Pensar o discurso no webjornalismo

Edson Fernando Dalmonte · Capítulo 6 de 26

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Pensar o discurso no webjornalismo

A comunicação segundo a lógica contratual: a enunciação como base dos contratos de comunicação e de leitura

Da mesma forma, a instância enunciadora, embora ouvindo a destinatária, também elabora o produto centrando-se em suas intencionalidades. Por esse ângulo, a questão passa a configurar-se como: o que o enunciador pretende com a elaboração e disponibilização de seu enunciado? Tem-se, portanto, uma relação entre "seres de fala", o que implica entender a comunicação como

desencadeada por uma co-intencionalidade.3

A partir do exposto, entende-se que o texto é o local onde se podem encontrar as marcas das intencionalidades que impulsionam a elaboração de um discurso específico. Por meio de uma lógica contratual, a comunicação estabelece vínculos entre as instâncias que, embora devam ser constantemente repensados e reafirmados, podem permitir ao analista localizar as marcas e, por meio delas, reconstruir o nível de envolvimento estabelecido entre um produto e seu público. Ao privilegiar elementos particulares/peculiares, contrato de comunicação e de leitura, a seu modo, cada um tenta vislumbrar as modalidades que permitem entender as formas de aproximação entre as instâncias.

 

A comunicação segundo a lógica contratual: a

enunciação como base dos contratos de

comunicação e de leitura

O contrato de leitura

O contrato de leitura, para a instância de produção, baseia-se num con-junto de "obrigações" ou constrangimentos discursivos a serem respeitados; para o destinatário, há, por meio das estratégias do enunciador, o reconhecimento de suas intenções, por exemplo, no tocante à linguagem usada, o que pode marcar tanto a aproximação quanto o distanciamento em relação ao público. Este posicionamento entre a instância de produção e de reconhecimento é estabelecido, segundo a análise do discurso, pela construção e disposição dos sujeitos discursivos — enunciador e destinatário ou co-enunciador.

O estudo do contrato de leitura fala, conseqüentemente, sobre

todos os aspectos da construção de um suporte de imprensa,

na medida em que eles constroem a ligação com o leitor: capa,

relação texto/imagens, modo de classificação do material

redacional, dispositivos de ‘apelo’ (títulos, subtítulos, chapéus

etc.), modalização da construção de imagens, tipos de

‘percursos’ propostos ao leitor (por exemplo; capa bíndice

bartigo) e as variações que aí se produzem, modalidades de

paginação e outras dimensões que podem contribuir para

definir a maneira específica pela qual o suporte constrói a

ligação com seu leitor. (verón, 1985, p. 211).

Em linhas gerais, o funcionamento do contrato de leitura busca assegurar audiência fiel a um produto. Logo, enquanto diferencial, é a articulação no tocante ao contrato de leitura que marca a distinção. Ou seja, há uma diversidade de discursos semelhantes; mas a forma de apresentação do material já se constitui num diferencial, sobretudo por trabalhar aspectos identitários, que facilitam a aproximação e o percurso de leitura por parte de seu público.

Diante dessa diversidade, percebe-se que, ao se abordar a análise do discurso, é preciso estar atento para uma vasta gama de possibilidades, pois, como sugere Verón (1979, p. 134), "o discurso é uma configuração espaço-temporal do sentido". No universo midiático é possível localizar distintas estratégias, associadas ao enunciador e ao destinatário.

É a presença de elementos comuns que desencadeia a ‘luta’ para mar-car a diferenciação entre os produtos midiáticos. A distinção recai sobre as variações estratégicas que marcam os fenômenos de concorrência interdiscursivos, resultante de um mercado de produção de discurso. "A imprensa escrita fornece exemplos notáveis desse tipo de situação e, conseqüentemente, é um domínio privilegiado para o estudo das variações estratégicas". (verón, 1988, p. 14-15).

Enquanto setor de produção cultural massivo, a imprensa apresenta uma trajetória permanentemente submetida às leis da concorrência.

Partindo dessa premissa, Verón (1988, p. 15) aponta para a necessidade de que se precisem as condições de mercado sob as quais a imprensa opera.Para tanto, torna-se fundamental

compreender como um "título de referência"4 chega a tal categoria, pelo reconhecimento do valor agregado. Da mesma forma, há que se mencionar que o valor simbólico de um produto ganha amplitude quando é socialmente partilhado.

Na dinâmica da concorrência, é possível observar o desenvolvimento de três princípios (verón, 1988) associados às condições de produção dos discursos da imprensa:

1. A produção de seus leitores: compreende o conjunto de características definidoras do perfil dos leitores almejados pelo título em questão. "A produção dos leitores é feita por meio de percepções-representações que os atores sociais, implicados na produção do título de referência enquanto produto, têm dos setores sociais almejados como ‘alvos’" (verón, 1988, p. 15). O público desejado serve de parâmetro para que o contrato de leitura seja proposto, tentando atender as aspirações, motivações e imaginário do público pretendido.

2. Posicionamento do título em relação aos concorrentes: tendo-se em vista o panorama no qual está inserido um título, ao buscar estabelecer um contato com o público pretendido, firma-se uma ligação que pode ser definida como contratual. "A constituição de um público leitor supõe a estruturação, no discurso do título, de uma ligação proposta ao receptor sob a forma daquilo que eu chamei um contrato de leitura". (verón, 1988, p. 15, grifo do autor). O contrato de leitura é elemento estratégico, que se organiza a partir de uma situação de concorrência, haja vista que os outros títulos em disputa uma mesma faixa de mercado também buscam se posicionar. Quem for capaz de estreitar os vínculos com seu público estabelece um contrato de leitura, assegurando, assim, a participação do leitor no processo comunicacional. Fator relevante é que modificações podem ser implementadas num contrato de leitura pela expectativa em relação aos concorrentes. Se um concorrente avança nas estratégias de aproximação com o público, o veículo certamente deve se reposicionar.

3. Depois da produção do leitor, a venda do coletivo potencial de consumidores aos anunciantes: numa relação metadiscursiva, representando o discurso do título, o conjunto dos leitores é vendido como público potencial. A instância de produção, impulsionada por constrangimentos que não dizem respeito apenas à conformação do leitor, também mostrase preocupada com a maneira como os anunciantes vêem o título em questão, em contraste com seus concorrentes. Este terceiro princípio desponta como um construto discursivo que funde os posicionamentos anteriores, colocando em contato a idéia de um público e os anunciantes. Vale ressaltar que é resultado de duplo movimento de idealização: de um lado, o meio de comunicação que se dirige a um público pretendido e se posiciona em relação a ele, buscando estabelecer marcas que o distingam dos concorrentes; do outro, o anunciante, que também busca atingir seu consumidor, igualmente imaginado. A instância destinatária surge, dessa forma, como elo entre o título de referência e a esfera dos anunciantes.

Todo o universo da imprensa massiva está localizado num panorama definido como "zona de concorrência direta". Cada

produto, que Verón (1988, p. 16) classifica como gênero,5 busca estabelecer um vínculo com uma determinada instância destinatária, seu público pretendido. A partir da idéia de uma "zona de concorrência", o autor explicita que vários gêneros podem disputar público numa mesma faixa, como uma revista especializada para o público feminino, o que é definido como "concorrência interdiscursiva". (p. 14).

No plano da concorrência interdiscursiva, como no caso da imprensa generalista feminina, um título, segundo Verón, geralmente vem organizado

em torno de três grandes campos semânticos: moda, beleza e

cozinha. Além dessa regularidade temática global, no interior de

cada um desses campos e por razões que tocam o ritmo

sazonal do mercado da consumação e de práticas coletivas

associadas ao lazer, eles são levados a falar das mesmas

coisas no mesmo momento do ano: o ‘branco’, o bronzeamento,

as coleções, a volta às aulas, o regime, os presentes das

festas, e vários outros temas que retornam todo ano no mesmo

período. No interior de uma "zona", a oferta apresenta, no plano

dos grandes eixos temáticos, uma homogeneização

considerável. (1988, p. 16).

Tem-se, dessa forma, que todo produto da grande imprensa está disposto segundo uma organização discursiva que considera não apenas os interesses do público pretendido, mas, de maneira significativa, é considerado também todo produto que disputa espaço numa mesma zona de concorrência. Ambos elaboram e emitem discurso similar a um público situado na mesma faixa de interesse. Sob esse prisma, o discurso está balizado entre as expectativas quanto ao concorrente e ao público.

O discurso da imprensa escrita, a partir da noção de matérias

significantes, se apresenta sob a forma de material verbal,

imagem e layout (composição das páginas). É preciso, então,

levar em conta esta complexidade discursiva para descrever o

sentido engendrado nos suportes de imprensa, observando

igualmente os sistemas de representações ligados às estruturas

institucionais e às modalidades dos destinatários. (ferreira,

2002a, p. 269).

Pode-se dizer que, em função da concorrência entre os veículos, opera-se uma aproximação cada vez maior entre eles. Esta similitude é vista tanto no formato quanto no assunto. Nessa perspectiva, o que irá definir a diferença já não é o que é dito, e sim a forma do dizer, ou seja, a enunciação.

Os estudos de contrato de leitura pelo modo de uma descrição

do plano da enunciação, mostram que, freqüentemente, dois

suportes extremamente próximos do ponto de vista de suas

rubricas e dos conteúdos neles figurados, na verdade são muito

diferentes um do outro sob o plano do contrato de leitura, plano

que é crucial, porque é lá que se constrói a ligação de cada

suporte com seu público. (verón, 1985, p. 209).

A questão central, num ambiente de concorrência, é a definição de singularidades. "É esta singularidade que deve permitir a justificativa, aos olhos dos anunciantes, de anunciar em um título mais que no concorrente." (verón, 1988, p. 17). É uma estratégia discursiva, baseada na enunciação, a única maneira para se construir uma ‘personalidade’ distinta em relação aos outros veículos. Por meio dessa estratégia, é possível estabelecer a ligação com o leitor.

No universo da comunicação, no que diz respeito precisamente aos conteúdos, a posição fundamental para o entendimento dos jogos de significados está assentada no âmbito do enunciador. O enunciado é o texto realizado e a enunciação é o ato de produção do texto, sendo que esta é desencadeada pelo enunciador. Segundo Dubois (1970, p. 100), "a enunciação é apresentada seja como o surgimento do sujeito no enunciado, seja como a relação que o locutor mantém pelo texto com o interlocutor, ou como a atitude do sujeito falante em relação a seu enunciado".

Nessa perspectiva, o enunciado é de exclusiva responsabilidade do enunciador, que assume a posição de sujeito, desencadeando a ação de preparar e apresentar o enunciado. Para Dubois (1970, p. 104), isso significa dizer que esse sujeito assume totalmente seu enunciado, e que, da mesma forma, há uma relativa identificação entre o eu sujeito do enunciado e o eu sujeito da enunciação.

Considerando-se o fenômeno da homogeneização dos conteúdos, o único meio pelo qual um título pode consolidar sua "personalidade" é o desenvolvimento de

uma estratégia enunciativa que lhe seja própria, dito de outra

maneira, construindo uma certa ligação com seus leitores

[dessa forma] cada "zona de concorrência direta" é um

verdadeiro laboratório para o estudo de fenômenos

enunciativos: encontra-se uma multiplicidade que "trabalham"

de diversas maneiras uma mesma "matéria" semântica. (verón,

1988, p. 17, grifo do autor).

Se o material semântico é o mesmo, a distinção pode ser feita pelo tipo de organização discursiva e na maneira como ocorre o direcionamento desse enunciado para o destinatário. A relação entre o discurso e seu direcionamento para um público é possível desde que a língua seja devidamente empregada. Para Benveniste (1989, p. 82), há que se marcar a distinção entre a língua e o uso que dela se faz: "a dificuldade é apreender este grande fenômeno, tão banal que parece se confundir com a própria língua, tão necessário que nos passa despercebido".

O uso dos recursos lingüísticos pode marcar tanto o êxito quanto o declínio de uma empreitada discursiva, no que tange à aproximação entre enunciado e destinatário. Na perspectiva que se adota aqui, de construção de um contrato de leitura como elemento capaz de aproximar enunciador e destinatário, é fundamental que o falante se posicione marcadamente por meio do ato da enunciação. Como lembra Benveniste (1989, p. 82), "a enunciação é este colocar em funcionamento a língua por um ato individual de utilização".

Esse ato individual caracteriza um posicionamento discursivo e marca sua posição, além de distingui-lo daqueles que disputam espaço numa mesma zona de concorrência. A individualidade não marca apenas o ato da enunciação, mas igualmente caracteriza e distingue aquele que enuncia. Pela enunciação o enunciado é criado, delineando um perfil.

O ato individual pelo qual se utiliza a língua introduz em

primeiro lugar o locutor como parâmetro nas condições

necessárias da enunciação. Antes da enunciação, a língua não

é senão possibilidade da língua. Depois da enunciação, a

língua é efetuada em uma instância de discurso, que emana de

um locutor, forma sonora que atinge um ouvinte e que suscita

uma outra enunciação de retorno. (benveniste, 1989, p. 83-84).

Pelo ato da apropriação da língua, a enunciação desponta como realização individual. Segundo Benveniste (1989, p. 84), como obra da enunciação, o enunciador assume e explicita sua posição de locutor. Ao fazer isso, ele assume a língua e instaura diante de si o outro, independentemente de qual seja o grau de presença atribuído a este outro. Como lembra o autor, "toda enunciação é, explícita ou implicitamente, uma alocução, ela postula um alocutário".

Ao assumir o ato da enunciação, portanto, o locutor não apenas se define, mas define aquele a quem se dirige. Instaura-se, dessa forma, a ligação estreita que todo título deve buscar manter com seu público. O discurso é dirigido ao outro, que já se faz presente no ato da enunciação. Como pontua Benveniste (1989, p. 84), "na enunciação, a língua se acha empregada para a expressão de uma certa relação com o mundo". Seguindo-se essa lógica, percebe-se que o discurso midiático não é algo acabado, no sentido de estar completo, realizado, mas uma constante tentativa de estabelecer contato com um público. A relação com o mundo à qual o autor se refere diz respeito à tentativa de dialogar seja com as expectativas do leitor, seja com o cumprimento de promessas no tocante a esses desejos, que concernem à informação, entretenimento etc., elementos próprios da comunicação.

Para Fisher e Verón (1986), a mídia em geral é campo fértil para se observar as estratégias enunciativas. Mediante a diversidade das condições discursivas, seria astucioso quem conseguisse precisar a "situação de enunciação" que corresponde a cada um. Para os autores, o discurso social midiatizado coloca a instância de produção em tentativa de contato com todo aquele (qualquer um) que possa estar em situação de recepção. Sobre isso, advertem os autores:

No entanto, este qualquer um está longe aqui de ser um

destinatário anônimo: trata-se de construir um co-enunciador

bem determinado, o qual será impulsionado a tomar atitudes

complexas e ao qual serão emprestadas intenções,

necessidades, interesses e uma identidade bem precisa. (p.

81).

A sobrevivência de um produto midiático depende da capacidade que a instância enunciadora tem de dialogar com seu público. O ponto de tensão se instaura a partir do contato ou do atrito entre um co-enunciador imaginado, que pode tanto ter correspondência com a imagem do destinatário, e os atores sociais, reais, que assumem a posição de leitores. Conforme o vaticínio dos autores, "se a revista não consegue encontrar os destinatários que aceitam a imagem que a revista lhes propõe deles mesmos, ela não será comprada". (fisher; verón, 1986, p. 81).

O estabelecimento de vínculo com o leitor, de fato, vai ser verificado, como lembra Verón (1989, p. 19-22), pela mensuração das vendas dos títulos, visto que os demais dados apenas quantificam as declarações dos entrevistados. Para o autor, o único indicador de que dispõe o sistema de produção é aquele que se expressa por meio da preferência, explicitada nos comportamentos de compra e, da mesma forma, de não-compra.

O posicionamento consciente do sujeito falante no texto pode ser verificado por meio das marcas deixadas no texto. Essas marcas demons-tram a intencionalidade do enunciador, por meio de seu enunciado, no tocante a seu destinatário o que, por sua vez, propicia o reconhecimento da instância enunciadora e a possível aproximação do destinatário.

Como exemplo, Fisher e Verón (1986) situam o sistema de enunciação das revistas femininas. Para os autores, o desejo de sincronizar um discurso com as expectativas do leitor que, no geral, respeita as demandas sazonais, como as férias, as festas, o branco das roupas, a cozinha de verão, a volta à escola, leva os títulos a falarem das mesmas coisas, ao mesmo tempo. A diferença é notada na maneira de dirigir o discurso à leitora pretendida. Para os autores, notam-se as seguintes categorias:

O co-enunciador é uma mulher;

Ela tem filhos;

Tudo aquilo que possa ajudá-la com a situação de volta às

aulas lhe interessa;

O enunciador conhece as preocupações de seu destinatário e

desempenha uma atividade de conselheiro. (p. 82).

A relação entre título e leitora consolida-se pela confiança mútua. A instância enunciadora, ao construir um discurso, elabora antecipadamente todo o percurso do discurso, posicionado pelas estratégias de enunciação. Como exemplo, podemos tomar uma

capa do periódico feminino Claudia, setembro de 2007 (Fig. 1). A revista direciona-se à mulher que trabalha fora, gosta de cuidar da casa e tem filho ou se preocupa com a questão. Duas chamadas de capa ilustram a atenção da revista com a questão filhos:

Mulher com filhos X mulher sem filhos – uma questão que

está pegando fogo nas empresas.

10 competências que o seu filho precisa desenvolver hoje

para ser um sucesso no futuro.

A questão sexual, que deve interessar a todas as leitoras da revista, aparece na primeira chamada, do lado direito.

Sexo depois dos 30 – Ir para a cama no primeiro encontro

ou segurar?

As artimanhas das mulheres para garantir um

compromisso.

A sexualidade é um assunto que, no geral, está presente em todas as capas de revistas especializadas por gênero. Men’s Health, publicação dirigida ao púbico masculino, na edição de Maio de 2007

(Fig. 2), traz:

Sexo explosão! 7 dicas para esta noite...

Em relação à cobertura sazonal, por estar em maio, mês de conscientização dos problemas cardíacos, apresenta-se a chamada:

Nunca tenha um ataque cardíaco!

 

Figura 1: Capa da revista Claudia, setembro de 2007.

Figura 2: Capa da revista Men's Health, maio de 2007.

 

Kerbrat-Orecchioni (1986, p. 161) afirma que "interpretar um enunciado é, simplesmente, quer se trate de conteúdo explícito ou implícito, aplicar suas diversas ‘competências’ aos vários significados inscritos na seqüência, de modo que se extraia daí seus significados". Na seqüência, a autora adverte não se tratar de reducionismo, mas de mecanismo de complexidade extrema, que sempre convoca competências heterogêneas. Para a autora, podem ser elencadas quatro competências dos sujeitos falantes, acionadas no ato da interpretação dos enunciados: competência lingüística, competência enciclopédica, competência lógica e competência retórico-pragmática.

Na perspectiva do contrato de leitura, os dispositivos de enunciação cumprem duplo papel: estabelecer vínculo com o leitor e marcar a diferença do produto em relação ao concorrente. Da parte do destinatário, a interpretação do posicionamento do enunciado é a premissa básica. Para tanto, faz-se apelo ao que se define como gramática de reconhecimento (verón, 1988, p. 23) ou competência enciclopédica. (kerbrat-orecchioni, 1986, p. 162). O título é visto como fornecedor de resposta a uma questão que diz respeito ao destinatário.

O contrato de comunicação

O contrato de comunicação prevê ações que decorrem do contato entre enunciador e destinatário, de maneira mais ou menos estável, fixando-se os papéis dos "parceiros do ato de comunicação, o sujeito que fala ou escreve e o sujeito que compreende-interpreta". (charaudeau, 1994, p. 9). Nota-se a ênfase na parceria quanto ao ato comunicacional, decorrente de estratégias concernentes a ambas as instâncias. Charaudeau afirma que "estes dados constituem ao mesmo tempo o quadro de constrangimentos discursivos que estes sujeitos devem reconhecer, sob a pena de não poder comunicar, e o espaço no qual eles podem se valer de estratégias discursivas para tentar influenciar o outro". (p. 9, grifos do autor).

A expressão contrato de comunicação é originária da lingüística. Inicialmente, ao trabalhar com a idéia de contrato, Charaudeau (1983) desenvolve o conceito de contrato de fala. Segundo ele, a criação de identidades de um produto passa pela consolidação de contratos, na modalidade de partilha de práticas e representações sociais. Para compreender a lógica contratual, é preciso que se entenda as estratégias de fala.

A noção desse contrato pressupõe que os indivíduos

participantes de um mesmo corpo de práticas sociais sejam

susceptíveis de se colocar de acordo sobre as representações

linguageiras destas práticas sociais. Acredita-se que o sujeito

comunicante poderá, sensatamente, atribuir ao outro uma

competência linguageira de reconhecimento análoga a sua. O

ato da linguagem torna-se, então, uma proposição que o EU faz

ao TU e pela qual ele espera uma contrapartida convivente.

(charaudeau, 1983, p. 50, grifos do autor).

A idéia geral de um contrato no que se refere ao processo comunicacional, seja ele contrato de comunicação ou de fala, pressupõe, por meio do quadro geral dos constrangimentos, a observação de critérios concernentes à elaboração do texto/discurso. A observação de tais regras é que pode viabilizar o encontro entre enunciador e destinatário, por meio do texto. Essa relação pode ser observada também nos estudos de cunho sociológico na comunicação, na chamada sociologia dos

emissores6. O gatekeeper, as rotinas produtivas ou o newsmaking configuram formulações teóricas que permitem entender a consolidação de modelos de produção, tendo-se em vista um quadro geral de constrangimentos, mesmo que digam respeito prioritariamente à organização sócio-econômica e à política da instância produtora.

Charaudeau (1994), embora se mantenha no âmbito da lingüística, assume como objeto de análise o discurso da mídia. Para o autor, da mesma forma que qualquer outro processo de comunicação, o midiático encontra-se pautado pelo jogo das expectativas quanto ao que é dito, ou os constrangimentos discursivos, base do contrato de comunicação, composto de três dados:

Os que definem a finalidade do ato de comunicação,

respondendo à questão: "o sujeito falante está lá para fazer o

quê e dizer o quê?", os que determinam a identidade dos

parceiros deste mesmo ato de comunicação, respondendo a

questão: "quem se comunica com quem e que papéis

linguageiros eles devem ter?", enfim os que caracterizam as

circunstâncias materiais nas quais se realiza este ato,

respondendo à questão: "em que local, com que meios, usando

que canal de transmissão?". (charaudeau, 1994, p. 09, grifos do

autor).

O contrato de comunicação assenta-se sobre uma preocupação quanto aos "comportamentos discursivos", ou seja, as modalidades do dizer, objetivando produzir um determinado efeito junto ao destinatário. "Analisar um tipo de discurso equivale, então, descrever, inicialmente, o contrato do qual ele depende". (charaudeau, 1994, p. 9).

Ao se afirmar que o processo comunicacional coloca em contato instâncias, de produção e de recepção, percebe-se a necessidade de entender cada uma delas, desde suas especificidades, com o olhar focado no nível relacional estabelecido entre ambas. No tocante aos procedimentos, cada uma circunscreve suas ações a um conjunto próprio, situado entre expectativas e constrangimentos discursivos.

Entender o processo como resultado de uma "transação", tendo por base uma relação especular, implica lançar outro olhar sobre a empreitada comunicacional, para além da visão simplista que diz respeito à preponderância do pólo emissor/enunciador. A questão passa a centrar-se num jogo entre imaginários: como uma instância imagina ou prevê a outra, que desejos o enunciador atribui ao destinatário, e este, com base nas potencialidades do veículo, o que espera do enunciador?

Os constrangimentos discursivos, segundo o contrato de comunicação, tratam de uma previsibilidade quanto aos papéis das instâncias o que, por fim, induz uma delas a se posicionar discursivamente tomando por baliza o que seria possível dizer, com base no que se acredita ser as expectativas do outro. Sobre essa relação, Charaudeau (1983), a partir de um exemplo de diálogo entre um cliente e uma garçonete, mostra o excedente do que seria esperado numa circunstância daquelas:

Victor decidiu entrar em um café para se proteger da chuva e

refletir sobre o dia, que decididamente havia começado mal.

Sentou-se a uma mesa ao fundo da sala; a garçonete

aproximou-se dele e perguntou: "você fuma" ? Ele levantou a

cabeça num tom questionador e olhou a jovem garçonete, que

estava ligeiramente inclinada, com as mãos para trás, e que o

tratava com gentileza. Victor considerou a questão insólita; ele

se perguntava sobre o que ela poderia significar. A jovem

estava a paquerálo? Não, absolutamente, que pretensão! E

eles nem se conheciam. Teria ela percebido seus dedos

amarelados pelo tabaco? Mas com que direito ela fazia essa

reflexão? Ou então, ela queria um cigarro; sim, devia ser isso.

Victor coloca então a mão no bolso para tirar seu maço, mas

ele não teve tempo de retirar sequer um cigarro, pois a

garçonete já havia colocado sobre a mesa o cinzeiro que ela

tinha atrás das costas. Victor se reprovou por ter sido tão bobo.

Evidentemente, na França não se deseja ver pontas de cigarro

nem a cinza nas xícaras de café. (charaudeau, 1983, p. 37).

Charaudeau (1983, p. 37) diz que "[o personagem] Victor constrói para si imagens de um interlocutor que não é o enunciador real do ato de linguagem, mas o enunciador que ele, intérprete, imagina". Dessa forma,

o autor ilustra os mecanismos de atração entre o produto e o leitor/interpretante e as estratégias que atuam na captação da atenção desse leitor que, pelo ato interpretativo e expectativas quanto ao que é dito, adere ao ato comunicacional.

Em relação às instâncias enunciadora e destinatária, Charaudeau (1983) propõe um desdobramento: quanto ao enunciador, o sujeito da enunciação e o sujeito da comunicação; quanto ao destinatário, o tu destinatário e o tu interpretante. O tu interpretante, segundo o autor, para o processo de interpretação, lança mão de suas experiências pessoais, "ou seja, de suas próprias práticas significantes" (p. 41). Tem-se, com isso, um esmiuçamento quanto aos papéis que, porventura, se imagine unitários e fechados.

Por meio dessa clivagem, pode-se perceber o papel do imaginário como elemento importante na constituição do outro, enunciador ou destinatário. É possível notar que o tu destinatário é um sujeito dependente do eu (enunciador), uma vez que é instituído por ele. "Ele faz parte, então, do ato de produção que é produzido pelo EU". Por outro lado, o tu interpretante é um sujeito que tem sua ação marcada por um posicionamento pessoal, "que se institui como responsável pelo ato de interpretação que ele produz". (charaudeau, 1983, p. 41).

A noção de um sujeito-agente único e poderoso atrelado à emissão é posta em xeque quando se aceita que o outro, tu, além de destinatário, também pode ser visto como interpretante, ou seja, partícipe de um princípio de ação. Se o destinatário é construído pelo enunciador, obedecendo aos constrangimentos que lhe são peculiares e daqueles concernentes a ele (destinatário), é possível localizar o papel das expectativas quanto ao enunciador, e não apenas do enunciador em relação ao destinatário. O tu interpretante é responsável pelo ato, "independentemente’ (charaudeau, 1983, p. 41), em relação ao enunciador, mas essa independência é relativa e permanece dependente quando se propõe ir além do que foi ‘dito’.

Dos constrangimentos ao contrato de comunicação

O contrato de comunicação, maneira de estreitamento dos laços entre as instâncias comunicacionais, torna-se viável por meio do conjunto de constrangimentos, o que configura uma seqüência de papéis atribuídos e reconhecíveis pelas instâncias enunciadora e destinatária.

Todo ato de linguagem está submetido a um conjunto de

constrangimentos que lhe fazem participar de um certo Gênero

discursivo e depender de um contrato de fala determinado.

Resulta, [...], que os participantes desse ato de linguagem se

encontram sob uma cena na qual eles devem assumir certos

status sócio-linguísticos, que lhes são conferidos pelo Contrato

de fala. (charaudeau, 1983, p. 93).

O quadro dos constrangimentos da informação midiática, segundo Charaudeau (1994), possibilita pensar sobre os elementos a partir dos quais se consolida o contrato. Ele fornece um instrumental que permite compreender as estratégias por meio das quais se operacionaliza a consolidação de "elos" entre as instâncias, na condição de elementos constitutivos desse discurso. O autor elenca as seguintes características discursivas, que atuam como constrangimentos: a identidade dos participantes, a finalidade e as circunstâncias.

De início, é preciso que se trate da identidade dos participantes, isto porque, na perspectiva do autor (charaudeau, 1994, p. 9), a comunicação midiática não põe indivíduos em relação, mas sim instâncias, de produção e de reconhecimento. À instância de produção (enunciadora) compete a captação do fato, segundo critérios como seleção, e sua transformação em acontecimento midiatizado. Ao passar da captação de um fato a sua transformação num produto midiatizado, a mídia assume para si um duplo papel, ao mesmo tempo "provedora de informação" e "pesquisadora de informação". (charaudeau, 1994, p. 10). Para o cumprimento desse duplo papel, a instância de produção encontra-se ‘presa’ a certas dificuldades/ constrangimentos. De ordem quantitativa, em primeiro lugar, visto que há inúmeros fatos que podem ascender à categoria de notícia. Por meio dos constrangimentos de espaço e tempo, é preciso que se realize uma seleção.

Em segundo lugar, de ordem qualitativa, referente à origem da informação. Como o jornalista não pode estar presente em todos os lugares onde os fatos acontecem, vê-se obrigado a lançar mão de fontes diversas: "agências profissionais, correspondentes, enviados especiais, informantes de todo tipo, outras mídias, etc.". (charaudeau, 1994, p. 10).

Em terceiro lugar, também de ordem qualitativa. As empresas de comunicação vivem em plena concorrência econômica, o que as obriga a se destacar das outras, tendo-se em vista o público. "Eis porque a instância provedora de informação é levada a produzir uma auto-imagem que lhe seja própria, de sorte a captar um certo grupo de leitores, ouvintes ou telespectadores que deve ser o mais amplo possível". (charaudeau, 1994, p. 10).

Definir a instância de recepção (destinatária) converte-se numa demanda mais complexa, visto que esbarra em questões como as motivações para a ação (ler, escutar, assistir), bem como na nomenclatura: leitor, ouvinte ou telespectador. Em geral, para se entender o ‘públicoalvo’ são feitos cortes de idade, gênero, classe social, "mas são apenas postulações. Os alvos, no fim das contas, são heterogêneos e instáveis". (charaudeau, 1994, p. 11).

Compreender a relação entre produção e consumo vai além da mera busca de certezas quanto à produção, envio e recebimento. Há que se considerar, isto sim, o jogo de intencionalidades concernente às instâncias de produção e reconhecimento.

Dessa forma, a instância de produção se encontra engajada em

um processo de transformação, no qual ela desempenha um

papel de mediadora, e às vezes de construtora do

acontecimento, entre o mundo exterior onde se encontra o fato

no estado bruto, e o mundo midiático, cena sobre a qual deve

aparecer o acontecimento midiatizado. (charaudeau, 1994, p.

10, grifo do autor).

A finalidade 1 — desejo da informação — diz respeito ao posicionamento da mídia no tocante ao espaço e ao tempo, tendo-se em vista que os acontecimentos são desdobramentos do espaço social e devem ser transmitidos a uma instância de recepção, possuidora da qualidade de "ator participante da vida pública", o que exige que as informações façam parte deste mesmo espaço público. (charaudeau, 1994, p. 11).

A dimensão do tempo apresenta-se à medida que a instância de produção encontra-se diante de fatos situados numa co-temporalidade enunciativa que reúne as instâncias. Este quadro temporal dá forma ao que se chama "atualidade", o que confere ao acontecimento o status de "notícia". Dessa forma, a "atualidade" é o que responde à seguinte questão: "o que se passa nesse momento? [...] A ‘atualidade’ é aquilo que define o fato midiático como um acontecimento do momento: ‘eis o que acontece hoje". (charaudeau, 1994, p. 11, grifo do autor).

Em relação ao espaço, fica a cargo da mídia relatar à instância de recepção os acontecimentos do mundo, não importando se ocorrem em lugares próximos ou distantes. O distanciamento espacial em relação ao local onde se desenrolam os fatos obriga a instância midiática a adotar meios para conhecê-los e relatá-los, como ao lançar mão das agências de informação. Ao estabelecer uma rede "global", por meio de correspondentes, busca-se apresentar o fato e, ao mesmo tempo, o testemunho de quem está lá, para transmitir "o mais rápido possível e quase simultaneamente, à instância de recepção que é disposta na posição — ilusória – de ver, de ouvir ou de ler o que se passa ao mesmo tempo em diversos pontos do mundo". (charaudeau, 1994, p. 11-12).

A finalidade 2 — desejo da captação — evoca a posição de concorrência encampada pela mídia, na busca de interessar ao maior número de consumidores de informação. Dessa forma, a instância de produção "se inscreve simultaneamente em um processo que consiste em despertar no receptor o ‘desejo’ de se informar, e de se informar ‘aqui’, ‘neste’ órgão de informação". (charaudeau, 1994, p. 12).

As circunstâncias, mais uma vez, tratam de tempo e espaço e do

canal de transmissão 7. Como constrangimento que impulsiona a organização do discurso, por meio da dimensão tempo, é necessário que se crie a idéia de "atualidade", embora sabendo que o tempo do acontecimento é diferente — e anterior — ao tempo da enunciação; diferente e anterior ao tempo do consumo. "Assim, o que define a ‘atualidade’ das mídias é ao mesmo tempo o espaço-tempo do surgimento do fato que deve poder ser percebido como contemporâneo, e o espaço-tempo da transmissão do evento". (charaudeau, 1994, p. 13).

Em relação ao tempo, importa, segundo o autor, o tratamento diferente da noção de co-temporalidade, de acordo com o suporte midiático.

O rádio, seguido da televisão, confere uma flexibilidade em relação ao fato presente, o que será distinto quanto ao jornal impresso, que se situa num distanciamento maior entre o "fato e seu processo de fabricação e distribuição". (charaudeau, 1994, p. 13).

A questão do espaço surge numa dupla movimentação. Por um lado, no que se refere ao tratamento e veiculação de um fato que pode ocorrer longe ou perto; por outro, dos questionamentos acerca da distância que se instaura entre as instâncias, de produção e de recepção. A coleta da informação pode ser resolvida segundo estratégias de captação (agência, correspondentes etc.), mas cada suporte, com base em suas especificidades, fará a apresentação por critérios e possibilidades próprios. "A imprensa e o rádio poderão multiplicar os pontos de vista e testemunhos, a televisão, beneficiando-se da força da imagem, poderá tornar mais facilmente presente e próximo um espaço distante, aumentando o efeito de ‘ubiqüidade". (charaudeau, 1994, p. 13).

Ainda no bojo desses constrangimentos, o problema do outro distanciamento, referente às instâncias de produção e de recepção, poderá ser resolvido pelos "efeitos de contato", o que pode ser viabilizado, por exemplo, no rádio, por uma palavra de interpelação; na televisão, pelo formato face-a-face do apresentador que se dirige ao espectador; bem como outras estratégias de interatividade, tais

com telefone, sondagens instantâneas e o Minitel 8, as quais "produzem um simulacro de contato, visto que o receptor jamais está na cena midiática". (charaudeau, 1994, p. 13-14, grifo do autor).

A dimensão de tempo presente, ou atualidade, como se vê, configurase como um dos principais constrangimentos da consolidação do discurso midiático. Ao abordar a dimensão circunstância – tempo, o que se percebe é a relevância do suporte midiático visto que, a depender da realidade tecnológica, são abertas possibilidades de interação com o público, o que configura modalidades discursivas distintas. A cada modalidade equivalem constrangimentos específicos, decorrentes do modo como a instância produtora se apresenta em relação ao seu público; da mesma forma, com base na realidade da instância receptora, tem-se o desdobramento de constrangimentos também. A questão daí decorrente é: como se dá a relação do indivíduo com a informação midiática disponibilizada em ambiente interativo como a Internet? Jornalismo impresso: resultado de uma tradição