Pensar o discurso no webjornalismo
Prefácio
Este livro não é, certamente, uma repetição, às vezes, presente em trabalhos acadêmicos. Posiciona-se para além do "mesmismo" e faz jus ao saber oriundo da pesquisa científica que flerta com o conhecimento de fronteira. O que se ressalta, ao longo de todo trabalho, é o tensionamento do arcabouço conceitual no âmbito da análise do discurso no que tange à articulação com outros domínios científicos cujo objeto de análise é a construção de sentido no webjornalismo.
Além de trabalho inovador na maneira de conduzir a referida articulação interdisciplinar, depara-se com os desafios implicados na análise de um produto aberto, em construção e recente, em relação a outros produtos e linguagens midiáticos. Tais características ressaltam sua diferença em comparação a outros estudos discursivos como, por exemplo, de um romance ou de um filme. Confrontado com a natureza do objeto analisado, o autor faz um corte metodológico pelo qual objetiva identificar os constrangimentos que caracterizam as novas formas do discurso em questão, como também as estratégias que assinalam a disputa entre os webjornais, inseridos numa zona de concorrência. Como o próprio autor declara:
Na contemporaneidade, pensar a comunicação resulta numa ação cada vez mais complexa, visto que se observam mudanças estruturais na base do processo de produção, distribuição e acesso aos conteúdos midiáticos. A relação emissor-receptor experimenta alterações a partir do momento em que as novas tecnologias abrem possibilidades de participação de receptor no processo de produção e distribuição de conteúdos. As relações, até então bastantes rígidas quanto às definições dos lugares de produção e reconhecimento, passam a ser vistas sob a lógica de interação entre essas instâncias.
Neste contexto marcado pela complexidade, o autor levanta problema de ordem metodológica, demonstrando a carência de conhecimento no que toca às formas balizadoras do discurso jornalístico sobre as bases técnicas, agora, da web. Tal problema é norteado pelo objetivo maior de caracterizar o posicionamento discursivo dos webjornais forjados, entre outras, pela disputa de mercado, além de fazer um resgate da evolução do webjornalismo, com ênfase no atual estágio.
Para atender a essa frente de desafios, o autor tem com ponto de partida a semiologia de terceira geração. No interior dessa fase, usa como metodologia a relação contratual entre os meios de comunicação e seu público, que almeja revelar o sentido construído por diferentes matérias significantes que compõem o discurso jornalístico, considerando, além da concorrência, as expectativas dos leitores e não-leitores e a evolução sócio-cultural. A semiologia utilizada deixa claro que o posicionamento do discurso estudado está mergulhado numa rede interdiscursiva da produção de sentido na sociedade (semiose). O discurso do webjornalismo nada mais é, então, que uma extração, um pedaço da rede (ou no dizer de E. Verón, um fragmento de tecido) dessa produção de sentido que se caracteriza como ternária, social, infinita e histórica.
Ancorado no arcabouço conceitual da análise do discurso e, ao mesmo tempo, convocando outros domínios de estudo, o trabalho aqui introduzido articula-se pelo menos com quatro desses domínios: teorias da comunicação, teorias do jornalismo, linguística e hermenêutica. Entre os vários conceitos reivindicados, gostaríamos de colocar em relevo dois deles, de extrema importância, que conferem densidade à empreitada proposta, no que tange ao tempo e ao espaço: o triplo presente, oriundo da hermenêutica de Paul Ricouer, e a noção de contato cunhada, inicialmente, pelo lingüista russo Jakobson.
O triplo presente torna-se uma das colunas do trabalho, pois o conceito permite melhor compreender a noção de tempo à narrativa jornalística que coaduna com as características da estrutura técnica do webjornalismo: articulação na explicitação dos tempos presente-presente (complementação em outros sites e blogs), passado-presente (banco de dados) e futuro-presente (projeções etc). A simulação do contato, espécie de ampliação de aproximação entre o real e sua representação, no intuito de demonstrar estreitamento e entrosamento dos vínculos entre as instâncias de produção e de reconhecimento. O percurso almejado, então, neste trabalho, lembra um dizer de Gilles Deleuze, sobre a realização da pesquisa científica como sendo, sobretudo, o ato ou a arte de levantar problemas, de um lado, e o de criar e articular conceitos, de outro. Estes são aspectos manuseados nesta pesquisa, lúcida e conseqüente.
Os resultados de toda a investida não se resumem à conclusão, mas se destilam ao longo de quatro capítulos, abordando aspectos da interação entre as instâncias de produção e reconhecimento; interação entre a recepção e o produto; interação no interior da instância de recepção, passando pela noção de "furo" jornalístico nesse novo ambiente, a noção de tempo no discurso jornalístico e diferentes efeitos de real, como mostra o autor a seguir:
A palavra não é simplesmente aberta ao leitor, mas o fato de ele ter a chance de manifestar seja sua opinião, seja relatar o que acontece de relevante, passa a constituinte do próprio discurso da mídia. Enquanto discurso auto-referente, ao ressaltar a abertura para as contribuições dos leitores, são ressaltadas as potencialidades que um site tem de mostrar a realidade, a partir de testemunhos, impressões, opiniões etc... A ampliação das formas de aproximação entre o real e sua representação permitem que o discurso jornalístico crie novas formas de inserção do cotidiano em seus relatos e, com isso, ao estender o sentido de realidade, aproxime-se ainda mais do universo dos leitores.
O trabalho que se segue representa, enfim, o coroamento de um jovem pesquisador que trilhou percurso marcado pela solidez, coerência e abertura criteriosa. Por esses e outros motivos, este trabalho representa uma mão estendida ao diálogo, em primeiro lugar aos seus pares — pesquisadores no domínio da comunicação — mas, igualmente, aos colegas de áreas afins convocadas ao longo do trabalho, além de todos aqueles que têm interesse no aprofundamento do conhecimento das novas formas de produção de sentido na contemporaneidade, em particular, na produção do sentido midiático. Só nos resta, agora, desejar também a você, caro(a) leitor(a), agradável e proveitosa leitura!
Giovandro Marcus Ferreira
Diretor da Faculdade de Comunicação, Universidade Federal da
Bahia