Pensar o discurso no webjornalismo

Edson Fernando Dalmonte · Capítulo 5 de 26

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Pensar o discurso no webjornalismo

1. A comunicação segundo a lógica contratual

A comunicação segundo a lógica

contratual

 

Você quer parar o tempo

O tempo não tem parada

 

O tempo em si

Não tem fim

Não tem começo

Mesmo pensado ao avesso

Não se pode mensurar

 

Alceu Valença - Embolada do Tempo

Da perspectiva contratual nos meios de

comunicação

Os meios de comunicação de massa, em sua prática, vivem situação plena de concorrência. O principal alvo de disputa concentra-se em torno da audiência. É o consumo elevado que assegura um melhor posicionamento da empresa no mercado. Antes da consolidação da audiência, há um longo percurso que busca articular a relação entre a instância de produção e a instância de reconhecimento, assim como certas características dos produtos que disputam uma mesma zona de concorrência na segmentação que hoje se observa em diversas modalidades de publicação. Percebe-se então que, cada vez mais, há uma semelhança no produto dos meios de comunicação, em especial no tocante aos conteúdos.

Diante de um quadro de tantas semelhanças, o que marca a diferença é a maneira de apresentar o conteúdo. Essa distinção é assegurada pela proposta e manutenção de um contrato ou promessa. Na linha da concorrência entre os produtos na área de comunicação, há mudanças operacionalizadas com base nas novas tecnologias. A tradição do jornal impresso passa por transformações no que diz respeito ao cenário proposto pela internet. À já consolidada prática do jornalismo, somam-se os novos recursos da Web, fazendo do Webjornalismo um mix de antigas práticas, fundindo texto, imagens, áudio etc.

No âmbito da comunicação de massa, em que produzir conteúdos é seguir uma série de constrangimentos que, em larga escala, são os di-tames da concorrência, a questão fundamental é o estabelecimento de marcas discursivas específicas. Logo, compete aos veículos de comunicação estabelecer parâmetros para esse elo, que devem ser freqüentemente avaliados e reposicionados. Essa capacidade de renovação é que define não apenas o estabelecimento de um público, mas também sua ampliação ou diminuição.

O conjunto das estratégias empregadas configura o que se passou a definir como contrato de comunicação (charaudeau, 1994) e contrato de leitura (verón, 1985). Embora existam diferenças quanto ao modo de operacionalizar o elo contratual entre as instâncias comunicacionais, há pontos em comum no tocante ao nível de relacionamento entre enunciador e co-enunciador, tomando-se o produto midiático como elemento fundamental dessa interface.

Ao se conceber a comunicação na lógica contratual, há que se

considerar o jogo de força 1 para que cada um dos lados, enunciador e destinatário, seja considerado como uma instância que busca constantemente estabelecer e manter contato com a outra.

Todo ato de comunicação é um objeto de troca entre duas

instâncias, uma de enunciação e outra de recepção, da qual o

sentido depende da relação de intencionalidade que se instaura

entre elas. Isso determina três lugares de pertinência: a

instância de enunciação — lugar das condições de produção; a

instância de recepção, que será chamada lugar das condições

de interpretação; e aquele no qual se encontra o texto como

produto acabado, que será chamado lugar de construção do

discurso. (charaudeau, 1997, p. 15).

Para Charaudeau (1997), o ato comunicacional depende de uma "relação de intencionalidade" entre as instâncias, o que define três lugares: enunciador, destinatário e o texto, resultado de um jogo de intencionalidades entre as partes precedentes. O interessante é perceber que o texto, ao mesmo tempo é processo e resultado de um desejo da parte que envia e da que recebe. O texto, na condição de resultado de uma construção discursiva, carrega as marcas de sua produção, o que acarreta entender o que é definido como sua instância destinatária.

O texto surge, então, da relação entre as intenções do enunciador e do destinatário. "Conclui-se que o texto produzido é portador da cointencionalidade que se estabelece entre enunciador e destinatário (seres de fala), e não entre produtor e receptor (seres de ação)". (charaudeau, 1997, p. 18). Falar do binômio emissor-receptor seria permanecer num mero reducionismo, base de outros pressupostos teóricos interessados em dar conta do processo

comunicacional 2.

Tratar enunciador e destinatário como "seres de fala" implica postular que a atuação/empreendimento no ato comunicativo ocorre a partir destes dois locais, de forma mais ou menos equacionada, e não de um lado forte que atua sobre um fraco. Fala-se, sobretudo, de um empenho no sentido de entender o outro, de localizar, por exemplo, as intenções do destinatário para que ele se lance no processo comunicacional. Postulase, dessa forma, que é necessário tentar compreender o que o destinatário espera obter por meio de sua entrada nesse processo.