Pensar o discurso no webjornalismo
O paratexto como modo de existência do texto Webjornalístico
distribuição de notícias por meio de sistemas como o
videotexto, seja para atender às necessidades colocadas para a
publicação das edições digitais dos jornais, elas foram
importantes protagonistas. (barbosa, 2007, p. 124).
Os avanços que se tem observado no Webjornalismo em grande parte se devem às possibilidades abertas pelo uso das bases de dado, seja pelo armazenamento, seja pela facilidade de manuseio do material armazenado. Para Quadros (2006, p. 65), desde o surgimento dos primeiros diários digitais, tem sido possível observar a implementação de iniciativas, das mais tímidas às mais ousadas, indo de reproduções de outros meios até novas soluções, condizentes com o ambiente da rede. O processo de digitalização e armazenamento das informações e a formação de robustas bases de dados, seguramente, podem ser apontados como determinantes para esse processo de constante inovação.
Paratexto como modo de existência do texto
webjornalístico
Antes de tratar do texto Webjornalístico e começar a empreender as análises, faz-se necessário conceituar a forma de organização textual que desponta com a Web. Pavlik (2001, p. 01) ressalta que os novos meios estão reconfigurando as técnicas narrativas, oferecendo à audiência uma cobertura informativa mais contextualizada, por meio da qual o leitor pode navegar. A característica principal do relato interativo é que ele congrega uma diversidade de modalidades comunicacionais, como texto, imagens, vídeos etc. Escritura e leitura apartam-se de delimitações line-ares. O texto prevê ainda a participação do leitor, que pode comentá-lo e reenviá-lo. A tecnologia possibilita ao texto uma existência cada vez mais marcada pela fluidez.
Mediante tal premissa, na perspectiva da Análise do Discurso, para que se empreenda a análise, é necessário reposicionar o conceito de texto a partir da realidade da Web. Para as propostas do presente trabalho, o texto, enquanto matéria significante, não pode ser compreendido apenas como uma notícia, por exemplo, mas como uma realidade textual/ textualidade que interage com várias frentes discursivas. O texto, na Web — o hipertexto —, é formado por links, que estabelecem ligações com outros textos, independentemente de seu formato — áudio, vídeo etc. Da mesma forma, para se compreender o posicionamento discursivo do Webjornalismo deve ser considerada a organização discursiva que envolve a apresentação, divulgação e disponibilização do material informativo na Web.
Para dar conta deste "texto em contato com outros textos" será explorada a noção de paratexto, proposta por Genette (1982; 1987). Tal conceito compreende o texto como estando em íntima ligação com uma estrutura que o envolve e contribui para que tome forma, produza sentido. Este texto, segundo Genette (1987, p. 7), geralmente se apresenta reforçado por certo número de produções, verbais ou não.
A palavra "paratexto" é composta com o auxílio do prefixo grego para, designando uma modificação da palavra texto (bailly, 1901, p. 651). Conforme a etimologia de origem, tal prefixo indica: algo que se coloca perto de, ao lado de; receber ou apanhar qualquer coisa das mãos de alguém. Pode ser usado para exprimir a idéia de tempo, duração. Algo que acontece paralelamente a outra coisa. Ao compor a nova palavra, sinaliza uma organização textual que se coloca ao lado de uma outra, com a qual mantém uma relação direta; não de dependência, mas de continuidade.
Para Genette (1982, p. 10), os elementos que constituem o paratexto são:
Título, subtítulo, intertítulos; prefácios, posfácios, preâmbulos,
apresentação, etc.; notas marginais, de rodapé, de fim;
epígrafes; ilustrações; dedicatória, tira, jaqueta [cobertura], e
vários outros tipos de sinais acessórios, [...], que propiciam ao
texto um entorno (variável) e às vezes um comentário, oficial ou
oficioso, do qual o leitor mais purista e o menos inclinado à
erudição externa nem sempre pode dispor tão facilmente
quanto ele gostaria e pretende.
Genette (1987, p. 07) considera que estes elementos exercem uma dupla ação sobre o texto: o envolvem e o prolongam. Na perspectiva paratextual, o texto é ampliado pelos elementos que o envolvem, como os elementos pré-textuais e pós-textuais, mas também pela rede de comentários, especializados ou não. Numa relação interdiscursiva, chega-se ao hipertexto. A prolongação da obra, a partir do seu invólucro, tem as funções de apresentar e presentificar: apresentar (divulgar) e torná-la presente, assegurando sua presença no mundo, sua recepção e consumo.
O paratexto se constitui como um umbral, que põe em relação o que está dentro (no texto) e fora (o discurso sobre o texto). Para Genette (1987, p. 08), a referência ao umbral não remete apenas a uma zona de transição entre uma textualidade e outra, mas, sobretudo, uma zona de transação enquanto local privilegiado para estratégias, visando uma ação sobre o público, com o intuito de melhorar a acolhida do texto.
Os elementos que constituem o paratexto são oriundos de um conjunto marcado pela diversidade de práticas e discursos, que confluem para a formação do sentido da obra num contexto mais amplo. O interessante é que a noção de atualização envolvendo a obra resulta de uma movimentação social em torno de um produto que, não obstante traga as marcas que lhe foram agregadas no processo de feitura, está aberta a receber outras "inscrições", como resultado da apropriação social. Essa sobreposição de textualidades é a marca do que Genette (1982, p. 08) chama de palimpsesto ou tipos de relações transtextuais.
Embora as reflexões acerca do paratexto estejam ligadas à literatura e à tradição do livro, as vias e modos do paratexto sofrem modificações constantes a partir das épocas, culturas, gêneros etc. Como ressalta Genette (1987, p. 09), fica patente que na época midiática é multiplicada a produção de discursos que circundam uma obra, o que contribui sobremaneira para sua divulgação. A partir da premissa de que não existe texto sem paratexto, tal realidade abre uma série de questões quando se pensa nas potencialidades abertas pelas novas mídias.
Os elementos que constituem o paratexto, segundo Genette (1987, p. 12-13), correspondem a três tipos de manifestações: icônicos (as ilustrações), materiais (decorrentes, por exemplo, das escolhas tipográficas que, marcam a composição de um livro) ou simplesmente factuais. Por factual o autor entende não uma mensagem explícita, mas um fato cuja existência, quando conhecida pelo público, agrega valor ao produto, criando uma discussão sobre o mesmo, colocando-o na ordem do dia. Como elementos factuais, podem ser elencados a indicação do autor a um prêmio, para uma academia etc.
Cora Rónai (2006) organizou um livro com textos falsos que circulam na Internet, celebrizados por serem atribuídos a autores renomados. Sem grandes estratégias, o que os verdadeiros autores fizeram foi estabelecer um plano de divulgação de seus textos, atrelando-os a figuras proeminentes. Os textos apócrifos não teriam grandes chances de serem lidos, pois estariam soltos na rede, no anonimato. Interessante notar, por meio desse exemplo, a importância de um processo indentitário mesmo na Web, como determinante para a aceitação de um produto.
Conforme sinaliza Genette (1987, p. 10-11), o paratexto é formado por duas modalidades de elementos paratextuais. Dependendo da realidade material, pode-se falar do peritexto e do epitexto. O peritexto refere-se a uma categoria espacial marcada pela continuidade ou unicidade da obra. Os elementos peritextuais circundam o texto dentro do próprio espaço da obra, estando em continuidade direta, como o nome do autor, os títulos, intertítulos e toda a materalidade daí advinda, como as indicações de coleção, capa etc. O epitexto também está situado nos entornos do texto, estando, contudo, a uma distância marcada por uma descontinuidade em relação à obra. Os elementos epitextuais são divididos em públicos, os que tomam forma nos suportes midiáticos, como as entrevistas com o autor, debates etc e privados, como correspondências e diários que, com o tempo, podem passar a integrar a obra.
O peritexto ou o paratexto contínuo
O prefixo peri (bailly, 1901, p. 683-684) designa, na função adverbial, um lugar a partir do qual; em torno de, com ou sem movimento. A respeito de; que diz respeito a alguém ou alguma coisa. Ao redor de, de modo a envolver. Aquilo que se localiza nas margens de algo, podendo designar a partilha de um mesmo ponto de vista. O peritexto designa aquilo que está ligado ao texto de forma direta, no tocante à continuidade de um posicionamento discursivo.
Genette (1987, p. 20) chama de peritexto editorial toda a faixa do peritexto que se encontra sob responsabilidade direta do editor. À edição competem as escolhas no tocante ao formato e apresentação de uma obra, bem como a decisão de uma reedição e inserção de novos elementos. As escolhas, no ato da edição, podem orientar a obra para um público específico, como um formato ou selo, designando seja a inovação, seja a popularização de um livro.
Dentro da lógica das coleções, o selo editorial cumpre o papel de demonstrar o quão diversificada é a área de abrangência de uma casa editora. Seguindo essa orientação, o selo de coleção tem por premissa indicar ao leitor o tipo, ou o gênero, da obra pretendida: literatura nacional ou estrangeira, vanguarda ou tradicional. (genette, 1987, p. 25).
A localização paratextual do nome do autor pode ser errática ou circunscrita. Errática quando o nome do autor se dissemina, com o título, na esfera epitextual, como em anúncios, prospectos, entrevistas, artigos etc. Circunscrita quando ocupa o lugar oficial em um livro, ou seja, epitextual. (genette, 1987, p. 39). Essa dupla possibilidade assumida por um mesmo dado demonstra o potencial que os elementos paratextuais têm para transitar de uma esfera a outra: do peritexto ao epitexto. Mesmo na tradição do livro impresso é possível perceber a fluidez dos elementos que compõem a obra, segundo a perspectiva paratextual.
Se o peritexto envolve o texto de forma direta, em continuidade a ele, enquanto parte constituinte do material, alguns elementos podem ser destacados e passar à esfera epitextual, como o nome do autor, importante indicativo do prestígio de uma obra. Da mesma forma, a editora,
o tipo de impressão, dentre outros, podem ampliar a obra, fazendo que saia de um espaço delimitado e passe a circular em outras instâncias. No jornalismo é bastante comum o nome do jornalista assumir relevância nos espaços assinados ou, no caso da televisão, o âncora passar a ser identificado com o produto.
O epitexto ou o paratexto descontínuo
Num outro extremo está o epitexto que, segundo Genette (1987, p. 316), se distingue do peritexto por um princípio puramente espacial. Como ressalta o autor, "é epitexto todo elemento paratextual que não se encontra materialmente anexado ao texto no mesmo volume, mas que circula livremente em um espaço físico e social virtualmente ilimitado".
O prefixo epi refere-se àquilo que está na superfície, de modo a recobrir algo. (bailly, 1901, p. 326-328). É empregado para marcar o ponto de apoio, o ponto por meio do qual uma coisa se liga a uma outra. Designa continuidade, com a idéia de sucessão. Marca estabilidade e permanência. É usado ainda para sinalizar uma idéia de dependência, em vista de algo. A continuidade prevista por este prefixo refere-se tanto à unicidade do pensamento, quanto à manutenção de um mesmo tópico sem, contudo, estar materialmente unido ao objeto em questão, o que dá abertura para a descontinuidade.
A idéia de descontinuidade presente no epitexto está baseada na ligação com a obra, sem necessariamente estar anexada a ela. O epitexto faz parte de uma obra sem ser a obra. Espacialmente, não interessa onde fora do livro, como em jornais ou revistas, emissão de rádio ou televisão, enfim, a dimensão pública do epitexto. Como ressalta o autor (genette, 1987, p. 318), a realidade do epitexto nos faz confrontar com a ausência de limites externos, fazendo dele a
franja da franja 4, que o põe em contato com outros elementos discursivos sobre um referido tópico.
O epitexto público está endereçado ao público em geral e, por meio do suporte midiático, pode atingir uma parcela significativa do público em questão. (genette, 1987, p. 323). Por meio da ação da mídia, a obra é posicionada no mercado. Antes do produto, o que chega aos leitores são fragmentos de um paratexto na condição de elementos epitextuais. As resenhas e críticas, entrevistas, declarações, por exemplo, criam um nível de discussão além da obra e que, num futuro, podem passar a fazer parte da obra, como numa reedição ampliada.
Num outro extremo está o epitexto privado (p. 341), que diz respeito às correspondências e anotações íntimas de um autor. Esta modalidade de epitexto também pode passar a compor a obra, numa nova edição, ou resultar numa compilação que ajude a entender tanto uma obra quanto o próprio autor. O interessante é a mobilidade de tais conceitos, que não se colocam de forma estanque. Um epitexto pode passar de privado a público, e de epitexto a peritexto. A textualidade, segundo a lógica paratextual, é marcada pela transitoriedade de seus elementos. Essa textualidade fluida que circunda um texto tradicional atua reforçando a identidade da obra e colabora com sua difusão.
Considerando-se as possibilidades de produção, armazenamento e distribuição de informações, por exemplo, no contexto das novas mídias, os elementos paratextuais assumem papel relevante para a divulgação de Webjornais. O binômio apresentar e tornar presente desempenha uma ação pressupondo não apenas o papel da crítica especializada, mas também dando lugar ao leitor comum que, na condição de usuário, pode interagir com outros leitores, divulgar o material, a partir da discussão em torno do mesmo. Essa questão será abordada no tópico seguinte.