Pensar o discurso no webjornalismo
2. Da estrutura de um discurso
Da estrutura de um discurso
Dez minutos atrás de uma ideia
Já dão pra uma teia de aranha
Crescer e aprender
Sua vida na cadeia do pensamento
Gilberto Gil - Barato Total
O discurso jornalístico
Dentre os atuais desafios para se pensar a comunicação na contemporaneidade está a passagem de conceitos até então empregados no jornalismo impresso e que, agora, são desafiados pela modalidade comunicacional da Internet. Sob o ponto de vista discursivo, na linhagem do modelo gerativo de sentido, a questão essencial está na configuração mesma das estruturas narrativas, que se convertem em estruturas discursivas, a partir do momento em que são assumidas pelo sujeito da enunciação. (barros, 1990, p. 53).
A abordagem do Webjornalismo com base na Análise do Discurso requer que se avalie a organização da máquina discursiva, para que se entendam as opções do sujeito desse tipo específico de enunciação.
O sujeito da enunciação faz uma série de "escolhas", de
pessoa, de tempo, de espaço, de figuras, e "conta" ou passa a
narrativa, transformando-a em discurso. O discurso nada mais
é, portanto, que a narrativa "enriquecida" por todas essas
opções do sujeito da enunciação, que marcam os diferentes
modos pelos quais a enunciação se relaciona com o discurso
que enuncia. (barros, 1990, p. 53).
Para que se entenda uma enunciação, é preciso ‘situar’ o enunciador, ou, mais precisamente, a instância enunciadora. Como lembra Peruzzolo, por trás de um jornalista "há uma engrenagem muito maior" (2004, p. 141). Para que se fale do discurso, portanto, há que se falar das estruturas de produção de tal discurso. "É nas estruturas discursivas que a enunciação mais se revela e onde mais facilmente se apreendem os valores sobre os quais ou para os quais o texto foi construído. Analisar o discurso é, portanto, determinar, ao menos em parte, as condições de produção do texto". (barros, 1990, p. 54).
Uma perspectiva focada nas estratégias que envolvem a organização textual, num sentido amplo, pode ser localizada em Verón (1995). Para ele, ao falar das discursividades, é preciso que se considerem as matérias significantes e seu sistema produtivo, ou, mais especificamente, a produção de sentido. Para o autor, "há sistemas diferenciados de funcionamento da produção de sentido, cuja descrição exige recorrer a conceitos e modelos diferentes". (1995, p. 12). Para se abordar o sentido, ou os "sistemas de representação", é preciso avaliar sua materialização, ou seja, as matérias significantes.
O ponto de referência de todo empreendimento empírico neste
âmbito, são os fenômenos de sentido certificados, as
disposições de matérias significantes portadoras de sentido, os
conjuntos significantes que foram extraídos, pelas
necessidades de análise, do fluxo initerrupto de produção-
circulação-consumo de sentido, em um contexto social dado. O
que chamamos de "investidura" nada mais é que a organização
espaçotemporal de sentido, sob a forma de processos
discursivos. (verón, 1995, p. 12-13, grifos do autor).
Verón considera que nada, no funcionamento de uma sociedade, é estranho ao sentido. O sentido está em todas as partes. Da mesma forma, o ideológico e o poder estão em todos os lugares. Ele mesmo, entretanto, adverte: "ao mesmo tempo, afirmar que o ideológico, que o poder, se encontram em todas as partes, é radicalmente diferente de dizer que tudo é ideológico, que tudo se reduz à dinâmica do poder" (1995, p. 14-15).
A questão essencial recai sobre uma concepção específica de ideológico, pois, segundo Véron,
"ideológico" designa, portanto, não um objeto, não um conjunto
identificável de "coisas" [...], mas uma dimensão de análise do
funcionamento social. Trata-se do ideológico cada vez que uma
produção significante [...] é considerada em suas relações com
os mecanismos de base do funcionamento social enquanto
condições de produção do sentido. (2004, p. 56, grifo do autor).
Ao contrário da concepção marxista mais ortodoxa, por exemplo, o ideológico de Verón nada tem que ver com a problemática do verdadeiro e do falso, com a distorção, até porque todo e qualquer discurso é produzido de acordo com uma orientação ideológica. Para tanto, "a análise ideológica da produção social de sentido nada mais é do que a busca dos traços que os níveis do funcionamento social não deixam de imprimir nos discursos sociais". (verón, 2004, p. 58).
Tratar de poder e ideologia pode conduzir analista e análise a posicionamentos exclusivamente políticos, no que diz respeito ao discurso e à sua organização. Para as questões ora abordadas, a pertinência está na inserção entre ideologia e poder na conformação de um discurso social, como é o caso do jornalismo, mais especificamente o Webjornalismo. Jornalismo não compreendido aqui como matéria que recorta e representa o real, mas como posicionamento discursivo de uma instância enunciadora. Para tanto, antes de se falar do sentido, enquanto algo finalizado, há que se considerar os processos de construção de efeitos de sentido.
O sujeito da enunciação faz uma série de opções para projetar
o discurso, tendo em vista os efeitos de sentido que deseja
produzir. Estudar as projeções da enunciação é, por
conseguinte, verificar quais são os procedimentos utilizados
para constituir o discurso e quais os efeitos de sentido
fabricados pelos mecanismos escolhidos. (barros, 1990, p. 54).
O processo de enunciação se converte numa característica essencial da organização discursiva, capaz de revelar traços do enunciador, bem como questões sociais que o circundam, além de possibilidades e restrições do próprio discurso. No tocante ao Webjornalismo, a questão gravita em torno da configuração da discursividade aí empregada; ou, como diz Verón (2004), atenção nos rastros deixados pelo discurso no texto, que é sua materialização.
Para que algo seja designado como condição de produção de
um discurso ou de um tipo de discurso, é preciso que tenha
deixado rastros no discurso. Em outras palavras, é preciso
mostrar que, se mudam os valores das variáveis postuladas
como condições de produção, o discurso também muda. (p. 52,
grifo do autor).
Se o objetivo for abordar as matérias significantes, segundo Verón (1995), é preciso analisar "certas operações discursivas de investidura de sentido" (p. 16, grifo do autor), localizadas nas pistas deixadas na superfície material. A partir do momento em que se estabelece uma relação entre determinada propriedade significante e suas condições de produção, pode-se dizer que esses traços foram transmutados em "pegadas" da produção ou do reconhecimento. No entanto, vale ressaltar que as condições de produção e de reconhecimento nunca são idênticas, distinguindo-se tais instâncias pela denominação "gramáticas de produção" e "gramáticas de reconhecimento".
Dentre outros elementos, de maneira preponderante, é a identidade do ser da enunciação que interessa para que se entenda o discurso. Compreende-se essa identidade como o conjunto dos posicionamentos norteadores das escolhas quanto aos elementos que farão parte do enunciado. "O sentido produzido só chega a ser visível em relação ao sistema produtivo que o engendrou, ou seja, em relação com essa ‘alteridade’ construída pelas condições de produção, de circulação, de reconhecimento". (verón, 1995, p. 20, grifo do autor).
Como exemplo de estratégia de construção da alteridade, por meio da simulação do contato, Verón (2004, p. 95) cita que o dispositivo de enunciação do telejornal, que delimita a diferença de sua estrutura narrativa ao marcar uma ruptura com a narrativa do cinema, propondo que o apresentador olhe o espectador nos olhos. "A partir desse momento começa a avançar um dispositivo muito complexo que é a ordem do contato. O telejornal se afasta do universo de representação do próprio cinema e constrói seu próprio objeto discursivo".
A concepção de efeito de sentido pode ser trabalhada a partir do lugar onde se constroem as interpretações, ou seja, o lugar da recepção. Para tanto, Charaudeau (1997) apresenta dois efeitos, pretendido e produzido, que se desenvolvem em dois lugares, respectivamente.
No primeiro se encontra o destinatário ideal, aquele que em
comunicação é chamado de alvo, que é imaginado pela
instância midiática como suscetível de perceber os efeitos que
ela busca. Este espaço é o lugar dos "efeitos pretendidos". No
segundo encontra-se o receptor real, que será chamado de
público, a instância de consumo da informação midiáticas, lugar
dos "efeitos produzidos" no âmbito do consumidor, em função
do que ele é. (p. 20, grifos do autor).
Como lembra o próprio Charaudeau (1997, p. 88), cada grupo midiático faz escolhas concernentes ao seu público, em função de faixa etária, de classe social, mas estas são apenas conjecturas sobre uma idéia de público que, na realidade, é heterogêneo e mutável. Se a questão central está no sentido produzido pela mensagem junto ao público, a expectativa quanto a esse sentido será distinta, a depender se o co-enunciador é concebido como "alvo" ou "público".