Pensar o discurso no webjornalismo

Edson Fernando Dalmonte · Capítulo 22 de 26

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Pensar o discurso no webjornalismo

Interação como efeito de real

A simulação do contato permite criar a sensação de que enunciador e co-enunciador estão aptos a produzir conteúdos na cena midiática. A mensagem não é enviada a um leitor qualquer, mas a um leitor que tem a chance de se pronunciar, assumindo uma postura dialógica. Da mesma forma que na estrutura do telejornal (eixo olho-no-olho), o leitorinternauta tem a sensação de estar num eixo similar, marcado por uma proximidade ainda maior, pois ambos os textos (original e comentário) podem dividir um mesmo espaço. Seguindo-se essa lógica, o contato é de ordem física, pois os textos estão num mesmo plano visual.

Por meio da simulação do contato, é assegurada a legitimidade ao produto jornalístico. O discurso elaborado segundo esta perspectiva, ao prever a participação do leitor, coloca ênfase nas ferramentas de interação: texto-leitor, leitor-leitor. O discurso que se abre à participação dos indivíduos, em detrimento de textos estáticos, marca uma maior aproximação da realidade vivida e partilhada pelas pessoas. Os leitores não emitem apenas opiniões, mas acrescentam novas facetas a um recorte do real. No cerne de tal empreitada está a estratégia de que tanto mais real será um discurso que se abrir à realidade vivida por seus leitores.

 

Interação como efeito de real

Considerando-se as estratégias usadas para que o discurso do Webjornalismo estabeleça vínculos com seus leitores, a idéia de efeito de real agrega ao discurso outras possibilidades de aproximação com seu público. Além dos elementos já tradicionais no jornalismo impresso, como citações diretas, fotos e outras referências que ancoram o discurso no real, a interação desponta como importante fator, visto que o leitor pode "colaborar" com a feitura da notícia.

As possibilidades de aparecimento do indivíduo no espaço do Webjornal não se restringem ao papel de leitor, pois ele surge agora investido de outras capacidades. Numa nova proposta contratual, o leitor é convocado a emitir sua opinião. Ele não é apenas um destinatário, mas desponta no processo de enunciação como parceiro no método de construção do próprio discurso do jornal. Vários Webjornais oferecem os recursos de interação, convocando o leitor a comentar as notícias. Mais que comentar, o leitor é convidado a "reagir", "partilhar seu ponto de vista". (le monde, 2006).

A efetiva participação do leitor, ou a possibilidade de participação, desempenham importante papel para o desenvolvimento do efeito de real, pois as notícias não estão distantes, dispersas no mundo virtual. Ao interagir com um produto jornalístico, o leitor agrega àquela peça informativa não apenas suas impressões, mas seus

dados pessoais. O recurso jornalístico de uso de personagens20 é ampliado, pois além das fontes selecionadas para a composição do texto, outras vozes são agregadas, fazendo que a matéria se torne mais polifônica. Sob a perspectiva de diversos olhares, vai além da instância de produção.

Para o estabelecimento de novos contratos comunicacionais, torna-se imprescindível a interpelação desse leitor-participante. A articulação entre os contratos de comunicação e leitura, pelo viés dos novos dispositivos de enunciação, permite avançar na compreensão das atuais estratégias para o estabelecimento e manutenção de canais de diálogo entre as instâncias de produção e reconhecimento.

A partir dos constrangimentos, o Webjornal se vê impulsionado a

abrir espaços de fala para seus leitores. O Lemonde.fr (Fig. 34) na seção "Perspectivas", oferece "Opinions", "Blogs", "Foruns", "Chats" e "Sondages". Neste local, os internautas podem propor blogs, participar de chats e fóruns e comentar os textos, a partir do link "Reagir a este artigo".

Os fóruns possibilitam a participação dos internautas, que agregam suas opiniões ao tema proposto, fazendo com que um mesmo assunto permaneça em discussão por dias. Esta é uma ação que possibilita a atualização constante dos fatos. Na planilha de contribuições do Lemonde.fr é possível observar o emprego dessa ferramenta. No dia 12 de novembro de 2007, sobre o presidente francês Sarkozy, são 1.857 comentários; Guerra do Iraque, 2.969, sendo que até dia oito de dezembro passam a 2.283 e 2.990 comentários, respectivamente. Tais números representam o enriquecimento ou complexificação da base de dados do site Lemonde.fr, graças à participação do leitor.

A possibilidade de interação por meio das reações é um dos elementos que, de certa forma, permitem a inserção do leitor no conteúdo jornalístico. O sentido de participação é ampliado quando o sistema de produção abre espaço para produções dos leitores. Esse é o conceito de "jornalismo colaborativo" ou "jornalismo cidadão", tradução do "citzen reporter", repórter cidadão.

O início das experiências com a abertura de espaço para publicação

de matérias feitas por não jornalistas foi com 21 OhmyNews, site Sul-coreano, que estreou em fevereiro de 2000. Com o slogan "cada cidadão é um repórter" e tendo em seu quadro apenas alguns jornalistas, começou a publicar a contribuição de "cidadãos repórteres". Numa fase posterior, passou a disponibilizar seu material em japonês e inglês, formando a OhmyNews

Internacional22. Outros exemplos são o britânico Southport Repórter

23 24 e o francês AgoraVox . Todos lançam aos leitores o convite para que se tornem redatores, como o AgoraVox:

Todo mundo pode se tornar redator do AgoraVox. Não é

necessário saber escrever com um estilo jornalístico afirmado.

Cada um de nós pode se tornar um tipo de "captador em tempo

real" daquilo que se passa em nosso entorno, fornecendo

artigos, imagens, vídeo e áudio. Por acaso ou não, todos nós

assistimos a acontecimentos que merecem ser relatados, os

quais não interessam à mídia tradicional. O mais importante é

poder testemunhar um acontecimento o qual você assistiu ou

que você descobriu pesquisando (na Internet ou fora dela).

AgoraVox não reivindica nenhuma ligação ou orientação

política, social, econômica, cultural ou religiosa. Nossa única

finalidade é reportar, ou comunicar o mais fidedigno possível,

fatos constatados objetivamente e que na medida do possível

não podem ser contestados. (agoravox, 2007, grifos nossos).

Para a presente pesquisa, os pressupostos do jornalismo cidadão interessam quando estão presentes em Webjornais que operam no formato empresarial tradicional. A abertura para a participação no sistema de produção de conteúdos é vista como fazendo parte dos novos dispositivos de enunciação, refletindo o objetivo de aumento do efeito de real.

Em 26 O Globo Online há uma seção, "eu-repórter", aberta a receber a colaboração dos leitores, como explicado no próprio site: "eu-repórter é a seção de jornalismo participativo do Globo Online. Aqui, os leitores são os repórteres e poderão ter publicados seus textos, fotografias, vídeos ou áudios de caráter noticioso". O leitor não é convocado apenas a se informar, mas a colaborar com o sistema informativo.

No dia 12 de novembro de 2007, O Globo Online traz duas

situações que demonstram esse posicionamento (Fig. 36). A legenda de uma fotorreportagem: "Em chamas. Gabriel Borges flagrou o caminhão da Comlurb que pegou fogo na Avenida Atlântica, em Copacabana". E o título de uma notícia: "Leitores registram transtornos causados pelo vento" (o globo..., 2007, grifos nossos). Os leitores flagram e registram situações sem as mediações de repórteres. São as testemunhas que reportam os acontecimentos.

Elpais.com, na seção "Participa", convida os leitores ao "Yo,

periodista"26: "Ajude-nos a construir elpais.com. Caso tenha sido testemunha de alguma notícia, envie e nós a publicamos. Você pode nos mandar textos, fotos, vídeos ou documentos. Agora os leitores de elpais.com se convertem em jornalistas" (elpaís.com, 2007, grifos nossos). O material pode ser enviado pela Internet ou por um celular. Por meio do link: "Envía tu noticia", é franqueada a palavra ao leitor. As contribuições vêm de várias partes do mundo e, são enviadas por testemunhas de fatos que, na maioria das vezes, apenas seriam reportados por agências de notícias.

O Estadão.com apresenta o Foto repórter, dizendo que: "Suas fotos podem ser publicadas no jornal". Na proposta, o leitor pode enviar fotos, que poderão ser publicadas em qualquer veículo do grupo, ou até mesmo vendidas para empresas de outros países.

 

Figura 34: Seção aberta à participação dos leitores do lemonde.fr.

Figura 35: Fóruns, lemonde.fr.

 

 

Figura 36: Seção Eu-repóter, O Globo Online.

Mande fotos do seu celular ou da sua câmera digital para o

Estadão.

Se você tem um celular com máquina fotográfica embutida, ou

vive com uma câmera digital a tiracolo, abra os olhos e fique

esperto. A partir de agora suas fotos podem ser publicadas no

Estadão, no Jornal da Tarde, no portal www.estadao.com.br ou

vendidas pela Agência Estado para jornais e revistas de todo o

planeta. E você pode até ganhar por isso, como se fosse um

repórter fotográfico profissional.

Numa iniciativa pioneira no País, os veículos do Grupo Estado

lançam o FotoRepórter. Um canal para receber fotos de

interesse jornalístico enviadas por qualquer pessoa, através de

telefones celulares ou computadores via e-mail. (foto..., 2007).

Os exemplos acima ilustram o uso das potencialidades de participação do leitor na configuração do produto jornalístico. De leitor que pode postar comentários a autor de textos. A questão da utopia aparece permeando o sistema de construção das notícias. Partindo-se das expectativas abertas pelas possibilidades tecnológicas, os sites se vêem constrangidos a oferecer recursos interativos. Com uma maior sofisticação, a partir do conceito de "jornalismo cidadão", o leitor é inserido na cadeia produtiva; ele é um novo jornalista, que nem precisa dominar o tipo de escrita jornalística: "Não é necessário saber escrever com um estilo jornalístico afirmado". (agoravox, 2007).

Mas, para os sites empresariais, que disputam espaço no mercado, a inserção de contribuições de leitores possibilita articular novas ferramentas conceituais, pois a produção deste leitor confere ao material uma maior dimensão de veracidade. Não é um leitor qualquer opinando sobre um texto. É uma testemunha que dá seu depoimento; o fato é algo que foi vivido e que é partilhado. Por meio dessa ação, é como se o site estivesse rompendo com a moldura por onde circula o hipertexto; cria-se a expectativa de que o texto pode ser produzido em todos os lugares. Dessa forma, articula-se a idéia de que não é preciso enviar um repórter para cobrir um acontecimento. Alguém envolvido diretamente no ocorrido pode relatar com maior propriedade.

No que diz respeito a um outro processo de contato entre as partes emissora e receptora, no contexto das novas tecnologias da comunicação, vale ressaltar a visão antecipadora do neoconcretista Hélio Oiticica (1937-1980), conhecido internacionalmente, por exemplo, pela obra "Parangolé", uma "escultura móvel", que só se mostra quando em interação com o espectador, previsto pela obra como participante, ou "participador". Como aponta Oiticica (1966): "compreensão e razão de ser do artista não mais como um criador para a contemplação mas como um motivador para a criação — a criação como tal se completa pela participação dinâmica do ‘expectador’, agora considerado ‘participador’". Em tom de protesto, são questionados os lugares do artista e do espectador e o objetivo é permitir que ambos colaborem com a construção de sentido,

mediante uma nova estética artística 27. Da mesma forma, quando se fala do leitor-participante contemporaneamente, apresenta-se o novo status do leitor, convocado a participar de uma nova modalidade textual.

Ao lançar mão desses novos dispositivos, o Webjornalismo cria uma estrutura de enunciação propondo que o fato está sob observação de todos, o que reforça a idéia da onipresença midiática. O real é apresentado a partir de quem viu e registrou um acontecimento. Esta passa a ser uma estratégia de articulação do efeito de real. A entrada do "jornalista cidadão" desempenha o papel de articulador do efeito de real mais no nível conceitual, visto que, para fins práticos, não há um impacto no sistema tradicional de produção, que continua a cargo dos profissionais.

Usando as categorias de auto-referência e heterorreferência, nota-se que os Webjornais, quando adotam o discurso do outro, o leitor, para falar do mundo (heterorreferência), na verdade estão falando de si, pois numa alusão à auto-referencialidade, em última instância falam a respeito de suas capacidades de se abrirem aos discursos do mundo sobre o mundo.