Pensar o discurso no webjornalismo
4. Entre inovações tecnológicas e contratuais
Entre inovações tecnológicas e
contratuais
E onde é que se juntam
O passado, o futuro e o presente
Onde o samba é permanente
Na mangueira minha gente
Os meninos da Mangueira – Tom Jobim
Webjornalismo: das inovações tecnológicas às
inovações discursivas
A interatividade é reconhecidamente um fator determinante na configuração do Webjornalismo. Para os questionamentos atuais, opta-se por centrar o foco na hipertextualidade, dada a sua importância para a compreensão de uma narrativa jornalística específica para a Web. Como situa Días Noci (2006, p. 9), hipertextualidade e interatividade estão intimamente ligados, visto que o hipertexto apenas existe à medida que o leitor interage com os vários módulos de texto. Ao acionar os vários nós que ligam um documento hipertextual, o leito-navegador vai constituindo, enquanto navega e lê, o seu hipertexto.
Embora a noção de hipertexto tenha se popularizado com as novas possibilidades tecnológicas, tal conceito nos remete a uma teorização anterior ao universo digital. Pode-se entender o hipertexto como
a forma pela qual o texto impresso é, a princípio, transposto
para o modelo de bits. No caso específico do jornalismo, por
exemplo, essa reorganização, segundo uma lógica
informacional, abre novas perspectiva, entre elas, a ordenação
e apresentação da informação de um modo mais associativo e
menos seqüencial, colocando-se desde já como um integrante
das possibilidades de publicação e/ou publicização. (silva júnior,
2000, p. 26).
A terminologia hipertexto foi criada nos anos 60 por Theodor H. Nelson e refere-se a uma modalidade textual nova, a eletrônica.
Como ele mesmo explica: "com ‘hipertexto’, refiro-me a uma
escrita não seqüencial, a um texto que se bifurca, que permite
que o leitor eleja e leia melhor numa tela interativa. De acordo
com a noção popular, tratase de uma série de blocos de textos
conectados entre si por nexos, que formam diferentes itinerários
para o usuário". O hipertexto, [...], implica um texto composto de
fragmentos de texto [...] e os nexos eletrônicos que os
conectam entre si. (landow, 1995, p. 15, grifos do autor).
Segundo Dias (1999, p. 270), pode ser atribuída a Agostino Ramelli a idéia precursora de uma estrutura que põe em contato várias
unidades de texto. Ramelli idealizou uma "roda de leitura" (Fig. 26), que pressupunha a possibilidade de consulta seqüencial a vários livros. A engenhoca foi descrita na obra "Le diverse et artificiose machine del Capitano Agostino Ramelli", datada de 1588:
Esta é uma máquina bonita e engenhosa, muito útil e
conveniente para qualquer pessoa que tenha prazer em estudar
[...] Com esta máquina um homem pode ver e percorrer através
de um grande número de livros sem sair do lugar. Esta roda é
feita da maneira mostrada, isto é, é construída de tal forma que,
quando os livros estão em seus leitoris, nunca caem ou saem
do local em que se encontram, mesmo que a roda gire uma
volta completa. (ramelli apud dias, 1999, p. 271).
A idéia de uma escrita não-seqüencial pressupõe também uma leitura não-seqüencial, saltando de bloco a bloco de texto. Por um lado, a fragmentação está presente na organização-distribuição do material; por outro, as possibilidades de interação com referido conteúdo se dá a partir das escolhas pessoais do navegador, a partir das possibilidades propostas. Palacios (2005, p. 10) ressalta que mesmo o jornal impresso prevê uma leitura não-seqüencial, estruturada, por exemplo, por uma chamada na primeira página que conduz a um texto no interior de um determinado caderno. Da mesma forma, segundo Dias (1999, p. 276), o hipertexto resgata e transforma antigas interfaces propostas pela escrita. Quando os textos aparecem segmentados em módulos, tais como capítulos e seções, é possível o acesso seletivo e não-linear ao bloco de texto, partindo-se, por exemplo, de índices e sumários. Da mesma forma, notas de rodapé e referências bibliográficas possibilitam a conexão com outros documentos.
Figura 26: Roda de leitura de Ramelli, datada de 1588.
Quem colaborou para uma popularização demasiadamente positiva quanto às potencialidades do hipertexto no âmbito digital foi Pierre
Lévy1 (1993; 1999; 2000). O autor coloca-se diante das possibilidades abertas pelo hipertexto com a crença de que o texto eletrônico marca a passagem a uma nova civilização, sem rupturas e com pleno acesso ao conhecimento. Aqui, propõe-se uma problematização acerca do hipertexto que, ao ser situado no Webjornalismo, encontra algumas barreiras, entrando em choque com as expectativas associadas a tal conceito.
Da mesma forma que toda tecnologia, o surgimento e desenvolvimento dos meios de comunicação de massa está associado a um quadro de possibilidades que oscila entre a ideologia e a utopia. Para Ricoeur (1986, p. 379), ideologia e utopia são duas expressões do imaginário social que nos situam na história, fazendo a ligação entre nossas expectativas em relação ao futuro, as tradições herdadas e as iniciativas no presente.
As reflexões propostas por Ricoeur são importantes para que se situe o discurso social acerca da mídia, buscando-se entender criticamente a relação entre ideologia e utopia, e a capacidade criativa a partir desse contraste. Para tanto, o autor apresenta três níveis, tanto da ideologia quanto da utopia.
Num primeiro nível está o irrealizável, visto que a ideologia, na tradição marxista, é dissimulação ou distorção do real, pressupondo a produção de uma imagem inversa da realidade; à utopia compete "propor uma sociedade alternativa", igualmente distante do real (ricoeur, 1986, p. 389).
No segundo nível, a ideologia apresenta a legitimação do poder; ao passo que a utopia remete à questão do exercício do poder: "a utopia pretende ser uma escatologia realizada". (p. 389).
No terceiro nível, a ideologia tem uma função de integração, como um rito de celebração nacional, vista como uma estrutura simbólica que articula a memória social (ricoeur, 1986, p. 385); a integração também é proposta pela utopia, quando esta fala da necessidade de manter aberto o campo do possível: "a utopia é aquilo que impede que o horizonte das expectativas se funda com o campo da experiência. É o que mantém o afastamento entre a esperança e a tradição" (ricoeur, 1986, p. 391). Quando se fala de expectativa como elemento utópico, pode-se pensar também no horizonte de
expectativa tal como trabalhado por Jauss 2 (2002a, 2002b), originário de Gadamer (2003).
Para Flichy (2001, p. 14), a função de integração representa a função positiva dessas duas componentes do imaginário social. A possibilidade criativa da utopia, segundo o autor, resulta do encontro entre diferentes mundos sociais e conflui para a formação daquilo que define como sendo o objeto-valise:
De um lado, escritores ou jornalistas imaginam as novas
tecnologias e suas aplicações. De um outro lado, os inventores
propõem inúmeros usos para sua máquina para convencer
seus arrendatários de fundos e mais especificamente a
sociedade inteira acerca de seu uso social. Os atores potenciais
de um novo objeto técnico fornecem projetos e utopias que
podem dizer respeito tanto a um modo de funcionamento
técnico quanto um novo uso. (flichy, 1995, p. 226).
O tal objeto-valise representa um aglomerado de discursos, como que encerrados numa valise, servindo de entorno ao aparato tecnológico e impulsionando seu desenvolvimento. Atualmente, o que se percebe é um discurso exaustivo sobre as potencialidades da nova realidade — a internet, a vida em rede, o fim das fronteiras; mais que o encontro entre pessoas, o encontro entre culturas — o diálogo definitivo e igualitário. Sobre isso, diz Flichy (2000, p. 1):
como não se fatigar de tanto ler colunas dizendo que nós
entramos em uma nova sociedade de informação e
comunicação, que a Internet constitui uma revolução maior e
que nada será mais como antes no seio do ciberespaço?
A popularização da Internet, em especial a partir de meados dos anos 90, se deu em meio a panegíricos quanto às capacidades da nova realidade comunicacional. Uma experiência pioneira para a
Internet, a Arpanet 3 4 , é imaginada por Joseph Licklider (1960), que nos anos 60 falava da relação simbiótica entre o homem e a máquina. Tais idéias são retomadas num artigo seminal de Rheingold, publicado em 1987, que aborda a importância da rede para que se criem as "comunidades virtuais".