Pensar o discurso no webjornalismo
A ação criativa dos constrangimentos aplicada ao Webjornalismo
As expectativas associadas às possibilidades de comunicação na Internet passam a ser incluídas nos objetivos das empresas de comunicação, compondo suas estratégias. Se a inclusão historicamente é apontada como uma necessidade de realização da cidadania, sob o ponto de vista empresarial, esta passa a fazer parte do próprio sistema de enunciação. As possibilidades de interação e navegação pelo hipertexto, por exemplo, são apresentados como novos dispositivos de enunciação. A todo instante o leitor é convocado não apenas a "ler" o material disponibilizado, mas a participar de um processo. Para as indagações da presente pesquisa, o imaginário, enquanto proposta, é parte constituinte do discurso midiático.
A ação criativa dos constrangimentos aplicada
ao webjornalismo
No primeiro capítulo do presente trabalho foi abordada a perspectiva contratual da comunicação, considerando-se a importância das estratégias para a criação de elos entre as instâncias de produção e de reconhecimento. Para efeito de análise, os pressupostos dos contratos de comunicação e de leitura são retomados agora para avaliação de quais são as estratégias aplicadas ao universo do Webjornalismo. Interessante ressaltar que, mesmo a aplicação de estratagemas oriundos da tradição do jornalismo impresso, são renovadas, quando aplicadas a esse novo ambiente. Dessa forma, interessa particularmente perceber como se processam tais adaptações e, sobremaneira, quais são as novas estratégias, potencializadas pelas características do Webjornalismo: 1) multimidialidade, 2) interatividade, 3) hipertextualidade, 4) personalização, 5) atualização e 6) memória.
Como ressalta Charaudeau (1997, p. 15), todo ato de comunicação resulta da troca entre as instâncias de enunciação e de recepção, compreendendo-se o jogo de intencionalidades instaurado entre elas. São três os lugares desse processo: o lugar das condições de produção (instância de produção), o lugar das condições de interpretação (instância de recepção) e o lugar de construção do discurso (o texto). A relação de intencionalidades é a base para a instauração do ato comunicacional.
Quando tais questões são trazidas para as modalidades do fazer jornalístico na Web, o contrato de comunicação auxilia no entendimento dos modos de organização do discurso do Webjornalismo. Entender as intencionalidades, a partir de um produto comunicacional, resulta de um esforço que, a partir do texto, remete às instâncias de produção e de reconhecimento. O texto, enquanto produto acabado (pronto), é portador das marcas do processo de sua produção, revelando as intencionalidades dos parceiros, na condição de "seres de fala".
Na base do contrato de comunicação estão os constrangimentos discursivos, elementos definidores da finalidade do ato de comunicação (charaudeau, 1994, p. 09). Os constrangimentos atuam orientando a organização discursiva e, por meio da definição da identidade dos parceiros, bem como de suas expectativas, o sujeito falante se posiciona. A materialização do discurso, dessa forma, responde aos anseios da instância destinatária, que tomam forma no posicionamento do enunciador, em ações marcadas pelas circunstâncias materiais, decorrente dos meios possíveis e canais de transmissão.
Enquanto estratégias orientadoras dos posicionamentos discursivos, no que tange ao Webjornalismo, os constrangimentos podem ser entendidos como novos dispositivos de enunciação, visto que condicionam o sentido, ou seja, são estratégias que dão forma ao texto, com implicações em sua organização. Os processos de enunciação, na Web, estão organizados tomando-se por base as possibilidades de materialização discursiva daquele ambiente. Tais possibilidades, como ressaltado nos capítulos anteriores, oscilam entre as possibilidades efetivamente implementadas e as que ficam no campo das possibilidades.
Os constrangimentos despontam como importante fator para a materialização do sentido do discurso jornalístico. No que diz respeito ao jornalismo impresso, vários são os constrangimentos que atuam para sua conformação, visto que o produto final diário resulta de critérios de seleção e hierarquização das notícias. Nem todos os fatos podem ser noticiados, ou, quando um é selecionado, a profundidade do relato é controlada pelo espaço disponível, pela possibilidade ou não de uso de fotos, gráficos etc.
Esse constrangimento, referente às circunstâncias materiais, passa a ser redefinido no contexto da Web. Sobre essa relação, como ressalta Palacios (2002), o Webjornalismo modifica tal realidade, posto que o espaço é virtualmente ilimitado, o que tem implicações no tocante à quantidade de informação que pode ser disponibilizada a seu público. Para o autor (p. 07), "trata-se da primeira vez que isso ocorre, uma vez que em todos os suportes anteriores (impresso, rádio, tv) o jornalista convivia com rígidas limitações de espaço (que se traduz em tempo, no caso do rádio e tv)".
Se a limitação de espaço atua como elemento relevante para o processo de construção da notícia, esse constrangimento, no caso da Web, atua diferentemente. O problema se apresenta de outra forma pois, se o espaço é virtualmente ilimitado, deve-se ponderar sobre os critérios para a definição de notícia e qual a quantidade de informações a ser disponibilizada, bem como sua formatação.
Ao se abordar a relação do leitor com o novo instrumental fornecido pela Web, ainda é comum questionamentos quanto ao entrosamento do leitor-navegador com a notícia disponibilizada nesse novo ambiente. A questão principal diz respeito ao possível descompasso entre a novidade da Web, bem como suas constantes inovações, e o leitor. Desde o início da popularização da Internet, tem havido discussão, por exemplo, para saber se o leitor se adapta às barras de rolagens, visto que o manuseio do texto pode necessitar de tal aparato.
A relação dos tipos de interação estabelecidos entre leitores e a Web vem sendo estudada desde 1995 por Nielsen, que mantém
uma coluna, Alertbox (http://www.useit.com/alertbox/), na qual discute os aspectos da usabilidade que os leitores estabelecem com os produtos presentes nos Websites. A Alertbox, atualmente, conta com 10 milhões de page views por ano.
Os estudos de Nielsen, por um lado, demonstram a evolução dos Websites, que buscam o aprimoramento de linguagens e instrumentos que propiciem uma melhor navegabilidade. Nesse mesmo sentido, os estudos mostram ainda o que se pode classificar como uma evolução (amadurecimento) do público leitor.
Um dos primeiros conceitos desenvolvidos pelo autor é o do leitor
scanner 16. Esse conceito parte de um questionamento sobre os dados: "em 79 por cento de nossos testes os usuários sempre escaneiam cada nova página; apenas 16 por cento lê palavra por palavra". (nielsen, 1997, grifo do autor). Tem-se, com isso, uma outra modalidade de leitura, não-linear, focada em palavras-chave destacadas, como os links, com cores e fontes diferenciadas.
Nota-se, a partir de tais indicações, que a instância destinatária oferece indícios de como se deve organizar essa textualidade, transitando de uma organização rígida para uma mais flexível. Com base nessas ‘dicas’, é possível implementar alterações num discurso, buscando-se entendê-las como constrangimentos possíveis para a consolidação de um contrato de comunicação.
A interação do leitor com o material disponibilizado passa, necessariamente, pela tela. O texto jornalístico apresenta-se estruturado segundo a fórmula da pirâmide invertida, cuja organização textual pressupõe a apresentação, em primeiro lugar, dos pontos mais relevantes, seguido dos pontos mais genéricos. Em suas indagações, Nielsen (1996) aborda a relação do leitor com o texto na tela. "Na Web, a pirâmide invertida torna-se menos importante desde que se sabe, com base em vários estudos, que os usuários não usam a barra de rolagem, o que faz com que leiam, freqüentemente, apenas a parte inicial de um artigo".
O autor aponta uma resistência que o leitor apresenta em sua interação com o texto apresentado na rede. É como se cada página da rede fosse vista como uma página impressa, estática, e o leitor estaria apenas interessado naquilo que vê de imediato. A falta de hábito com as barras de rolagens impediriam que ele chegasse até o fim do texto, que apenas aparece por meio do ato de scrolling.
Embasando-se nessa constatação, o autor propõe uma reorganização do conceito de pirâmide invertida, o que necessariamente pressupõe uma nova organização discursiva para o Webjornalismo.
Portanto, espera-se que os textos para a Web sejam peças
menores, para evitar longas barras de rolagem. Cada página
poderia ser estruturada como uma pirâmide invertida, mas o
trabalho todo poderia ser visto como um conjunto de pirâmides
flutuando no ciberespaço, ao invés de um tradicional "artigo".
(nielsen, 1996).
Dessa forma, percebe-se a atuação dos constrangimentos quanto às expectativas, bem como a resistência do público, atuando na configuração da discursividade própria do Webjornalismo. Ao tratar da fragilidade do conceito de público alvo que, na verdade, é sempre heterogêneo, Charaudeau (1994, p. 11, grifo do autor) diz que "isso apresenta o problema da definição deste púbico, não em termos de status social real, mas em termos de motivação, ou seja, da relação de causa e efeito que pode se estabelecer entre tal identidade social e o tipo de acontecimento a transmitir".
Pensar nas identidades que compõem a relação entre as instâncias de produção e de reconhecimento implica pensar as estratégias de transmissão e, antes disso, a formatação do material. O interessante é perceber que há uma evolução no ato de interação do leitor com o texto da Web. Por meio de análise comparativa a partir de pesquisas realizadas por Nielsen em 1996 e a atualização dos
dados relativos a essa pesquisa em 200317, é possível caracterizar tal avanço:
A evolução da Web alterou essa conclusão. Ao passo que os
usuários tornam-se mais experientes com as barras de
rolagem, vários começam a usar tal recurso […] Essa continua
a ser uma importante diretriz para assegurar que a informação
mais importante apareça no início e para evitar páginas longas.
Embora compreendendo o desenvolvimento das habilidades do leitor, o que marca uma maior interação entre ele e o texto,
Nielsen 18 permanece enfático quanto à necessidade de se reorganizar essa estrutura, propondo uma outra textualidade, em conformidade com esse outro ambiente. Isso porque todo texto deve ser visto como resultado de um jogo de intencionalidades. Como ressalta Charaudeau (1983, p. 94, grifo do autor), "essa intencionalidade será sempre um processo de intenção relativo à hipótese interpretativa que produz um certo sujeito analisante, considerando-se uma certa circunstância de discurso".
O hipertexto representa essa nova modalidade textual, mais flexível, exigindo, contudo, na fase atual do Webjornalismo, um reposicionamento, visto que o leitor passa a ver a tela do computador como uma moldura, em cujo interior está o conteúdo de que necessita. Esse texto compõe as chamadas "células informativas". (salaverría, 1999). Sobre isso, diz Mielniczuck (2002, p. 11),
Cada célula informativa da narrativa jornalística hipertextual
pode ser constituída por um texto escrito, um som, ou uma
imagem, que estão em posição de equilíbrio, enquanto células
informativas, umas em relação às outras. Eles disputam — de
forma eqüitativa — com a palavra escrita um lugar na hierarquia
dos elementos mais importantes dentro da narrativa de um fato
jornalístico. Ao contrário do que acontece na Pirâmide Invertida,
onde o mais importante está no topo, aqui o mais importante
está lado a lado (ocupando um espaço tridimensional e nem
sempre visível na tela) com outras informações.
Há, dessa forma, uma reorganização conceitual da noção de texto jornalístico que, agora, propõe uma reorganização espacial da informação, transitando de uma organização vertical, por meio de uma estrutura linear, segundo a metáfora da pirâmide invertida, passando para uma estrutura horizontal, o que permite a "fragmentação hipertextual de uma notícia" (salaverría, 2005, p. 73), respondendo-se às cinco perguntas clássicas do lead de forma fragmentada, cada um dos aspectos tratados conforme sua peculiaridade. Num texto seminal, ressalta o autor (1999),
De maneira definitiva, o hipertexto põe pela primeira vez nas
mãos do leitor — não do jornalista — a possibilidade de ampliar
até onde deseje a contextualização documental de cada
informação e, ao mesmo tempo, o libera de ler passagens
documentais indesejados que tornam a leitura lenta e
obscurecida.
O hipertexto oferece uma possibilidade de organização textual inovadora, segundo sua origem — blocos de texto unidos por links, o que permite uma escrita marcada pela convergência de modalidades comunicacionais — texto, vídeo, fotos, integrando um mesmo ambiente. Cabe ao jornalista, segundo Salaverría, o discernimento sobre o tipo de informação a ser priorizada, definindo a partir daí o suporte mais apropriado: "Textual, gráfico ou sonoro [...] Definitivamente, a organização hipertextual da informação obriga o jornalista a realizar um maior esforço de seleção e hierarquia dos elementos da informação, tarefas radicalmente jornalísticas". (1999).
Charaudeau (1997, p. 69), ao tratar dos dados externos que atuam na consolidação do contrato de comunicação, ressalta os constrangimentos situacionais, como no tocante à identidade dos parceiros engajados na troca, definindo-os por meio da resposta às questões "quem troca com quem?", ou "quem fala com quem?", ou "quem se dirige a quem?". A identidade, para o autor, "é determinada por uma convergência de traços pessoais de idade, de sexo, de etnia, etc., de traços reveladores do status social, econômico, cultural, etc., de traços reveladores da natureza ou do estado (suposto) psicológico dos parceiros". De forma convergente, esses fatores atuam na definição de constrangimentos discursivos que atuam na conformação de conceitos acerca do leitor.
Em seus postulados, o contrato de comunicação apresenta a idéia de interação entre as instâncias, em especial por meio dos constrangimentos discursivos, o que torna o processo altamente criativo, permitido uma maior adaptação a novas demandas, como as implementadas pelas tecnologias. No geral, a contribuição da Análise do Discurso para entender o panorama atual do Webjornalismo, em especial seu posicionamento discursivo, mostra-se relevante para que se compreenda o conjunto de modificações que dizem respeito à nova forma de pensar e produzir o jornalismo.
Nessa conjuntura, o dispositivo "constitui o quadro de circunstâncias topológicas e materiais nas quais se desenrola a troca [...] O dispositivo é o que determina as variáveis de realização no interior de um mesmo contrato de comunicação". (charaudeau, 1997, p. 70). O hipertexto constitui-se, então, como um elemento desse dispositivo implementado pelo Webjornalismo, visto ser o resultado do encontro entre uma possibilidade tecnológica e a proeminência de adaptação a essa inovação, de forma a consolidar uma nova tessitura da narrativa jornalística. Segundo Salaverria (1999),
No que diz respeito aos redatores, a assimilação da escrita
hipertextual exige uma renovação nos modos de estruturar e
escrever a informação. A novidade principal que acarreta o
hipertexto é que, na hora de redigir a notícia, o jornalista deve
ser muito mais consciente dos elementos informativos que a
conformam. Deve discernir melhor entre a informação de última
hora e a informação documental contextualizadora; deve
diferenciar entre a explicação dos dados, a descrição de
lugares e o relato de acontecimentos; deve identificar com que
suporte — textual, gráfico ou sonoro — se informa melhor sobre
cada um dos aspectos da notícia.
Em seu conjunto, esses critérios são constrangimentos discursivos a respeito de uma realidade tecnológica que apresenta tendências ‘imperativas’ ao seu uso. Quanto ao leitor, aos poucos ele vai se aproximando e se adaptando a esse novo ambiente e, ao entender as possibilidades que estão sendo abertas, passa a esperar uma organização discursiva coerente entre as inovações e o que passa a ser uma demanda pessoal. Para a instância de produção, a observação desses constrangimentos pode configurar-se como uma força motriz para a efetivação de um contrato de comunicação com esse leitor.