Pensar o discurso no webjornalismo
O hipertexto no webjornalismo
Flichy (2000) classifica o rádio e a Internet como "tecnologias de fim de século" — fins dos séculos xix e xx, respectivamente. São as mesmas expectativas que aparecem associadas a cada uma delas. "Um jornal de 1922 nota, a propósito do rádio, que ‘nenhum objeto se difundiu tão rapidamente na história da humanidade’. Atualmente, encontramos exatamente o mesmo discurso a respeito da Internet". (p. 2).
Ao abordar as expectativas relativas ao potencial da Internet enquanto ambiente propício à comunicação, algumas considerações devem ser feitas para que se estabeleça a distinção entre a viabilidade e a inviabilidade de elementos que compõem esse imaginário. O hipertexto é um destes conceitos, que já representou, e ainda representa, a expectativa de viabilizar recursos narrativos inovadores ao Webjornalismo, mas encontra resistências sob o ponto de vista operacional. Outro exemplo é o "tempo real", que também oscila entre possibilidade e impossibilidade, embora se configure enquanto importante estratégia discursiva, como será abordado na seqüência.
O hipertexto no webjornalismo
De fato, a hipertextualidade é uma característica dinamizada pelas tecnologias atuais, que permitem uma relação entre os textos, de acordo com as intenções do leitor. Essa realidade, segundo Chartier
(2001) 5, nos faz pensar em fragmentos de obras e não em sua totalidade. Para a literatura, essa é de fato uma realidade que agrega valor novo ao texto digital, que permite ao leitor compor uma narrativa com base em seus interesses. No entanto, quando o hipertexto é abordado no âmbito jornalístico, é preciso que se tenha em mente as marcas próprias desse campo.
Para Landow (1995; 1997), o hipertexto possui as seguintes características:
1. intertextualidade – O hipertexto seria, essencialmente, um
sistema intertextual, enfatizando uma intertextualidade que ficaria limitada nos textos em livros. As referências feitas a outros textos é potencializada no hipertexto através do recurso do link, que realiza as conexões entres os blocos de textos. (mielniczuck; palacios, 2001, p. 4).
2. multivocalidade – está associada à idéia de polifonia de
Bakhtin, que sustenta a possibilidade de coexistência de diversas vozes na narrativa literária. "Em termos de hipertextualidade, ele aponta para uma qualidade importante deste meio de informação: o hipertexto não permite uma única voz tirânica. Mas sim, a voz sempre é a que emana da
experiência combinada do enfoque do momento, da lexia6 que um está lendo e da narrativa em perpétua formação segundo o próprio trajeto da leitura". (landow, 1995, p. 23).
3. descentralização – Esta característica refere-se ao fato de
que, ao contrário dos textos impressos, que propõem um centro, oferecem uma ordem para a leitura (que pode ou não ser obedecida pelo leitor), o hipertexto enquanto uma malha de blocos de textos interconectados oferece a possibilidade de movimentos de descentramento e recentramento contínuos. É o leitor, através dos seus caminhos de leitura, que elege temporariamente os sucessivos centros.
4. rizoma -É um conceito desenvolvido por Deleuze e guattari, no
livro intitulado Mil Platôs. Os autores utilizam a metáfora de um tipo de vegetação aquática, que se desenvolve na superfície da água, sem tronco ou caule, totalmente ramificada. Segundo Landow (1997), o rizoma opõese à idéia de hierarquia pois, ao contrário da estrutura de uma árvore, um rizoma, em tese, pode conectar qualquer ponto a qualquer outro ponto, oferecendo muitos começos e muitos fins.
5. intratextualidade -Esta característica é citada por Landow
(1995, p. 53) e refere-se às ligações internas estabelecidas entre lexias dentro do mesmo sistema ou site. (mielniczuck; palacios, 2001, p. 4).
A idéia inicial acerca do hipertexto confere ao texto na Web uma característica de texto em constante construção, tendo um início, porém, o percurso e a conclusão estariam a critério do internauta. Segundo Pavlik (2001), além da importância do Webjornalismo de terceira geração, que repensa os produtos com base nas novas possibilidades abertas pela Web, mais importante é a
disposição para experimentar novas formas de narrativa7, tais
como a narrativa imersiva, que permite ao leitor entrar e
navegar do começo ao fim por uma matéria, ao invés de
apenas olhar para ela de forma linear, como é o caso das
tradicionais reportagens, fotos, vídeo e áudio. (p. 43).
A principal potencialidade do hipertexto no âmbito digital é possibilitar a interconexão entre discursos, segundo critérios do próprio navegador, o que caracteriza uma nova textualidade para a narrativa do fato jornalístico. Mas, ao abordar o hipertexto no campo jornalístico, algumas considerações devem ser feitas. Para tanto, a realidade do Webjornalismo será contrastada com duas características do hipertexto: intertextualidade e multivocalidade.
Quando aborda a multivocalidade, Landow (1995, p. 23) faz referência ao conceito de polifonia, presente na obra de Bakhtin (1981). A idéia de polifonia, desenvolvida por Bakhtin, tem sua origem no romance de Dostoievski. Para o desenvolvimento da idéia de polifonia, Bakhtin usa como exemplo o romance de Dostoievski, pois considera que o autor o utiliza de modo mais perfeito. Para Bakhtin (1981), de acordo com a variação discursiva, à fala do autor podem ser adicionadas as palavras do outro, interlocutor, conferindo à fala inicial um tom de renovação. O ato de selecionar os elementos que fazem parte do enunciado, seguramente é definido segundo critérios intencionais.
As palavras do outro, introduzidas na nossa fala, são revestidas
inevitavelmente de algo novo, da nossa compreensão e da
nossa avaliação, isto é, tornam-se bivocais [...] O nosso
discurso da vida prática está cheio de palavras de outros. Com
algumas delas fundimos inteiramente a nossa voz, esquecendo-
nos de quem são; com outras, reforçamos as nossas próprias
palavras, aceitando aquelas como autorizadas para nós; por
último, revestimos terceiras das nossas próprias intenções, que
são estranhas e hostis a elas. (p. 181)
Na obra de Dostoievski, há uma recorrência à repetição de palavras atribuídas ao narrador, que estabelece diálogo com seu interlocutor, como numa obra epistolar. Para Bakhtin (1981, p. 180), "a repetição das palavras se deve ao empenho de reforçar-lhes a aceitabilidade ou dar-lhes um novo matiz tendo em vista a possível reação do interlocutor". Dessa forma, o autor prevê a reação de um destinatário presumido.
O interlocutor presumido faz que o autor articule seu discurso com base no discurso social que circunda a parte interlocutora.
É como se no discurso estivesse encravada a réplica do outro,
que diga-se de passagem, inexiste de fato mas cuja ação
provoca uma brusca reestruturação acentual e sintática do
discurso. A réplica do outro inexiste mas projeta sua sombra e
deixa vestígios sobre o discurso, e essa sombra e esse vestígio
são reais. (bakhtin, 1981, p. 181).
O outro se faz presente na fala do autor quando ele articula seu discurso e, imediatamente a partir dele, pressupondo a réplica de seu interlocutor, adiciona a seu discurso a fala que resulta dessa interlocução presumida. E como tréplica, dá seu retorno. Dessa forma, não há um discurso, mas uma pluralidade de enunciações, o que, em detrimento de uma narrativa monofônica, define o surgimento da polifonia discursiva. Mas, a polifonia como resultado da entrada das vozes de outrem na fala do narrador nem sempre é harmoniosa. "Continua sendo um discurso entre os discursos. Em linhas gerais, a narração se desenvolve entre dois limites: entre o discurso secamente informativo, protocolar, de modo algum
representativo, e o discurso do herói" 8. (bakhtin, 1981, p. 221). Ao discurso assentado numa pretensa linearidade entre um enunciador e um destinatário, sobrepõe-se outra realidade que, de forma nenhuma, é análoga a uma discursividade linear. A polifonia é marcada pela junção de contradições numa mesma fala. "O objeto é precisamente a passagem do tema por muitas e diferentes vozes, a polifonia de princípio e, por assim dizer, irrevogável, e a dissonância do tema". (bakhtin, 1981, p. 235, grifos do autor).
Para Bakhtin, a obra de Dostoiévski é polifônica por incorporar a voz do outro, para o qual o discurso não apenas se dirige, mas um outro que se torna ele também parte constituinte do discurso. Essa relação dialógica pode ser entendida a partir da materialização discursiva, quando o enunciado expressa o surgimento de um autor, criador de um dado enunciado.
Neste sentido todo enunciado tem uma espécie de autor, que
no próprio enunciado escutamos como o seu criador. Podemos
não saber absolutamente nada sobre o autor real, como ele
existe fora do enunciado. As formas dessa autoria real podem
ser muito diversas. Uma obra qualquer pode ser produto de um
trabalho de equipe, pode ser interpretado como trabalho
hereditário de várias gerações, etc., e apesar de tudo, sentimos
nela uma vontade criativa única, uma posição determinada
diante da qual se pode reagir dialogicamente. A reação
dialógica personifica toda a enunciação à qual ela reage.
(bakhtin,1981, p. 159).
O discurso polifônico representa uma forma de organização discursiva, que passa a ser visto como uma possibilidade de articulação de distintas vozes num mesmo discurso, considerando-se que vários enunciadores se fazem presentes nesse espaço entendido como dialógico. Dessa forma, toda escolha dos ingredientes de uma mensagem é marcada por essa capacidade de selecionar. Até mesmo a palavra, como unidade discursiva, é selecionada e empregada dentro de um contexto de comunicação dialógica. "A palavra, ele [narrador] a recebe da voz de outro e repleta da voz de outro. No contexto dele, a palavra deriva de outro contexto, é impregnada de interpretações de outros". (bakhtin, 1981, p. 176).
Para Bakhtin (1981, p. 178), em toda a obra de Dostoievski é de substancial importância o discurso do outro para a composição estilística do autor. É a presença de múltiplas vozes num texto, a multivocalidade ou polifonia, a principal característica desse autor. Ao buscar um paralelo entre essa tradição, da literatura, e o texto específico do jornalismo na Web, devem surgir algumas questões. No jornalismo, independentemente do suporte, como se dá a entrada do outro na narrativa do fato jornalístico? À voz de quem narra, no caso, o jornalista, alguma outra é adicionada?
O hipertexto Webjornalístico: entre promessas e restrições
Tratar o hipertexto como uma narrativa que se abre a múltiplas vozes, que colaboram com sua construção textual, é conferir a essa modalidade um papel inovador que, inclusive, marca um afastamento em relação à tradição do jornalismo impresso. Na condição de texto longo e aberto à construção por parte do leitor, fundamentado na navegação, o hipertexto é, sem dúvida, ao mesmo tempo um incentivo e um desafio quando se pensa nas possibilidades que abertas a partir dessa constatação.
Para Mielniczuck (2003, p. 100), "ocasionalmente, ocorre uma certa confusão no conceito de multivocalidade devido à facilidade de elaboração de textos colaborativos no meio digital, podendo ser interpretado também como a possibilidade de co-autoria na redação dos textos". Logo, a pluralidade de vozes se faz presente no texto à medida que mais autores colaboram com a construção da base desse texto.
Quando se fala da polifonia, é preciso reparar que a inclusão do outro em um discurso é feita segundo intencionalidades no tocante ao plano discursivo do autor. "O autor inclui no seu plano o discurso do outro no sentido de suas próprias intenções". (bakhtin, 1981, p. 167). A polifonia é, então, a possibilidade de entrada do outro na fala do autor, de forma que esses discursos se harmonizem, de acordo com os objetivos do autor, visto ser ele quem define as marcas da enunciação.
Um elemento que faz pensar a pluralidade de vozes no hipertexto é o link, que possibilita a tessitura de um texto por dentro dos textos. Como lembram Ferreira e Gouazé (2002, p. 108), "as páginas Web são aquelas de um livro escampado da face plana do papel, sem capa nem ordem, cada página não estando seguida por uma outra, mas por uma pluralidade de outras páginas [...] Não há início, nem fim, nem introdução, nem conclusão".
O link funciona no hipertexto como a possibilidade de passagem a um outro nível no campo da informação apresentada. Ele seria a representação de uma outra voz que poderia se somar à do narrador. Dessa forma, o link representa ainda a outra característica do hipertexto, a intertextualidade, que é a possibilidade de colaboração entre narrativas distintas.
O hipertexto utilizado no ambiente das redes telemáticas vai
permitir em uma mesma tela a coexistência de textos, sons e
imagens, tendo como elemento inovador a possibilidade de
interconexão quase instantânea através de links, não só entre
partes de um mesmo texto, mas entre textos fisicamente
dispersos, localizados em diferentes suportes e arquivos
integrantes da teia de informação constituída pela Web.
(mielniczuck; palacios, 2001, p. 1).
Mais uma vez vale a questão: além da voz do narrador, quais são as vozes autorizadas a participar da narrativa jornalística na Web? Embora se esteja vivenciando uma fase do Webjornalismo que tem sua base no uso das potencialidades deste ambiente, ainda é incipiente o uso das possibilidades do hipertexto para uma redefinição do campo jornalístico.
A produção de conteúdos noticiosos no jornalismo segue algumas diretrizes, as chamadas rotinas produtivas, que configuram especificidades desse campo, passando, inclusive, a determinar o modus operandi dessa prática profissional. Aquilo que se chama notícia, na verdade, é o resultado de uma filtragem em relação ao que acontece no cotidiano e, com base nos chamados valores notícia que, em seu conjunto, definem o que será noticiado, ocupar espaço na mídia.
Embora a idéia do hipertexto apresente a possibilidade de ruptura com o espaço restrito de uma página e, por meio do link, possibilite a conexão com outros espaços da Web, quando essa questão é analisada empiricamente, o que se vê é a manutenção de uma lógica de concorrência entre os veículos, o que rompe com a idéia de ligação entre textos dispersos. Na maioria dos casos, o link permite a navegação por dentro de um mesmo produto, o que seria a intratextualidade. (landow, 1995, p. 53).
A ruptura das barreiras entre os produtos, no caso os sites jornalísticos, fica limitada, visto não ser possível ao Webjornal romper de fato a "moldura" de seu espaço, agregando a seu discurso outras narrativas, que venham acrescentar sentido ao que está sendo proposto. Em estudo sobre o Último Segundo
( 9 www.ultimosegundo.com.br ), Mielniczuck e palacios (2001, p. 11) evidenciam encontrar uma especificidade de navegação a partir daquele site.
A Zona D [divisão do site proposta pelos autores para fins
analíticos], caracteriza-se pelo uso de links intertextuais,
apontado para fora do jornal, seja para o portal do iG, para
outros sites ou para publicidade. Ela está subdividida em várias
regiões a depender do nível de navegação e da editoria
escolhida. Essa zona vai apresentar links de serviços, como
informações sobre trânsito, cotação do dólar, cotação de bolsa
de valores, loterias, etc. Também vai oferecer links para sites
externos relacionados com o material jornalístico. Por exemplo,
na editoria Bem-estar, há links apontando para sites de revistas
científicas, sociedades médicas, conselhos, entre outras
opções.
A experiência do Último Segundo evidencia essa realidade no tocante ao hipertexto no Webjornal. Nota-se que há um cuidado com aquilo que é indicado; a informação é de qualidade, científica, mas não se origina do concorrente. Sob esse ponto de vista, por meio dos links, o site oferece fontes de informação ‘assépticas’, não remetendo a outra empresa concorrente.
Na internet, na forma de escrever (ou disponibilizar) os textos, o link representa a possibilidade de conexão entre discursos distintos. Contudo, no caso específico do discurso Webjornalístico, o que ainda se vê é a manutenção de um padrão de concorrência que inviabiliza a exploração da capacidade de agregar vozes outras à discursividade, o que seria a multivocalidade; da mesma forma, a intertextualidade encontra-se ainda retraída em decorrência de critérios definidos com base na concorrência entre campos discursivos específicos, representantes daquelas vozes às vezes discordantes. Nesse caso, o discurso Webjornalístico continua monovocal, monofônico.
Com a proposta de trazer as reflexões específicas do campo jornalístico para a Web, Dimitrova (2003) realiza uma pesquisa sobre a cobertura online da execução do terrorista Timothy McVeigh, presente nos 15 principais websites norte-americanos. O envolvimento em relação ao fato se deu em função do atentado promovido por McVeigh, em Oklahoma, 19 de abril de 1995, e a comoção envolvendo as famílias das vítimas.
Por meio da análise de conteúdo, foram examinados comparativamente os sites, considerando-se questões como a extensão de sua cobertura, pela quantificação e intensidade das histórias, bem como o número e o tipo dos links que acompanhavam as histórias. Em relação aos links, havia especial atenção ao fato de eles serem "internos" ou "externos", ou seja, oferecerem ligação a outros tópicos no próprio site ou conduzirem para outros produtos jornalísticos da Web.
Para a autora (dimitrova, 2003, p. 02), "a decisão sobre quais links incluir na narrativa da Web e quais não incluir, constitui uma decisão adicional de gatekeeping levada a cabo pelos editores da Web". Posto isso, a autora busca mensurar como funciona o papel de gatekeeper dos Webjornais durante a cobertura de um evento público de tanto interesse. Como lembra a autora, "no campo da comunicação de massas, todo aquele que decide se uma
informação é ou não apresentada ao público é um 10 gatekeeper ".
(dimitrova, 2003, p. 2).
A execução do terrorista aconteceu no dia 11 de junho de 2001. Nesse dia, a pesquisa foi realizada nos Webjornais selecionados, seguindo um ordenamento: iniciava-se na homepage e, a partir daí, cada link era seguido por até três níveis. O material localizado era impresso e salvo para posterior consulta, tendo-se em vista as constantes atualizações. Na amostra, foram contabilizados 3.352 links.
Uma das questões da pesquisa dizia respeito à freqüência em que os Webjornais ofereciam links aos leitores para acessar outros Websites. "Os resultados mostram que a maioria dos hiperlinks (94.8%) leva o leitor para o material relacionado localizado no próprio site do jornal. O destino do hiperlink era um outro Website em apenas 137 (4.1%) casos". Os links externos, em sua maioria, conduziam a endereços genéricos, ".com" (64.9%). Os demais conduziam a destinos ".org" (29.9%) e ".gov" (3.6%). (dimitrova, 2003, p. 07).
Para Dimitrova (2003), a escolha de que links incluir ou não é um exercício da função de gatekeeper do Webjornal. O argumento padrão contrário ao fornecimento de links externos diz respeito ao possível fato de que o leitor não irá voltar ao Website por onde começou a leitura. "Contudo, com a atual tecnologia da Web é possível abrir links em janelas tipo pop-up ou em molduras internas na página corrente, isso expandindo a experiência do leitor sem necessariamente perdê-lo". (dimitrova, 2003, p. 09).
O Estadao.com oferece um sistema de navegação intratextual, amparado pela base de dados. Por exemplo, a matéria "onu inicia investigação sobre violência policial no Brasil", de 02 de novembro
de 2007 (Fig. 27), que, no corpo do texto, traz os seguintes links: "Arcebispo do Rio critica política de segurança de Cabral", "Alemão: perícia vê execuções e acusa polícia" e a proposta de interação: "Participe do fórum e dê a sua opinião", sendo todo o material do próprio Estadao.com. Ao final, por meio das Tags, são oferecidas todas as notícias relacionadas à matéria principal, a partir das palavras-chave: "violência" (147 registros), "Rio de Janeiro" (90 registros), "onu" (244 registros), "Segurança Pública" (22 registros).
Salta aos olhos a baixa incidência de registros relativos ao Rio de Janeiro, 90 apenas. A organização da base de dados prevê o uso de palavras-chave, possibilitando a associação apenas de conteúdos cujas temáticas se cruzem. Uma busca no site do Estadao.com mostra 22.519 registros para "Rio de Janeiro", distribuídos entre suas editorias. Da mesma forma, as 244 ocorrências para "onu" apresentam conteúdo associado à violência que, numa estrutura concêntrica, pode abordar a temática no Brasil ou qualquer outro país.
Figura 27: Página da Web da matéria "onu inicia investigação sobre
violência policial no Brasil", do Estadao.com.
A função gatekeeper do Webjornal está organizada segundo uma lógica de concorrência. Embora já seja possível apresentar o hipertexto de forma a oferecer o acesso a outros conteúdos, por meio dos links, sem que o leitor deixe o espaço do Website da empresa, o que ainda se vê é uma insegurança, visto que o objetivo final é manter o leitor navegando pelo próprio endereço, o que gera
page views11, bem como possibilita contabilizar o tempo de permanência e o número de cliques de cada usuário no Website. Esses números, aferidos por instituições como o ivc, Instituto
Verificador de Circulação (http://www.ivc.org.br)12 e ibope//NetRatings (http://www.ibope.com.br), mostram a audiência dos produtos, o que será vendido aos anunciantes.
Com isso, tem-se uma repetição, na Internet, dos ditames quanto à capacidade de cada produto se articular com seu público, o que permite uma organização do mercado publicitário. Critérios como "tempo de permanência" e "page views" passam a acompanhar toda a movimentação do internauta em sua relação com o produto, servindo de base para o posicionamento de sites no mercado, definindo a destinação das verbas publicitárias.
É possível inferir que a atual organização do jornalismo na Web ainda não fez surgir um jornalismo novo, aplicado a esse outro ambiente e de acordo com as possibilidades oferecidas pela rede. O que se entende por jornalismo ainda vale para o Webjornalismo, visto que a organização textual continua submetida a um quadro geral de constrangimentos econômicos.
Em seu cerne, o conceito do hipertexto traz a proposta de uma textualidade capaz de romper as barreiras impostas por limitações como a falta de espaço. Quando aplicado à Web, poderia oferecer um percurso por meio do qual o leitor pudesse agregar novas informações, a partir de um itinerário estabelecido segundo zonas de interesse pertinentes a esse leitor. O que se tem visto, na verdade, é a manutenção de um modelo "monovocal/monofônico" que, em vez de proporcionar uma real intertextualidade, opera com a intratextualidade, assegurando ao mesmo tempo que o leitor não saia do quadrado proposto e não vá gerar page views no espaço do concorrente.
Tempo de permanência e page view passam a ser critérios que impedem, no Webjornalismo, a interação entre blocos de texto distintos, originários de outros domínios, visto haver uma busca de manter o leitor naquele espaço. Esse critério, contudo, mostra-se falho, sendo que o mais importante é a consolidação de um pacto, ou contrato, com o leitor, para que, de fato, ele possa sentir-se vinculado ao material e retornar.
Passada a primeira década do início da proliferação dos Webjornais, a questão central diz respeito a questionamentos acerca da consolidação de identidades dos produtos da Web, de forma semelhante com o ocorrido no jornalismo impresso. Os estudos da Análise do Discurso têm apontado a importância da enunciação para que se agreguem marcas capazes de acentuar a distinção entre produtos "aparentemente" semelhantes.
Blogosfera - liberação do pólo de emissão?
As indagações da presente pesquisa restringem-se ao jornalismo praticado na Internet como negócio, que busca criar estratégias de posicionamento de mercado em relação aos concorrentes. Contudo, para problematizar os discursos sobre as potencialidades do Webjornalismo, a interação preconiza a possibilidade de participação do leitor no processo de construção da notícia. O blog e a ação dos blogueiros fazem pensar na materialização da idéia de uma comunicação participativa.
Para Lemos (2005, p. 2), a realidade das redes trouxe uma importante contribuição para a modificação do processo comunicacional, antes rigidamente centrado nos papéis do emissor e receptor. Segundo ele, o que atualmente se vê é:
a liberação do pólo da emissão. As diversas manifestações
socioculturais contemporâneas mostram que o que está em
jogo com o excesso e a circulação virótica de informação nada
mais é do que a emergência de vozes e discursos,
anteriormente reprimidos pela edição da informação pelos mass
media. Aqui a máxima é "tem de tudo na internet", "pode tudo
na internet".
É importante situar os blogs, uma vez que, segundo a lógica da liberação do pólo de emissão tem-se, por meio da blogosfera, a possibilidade de que cada um seja partícipe ativo do processo comunicacional. No entanto, cabe aí uma questão: qual a validade
real das milhares de páginas pessoais na rede?13 A maioria dos blogs funciona como uma espécie de diário íntimo, de "escrita do eu" (schittine, 2004), algo muito distinto da escrita jornalística e que possa despertar o interesse dos leitores.
Se os Webjornais não se interlinkam, como se dá essa questão no tocante aos blogs? A grande expectativa era que os blogs pessoais pudessem, por meio da interlinkagem, compor a blogosfera, uma alternativa à tradicional mediasfera. Numa análise preliminar, o
"Blog do Noblat"14 possibilita a ruptura das molduras dos Webjornais, visto ser possível a navegação hipertextual, possibilitando uma narrativa intertextual.
A partir de posts no "Blog do Noblat", é possível linkar com distintos jornais, como nos exemplos do dia 02 de novembro de 2007: "O apagão é de competência", que leva ao editorial do Jornal do Brasil; "deu no Estadão: Zeca do PT é suspeito de deixar dívidas de R$ 1,1 bi", remetendo ao Estadão; "deu na Folha de S.Paulo: Chinaglia diz que não autorizou proposta de reeleição", linkando com a Folha.
Dessa forma, o "Blog do Noblat" representa uma alternativa aos sistemas fechados, sendo que, a partir de sua página, é possível acessar outros jornais. Mas é interessante sinalizar que enquanto blogueiro ele não se articula com a blogosfera, ou seja, não colabora para a linkagem entre blogs. Sobre tal experiência, vale ainda ressaltar que durante a Copa do Mundo de 2006, o "Blog do
Noblat" usou uma estratégia de marketing, um bolão15.
De maneira constante, tem-se observado o crescimento do volume informacional, o que envolve sites pessoais, de organizações e blogs. Essa é, sem dúvida, uma questão importante e deve ser considerada, mas daí devem resultar algumas considerações quanto ao valor informacional real de tais "relatos". Qual a chance que um blogueiro tem de ser lido pela manhã? É o tipo de narrativa capaz de oferecer ao cidadão um panorama sobre a realidade? Aos olhos do leitor, é confiável? A informação, nesse momento, deve ser avaliada de forma quantitativa e qualitativa, pois o simples aumento da emissão pode ser apenas um primeiro passo.
O que a hipótese de liberação do pólo de emissão vislumbra é a possibilidade de participação popular no processo comunicacional, sem barreiras. A partir da tradição do jornalismo impresso, são criados mecanismos para a seleção do que é notícia, como o gatekeeper. Os critérios de seleção, que atuam segundo a lógica comercial, regida pela noção de concorrência, podem ser vistos como barreiras para questões de interesse social. A grande expectativa se dá com as possibilidades de uma narrativa mais aberta na Web, com tendências à polifonia. Contudo, os vários blogs adicionados aos Webjornais podem ser vistos como tentativa de agregar outros espaços de opinião aos espaços de um jornal. Estadao.com oferece apenas blogs de jornalistas. Elpais.com, além da oferta de blogs de profissionais, permite aos usuários a criação de páginas pessoais. Lemonde. fr também oferece blogs com a opinião do site e convida seus usuários a criar seus blogs. No dia 30 de outubro de 2006, o site francês divulgou "A carta dos blogs e as
regras de conduta" (Fig. 28), explicitando a ação de mediadores, prevendo inclusive a suspensão de blogs com opiniões e conteúdos consideradas impróprios.
De forma exaltada, enfatiza-se o potencial democratizador/dialógico dos meios de comunicação de massa e, da mesma forma, se exalta hoje a mídia interativa, lamentando-se, contudo, que não tenham sido plenamente democratizados. Resulta daí uma questão óbvia: como os meios de comunicação poderiam ser democráticos em sociedades nas quais ainda não se chegou a uma real democracia? Ou, como os meios de comunicação poderiam ser mais democráticos do que as sociedades que os abrigam?
Figura 28: Carta dos blogs e as regras de conduta do lemonde.fr.
Pasqualli (2005, p. 37-8) propõe a distinção necessária entre os conceitos de acesso e participação, geralmente empregados como se fossem sinônimos:
Acesso: exercício da capacidade de receber (decodificar, vir a
saber, descobrir, investigar, demandar, recuperar, ou colocar no
domínio público) mensagens de qualquer natureza;
Participação: exercício da capacidade de produzir e transmitir
(gerar, codificar, fornecer um veículo para disseminar, publicar
ou transmitir) mensagens de qualquer natureza.
Tal distinção é fundamental para que se estabeleçam as diferenças reais entre acesso e participação. Ter acesso a um conteúdo significa simplesmente o ato de receber uma mensagem, ao passo que participação requer do indivíduo a capacidade de interagir com o produto. Se o indivíduo deve estar preparado para tal empreendimento, da mesma forma, a mensagem deve ser elaborada pressupondo-se a participação efetiva do leitor.