatos são quase infinitos, cabe

estabelecer uma seleção de modo que seja dada preferência

aos axiomnemóneuta, ou seja, àqueles que merecem ser

recordados ou reconhecidos. São desta natureza, em primeiro

lugar, os prodígios, as monstruosidades, as obras ou feitos

maravilhosos e insólitos da natureza ou da arte, as inundações

ou as tempestades horrendas, os terremotos, os fenômenos

descobertos ou detectados ultimamente, fatos que têm sido

mais abundantes que nunca neste século. Depois, as diferentes

formas dos impérios, as mudanças, os movimentos, os afazeres

da guerra e da paz, as causas das guerras, os planos, as

batalhas, as derrotas, as estratégias, as novas leis, os

julgamentos, os cargos políticos, os dignatários, os nascimentos

e mortes dos príncipes, as sucessões em um reino, as

inaugurações e cerimônias públicas [...]. Finalmente os temas

eclesiásticos e literários: como a origem desta ou daquela

religião, seus autores, seus progressos, as novas seitas, os

preceitos doutrinais, os ritos, os cismas, a perseguição que

sofrem, os sínodos celebrados por motivos religiosos, os

decretos, os escritos mais notáveis dos sábios e doutos, as

disputas literárias, as obras novas dos homens eruditos, as

instituições as desgraças, as mortes e centenas de coisas mais

que façam referência à história natural, à história da sociedade,

da igreja ou da literatura. (peucer, 2004, p. 21).

Os critérios de noticiabilidade estabelecem rotina produtiva que equivale a uma escala de tratamento do real. Nesse sentido, a cristalização de algumas expectativas estabelece a base da produção jornalística. É nessa linha que os valores-notícia surgem, para responder sobre quais são os fatos realmente importantes a ponto de serem transformados em notícia. (wolf, 1995, p. 175).

A relevância desses critérios justifica-se pela celeridade inerente ao processo de produção-circulação-consumo-defasagem do processo comunicacional. A instância produtora necessita ter agilidade na captação, elaboração e distribuição do material. Sendo assim, os jornalistas não podem decidir a cada vez sobre como selecionar os fatos noticiáveis. Dessa forma, a rotinização torna essa tarefa mais produtiva e mais facilmente gerenciável. (wolf, 1995, p. 176).

O processo de rotinização permite à esfera jornalística internalizar o esquema de produção das notícias e estabelecer critérios quanto à seleção e recolha dos fatos que possivelmente irão compor o quadro de notícias. Nesse sentido, tais critérios colaboram para a construção social do que se entende por realidade. (berger; luckman, 1976, p. 39).

A sedimentação do que se convenciona ser os critérios de noticiabilidade colabora para que se eleja, dentre os elementos do cotidiano, aqueles que podem ser notícia, conferindo a esses estratos do real o status de realidade. Dessa forma, passa-se da categoria subjetiva para a objetiva – a objetivação. O jornalismo, por meio de várias técnicas, reelabora os fatos, tomando por base linguagem específica. "A linguagem é capaz de ‘tornar presente’ uma grande variedade de objetos que estão espacial, temporal e socialmente ausentes do ‘aqui e agora’" (berger; luckmann, 1976, p. 60).

No tocante à competição dos meios de comunicação para a estruturação de noticiários sobre acontecimentos internacionais, dizem Galtung e Ruge (1999): "mas a regularidade, a ubiqüidade e a perseverança dos media noticiosos transforma-los-ão em competidores de primeira categoria em busca da primeira posição, enquanto modeladores de imagem internacionais" (p. 62). A questão primordial aponta para a necessidade premente e constante de busca do acontecimento noticiável que, em última instância, é o novo, o que leva necessariamente ao questionamento sobre como se dá a transformação do "acontecimento" em "notícia".

Na busca do acontecimento noticiável, segundo os autores, atua decisivamente a atração dos acontecimentos inesperados. Numa situação de concorrência, apresentar uma notícia nova é diferente de uma notícia inesperada e tanto melhor se o concorrente não apresentar a tal notícia inesperada. "Os acontecimentos têm de ser inesperados ou raros, ou, de preferência, ambas as coisas, para se tornarem notícias". (galtung; ruge, 1999, p. 66).

Para demonstrar a situação de seleção dos fatos e a passagem à categoria de notícia, Galtung e Ruge (1999, p. 71) elencam doze fatores e subfatores relevantes nesse processo. Para que um acontecimento torne-se noticiável, deve satisfazer às seguintes condições (os autores categorizam fator como ‘F’):

F1 – freqüência

F2 – 2 thresold [limiar]

F2.1 – intensidade absoluta

F2.2 – aumento de intensidade

F3 – inequivocidade

F4 – significância

F4.1 – proximidade cultural

F4.2 – relevância

F5 – consonância [predictabilidade] [...]

F6 – imprevisibilidade [...]

F7 – continuidade

F8 – composição

F9 – referência a nações de elite

F10 – referência a pessoas de elite

F11 – referência a pessoas

F12 – referência a algo negativo

Vários são os autores que vêm trabalhando com os critérios de noticiabilidade, em especial na segunda metade do século xx. Silva (2005, p. 102-103, grifos nossos) elabora um quadro, demonstrado a seguir, em que apresenta as principais contribuições que tratam dessa temática, bem como os valores-notícia propostos.

Elencos de valores-notícias

Stieler: novidade, proximidade geográfica, proeminência e negativismo.

Lippman: clareza, surpresa, proximidade geográfica, impacto e conflito pessoal.

bond: referente à pessoa de destaque ou personagem público (proeminência); incomum (raridade); referente ao governo (interesse nacional); que afeta o bolso (interesse pessoal/econômico); injustiça que provoca indignação (injustiça); grandes perdas de vida ou bens (catástrofe); conseqüências universais (interesse universal); que provoca emoção (drama); de interesse de grande número de pessoas (número de pessoas afetadas); grandes somas (grande quantia de dinheiro); descoberta de qualquer setor (descobertas/invenções) e assassinato (crime/violência).

Gattung e Ruge: freqüência, amplitude, clareza ou falta de ambigüidade, relevância, conformidade, imprevisão, continuidade, referência e pessoas e nações de elite, composição, personificação e negativismo.

Golding-Ellliot: drama, visual atrativo, entretenimento, importância, proximidade, brevidade, negativismo, atualidade, elites, famosos.

Gans: importância, interesse, novidade, qualidade, equilíbrio.

Warren: atualidade, proximidade, proeminência, curiosidade, conflito, suspense, emoção e conseqüências.

Hetherington: importância, drama, surpresa, famosos, escândalo sexual/crime, número de