Pensar o discurso no webjornalismo

Edson Fernando Dalmonte · Capítulo 23 de 26

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Pensar o discurso no webjornalismo

“Em cima da hora”: as promessas do “tempo real”

Esta é uma nova proposta contratual: "eis o que se passa no mundo, sob a ótica de quem testemunha os fatos". Ao abrir a possibilidade de participação do cidadão, todos, em potencial, têm a chance de participar daquele espaço. Dessa forma, simula-se o contato, base sobre a qual se consolida um novo posicionamento discursivo.

 

"Em cima da hora": as promessas do "tempo

real"

A dimensão temporal é um importante fator na organização do Webjornalismo. A grande promessa gira em torno da possibilidade de oferta de notícias em tempo real. De maneira precursora, o rádio, seguido da televisão, conseguiram romper com a noção de periodicidade rígida, como é o caso do impresso, e apresentar fatos considerados relevantes fora de sua grade de programação. Importante inovação acontece com a Internet, que permite a divulgação a qualquer instante e a permanência do conteúdo, para acesso posterior, via base de dados.

Os Webjornais adotam slogans que afirmam a posição de produtores e divulgadores de notícias ininterruptamente. Exemplo

do slogan-promessa, o 28 Último Segundo (criado em 2000) traz: "Notícias de economia, política, esportes e cultura em tempo real". Como ressalta Santos (2002, p. 88), a proposta era a disponibilização de uma nova notícia a cada noventa segundos. Por vezes, o intervalo era menor, chegando a publicar cerca de mil por

dia 29.

O Globo Online apresenta "Plantão", onde são disponibilizadas notícias a cada minuto, em média, em editorias. Além do material disponibilizado via site, é possível ter acesso remoto ao material: "Que assunto mais interessa a você? Qual o seu blog preferido?

Através do rss30 você tem acesso direto ao conteúdo que escolher atualizado automaticamente". O leitor é convidado a escolher entre

listas de conteúdos, totalizando 107 opções (Fig. 37). Folha Online disponibiliza "Em cima da hora"; Estadao.com, "Últimas notícias"; Elpais.com, "Lo último". Em todos esses exemplos, a notícia postada geralmente é apenas um breve relato de algo ocorrido instantes atrás. Em sua maioria, é material de agência de notícias. Essas seções funcionam como painéis informativos, que situam os leitores na atualidade de fatos que acabaram de ocorrer.

A proposta do Webjornalismo é uma mudança na perspectiva temporal, situando leitor e acontecimento num mesmo plano narrativo. Tem-se aí a idéia do dispositivo, não apenas atrelado às questões de ordem física, tais como suporte material, mas indo além, atingindo as expectativas decorrentes das potencialidades atreladas ao próprio suporte. Como expectativa, há uma mudança naquilo que significa a temporalidade para o Webjornalismo.

 

Figura 37: Central rss – O Globo Online.

Para Franciscato (2004, p. 2), "o termo ‘tempo real’ surge não somente para afirmar que ações e interações podem se realizar sem dispêndio de tempo, mas para marcar que esta não é apenas uma conquista tecnológica, mas um redefinidor de práticas sociais". Há, dessa forma, uma ressignificação das práticas sociais, o que gera expectativas reais, que podem ser supridas "ideologicamente". Essa noção de temporalidade quase nula entre os fatos e a veiculação de sua narrativa passa a ser uma das facetas de um dispositivo de enunciação.

Dentro do quadro de redefinições, como ressalta Adghirni (2002, p. 02), seria mais pertinente o uso da expressão "fluxo contínuo", para caracterizar o turbilhão de material canalizado pelos jornalistas. Há um novo processo de hierarquização das notícias, cujo elemento principal passa a ser a cronologia, em detrimento de valores sociais ou políticos.

Alguns jornais, como o Lemonde.fr, adotam o sistema de atualização em três turnos — manhã, meio-dia e noite, sendo reservado um espaço para as notícias de plantão. O interessante é que as notícias, na pressa da divulgação, tenham tempo para um devido tratamento, evitando-se a divulgação de erros.

Exemplo da relação dos Webjornais com a publicação de inconsistências é o link "Comunicar erros", da Folha Online. A divulgação da morte do Papa João Paulo ii apresenta dois erros sucessivos, com se vê na seqüência:

02/04/2005 - 16h57

Papa João Paulo 2º morre aos 84 anos em Roma.

03/04/2005 - 12h05

Erramos: Papa João Paulo 2º morre aos 84 anos em Roma

Diferentemente do publicado na reportagem "Papa João Paulo

2º morre aos 84 anos em Roma" (Mundo - 03/04/2005 - 16h57),

o papa nasceu antes do período da Polônia comunista, não

durante.

03/04/2005 - 15h59

Erramos: Papa João Paulo 2º morre aos 84 anos em Roma

Diferentemente do publicado na reportagem "Papa João Paulo

2º morre aos 84 anos em Roma" (Mundo - 02/04/2005 - 16h57),

o papa viajou por 129 países, não por 125. O texto já foi

corrigido.

A ocorrência chama a atenção tendo-se em vista que o acontecimento não tenha sido algo inesperado, considerando-se que o Papa agonizava havia dias. A celerização dos processos de produção e divulgação pode levar a muitos erros de apuração, tentando aproximar a publicação do fato de sua ocorrência. Mas, a possibilidade do Webjornalismo estar constantemente atualizando seu conteúdo informativo tem uma repercussão no modo de interação entre as instâncias de enunciação e destinatária.

Os Webjornais se apresentam como capazes de colocar o indivíduo em contato direto com os acontecimentos. Na concepção tradicional do contra-to de comunicação, o jornal apresenta-se como agente habilitado a oferecer ao leitor aquilo que se passa na atualidade, sendo que o presente do impresso é uma convenção, remetendo a um passado recente, compreendendo-se o ciclo de 24 horas de sua periodicidade. Com a Web, essa noção altera-se e é proposta uma estratégia de enunciação, pois o Webjornal consegue trabalhar com algumas edições diárias e notícias em fluxo contínuo.

A notícia, de sua ocorrência à midiatização, deve ser vista, segundo lembra Charaudeau (1994, p. 11), como ‘aquilo que acontece hoje’. Para a nova proposta do Webjornalismo, a atualidade é aquilo que acontece agora. É com base na promessa de colocar o leitor em contato direto como os fatos, 24 horas por dia, que se busca estabelecer os novos posicionamentos discursivos.

Por meio das estratégias concernentes à apresentação de notícias em tempo real, o Webjornalismo propõe uma estrutura narrativa que busca ser portadora da realidade. Além dos recursos para promover o efeito de real, a inovação fica a cargo do desejo de apagamento da membrana que se coloca entre o fato e a notícia, que distingue a realidade e sua representação. Como plataforma na qual se inscreve a cena midiática, o Webjornal oferece inúmeros recursos por meio dos quais a realidade é apresentada, por vezes, em seqüências sem edição, como nos vídeos disponibilizados.

Cria-se a sensação de que o portal Webjornalístico tem uma redução dos filtros que, numa situação de porosidade, permitem a passagem do acontecimento à categoria de notícia. Em comparação a estruturas rígidas de grades de horários que restringem a apresentação do material jornalístico, como no rádio e televisão (embora havendo espaço para plantões), ou no impresso, a notícia na Web não tem restrição temporal, podendo ser disponibilizada e

acessada a qualquer instante (Fig. 38).

 

Figura 38: Galeria de vídeos do lemonde.fr.

Ao prometer as notícias em tempo real — o presente no momento da conexão —, o Webjornalismo situa o leitor diante do "presenteísmo", do "atualismo". Considerando-se a importância atribuída às capacidades de produção do discurso jornalístico e sua veiculação dentro do que se chama "atual", o presente se firma como valor máximo do jornalismo.

Contudo, quando o material Webjornalístico é avaliado atentamente, logo se percebe que a capacidade informativa das matérias "presenteístas" é limitada. A seção "Em cima da hora", da Folha Online traz a notícia "Fogo consome áreas em 3 municípios na Chapada Diamantina (ba)", postada às 23:19h, no dia 13 de novembro de 2007. Ao final do texto, por meio do link "Leia o que já foi publicado sobre incêndios", o leitor é remetido a 6.575 textos da base de dados, remetendo a todas as notícias relacionadas ao tema incêndio, no Brasil e exterior.

O Estadao.com de 13 de novembro de 2007, 22:28h (Fig. 39), traz: "Veja especial sobre a cpmf", que remete à seguinte notícia:

Brasília - Por 12 a 9, o governo conseguiu aprovar o relatório

favorável à cpmf na Comissão de Constituição e Justiça (ccj) no

Senado. Agora a proposta de emenda à constituição que

prorroga a contribuição até 2011 segue para votação em

plenário. A data ainda não foi marcada, mas a previsão é de

que ocorra na primeira quinzena de dezembro. Pouco antes,

com o mesmo placar, os senadores da base derrubaram o

relatório contrário à cpmf da senadora Kátia Abreu (dem-to).

Na verdade, o especial a que se refere o Estadao.com se constitui de um lead com as informações básicas sobre a aprovação da prorrogação da cpmf na Comissão de Constituição e Justiça no Senado, que se complementa por meio dos tópicos relacionados ao final do texto. Os referidos tópicos são peças informativas disponibilizadas anteriormente, como se vê:

Entenda como é a cobrança da cpmf [Segunda-feira, 29 de

Outubro 2007, 22h19]

Veja quem votou a favor e contra a cpmf na ccj [terça-feira, 13

de novembro de 2007, 22:15]

Governo e aliados fecham acordo para aprovar a cpmf na ccj

[terça-feira, 13 de novembro de 2007, 13:43]

Após Mozarildo, Simon vira novo ‘alvo’ e sai da ccj [terça-feira,

13 de novembro de 2007, 16:41]

Com acordo, líder prevê votação da cpmf em dezembro [terça-

feira, 13 de novembro de 2007, 14:33]

A idéia do "presenteísmo" associada ao Webjornalismo como instância capaz de colocar o leitor em contato direto com os fatos, à medida que acontecem, mostra-se ineficaz, visto que o presente relatado não tem densidade. A passagem de um fato à categoria de informação requer a identificação das circunstâncias, duração, atores envolvidos etc. Conforme Garcin-Marrou (1996, p. 50), para que se estabeleça a narrativa jornalística, o jornalista deve ter conhecimento da situação sócio-política, tendo por referência a história e memória, o que só é possível mediante um afastamento mínimo entre o acontecido e seu relato.

Numa lógica temporal, a base da narrativa jornalística é o "triplo presente": o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes e o presente das coisas futuras, segundo as reflexões de Agostinho (2006), retomadas por Ricoeur (1994). O presente das coisas presentes é o fato em si; é o anúncio ou apresentação de um acontecimento. O presente das coisas futuras refere-se aos desdobramentos que o acontecimento narrado pode apresentar. Aquilo que é antecipado pode ou não se efetivar, mas, a previsibilidade coloca o leitor numa situação de espera. Os fatos reportados nos plantões, dada a sua limitação de conteúdo, pois no geral são notícias curtas, criam a expectativa do surgimento de matérias mais elaboradas, fazendo repercutir a dimensão presente-futuro. Caso seja de seu interesse, o leitor vai voltar ao site para acompanhar o desdobramento daquilo que fora apenas indicado.

O presente das coisas passadas refere-se à concepção histórica, que, em sentido amplo, deve ser revisitada, pois é a historicidade dos fatos que agrega sentido, recuperando e atualizando o ocorrido, que pode ser apresentado reinvestido de significados. O uso das bases de dados cumpre a função "automatizada" de recuperar as informações passadas, o que confere densidade ao presente. Por vezes as notícias são "telegráficas", apenas anunciando o ocorrido, ficando a cargo das "notícias relacionadas" situar o fato numa perspectiva histórica, pela recuperação de notícias anteriormente publicadas, indo do mais atual ao mais antigo.

 

Figura 39: Especial sobre a cpmf.

Sob a perspectiva do triplo presente, o Webjornalismo apresenta-se como um ambiente facilitador do cruzamento dessa presentificação, configurando-se numa discursividade que permite ao leitor, desde uma breve notícia, ter acesso a uma vasta gama de informações, indo do mais atual ao mais antigo, bem como acessar prognósticos (presente-futuro). É nesse ínterim que as bases de dados desempenham papel crucial, possibilitando que se constituam hipertextos, com base na navegação intratextual, marcando a pertinência da recuperação dos fatos passados para dar "sustentação" ao atual. Essa lógica de disponibilização dos conteúdos está no âmago da organização discursiva do Webjornalismo.

O aporte conceitual oriundo do contrato de comunicação (charaudeau) e contrato de leitura (verón) permite a avaliação das estratégias implementadas para a aproximação entre as instâncias de enunciação e reconhecimento. Por meio do elemento comum entre os contratos de comunicação e leitura — a enunciação, a mídia, no caso o Webjornalismo, estabelece uma proposta de diálogo com seu leitor, simulando o contato. O posicionamento discursivo do Webjornalismo resulta da aplicação de estratégias discursivas focadas no potencial de participação do leitor no processo comunicacional.

Todas as promessas são feitas tomando por base o conjunto das expectativas suscitadas, por vezes, por visões utópicas quanto às possibilidades de participação do leitor no processo de construção da notícia. Do mesmo modo, a relevância da concepção temporal trabalhada pelo Webjornalismo como oferta do "atual", notícias em "tempo real", passa a ser uma importante promessa que, no conjunto das performances, visa à consolidação de posicionamentos discursivos. Seguindo-se a lógica para-textual, as promessas são enunciadas em toda a estrutura do Webjornal.