Pensar o discurso no webjornalismo

Edson Fernando Dalmonte · Capítulo 8 de 26

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Pensar o discurso no webjornalismo

Os dispositivos midiáticos – modos de mostrar, modos de olhar

Encontramo-nos diante de um impasse vivido pela comunicação de massa. No mundo contemporâneo, as tecnologias possibilitam a difusão de conteúdos de forma distinta, podendo moldar um mesmo material para públicos diferentes, pensando-se em diferentes modalidades de leitura, de acordo com cada perfil, base da comunicação segmentada. O texto, como matéria significante, permanece. A mudança desafiadora fica por conta da instância emissora, para a qual "a diferença pode decorrer de uma decisão do editor, que, em uma era de complementaridade, de compatibilidade ou de concorrência dos suportes, pode visar com isso diferentes públicos e diversas leituras". (chartier, 1999a, p. 138).

Como ressalta Chartier (1999b, p. 100-101),

a revolução do texto eletrônico será ela também uma revolução

da leitura. Ler sobre uma tela não é ler um códex. Se abre

possibilidades novas e imensas, a representação eletrônica dos

textos modifica totalmente a sua condição: ela substitui a

materialidade do livro pela imaterialidade de textos sem lugar

específicos; às relações de contigüidade estabelecidas no

objeto impresso ela opõe a livre composição de fragmentos

indefinidamente manipuláveis; à captura imediata da totalidade

da obra, tornada visível pelo objeto que a contém, ela faz

suceder a navegação de longo curso entre arquipélagos

textuais sem margens nem limites. Essas mutações comandam,

inevitavelmente, imperativamente, novas maneiras de ler, novas

relações com a escrita, novas técnicas intelectuais.

 

Os dispositivos midiáticos – modos de mostrar,

modos de olhar Muito se tem falado sobre dispositivos midiáticos. No geral, há duas linhas específicas que abordam essa temática. Por um lado, os dispositivos são definidos como concepções de ordem técnica. É

assim com o termo 15 device (dispositivo em inglês), que figura nos dicionários de informática. Da mesma forma, os dicionários de português, em seus verbetes, definem dispositivo como aquilo que contém ordem, prescrição, disposição. No geral, o termo dispositivo refere-se a mecanismos dispostos e ordenados para a obtenção de um determinado fim.

Numa outra perspectiva, refere-se a um conjunto de crenças, como abordado nos estudos de cunho sociológico. É o caso de Certeau, que propõe: "o cotidiano se inventa com mil maneiras de caça não autorizada". (1994, p. 38, grifo do autor). Para o autor, não há uma determinação, como é o caso da técnica, capaz de orientar plenamente o sujeito. As ações são vistas como orientadas por táticas e estratégias que, em seu conjunto, podem ser compreendidas como pequenas transgressões em relação a qualquer prescrição.

Originariamente, a idéia de um dispositivo advém do pensamento do

inglês Jeremy Bentham, filósofo utilitarista 16 do século xviii, que apresenta o plano de construção de uma casa de inspeção penitenciária. A casa de inspeção, ou panóptico, é apresentada como inovação no sistema penitenciário, por inculcar no prisioneiro a idéia de vigilância permanente. A construção, segundo Bentham, deve obedecer a uma fórmula:

O edifício é circular. Os apartamentos dos prisioneiros ocupam

a circunferência. Você pode chamá-los, se quiser, de celas.

Essas celas são separadas entre si e os prisioneiros, dessa

forma, impedidos de qualquer comunicação entre eles [...] O

apartamento do inspetor ocupa o centro. (2000, p. 18).

A proposta central do panóptico é a criação da idéia de visibilidade total do inspetor, que ocupa uma posição central na estrutura. Daí a sensação de que alguém sempre olha, desde o ponto central, criando, no possível observado, a sensação de constante esquadrinhamento.

Sua essência consiste, pois, na centralidade da situação do inspetor, combinada com os dispositivos mais bem conhecidos e eficazes para ver sem ser visto [...] quanto maior for a probabilidade de que uma determinada pessoa, em um determinado momento, esteja realmente sob inspeção, mais forte será a persuasão – mais intenso, se assim posso dizer, o sentimento que ele tem de estar sendo inspecionado. (bentham, 2000, p. 24-25, grifo nosso).

A idéia do panóptico é retomada por Foucault em Vigiar e punir (2003), obra que trata da história das penalidades, desde aquelas aplicadas ao corpo do prisioneiro, longe dos olhos da população, até a instauração de um novo modelo, assentado sobre a visibilidade. Como diz o autor, "pena secreta, pena perdida pela metade". (p. 92).

O objetivo de uma nova instituição penitenciária, baseada no panóptico, é a socialização do ato público quanto às punições, visto que o efeito mais importante do panóptico é "induzir no detento um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder". (foucault, 2003, p. 166).

O poder não atua apenas sobre o prisioneiro, mas perpassa toda a sociedade, na qual é introduzida a noção de vigilância e controle, o que é ressaltado por Bentham: "Regozijo-me com o fato de que há, agora, pouca dúvida de que o plano possui as vantagens fundamentais que venho atribuindo a ele: quero dizer, a aparente onipresença do inspetor". (2000, p. 26, grifo nosso).

O panóptico cria um dispositivo de vigilância capaz de incutir no indivíduo um comportamento. "O panóptico funciona como uma espécie de laboratório de poder. Graças a seus mecanismos de observação, ganha em eficácia e em capacidade de penetração no comportamento dos homens". (foucault, 2003, p. 169).

Enquanto elemento concreto, na verdade, o panóptico opera com base na idéia de vigilância decorrente de sua estrutura, ocasionada pelo dispositivo, representado pela visibilidade, que assegura ao observador a capacidade de ver e fragiliza o observado, que pode ser devassado a qualquer momento. O dispositivo, portanto, decorre de uma estrutura física, mas opera no campo das idéias, buscando-se um consenso em benefício da maioria, o que é próprio da filosofia utilitarista.

Na comunicação midiática, o dispositivo se faz presente na mesma perspectiva. Inicialmente atrelado aos conceitos de ordem técnica, Charaudeau questiona: "em que meio se inscreve o ato comunicacional, quais lugares físicos ocupam os participantes, que canal de comunicação é utilizado?". (1997, p. 70).

Quanto à relação entre a materialidade e a imaterialidade discursivas, Verón (1985, p. 211) destaca os dispositivos de ‘apelo’, quais sejam: os títulos, subtítulos, chapéus etc. Dessa forma, o autor referencia os aparatos físicos, como os títulos, mas os define como ‘dispositivos de apelo’, ou seja, eles não marcam apenas

limitadores gráficos 17, mas se constituem como elementos capazes de operacionalizar um conjunto de sentimentos/ sensações quanto ao que indicam. É por meio dessas chamadas que o leitor irá se sentir instigado a mergulhar nos textos propostos.

O dispositivo atua, dessa forma, como elemento capaz de despertar o interesse, motivar o processo comunicacional e, em especial, a situação de troca, tendo por referência o estabelecimento de lugares. Charaudeau (2006, p. 52) afirma que "não se misturam, portanto, situações e estratégias de comunicação, sendo toda situação de comunicação estruturada segundo um dispositivo que assegura um lugar determinado aos parceiros de troca".

Ao abordar a esfera política, Charaudeau (2006, p. 53) diz "que as significações do discurso político são fabricadas e mesmo refabricadas, simultaneamente, pelo dispositivo da situação de comunicação e por seus atores". Dessa forma, o autor enfatiza o dispositivo situacional, ou seja, não se trata apenas de um elemento de ordem técnica, mas é o configurador do processo comunicacional.

Para Charaudeau (2006, p. 53), "o dispositivo é, antes de tudo, de ordem conceitual". Na linha que pontua a característica conceitual do dispositivo, o autor descreve o que se poderia apontar como as quatro características do dispositivo, a saber:

1. A situação na qual se desenvolvem as trocas linguageiras;

2. Os lugares ocupados pelos parceiros da troca;

3. A natureza de sua identidade;

4. As relações que se instauram entre eles em função de certa

finalidade.

Em seu conjunto, essas quatro características indicam possíveis categorias de análise, para que se entenda a organização e o posicionamento discursivos: 1) como decorrentes de uma situação de fala, 2) que atuam motivando a ocupação de lugares pelos parceiros da troca, 3) o que define a natureza das identidades e 4) a finalidade como motivadora das relações entre as partes enunciadora e destinatária.

[...] o emprego do dispositivo depende também das condições

materiais em que se desenvolve a troca linguageira. Uma vez

que estas podem variar de uma situação de comunicação a

outra, estabelece-se uma ralação de encaixamento entre o

macrodispositivo conceitual que estrutura cada situação de

troca social e os microdispositivos materiais que a especificam

enquanto variantes. (charaudeau, 2006, p. 53-54).

Como exemplo, o autor (charaudeau, 2006, p. 54) cita o que denomina macrodispositivo conceitual da informação, e os microdispositivos, que correspondem à televisão, ao rádio e à imprensa escrita. No interior destes, existem outros microdispositivos, que são os gêneros. A relação macro-microdispositivos faz pensar num escalonamento, que vai da comunicação, compreendida em sentido amplo, como sistema de troca entre partes envolvidas pelo interesse, aos vários canais por meio dos quais a comunicação é disponibilizada. Por fim, os

gêneros,18 microdispositivos que oferecem ao destinatário um sentido de orientação: a notícia que pode ser apresentada segundo diferentes modalidades – reportagem, documentário, debate etc.

Na tradição do modo de produção do jornalismo, em especial em sua organização discursiva, é possível depreender da técnica uma forma específica de apelo ao sentido. Como lembra Mouillaud (2002, p. 29), "o discurso do jornal não está solto no espaço; está envolvido no que chamaria de ‘dispositivo’ que, por sua vez, não é uma simples entidade técnica, estranha ao sentido".

De maneira mais pontual, pode-se afirmar que o dispositivo faz parte do processo comunicacional a partir do momento em que o leitor, antes de interagir com o conteúdo, estabelece um contato ‘idealizado’ com o meio, tomando por referência as possibilidades de ordem técnica. Segundo Mouillaud (2000, p. 30), "o dispositivo prepara para o sentido", e oferece como exemplo as obras do artista Christo, que embalava monumentos em lona. Para Mouillaud, o invólucro é uma estratégia do dispositivo, pois o envelope mobiliza os sentidos em relação ao seu conteúdo.

Para o autor (p. 33), os dispositivos podem ser descritos como matrizes, mais amplos que o suporte, configurando-se numa estrutura apriorística. É neste sentido que ele afirma que o dispositivo existe antes do texto e estabelece imposições no tocante a sua duração e extensão. De forma relevante, ressalta ainda que, não obstante a antecipação do dispositivo, o texto não é um elemento passivo.

Nessa mesma linha de uma estrutura que antecede o conteúdo, Fausto Neto (2006, p. 96) questiona as novas modalidades da organização discursiva do jornalismo, tomando por referência os operadores de produção de sentido, segundo as inovações presentes nos dispositivos atuais de noticiabilidade. Como ressalta,

o jornal, nessa perspectiva, é agente e um lugar de operações

de produção de sentidos e é justamente por causa das ações

dos seus dispositivos que a noticiabilidade vem se

transformando, deixando de ser o que para alguns é apenas um

processo linear que envolve produtor e receptores, ou ainda

uma transação de falas entre fontes e jornalistas, circunstâncias

em que os jornalistas estariam apenas a serviço da missão de

revelação e de representação de discursos que circulam pela

sociedade. Pelo contrário, a noticiabilidade é cada vez mais

associada e permeada por processos de fabricação que

envolvem operações dos dispositivos industriaisorganizacionais

e operações simbólicas.

Para Fausto Neto, o que se observa é um processo de explicitação de novos modos enunciativos e de vinculação com o leitor. A instância enunciadora já não oferece apenas o discurso, mas também "o próprio relato das operações enunciativas que desenvolve para fabricar as realidades por ele apontadas" (p. 96). É como se o discurso do jornal estivesse passando por uma reorganização, assumindo outra modalidade de dizer; o discurso jornalístico não é mais apenas o relator de um fato, mas há também que se relatar, dar-se a entender, mostrar seus meandros. Observa-se, dessa forma, uma reorganização dos lugares do enunciado e do enunciatário.

O primeiro [enunciado] já não se apaga tanto, na medida em que narra a sua protagonização no processo de construção das realidades. O segundo — o leitor — é inserido de outra forma, pois já não é somente alguém a quem o discurso se endereça, mas que é convidado a conhecer de uma outra forma os princípios que organizam a oferta do próprio discurso. (fausto neto, 2006, p. 97).

A base do dispositivo, segundo Deleuze, está nos jogos de luz, que podem fazer aparecer ou desaparecer, tornar visível ou invisível. Do foco em relação ao objeto, é possível chegar à enunciação.

Cada dispositivo tem seu regime de luz, a maneira em que esta

cai, se esvai, se difunde ao distribuir o visível e o invisível, ao

fazer nascer ou desaparecer o objeto que não existe sem ela.

Não é apenas pintura, mas arquitetura também: tal é o

‘dispositivo prisão’ como máquina ótica para ver sem ser visto.

Se há uma historicidade dos dispositivos, ela é a dos regimes

de luz; mas é também a dos regimes de enunciação. (deleuze,

1990).

De acordo com essa lógica, é possível observar um outro arranjo no tocante ao discurso jornalístico. Fausto Neto (2006) relata que se tem observado um trabalho peculiar, que é o de oferecer ao leitor as

condições de como a narrativa se constrói 19. Dessa forma, o jornalismo deixa de apenas relatar os fatos ou organizar a realidade, conforme determinadas disposições, para explicitar a tessitura da realidade. Para o autor, "não está mais em questão o poder do jornalismo relativo à questão do dizer e do fazer saber, mas o deslocamento do dispositivo jornalístico para enunciar as próprias condições da fabricação da notícia, em suma, da própria noticiabilidade". (p. 98, grifos do autor).

O dispositivo midiático não é apenas uma estrutura enunciativa, tampouco é somente o enunciado em si. É a própria explicitação da notícia e de seus entornos, o que compreende os lugares de fala priorizados pela instância de produção, como sugerido por Bakhtin

(1981, p. 181) no conceito de polifonia20, caracterizado pela intencionalidade na seleção dos elementos que compõem o enunciado.

O processo de enunciação não é estático na estrutura midiática, mas é solapado pelas inovações tecnológicas, que disponibilizam outras possibilidades a esse fazer. Numa ação em que se observa a convergência colaborativa entre instâncias midiáticas, como é o

caso de jornal impresso que remete ao portal 21, o leitor pode

encontrar elementos paratextuais22 que complementam aquela notícia. Dessa forma, é disponibilizado ao leitor o fato jornalístico e o processo de feitura da notícia.

Não são oferecidas apenas as vozes polifônicas que constituem a narrativa, mas elas podem ser oferecidas personificadas. Não é apenas uma voz agregada a um discurso, mas um personagem por completo, como na perspectiva do novo jornalismo. Essa outra modalidade de exposição midiática potencializa o aproveitamento do material quase que em seu estado bruto, que é exibido como

making off 23 ou material de apoio. Em geral, a exibição para além do simples relato funciona como discurso auto-referente (luhmann, 2005), que celebra positivamente as potencialidades do veículo em questão.

É essa imaterialidade do dispositivo que interessa, de fato, aos atuais estudos em comunicação. "Os dispositivos não são apenas aparelhos tecnológicos de natureza material. O dispositivo não é o suporte inerte do enunciado, mas um local onde o enunciado toma forma" (mouillaud, 2002, p. 85). É preciso que se caracterize esse novo lugar no qual se possibilita uma outra enunciação, que faz interagir ainda mais diretamente as instâncias enunciadora e destinatária. Esse novo posicionamento discursivo deve ser entendido ainda como resultante das inovações tecnológicas, que abrem outras possibilidades de formatação e disponibilização do material informativo.

O atrito entre as possibilidades e as idéias

Se, do lado da instância enunciadora, é possível reorganizar o processo enunciativo, do lado co-enunciador, as expectativas enfeixadas produzem novas demandas. É nesse sentido que o dispositivo pode ser pensado nos processos comunicacionais via Web.

Os dispositivos modernos, apoiados pelas tecnologias da

informação e da comunicação, funcionam, sobretudo, como

ambientes produtores de feedback imediato em relação à ação

dos usuários. A partir desse ponto de vista, eles são

qualificados como ambientes abertos, adaptáveis e inteligentes.

(Peeters; Charlier, 1999, p. 17).

Para os autores supracitados, os dispositivos interpelam os usuários, propondo-lhes uma situação à qual não se pode ser indiferente. Ao incentivar a tomada de iniciativa, valorizam-se certos comportamentos; há o encorajamento à expressão das diferenças individuais. "Espera-se que o usuário se aproprie dos recursos colocados a sua disposição para construir um projeto pessoal". (peeters; charlier, 1999, p. 21). Sem sombra de dúvida, a liberdade oferecida às diferenças individuais pela Internet funcionam como uma bandeira. Tem-se, dessa forma, uma nova expectativa quanto à organização do processo comunicacional, que permite ao indivíduo

participar de forma mais criativa dos fluxos informacionais24.

Esse processo, que parece sinalizar uma situação de ruptura com "caminhos" pré-estabelecidos, é revelador de uma outra visão acerca dos dispositivos midiáticos, que encontram em Foucault (2003) e Certeau (1994) um ponto de atrito, necessário para que o conceito de dispositivo saia de uma visão estruturalista e transite para uma noção de mundo mais flexível. Pensar os dispositivos midiáticos segundo Foucault, inevitavelmente, conduz ao determinismo estruturalista do dualismo vigilância-punição. A mídia pode personificar o sistema panóptico, capaz de condicionar o indivíduo e sua visão de mundo (machado, 1991). Desse dispositivo, depreendem-se características normativas e gerenciais; a tecnologia e a mídia são disciplinares.

A ruptura com essa visão é proposta por Certeau (1994), que propõe um olhar sobre as transgressões às normas, ou seja, lança o desafio de se pensar os usos sociais, em detrimento das estruturas. "[...] assim, os dispositivos nos enviam aos objetos, à técnica, mas igualmente aos sujeitos que experimentam, utilizam, desviam, se apropriam e jogam com os dispositivos, ou são aprisionados por eles, constrangidos ou fascinados". (hert, 1999, p. 94).

O fascínio exercido pela Internet é encarnado pelo dispositivo técnico, que propicia a circulação de textos, mas também o dispositivo da escrita e produção de sentido. Para Hert (1999), essa relação de fascínio/ilusão pode ser comparada àquela exercida pelo cinema, cujo sistema de projeção, numa sala escura, produz um efeito de ruptura com o mundo.

Pensar os usos motivados pelo fascínio da "grande rede" é situar al-guns conceitos, como realidade virtual, jornalismo em tempo real, o fim das barreiras propiciado pelo hipertexto, dentre outros. A expectativa de participar dessa revolução pode expor um dos principais motivadores à adesão à rede por parte dos leitores. Tem-se aí um pensamento pragmático, como aquele tangenciado pela arte da bricolagem. Para Verhaegen, "onde a bricolagem busca uma performance técnica, o dispositivo tenta sobretudo desenvolver uma performance semiótica e cognitiva". (1999, p. 113).

Ao abordar aspectos cognitivos, referentes ao universo do destinatário, a pedra de toque concerne aos modos como se estabelece o contato com essa instância ou à simulação desse contato. No questionamento de Weissberg (1999), a mídia, em seu constante desenvolvimento, leva a pensar sobre as atuais formas para entrar na rotina das pessoas. "Com quais ingredientes são fabricadas as novas fórmulas de crença que estão imergindo no silo destas mídias e como a noção de dispositivo pode ser mobilizada para articular os aspectos técnicos e culturais desta questão?". (p. 169).

O caminho aberto pelas novas tecnologias, em especial as possibilidades proporcionadas pela Web, oferecem uma gama de expectativas referentes à relação do indivíduo com a informação. É o que Weissberg chama de "experimentação direta da informação", na condição de uma via aberta pelos processos interativos, que asseguram a presença à distância. Para ele, vivemos uma exigência por imagens encarnadas, vivas: "maneiras de experimentar o atual — e mesmo o passado — e não mais para reproduzir simples traços indeformáveis". (1999, p. 170).

É nesse jogo de luz, que propicia tanto o ocultamento quanto o relevo de pontos específicos, que o dispositivo desempenha seu papel de instigar para o novo, abre o campo dos possíveis. Torna aparentemente possível algumas utopias, na linha daquilo que Foucault (1984) chama de heterotopia ou a utopia realizada.

Se é fato que está em marcha um novo processo enunciativo, graças a um outro modo de construção enunciativa, o que se espera é entender tal organização, que engendra transformações basilares no sistema de organização e troca discursivas. O processo de enunciação, como lembra Dubois (1970, p. 100), é o surgimento do autor no texto, que se dá a mostrar pelas marcas ou pistas discursivas. Daí decorre também o tipo de relação que o enunciador estabelece com o co-enunciador.

O ponto da relação enunciador-destinatário acontece no texto e pelo texto. Dessa forma, admitindo-se outras possibilidades de configuração e disponibilização das matérias significantes, os produtos midiáticos são reveladores de estratégias discursivas específicas. É exatamente aí que reside o dispositivo, ou o conjunto dos artifícios que, com o tempo, dá forma às estratégias discursivas na elaboração de suas matérias significantes.

Essas estratégias discursivas, como no âmbito jornalístico, vêm sofrendo alterações ao longo do tempo, impulsionadas pelo estabelecimento de sempre renovadas formas de apresentar a notícia. (mouillaud; tétu, 1989). Entender o discurso do jornal é entender uma máquina discursiva em constante evolução que, por meio de suas formas, possibilita outras construções de sentido.

A enunciação, como resultado da ação de um ser ou instância enunciadora, mostra-se como princípio e resultado desse empreendimento. É esse o tema de Verón (1983) num artigo paradigmático: "Ele está lá, eu o vejo, ele me fala" (p. 523), no qual o autor faz uma análise sobre o dispositivo de enunciação de um texto específico do audiovisual, o telejornal. A questão essencial, para o autor, é a especificidade das propriedades discursivas decorrentes do suporte significante, cuja base passa a ser distinta, comparando-se o discurso da informação no telejornal, impresso e rádio.

O dispositivo de enunciação do telejornal dispõe de elementos específicos como a figura do apresentador/âncora, elemento indispensável para a instauração do contato com o destinatário. Ele estabelece um regime do real, tendo na dinâmica do olhar a sua essência principal. Para Verón, "esta condição, fundamental, de sua enunciação, não é reproduzível em uma transcrição escrita de suas palavras, Jean-Marie Cavada [apresentador] encara o olho vazio da câmera, o que faz com que eu, telespectador, me sinta olhado: ele está lá, eu o vejo, ele me fala". (1983, p. 527).

O discurso midiático, a depender da realidade material de seu suporte, pode estabelecer tipos específicos de contato com o co-enunciador.

No caso do telejornal, a apresentação da matéria significante passa necessariamente pelo âncora que, do estúdio, simula um contato direto com o telespectador, tratado como que individualmente. É esse um dos dispositivos de enunciação dos gêneros televisivos e, especialmente, do telejornal, e sua base está na simulação do contato.

Pensar as modalidades da comunicação na Internet e, especialmente, do Webjornalismo, é um esforço no intuito de compreender as novas modalidades das estratégias discursivas capazes de ser implementadas na Web. O caminho aberto pelas possibilidades tecnológicas, por seu turno, viabilizam outros posicionamentos discursivos, ou seja, novas formas de simulação de contato.

Em seu início, a rede mundial de computadores foi vista como a grande revolução que propiciaria a conexão mundial, o surgimento

da aldeia global.25 É essa a grande revolução digital. Mas, a grande revolução não está nem nos computadores, nem nas redes, mas nos cérebros conectados a outros cérebros (rossetto, 1996). O potencial está na ação criativa da Internet, como ambiente que possibilita, por exemplo, a interação entre as instâncias de produção e de reconhecimento.

Pensar as modalidades da comunicação na Internet e, especialmente, do Webjornalismo, é um esforço no intuito de compreender as novas modalidades das estratégias discursivas capazes de ser implementadas na Web. O caminho aberto pelas possibilidades tecnológicas, por seu turno, viabilizam outros posicionamentos discursivos, ou seja, novas formas de simulação de contato.

O contato, ou a aproximação entre as instâncias de produção e de reconhecimento, é marcado pela realidade tecnológica que dá sustentação ao processo de produção, circulação (disponibilização) e acesso aos conteúdos. Diante da realidade aberta pelos recursos da Web, dentre eles a interação e possibilidade de apresentação de notícias em curtos intervalos de tempo, chega-se a um outro patamar da simulação do contato, visto que o enunciador vai além do eixo olho-no-olho.

Ao possibilitar, por exemplo, que o leitor comente material de um site Webjornalístico, cria-se a ilusão, ou idéia, de que já não existem barreiras entre enunciador e destinatário. Tem-se, dessa forma, a simulação ou projeção do contato, possibilitado pelos novos dispositivos de enunciação. Aquela participação é real, pois texto jornalístico e comentário do leitor ocupam um mesmo espaço, mas há que se considerar ainda que se trata de uma participação "controlada" pela estrutura do site.

Os referidos dispositivos de enunciação configuram-se como uma forma de organização (reorganização) dos processos concernentes às instâncias de produção e de reconhecimento, oscilando entre mostrar e olhar. Os recursos decorrentes do ambiente Web propiciam a criação de novas estratégias de estabelecimento de contato, permitindo que o enunciador passe a mostrar de forma distinta, tomando-se por base as possibilidades de organização do discurso. Por sua vez, o co-enunciador passa a olhar para a instância enunciadora e sua produção com base nas expectativas suscitadas pelos recursos interativos.