Pensar o discurso no webjornalismo

Edson Fernando Dalmonte · Capítulo 24 de 26

Páginas do PDF

Pensar o discurso no webjornalismo

Das conclusões e perspectivas

 

A presente pesquisa teve como objetivo entender quais são os constrangimentos que caracterizam a configuração discursiva do Webjornalismo. Dentre os principais elementos está a simulação do contato da instância de produção com a de reconhecimento. Para entender as estratégias concernentes a tal organização discursiva, foram utilizados elementos de propostas metodológicas de diferentes áreas para explicitar as bases a partir das quais está organizado o posicionamento discursivo do Webjornalismo, visto como decorrente dos constrangimentos específicos do fazer jornalístico na Internet.

Desde as análises exploratórias começaram a ser encontrados elementos reveladores das estratégias empregadas pelos Webjornais para a aproximação com seu público leitor. As relações entre as instâncias enunciadora e destinatária vêm sendo delineadas tomando-se por base as características do Webjornalismo. Cumpre lembrar que tais características, na maioria das vezes, despontam como constrangimentos, que atuam decisivamente na organização dos discursos e nos posicionamentos de enunciação.

O discurso Webjornalístico, marcado pela fluidez hipertextual, não se mostra como resultante unicamente de uma instância enunciadora que pretende estabelecer espaços de diálogo com seus leitores. Os espaços abertos, por exemplo, pelas capacidades de interação, mostram-se reveladores de novas modalidades de organização do texto jornalístico, cada vez mais marcado pelos meandros paratextuais. Dessa forma, encontramse as três modalidades de interação:

1. Interação entre as instâncias de produção e de

reconhecimento – partindo-se da tradição do jornalismo impresso, no qual há espaço para manifestação das opiniões

de leitores, como em seções de cartas; ou no rádio, com participação ao vivo; no Webjornalismo alguns sites possibilitam o contato entre leitores e produtores, a partir do envio de mensagens por e-mail, chats, ou blogs. É evidente que um produto com grande número de leitores as chances reais de contato entre um jornalista e seu público é reduzida. Contudo, a possibilidade de contato é mais próxima, em detrimento de outros produtos. Da mesma forma, os Webjornais realizam pesquisas constantes de opinião com seus leitores, seja para reposicionar, seja para aprimorar seus produtos.

2. Interação entre a instância de recepção e produto –

tomando-se a realidade da fluidez da produção, os leitores podem estabelecer novas formas de contato com os produtos Webjornalísticos, seja na forma de acesso, seja no tipo de relação. Interação quanto ao acesso: há uma completa modificação pois, contrariamente à lógica da difusão, com divulgação em horários marcados, na Web a produção encontra-se disponível permanentemente. Interação quanto ao tipo de relação: no geral, o leitor pode sair de uma posição "contemplativa" da notícia e passar a interagir com ela, postando comentários. A partir desta relação, a notícia vai sendo atualizada pelos comentários do leitor.

3. Interação no interior na instância de recepção – a interação

entre leitores pode acontecer nos espaços disponibilizados pelo próprio site ou em outros ambientes, criados pelos leitores. Interação nos ambientes do site: quando os Webjornais possibilitam a criação de blogs ou fóruns; mesmo com a presença de um moderador, a palavra é franqueada aos leitores. É possível, a partir de então, observar níveis de interação entre leitores, que passam a emitir opiniões sobre tópicos associados a um Webjornal, seja um conteúdo específico ou até mesmo o posicionamento adotado no tocante a uma temática. Interação em outros ambientes: num sistema de coabitação, a Web propicia a existência simultânea tanto de um Webjornal, quanto de produtos com temáticas a ele relacionados. A partir do conceito de "bem de experiência", a criação de "comunidades de experiência" colabora tanto para a

difusão e fortalecimento de um produto quanto para seu aperfeiçoamento, visto que a opinião dos leitores/usuários pode ser captada a partir de um espaço de livre manifestação de opiniões. Esse fato pode ser exemplificado pelo site de

relacionamentos Orkut (Fig. 40), que extrapolando as molduras de um produto, apresenta a comunidade "Eu leio a Folha de S. Paulo", contando atualmente com 2.548 membros1. Em sua descrição, traz: "Para os leitores do jornal Folha de S. Paulo. Debates, idéias, críticas, crônicas. Dê a sua opinião sobre tudo o que acontece no Brasil e no Mundo. Participe de nossas enquetes!".

 

Figura 40: Comunidade de leitores da Folha de S. Paulo, da rede de

relacionamentos Orkut.

Em seu conjunto, a movimentação gerada a partir dos níveis de interação permite a organização de hipertextos que, na perspectiva para-textual, faz emergir uma narrativa centrada nas intenções do receptor. Enquanto potencialidade, essa realidade/possibilidade faz pensar numa ação do leitor no processo de construção da notícia. Embora os blocos de texto sejam de responsabilidade da instância enunciadora, a escolha dos caminhos fica a critério do internauta. Seguindo-se a proposta da narrativa aristotélica, que apresenta início, meio e fim, independentemente da ordem em que esses elementos surjam, na Web, com o auxílio das bases de dados, o leitor pode definir até onde irá retroceder na busca das causas de dados, o leitor pode definir até onde irá retroceder na busca das causas de um fato, por exemplo, que tenham sido anteriormente publicados.

Percebe-se um reordenamento no que diz respeito às definições de notícia, ou os critérios de noticiabilidade. A partir das categorias tradicionais, observa-se um predomínio da novidade, mais precisamente, do atual. A tradicional disputa entre os jornais pela busca do "furo", que demonstra a capacidade de um produto sair na frente dos concorrentes e oferecer algo novo a seus leitores, na Web encontra-se ainda mais acirrada. O que pode assegurar o interesse do leitor num site é a capacidade de atualização em curtos espaços de tempo. A idéia de notícia em tempo real, na verdade, é operacionalizada como notícia em fluxo contínuo, sendo esta uma importante mudança em relação à mídia tradicional.

O fluxo contínuo de notícias posiciona o acontecimento mais recente acima de um fato anteriormente anunciado. A tradicional hierarquização das notícias com base nos "valores notícia" sofre modificações, pois, mesmo que por alguns instantes, o último acontecimento, independentemente de sua relevância, ocupa o topo da lista das notícias. A temporalidade passa a importante categoria na definição de notícias, o que implementa mudanças no cenário jornalístico.

Em detrimento da concepção de novidade, é o atual um importante valor trabalhado pelo Webjornalismo. Por atualidade, entende-se aquilo que ainda está acontecendo e que, num fluxo contínuo, não cessa, pois um mesmo fato pode receber novos relatos, situando seus desdobramentos em curtos intervalos. A sedimentação do processo de construção das notícias funda-se sobre princípios como a apuração, o que pressupõe um distanciamento mínimo entre o fato e a estruturação de seu relato. O desejo de produzir com base na celeridade tem conduzido a um novo formato de notícia, mais breve, reveladora de acontecimentos que, por vezes, respondem apenas a algumas questões do lead: o que aconteceu, onde e quem está envolvido.

A depender da relevância do assunto, ele pode retornar como matéria aprofundada, abordando a temática segundo os cânones jornalísticos. A partir de tais constatações, surgem questões quanto à relação texto-leitor que, obviamente, situam-se além dos objetivos desta pesquisa. As tecnologias têm permitido criar novos artifícios narrativos que possibilitam "simular" o tempo real, ou seja, narrador, fato narrado e leitor dividindo uma mesma temporalidade. Há que se lançar um olhar criterioso sobre tal questão, pois se parte da estrutura do jornalismo, especificamente do Webjornalismo, está organizada com base no "instantaneísmo", é possível que tal realidade exerça ação sobre o papel do jornalismo no cotidiano.

O espaço de um Webjornal pode abrigar tanto matérias "tradicionais", desenvolvidas com profundidade, quanto galerias com plantões de notícias. A repercussão da última atualização evidencia a capacidade de um site articular a temporalidade única, unindo acontecimento, relato e leitor. O registro da última atualização desponta como chancela de um espaço que propõe estratégias que vinculam o leitor a um produto em atualização constante. Em seus dispositivos de enunciação, a proposta discursiva prevê uma realidade contratual com base na promessa de fazer coincidir as temporalidades, para tanto, basta ao leitor aderir ao processo. A disposição temporal de apresentação dos produtos transita de jornada para instante. A idéia de jornada, do francês journée, base para o conceito de jornal, refere-se ao relato de um dia, condensado e apresentado como temporalidade única. No bojo desse conceito está o tempo para que o relato seja elaborado, ouvindo-se especialistas, envolvidos etc. Quando a concepção de representar o instante desponta no Webjornalismo, chegase a uma modalidade na qual a dimensão temporal de "preparo" do relato inexiste. O fato é divulgado à medida que vai acontecendo. O jornalista passa a "instantaneísta", ou coletor e divulgador de fatos.

Ainda é cedo para se falar da primazia do instante no relato jornalístico, mas há que se considerar seu impacto no sistema de organização dos relatos jornalísticos, desde as potencialidades das novas mídias, que possibilitam segmentar o tempo e inserir novos dados a qualquer momento. Enquanto promessa, tal perspectiva assume importante papel na simulação do contato entre a instância enunciadora e a destinatária. O Webjornal se coloca como interlocutor capaz de apresentar aquilo que se passa no mundo no momento exato em que um fato acontece. Se, no jornalismo impresso, a marca temporal resume-se ao dia da publicação que, por convenção, apresenta as notícias ocorridas no dia anterior, na Web já não interessa o dia, e sim a hora. Tanto melhor quanto mais perto do horário de acesso do leitor, o que possibilita criar a sensação de uma temporalidade única. Dessa forma, o Webjornal coloca-se como instância capaz de articular uma temporalidade que não é mais a do relato, pressupondo um deslocamento entre o fato e sua difusão, mas uma metatemporalidade, pois o tempo do relato e o relato são a mesma coisa. A partir dessa posição, os dispositivos de enunciação convidam o leitor a se informar naquele espaço, cuja temporalidade é apresentada como uma só: o tempo do acontecimento, o tempo do relato ali apresentado, tudo coincidindo com o tempo do leitor.

O relato jornalístico articula a temporalidade trina, ou seja, o triplo presente: o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes e o presente das coisas futuras. Na perspectiva do discurso, a articulação desta noção de tempo agrega densidade à narrativa jornalística, pois o fato não é só presente, mas invoca o passado e se projeta no futuro. O Webjornalismo, a partir de sua estrutura técnica, possibilita uma maior integração das modalidades do presente, pois, com o auxílio das bases de dados, o leitor pode, a qualquer instante, ter acesso ao que já se publicou sobre o tópico em questão. Da mesma forma, o leitor pode buscar informações complementares em outros sites. Contudo, para as empresas, é fundamental a permanência do leitor, o que torna necessário reforçar as estratégias de proposta e manutenção de contratos comunicacionais. A proposta é que, num mesmo espaço, seja possível acessar dados anteriormente publicados (presente-passado) e encontrar a análise dos fatos, bem como a projeção dos possíveis desdobramentos (presente-futuro). Percebe-se, desde essa constatação, que a ação do presente disponibilizado num site (presente-presente) funciona como uma estrutura de apelo que chama o leitor a permanecer e a partir das "fragilidades" dos relatos "instantaneístas". A ele é franqueada a possibilidade tanto de buscar outras informações sobre o ponto em questão quanto aguardar mais informações, seja no plantão de notícias, seja no formato de uma matéria que aborde o tema em profundidade.

Sob o ponto de vista dos posicionamentos discursivos, o importante é a proposta feita ao leitor: num mesmo espaço, a partir de uma breve informação, ele pode ter acesso ao conjunto de dados já publicados acerca daquela temática, que funciona como um menu, cabendo a ele fazer as escolhas. Outrossim, a notícia que irrompe na página de um Webjornal é, na verdade, um convite ao leitor para que aguarde alguns instantes, pois a ele serão oferecidos os desdobramentos. O plantão de notícias é um acessório de uma estrutura de enunciação que coloca a notícia de última hora como realização tanto da promessa de atualização contínua quanto a proposta de outra promessa no tocante à capacidade de um site apresentar o que se passa no mundo, sem interrupções. O leitor é convidado a se informar num "lugar" em constante mutação, no qual a temporalidade desponta como importante fator na hierarquização dos fatos. A notícia não é apenas aquilo que é relevante, mas também o que acaba de acontecer.

Quando um fato é apresentado de forma ainda prematura, sem conclusões ou possíveis desdobramentos, na verdade o que está sendo apresentado é uma estrutura narrativa capaz de acompanhar os acontecimentos a partir de seu surgimento. A atualização contínua é a realização de uma promessa não apenas pelas notícias que despontam no plantão, mas também pela apresentação da estrutura por meio da qual o site se habilita a mostrar o que se passa no mundo, em tempo real. Em última instância, a base de sua enunciação é a capacidade de manter-se atualizado.

Ainda no âmbito das estratégias, a abertura de espaços para a participação dos leitores não pode ser vista apenas como o emprego de uma potencialidade da Web. Sob o ponto de vista dos estratagemas discursivos, a experimentação de troca de fluxos preconiza que, além do modelo tradicional, partindo da instância enunciadora para a destinatária, a instância de reconhecimento pode também contribuir com a produção. O modelo de jornalismo participativo, ou cidadão, quando prevê a entrada do leitor no sistema de produção, busca mostrar suas capacidades de ampliar seu discurso sobre o mundo. O outro, ao entrar no circuito, ao agregar suas marcas discursivas, amplia e potencializa o discurso. O Webjornal passa a se mostrar não mais apenas como instância capaz de mostrar um discurso sobre a realidade, mas de dar voz para que aqueles que estão implicados numa ação reportem o que está sendo vivenciado. O indivíduo não entra no relato apenas como fonte empregada por um repórter; ele mesmo narra, a partir de suas impressões.

O uso dessa potencialidade permite ao Webjornalismo dinamizar outros elementos constituintes do efeito de real. A concepção de que o discurso jornalístico representa o real é ampliada, pois se cria a idéia de que aquele discurso é o real, relatado com características testemunhais. Todo leitor é um colaborador em potencial, que a qualquer instante pode contribuir na construção da notícia. No contexto paratextual, a possibilidade de participação do leitor desponta como importante elemento que faz parte dos dispositivos de enunciação do Webjornalismo. A palavra não é simplesmente aberta ao leitor, mas o fato de ele ter a chance de manifestar seja sua opinião, seja relatar o que acontece de relevante, passa a constituinte do próprio discurso da mídia. Enquanto discurso autoreferente, ao ressaltar a abertura para as contribuições dos leitores, são ressaltadas as potencialidades que um site tem de mostrar a realidade, a partir de testemunhos, impressões, opiniões etc.

Os constrangimentos específicos de outras mídias, como a falta de espaço, na Web passam por mudanças. Em função das limitações, por exemplo, no geral usa-se apenas uma foto. Quando o material é disponibilizado na rede, podem ser usadas galerias de imagens, reforçando a ancoragem do fato ao real. Não apenas as opiniões são multiplicadas, mas também os enquadramentos da realidade. Esses elementos contribuem para que o Webjornalismo amplie as modalidades de construção dos efeitos de real, pois há uma maior explicitação dos pontos de contato entre a narrativa jornalística e a realidade retratada.

A ampliação das formas de aproximação entre o real e sua representação permite que o discurso jornalístico crie novas formas de inserção do cotidiano em seus relatos e, com isso, ao estender o sentido de realidade, aproxime-se ainda mais do universo de seus leitores. Pela idéia do movimento da atualização constante, o Webjornalismo, enquanto plataforma informativa, instaura um sentimento de que ele não apenas articula um discurso sobre a realidade, mas que a narrativa ali presente e a realidade são uma coisa só. Ao aderir ao processo comunicacional proposto por aquela instância enunciadora, o indivíduo tem a chance de saber o que se passa no mundo a partir de vários enfoques, coabitando num mesmo espaço. Quando o cidadão dá o seu testemunho sobre o que acontece e vários enquadramentos são apresentados, a sensação de maior aproximação ao real é expandida.

O conjunto dessas ações pode ser visto com fazendo parte das estratégias de simulação de contato, aqui visto como base para a consolidação de um posicionamento discursivo que permite o estreitamento dos vínculos entre as instâncias de produção e de reconhecimento. O acesso ao real possibilitado pelas articulações entre a tecnologia e posicionamentos discursivos permite que o Webjornalismo estabeleça, ou simule, um nível de contato com a instância destinatária capaz de criar a sensação de contato direto. A idéia de interação, por exemplo, permite que o produto jornalístico seja direcionado para o indivíduo que, ao optar por um formato personalizado, se vê tratado de forma particularizada. Tal ação preconiza um nível de envolvimento entre as instâncias partindo-se do princípio de ação nos dois extremos. O contato não depende mais apenas de um pólo, que determina o nível do "encontro". O enunciador envia conteúdos personalizados, confere as opções explicitadas pelo leitor. Da mesma forma, o nome do leitor/assinante também compõe a tela do Webjornal, pois, a partir do acesso, ele também passa a fazer parte do produto.

Num outro extremo, o leitor também atua para o desempenho do "contato". Ao declarar suas opções quanto à temática e ao formato das notícias e indicar se o material pode ser encaminhado para o e-mail ou celular, por exemplo, está sendo declarado que ele quer manter contato. A instância de produção convida ao contato, via processos de interação; a instância de reconhecimento, ao aceitar a proposta e aderir, envia seus dados, define suas escolhas. De sua parte, a produção explicita suas "intenções", estabelece seu lugar de fala; o leitor, da mesma forma, evidencia seus "objetivos", áreas de interesse etc. Em detrimento do modelo da comunicação de massa, as instâncias de comunicação têm uma maior chance de delinear melhor o perfil mutuamente. O contato pode ser simulado a partir de lugares distintos, ocupados pelas instâncias de produção e de reconhecimento.

Se a noção de contato sempre esteve associada a uma ação empreendida pela instância de produção — a produção olha para a recepção —, as novas modalidades permitem que o lado do reconhecimento também se posicione, saindo de uma condição de receptor, ou daquele para o qual se olha, para assumir um lugar na interlocução. Ele também tem a chance de lançar o olhar para a produção. O contato, ainda que proposto pela produção, apenas se realiza com a participação da instância de reconhecimento. Além do produto, tem papel fundamental o local de disponibilização, pois é nele que se encontram o enunciador e o destinatário. A partir do produto e do local, as instâncias simulam o contato.

Esses elementos são fundamentais para pensar as novas modalidades de proposta de posicionamentos discursivos. A partir da realidade das novas mídias, as possibilidades abertas pelo recurso da interação põem em contato as duas instâncias que se mostram, ou melhor, se dão a conhecer. A inovação, de fato, é observada desde que o local tradicionalmente associado ao fim do processo comunicacional, ou o local da recepção, passa a ser visto como espaço de manifestações de interesses. As intenções, nessa perspectiva, não dizem respeito apenas aos níveis de leitura, como algumas correntes focadas nos estudos de recepção pressupõem, mas na manifestação de interesses que se reflete na organização do sistema de produção e em seus produtos.

Tem-se observado um reordenamento quanto aos papéis tradicionais dos atores do processo comunicacional. A partir dos lugares da produção e do reconhecimento, novos dispositivos de enunciação têm despontado, reflexo tanto das potencialidades tecnológicas quanto do desenvolvimento de estratégias discursivas que fazem emergir uma nova crença quanto à figura do destinatário: participante. Se, na concepção tradicional, o leitor é também chamado de enunciatário, este outro, o participante, não pactua apenas para o bom funcionamento do empreendimento comunicacional, mas é parte integrante do mesmo. Tais desdobramentos permitem inferir que novos papéis despontam e convivem com antigos padrões. Como num processo de hibridização, o indivíduo pode tanto fazer parte de um processo de comunicação massiva, a exemplo da televisão, como atuar segundo os modelos interativos propostos pelas novas mídias. É este, seguramente, um desafio conceitual e pragmático presente no campo comunicacional contemporâneo. Por fim, cumpre ressaltar que o fato de as propostas contratuais ainda estarem numa fase embrionária deve-se ao curto período de tempo de implantação do Webjornalismo, a partir de meados dos anos 1990. Pôde-se observar que tem havido um desejo de estabelecimento de práticas comunicacionais condizentes com este outro ambiente, o que se reflete em posicionamentos discursivos baseados na comunicação participativa, conferindo um novo status enunciativo, por conseguinte, às instâncias de produção e de reconhecimento.

Ainda no tocante ao posicionamento do Webjornalismo, vários outros elementos podem ser destacados, como a navegabilidade e a usabilidade. Tais aspectos também dizem respeito à exteriorização de estratégias que objetivam estabelecer níveis de contato com o leitor/navegador e a viabilização da interação com o produto. Contudo, o foco da presente pesquisa esteve nas estratégias discursivas empregadas para que o jornalismo praticado na Internet evidencie seu posicionamento discursivo. Na prática, as pesquisas realizadas em torno do tema, a partir de vários enfoques, permitem que se avance no entendimento de particularidades de um fenômeno ainda novo e em constante modificação.