Portal do Destino

Agatha Christie · Capítulo 10 de 31

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Portal do Destino

Capítulo 2 - Apresentação a Matilde, Truelove e KK

CAPÍTULO 2

 

Apresentação a Matilde, Truelove e KK

 

Na manhã seguinte, Tuppence saiu à procura daquele popular personagem do vilarejo conhecido em geral como velho Isaac, ou, em ocasiões formais, se alguém lembrasse, sr. Bodlicott. Isaac Bodlicott era um dos personagens “folclóricos” da cidadezinha. Era folclórico por causa da idade – alegava ter noventa anos (mas poucas pessoas acreditavam) – e pelo talento de fazer consertos dos mais variados. Se os esforços para chamar o encanador fossem infrutíferos, era só recorrer ao velho Isaac Bodlicott. Qualificado ou não para realizar os consertos que fazia, ele adquirira experiência ao longo dos muitos anos de sua vida em toda sorte de contratempos nas instalações sanitárias e elétricas, na banheira e nos aquecedores de água. O valor que cobrava era mais em conta, se comparado a um profissional realmente habilitado, e, em geral, os consertos eram surpreendentemente bem-sucedidos. Fazia serviços de carpintaria, trocava fechaduras, pendurava quadros (de maneira, às vezes, meio torta) e consertava molas de poltronas estragadas. A principal desvantagem dos préstimos do sr. Bodlicott era o hábito de tagarelar enquanto ajustava a dentadura, o que tornava sua fala pouco inteligível. Suas lembranças sobre os moradores de tempos antigos do vilarejo pareciam ilimitadas. Como um todo, era difícil avaliar o quanto essas lembranças eram confiáveis. O sr. Bodlicott não perdia a oportunidade de contar em detalhes uma das boas histórias dos velhos tempos. Dava asas à imaginação assim como à memória, sem mudar a entonação.

– A senhora ia ficar surpresa, e como ia, se eu contasse tudo o que eu sei dessa história. Surpresa mesmo. Todos pensavam que sabiam tudo, mas estavam enganados. Redondamente enganados. Foi a irmã mais velha! Foi sim. Parecia tão boazinha... O cachorro do açougueiro que levantou a lebre. Seguiu ela direitinho até em casa, acredita? Sim. Só que não era a casa dela, sabe. Mas enfim, eu poderia falar um monte sobre isso. E então tinha a velha sra. Atkins. Ninguém sabia que ela guardava um revólver em casa, mas eu sabia. Fiquei sabendo quando fui chamado para consertar a cômoda alta – é assim que o pessoal chama aqueles armários na altura do peito, não é? Sim. Cômoda alta. Pois muito bem, lá estava ela, com seus 75 anos, e, naquela gaveta, a gaveta da cômoda alta que eu fui consertar (tive de trocar as dobradiças e a fechadura), estava o revólver. Enrolado junto com um par de sapatos femininos. Número 34. Ou seria 33? Cetim branco. Pezinhos delicados. Sapatos de casamento da tataravó, ela me disse. Talvez. Mas tem gente que diz que a dona Atkins comprou aqueles sapatinhos numa loja de antiguidades. Quem garante? O certo é que tinha um revólver embrulhado junto. Pois é. O pessoal dizia que o filho dela trouxe da viagem. Da viagem ao leste da África, quero dizer. Foi caçar elefantes ou búfalos por lá. E quando voltou para casa trouxe o revólver junto. E a senhora sabe o que a velha fazia? O filho a ensinou a atirar. Ela ficava sentada, de revólver na mão, cuidando pela janela quem subia pelo caminho. Daí ela atirava nos dois lados dos incautos, que ficavam atarantados e davam no pé. Ela não deixava ninguém se aproximar para incomodar os passarinhos. Muito chegada nos passarinhos. Para a senhora ver, nos passarinhos ela nunca atirava. De jeito nenhum faria uma coisa dessas. Depois tinha aqueles causos sobre a sra. Letherby. Quase acabou no tribunal. Cleptomaníaca! A ladina roubava nas lojas. Podre de rica.

Depois de convencer o sr. Bodlicott a substituir a claraboia do banheiro, Tuppence ficou imaginando se conseguiria direcionar a conversa para quaisquer recordações que ajudassem Tommy e ela a resolverem o mistério do ocultamento, naquela casa, de um interessante tesouro ou segredo, cuja natureza eles ainda não conheciam.

Por sua vez, o velho Isaac Bodlicott não escondia o contentamento por realizar os consertos para os novos inquilinos. Um dos prazeres de sua vida era conhecer melhor o pessoal recém-chegado. Um dos principais acontecimentos em seu cotidiano era encontrar pessoas que ainda não tinham tido uma amostra de suas espetaculares lembranças e reminiscências. Aqueles já habituados com elas não o encorajavam a repetir aquelas histórias. Mas plateia nova... era sempre uma coisa agradável, assim como disponibilizar o seu maravilhoso leque de serviços em prol da comunidade. Entregar-se ao prazer de uma narrativa era um deleite para ele.

– Que sorte a do velho Joe. Poderia ter lanhado toda a cara.

– É verdade.

– Tem mais cacos de vidro ali no chão, dona. É melhor varrer.

– Sei – disse Tuppence –, ainda não deu tempo.

– Ah, mas com caco de vidro é melhor não facilitar. A senhora sabe como é vidro. Um caco pode fazer um estrago enorme. A pessoa pode inclusive morrer disso, se chega a cortar uma veia. Lembro do que aconteceu com a srta. Lavinia Shotacomb. A senhora nem acredita...

Tuppence não se interessou em ouvir de novo a história da trágica morte da septuagenária surda e quase cega. Já escutara o caso por outras pessoas do vilarejo.

– Imagino – cortou Tuppence, impedindo que Isaac mergulhasse em suas lembranças sobre Lavinia Shotacomb – que o senhor saiba bastante coisa das pessoas que viviam aqui antigamente e de todas as coisas fantásticas que aconteceram.

– Ah, pois é. Não sou tão jovem, sabe. Passei dos 85. Firme e forte rumo aos noventa. Mas a memória está sempre em dia, graças a Deus. Tem coisa que a gente não esquece. De jeito nenhum. Por mais que o tempo passe, algo faz a gente se lembrar, trazendo tudinho de volta. Cada coisa que eu posso contar... a senhora nem sonha.

– É mesmo incrível, não é? Só de pensar tudo que o senhor sabe de tantas pessoas fora do comum – afirmou Tuppence.

– Pois é, tem cada história, sabe? Não ponho a mão no fogo por ninguém! Tem gente que esconde a verdadeira identidade. Às vezes esconde segredos que ninguém imagina.

– Espiões – ponderou Tuppence – ou criminosos.

Olhou para ele com esperança... O velho Isaac curvou-se e apanhou um caco de vidro.

– Não disse? – indagou. – A senhora ia gostar de cravar isto na sola do pé?

Tuppence começou a sentir que a reposição de uma claraboia não renderia muito no objetivo de provocar as lembranças de Isaac sobre casos empolgantes do passado. Ela comentou que a pequena estufa contígua à parede da casa, perto da janela da sala de jantar, estava precisando de uns reparos e um pesado investimento na substituição dos vidros. Valia a pena consertar ou seria melhor desmanchar? Isaac pareceu contente em ter um novo problema para resolver. Desceram as escadas e contornaram a casa até chegar à construção mencionada.

– Ah, a senhora quer dizer essa daí, não é?

Tuppence disse que sim.

– Ka-Ka – falou Isaac.

Intrigada, Tuppence o encarou. KK? Aquelas duas letras não significavam nada para ela.

– Como é?

– Eu disse KK. Assim que o pessoal chamava a estufa na época da velha sra. Lottie Jones.

– Ah, e por que ela chamava a estufa de KK?

– Sei lá. Acho que o pessoal gostava de dar uma espécie de apelido para lugares como este... Não é muito grande. Casas maiores têm estufas de verdade. Sabe, onde se cultivam potes de avencas.

– Sim – falou Tuppence, evocando com facilidade as próprias lembranças sobre o assunto.

– Se quiser pode chamar de casa de vegetação ou jardim de inverno. Mas esta aqui a velha sra. Lottie Jones chamava de KK. Sei lá por quê.

– Ela usava para cultivar avencas?

– Não era usada para isso, não. Era usada mais como depósito para os brinquedos das crianças. Falando nos brinquedos, imagino que ainda estejam aí dentro se ninguém os levou. Puxa, está quase desabando, não é? Só deram uma tapeada e colocaram um telhadinho. Acho que ninguém mais vai querer usar. O pessoal enfiava aí os brinquedos estragados, cadeiras de jardim e coisas do tipo. Mas, sabe, na época eles já tinham o cavalo de balanço e o Truelove no cantinho lá do fundo.

– Podemos entrar para dar uma olhada? – perguntou Tuppence, tentando espiar por uma parte da vidraça um pouco mais clara. – Pelo jeito tem uma porção de coisa estranha aí dentro.

– Primeiro temos que achar a chave – respondeu Isaac. – Imagino que esteja pendurada no lugar de sempre.

– Qual lugar de sempre?

– Ali no galpãozinho.

Eles seguiram por uma trilha nos fundos da casa. O galpãozinho quase não merecia o título de galpãozinho. Isaac empurrou a porta com o pé, removeu pedaços de galhos de árvores, chutou algumas maçãs podres e, tirando um velho capacho pendurado na parede, revelou três ou quatro chaves enferrujadas penduradas num prego.

– O molho de chaves do velho Lindop – informou. – O último jardineiro que morou aqui. Fazia cestos de vime, se aposentou e virou jardineiro. Mas não era bom nem no artesanato nem no jardim. A senhora quer entrar em KK...?

– Ah, sim – respondeu Tuppence esperançosa. – Gostaria de conhecer KK. Como se soletra?

– Como se soletra o quê?

– Quero dizer, KK. Só duas letras?

– Acho que não. Acho que era algo diferente. Duas palavras estrangeiras. Se não estou enganado, K-A-I e então outro K-A-I. Kay-Kay ou Kye-Kye. Acho que era uma palavra japonesa.

– Alguma família japonesa morou aqui antigamente?

– Ah, não. Pelo menos eu nunca ouvi falar.

Um pouco de óleo, que Isaac localizou e aplicou com bastante rapidez, teve efeito maravilhoso na mais enferrujada das chaves. Inserida na fechadura e virada com um rangido, abriu a porta. Tuppence e seu guia penetraram no ambiente.

– Não disse? – falou Isaac, sem demonstrar qualquer orgulho especial em relação aos objetos ali dentro. – Só quinquilharia, não é?

– Aquele cavalo ali é muito bonito! – elogiou Tuppence.

– Aquela é a Matirde – contou Isaac.

– Matilde? – indagou Tuppence duvidosa.

– Que seja. Um desses nomes femininos. Rainha alguma coisa. Disseram que era o nome da mulher de Guilherme, o Conquistador, mas acho que era lorota. Veio dos States. Quem trouxe foi o padrinho de uma das crianças.

– Uma das...

– Uma das crianças da família Bassington, se não me engano. Antes da outra turma. Sei lá. Calculo que esteja toda enferrujada a esta altura.

Mesmo um pouco deteriorada, Matilde não deixava de ser uma égua maravilhosa. O comprimento era bem o de qualquer cavalo ou égua de verdade. Poucos fios na outrora volumosa crina. Uma orelha quebrada. Algum dia sua cor fora cinza. As pernas dianteiras se projetavam para frente e as pernas traseiras para trás; a cola era fina.

– Não funciona como os cavalos de balanço que a gente vê por aí – explicou Isaac. – A senhora sabe, não é, em geral vão para cima e para baixo, para cima e para baixo, para frente e para trás. Mas este aqui, não sabe... meio que pula! Primeiro as pernas da frente, e depois as pernas traseiras. Um balanço bem diferente. Deixa ver se eu subo nela para mostrar para a senhora...

– Tome cuidado – pediu Tuppence. – Não vá se machucar com pregos e cuide para não levar um tombo.

– Tsc! Já andei nela cinquenta ou sessenta anos atrás. Continua bem firme, sabe. Não está se desmanchando ainda.

Num movimento acrobático repentino e inesperado, ele montou no lombo de Matilde. O cavalo balançou para frente e então para trás.

– Tem molejo, não tem?

– Sim, tem molejo – concordou Tuppence.

– Ah, a criançada adorava isso, sabe. A srta. Jenny brincava todo dia.

– Quem era a srta. Jenny?

– Ah, ela era a mais velha, sabe. Foi o padrinho dela quem mandou este presente para ela. Também mandou o Truelove – acrescentou.

Tuppence o encarou com curiosidade. A observação não parecia se aplicar a qualquer outro conteúdo de Kay-Kay.

– É assim que o chamavam, sabe. Aquele cavalinho com charrete lá no fundo. A srta. Pamela descia a encosta em cima dele. Menina terrível de arteira! A srta. Pamela puxava ele até o topo da encosta, então subia, colocava os pés ali... onde era para ser os pedais mas não funcionam, e começava a descer, usando os pés como freios. Por sinal quase sempre ela amortecia a descida num daqueles pinheirinhos chilenos.

– Não parece nem um pouco agradável – comentou Tuppence – amortecer a descida num pinheiro chileno...

– Pois é, às vezes ela conseguia parar um pouco antes. Menina terrível. Descia um monte de vezes... Uma vez desceu quatro vezes seguidas. Eu vinha seguido cuidar do canteiro de heléboros-brancos e das moitas de capim-dos-pampas e ficava cuidando ela descer. Eu não falava com ela, porque ela não gostava de falar com a gente. Só queria saber de continuar o que estava fazendo, ou com o que pensava que estava fazendo.

– O que ela pensava que estava fazendo? – indagou Tuppence, começando subitamente a se interessar mais pela srta. Pamela do que pela srta. Jenny.

– Bem, não sei direito. Às vezes dizia que era uma princesa, sabe, fugindo... Maria, rainha da, como é mesmo? Irlanda ou Escócia?

– Maria, rainha da Escócia – sugeriu Tuppence.

– Sim, isso mesmo. Fugindo de um castelo. “Lock alguma coisa” era o

nome do castelo. Não uma fechadura, um lago.[1]

– Ah, sim. E Pamela pensava que era Maria da Escócia fugindo dos inimigos?

– Isso mesmo. Indo para a Inglaterra falar com a rainha Elizabeth. Mas ela não era flor que se cheire.

– Bem – começou Tuppence, disfarçando a decepção –, é tudo muito interessante mesmo. Que família o senhor diz que era essa?

– Ah, eles eram os Lister.

– Já ouviu falar numa Mary Jordan?

– Ah, sei de quem a senhora fala. Não, isso foi um pouco antes da minha época, acho. Quer dizer a espiã alemã, não é?

– Todo mundo parece saber algo sobre ela por aqui – comentou Tuppence.

– Sim. Eles a chamavam de “frau-linha” ou algo parecido com o nome de uma ferrovia.

– Parece mesmo – afirmou Tuppence.

De repente, Isaac caiu na risada.

– Ah, ah – riu-se ele. – Se ela fosse uma linha ferroviária, não seria lá muito reta, não é? – E deu nova risada.

– Que piada engraçada – falou Tuppence compreensiva.

Isaac riu outra vez.

– Já está na hora – disse ele – de a senhora pensar em plantar umas verduras, não acha? Se quiser que suas favas cresçam na melhor época, a senhora devia plantar agora e depois preparar o solo para as ervilhas. E que tal uma variedade de alface prematura? Que tal Tom Thumb? Variedade maravilhosa de alface! Pequenininha, mas crespa como nenhuma outra.

– O senhor deve ter feito muito trabalho de jardinagem por aqui. Não digo só nesta casa, mas em vários lugares.

– Ah, sim, já fiz muito biscate por aí, sabe. Eu tinha o costume de visitar as casas me oferecendo. Algumas tinham jardineiros relaxados, e eu aproveitava e vinha de vez em quando para dar uma mãozinha. Uma vez aconteceu um acidente aqui, sabe. Uma confusão com as verduras. Antes de meu tempo... mas eu fiquei sabendo.

– Algo a ver com as folhas de erva-dedal, não é? – indagou Tuppence.

– Ah, pelo jeito a senhora já ouviu falar no assunto. Isso também faz muito tempo, não sabe. Sim, várias pessoas ficaram doentes. Uma delas morreu. Pelo menos foi o que me disseram. Sei apenas de ouvir falar. Um velho amigo meu me contou.

– Acho que foi a fraulein – afirmou Tuppence.

– O quê? Foi a “frau-linha” que morreu? Essa é nova para mim.

– Bem, talvez eu esteja errada – ponderou Tuppence. – Vamos supor que eu leve o Truelove – falou ela –, ou seja lá como for o nome daquilo, e o coloque no topo da colina onde aquela menina, a Pamela, ia... Se é que a colina ainda existe.

– Ora, é claro que a colina ainda existe. O que a senhora pensa? É pura grama ainda, mas tenha cuidado. Não sei até que ponto a ferrugem tomou conta do Truelove. Não quer que limpe e lubrifique primeiro?

– Boa ideia! – disse Tuppence. – E depois o senhor pode fazer uma lista de verduras para começarmos a cultivar.

– Pode deixar. Mas vou cuidar para que a horta não tenha erva-dedal junto com espinafre! Eu não ia gostar nada de escutar que aconteceu algo com a senhora, logo agora que está de casa nova. Um lugar bonito, ainda mais para quem tem grana para fazer umas melhorias.

– Muito obrigada – respondeu Tuppence.

– E pode deixar também que eu dou uma revisada no Truelove para que ele não quebre com a senhora em cima. É bem velhinho, mas a senhora ia ficar surpresa de como as coisas antigas funcionam. Outro dia fui visitar um primo meu e ele apareceu com uma bicicleta velha. Ninguém ia imaginar que aquele negócio funcionava... Fazia quarenta anos que ninguém pedalava nela. Mas, com um pouquinho de óleo, andou que é uma maravilha. Um pouco de óleo é um santo remédio!

 

[1] Jogo de palavras entre lock (fechadura) e loch (denominação dos lagos na Escócia). Maria I da Escócia esteve presa em um castelo situado no meio do Loch Leven. (N.T.)