Pensar o discurso no webjornalismo
3. Webjornalismo e o fazer-refazer jornalístico
Webjornalismo e o fazer-refazer
jornalístico
Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei
Gilberto Gil - Tempo rei
Webjornalismo: as fases de implantação e a
renovação do fazer jornalístico
Quando o assunto em questão é a chamada comunicação de massa, linguagens e formatos, audiência, efeitos, esbarra-se numa tradição de estudos já consolidada, que data dos inícios século xx. Para aquele momento, mais que abordar a especificidade do fenômeno emergente, optou-se pela ênfase em relação aos efeitos "perversos" das mensagens daqueles novos meios de comunicação, capazes de se dirigir às multidões.
É com base nesse modelo linear de comunicação que a pesquisa comunicacional se organizou, pressupondo um emissor e vários receptores. Em nossa história recente, em especial a partir da década de 1990, a difusão da Internet impõe outros imperativos quanto à relação entre emissor e receptor. Em relação à rede, ainda busca-se entender como se organiza o contato entre a produção e o consumo, tendo os produtos como ponto de contato entre eles.
Se, numa perspectiva mcluhaniana (1976), cada meio de comunicação está contido no seu sucessor, o que atualmente é chamado de convergência (larose; straubhaar, 2004), a Internet marca, na verdade, a abertura de novas fronteiras para onde podem ser direcionados inúmeros produtos, inclusive a informação. A esse universo, que propicia tantas inovações e transformações, devem ser adicionadas várias indagações não só quanto ao momento atual, mas também quanto ao porvir.
A rede mundial de computadores é um novo meio de comunicação, uma nova mídia ou um novo suporte que, numa lógica mcluhaniana, abriga vários meios de comunicação? Sobre essa relação, Palacios (2003, p. 7) sugere que a melhor definição é a de um sistema que funciona como um ambiente de informação e comunicação, interligando-se a outros sistemas.
A Internet, entendida como um novo ambiente de conjugação midiática, por um único canal, oferece a possibilidade de encontro entre o receptor e as diversas faces da comunicação, dispersas por vários suportes específicos. Contrária à lógica de uma "diáspora" comunicacional, promovida por realidades estanques, que podem ser apropriadas a partir do impresso, do áudio e do vídeo, a rede possibilita a coabitação de todas as modalidades de comunicação num mesmo espaço.
Com a junção das várias modalidades comunicacionais num mesmo ambiente, tem-se a possibilidade da interação entre essas frentes, não como uma mera cooperação entre realidades discursivas distintas, mas como uma complementação, o que necessariamente faz pensar sobre as especificidades dessa outra organização discursiva, que põe em contato discursos que seguem lógicas próprias de organização.
Salaverría (2005), ao situar a reportagem no âmbito da Web, trata do que chama ‘gênero emblemático para a interpretação’, visto que pode ser de cunho mais informativo ou estar mais próximo da narrativa literária, com o objetivo de analisar os acontecimentos de atualidade, indo das causas às conseqüências. Ao tratar da Web, o autor situa uma discursividade, no caso da reportagem, compatível com este novo ambiente, a reportagem multimídia que, para ele, "é um gênero mais apropriadamente ‘ciberperiodístico’. Caracteriza-se por aproveitar a fundo as possibilidades audiovisuais da Web, mediante o uso de galerias fotográficas, infografias interativas, sons e vídeos". (p. 163).
É esta nova forma de fazer jornalismo uma das grandes transformações nos fins do século xx e início do xxi. Como ressalta Pavlik (2001, p. xi), a época é marcada por uma profunda transformação dos modos de produção do jornalismo, com destaque para características como notícias onipresentes, acesso global a uma diversidade de informação, interatividade, cobertura em tempo real, material multimídia e personalização de conteúdos.
Para o entendimento da modalidade de jornalismo na rede, alguns pesquisadores se dedicam a estudar suas características, como Bardoel e Deuze (2001) e Palacios (2002, p. 2), que aponta como sendo as seguintes: 1) multimidialidade, 2) interatividade, 3) hipertextualidade, 4) personalização, 5) atualização e 6) memória (base de dados). As referidas características serão adotadas como categorias de análise a partir do presente capítulo e dos subseqüentes.
O Webjornalismo é caracterizado não como um novo jornalismo, marcado por ruptura e negação de uma tradição, e sim como a renovação de antigas práticas. A partir das características atribuídas a esse jornalismo, pode-se verificar o papel preponderante das continuidades e potencializações observadas, em detrimento de rupturas ou negação da práxis jornalística em outros suportes. (palacios, 2002, p. 3).
A breve história do Webjornalismo tem sua origem numa fase anterior, que prepara as bases para a passagem do impresso para a Web, tendo no processo de informatização das redações o primeiro
passo 1. Desde esse momento, de forma sucessiva, o jornalismo vem passando por transformações que, na fase atual, dão indicativos quanto à consolidação de características próprias.
Já se passou uma década do surgimento dos primeiros Webjornais no mundo e no Brasil. Aqui, o Jornal do Brasil foi o primeiro a estar disponível na rede, em 1995. Tomando por base este período, têm sido apresentadas várias publicações que fazem mapeamentos dos estudos acerca da temática, situando o estado da arte da pesquisa sobre o jornalismo na Internet, dentre eles "Dez anos depois do boom dos diários digitais" (quadros, 2006) e "Estudos sobre jornalismo digital no Brasil". (quadros; mielniczuk; barbosa, 2006).
No tocante ao Webjornalismo, pesquisadores têm apontado três fases distintas em sua trajetória recente: Webjornalismo de primeira, segunda e terceira geração. John Pavlik (2001, p. 43) propõe essa distinção tendo por parâmetro a produção e disponibilização de conteúdos, com base no uso dos recursos multimídia da Web. Mielniczuck (2003) afirma que
o jornalismo desenvolvido para a web não é um fenômeno
concluído, e, sim, em constituição e, mesmo com menos de
uma década de história, vem apresentando transformações
significativas. Por um lado, por causa dos avanços tecnológicos
pelos quais a própria web tem passado, por outro, devido às
descobertas de possibilidades oferecidas pela web para a
prática do jornalismo. (p. 21).
O Webjornalismo de primeira geração (mielniczuck, 2003, p. 3233) não estabelece uma narrativa jornalística específica, não obstante as possibilidades tecnológicas. Esse modelo é também definido como transpositivo (silva júnior, 2000), o que é ilustrado pela proposta dos pioneiros jornais online, cuja fomatação e organização seguia o modelo do homônimo impresso.
O material que vai para a rede é apenas transportado e disponibilizado, o que marca um aproveitamento do produto jornalístico que, já desde meados da década de 1990, é totalmente elaborado segundo critérios de digitalização, resultado da informatização das redações.
A fase posterior, definida como Webjornalismo de segunda geração, deixa-se perceber em finais dos anos 90. Nesse período começam a surgir modalidades de um produto jornalístico elaborado com base nas possibilidades oferecidas pela rede. No entanto, é importante ressaltar que essa segunda modalidade ainda está aparelhada ao modelo do jornal impresso, que lhe serve de referência, fazendo que seja conhecida como "fase da metáfora". (mielniczuck, 2003, p. 34).
Entre as principais inovações, pode-se notar que:
as publicações para a web começam a explorar as
potencialidades do novo ambiente, tais como links com
chamadas para notícias de fatos que acontecem no período
entre as edições; o e-mail passa a ser utilizado como uma
possibilidade de comunicação entre jornalista e leitor ou entre
os leitores, através de fóruns de debates e a elaboração das
notícias passa a explorar os recursos oferecidos pelo
hipertexto. A tendência ainda é a existência de produtos
vinculados não só ao modelo do jornal impresso enquanto
produto, mas também às empresas jornalísticas cuja
credibilidade e rentabilidade estavam associadas ao jornalismo
impresso. (mielniczuck, 2003, p. 34).
Na seqüência, experimenta-se o Webjornalismo de terceira geração. Na obra de 2001, Pavlik diz que "o terceiro estágio está apenas começando a emergir". (p. 43). Para o autor, esse estágio é marcado por uma produção jornalística especialmente desenvolvida para a Web, o que compreende a internet como um ambiente inovador, apontado como um novo meio de comunicação. Nessa fase há o enriquecimento da narrativa jornalística, sobretudo pelo uso de recursos multimídia e de interatividade, dentre outros.
É interessante ressaltar que as referidas fases não são excludentes, mas é possível localizar marcas distintas convivendo num mesmo produto.
Nos produtos jornalísticos dessa etapa, é possível observar
tentativas de, efetivamente, explorar e aplicar as
potencialidades oferecidas pela web para fins jornalísticos.
Nesse estágio, entre outras possibilidades, os produtos
jornalísticos apresentam recursos em multimídia, como sons e
animações, que enriquecem a narrativa jornalística; oferecem
recursos de interatividade, como chats com a participação de
personalidades públicas, enquetes, fóruns de discussões;
disponibilizam opções para a configuração do produto de
acordo com interesses pessoais de cada leitor/ usuário;
apresentam a utilização do hipertexto não apenas como um
recurso de organização das informações da edição, mas
também começam a empregá-lo na narrativa de fatos.
(mielniczuck, 2003, p. 36).
O material jornalístico presente na Web passa a ser produzido de acordo com as novas possibilidades tecnológicas, o que caracteriza tanto o produto quanto a própria rotina de produção, que agrega à narrativa dos fatos novas perspectivas. Como exemplos, podem ser
citados dois portais noticiosos, o brasileiro www.estadao.com.br
(Fig. 16) e o francês www.lemonde.fr (Fig. 17). Em comum, é possível notar que de fato se configuram enquanto ambientes jornalísticos, que vão além de uma mera base de informação. Ao usuário são oferecidas notícias atualizadas, fotos, vídeos. Estas possibilidades contribuem para a implementação do que Pavlik (2001, p. 4) chama de "jornalismo contextualizado" e pode reforçar o efeito de real do material jornalístico.
É interessante notar, contudo, que no tocante à narrativa jornalística, a notícia atualizada, bem como a oferta de fotos ou vídeos, não marcam grandes inovações, visto que estão em consonância com o novo ambiente da rede, que viabiliza a convergência de linguagens midiáticas distintas. Elementos novos são agregados, por exemplo, quando o portal passa a articular blogs, fotologs, chats e fóruns de discussão, originados a partir de matérias disponibilizadas pelo próprio portal. Essa é parcela de uma importante característica do Webjornalismo, a interatividade. (bardoel; deuze, 2001; palacios, 2002; díaz noci, 2006).
Na linha evolutiva das pesquisas aplicadas ao jornalismo na Internet, já se fala de um Webjornalismo de quarta geração, referindo-se ao impacto do uso das bases de dados na narrativa
Webjornalística 2. (barbosa, 2007). Para Machado (2004), diferentemente dos bancos de dados simples, que organizam as informações de uma pessoa física, os bancos de dados complexos, como aqueles empregados no jornalismo e que permitem a recuperação rápida de informações, "os dados armazenados em Bancos de Dados complexos são tudo menos uma simples coleção de itens". (p. 3).
Figura 16:http://www.estadao.com.br
Figura 17: <http://www.lemonde.fr>.
As possibilidades de uso das bases de dados para a composição de distintas narrativas digitais foram apontadas por Manovich (2001; 2005). Para o autor (2001, p. 231), uma narrativa pode ser auxiliada pelo banco de dados e a construção dessa narrativa é assegurada
pela ligação/ordenamento desses dados numa determinada ordem3. Segundo ele, a narrativa é virtual, ao passo que o banco de dados existe "materialmente".
Esta é uma realidade que desponta com as novas mídias que, de acordo com Manovich (2005),
podem ser compreendidas como o mix de antigas convenções
culturais de representação, acesso e manipulação de dados e
convenções mais recentes de representação, acesso e
manipulação de dados. Os "velhos" dados são representações
da realidade visual e da experiência humana, isto é, imagens,
narrativas baseadas em textos e audiovisuais — o que
normalmente compreendemos como "cultura". Os "novos"
dados são dados digitais. (p. 36)
Para Machado (2004, p. 5), o uso das bases de dados permite a ininterrupção do fluxo informacional, o que torna possível e confiável o acesso às informações, podendo estreitar ainda mais as relações entre uma organização jornalística e seus leitores. O texto Webjornalístico, incrementado pelo banco de dados, pode viabilizar vários caminhos a determinados conteúdos e o usuário pode acessá-los a qualquer momento.
Tem-se, dessa forma, uma nova relação entre o leitor e o conteúdo informativo, o que aponta dicotomias quanto à organização e disponibilização textuais. Se o jornalismo é historicamente definido como a revelação de fatos que irrompem na ordem do dia (franciscato, 2005), a partir da Web ele está associado a um desdobramento desse fato, indo do mais atual ao mais antigo. Recupera-se a narrativa cronológica dos fatos jornalísticos (mouillaud; tétu, 1989), que é apresentada ao leitor, via base de dados.
Num contexto marcado pela convergência das tecnologias da comunicação, o uso da base de dados tem permitido que o Webjornalismo avance em novos territórios. Cada vez mais essa prática jornalística lança as bases para a consolidação de uma organização discursiva própria, concernente aos avanços tecnológicos até então implementados. Para Machado (2006, p. 8), a pertinência das bases de dados passa a ser determinante para a estruturação e organização do processo de produção jornalística, passando pela apuração, composição, edição e circulação.
As várias possibilidades decorrentes do uso das bases de dados, que vêm sendo implementadas desde a década de 1970, têm agregado ao jornalismo uma característica de renovação.
O emprego de bases de dados no jornalismo sempre foi um
condicionante de inovação. Seja atendendo aos propósitos de
armazenamento das informações para recuperação e
compartilhamento; como fontes de pesquisa e análise,
integradas às etapas de apuração e elaboração de textos
jornalísticos mais contextualizados; ou usadas para a