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Capítulo 4 - Muitos Parkinson
CAPÍTULO 4
Muitos Parkinson
– Muitos Parkinson – retomou Tuppence durante a refeição. – Bem antigos. Uma coleção incrível. Parkinson de todas as idades. Velhos, jovens, casais. Parkinson pra caramba! E outras famílias como Cape e Griffin. E dois sobrenomes engraçados: Underwood e Overwood.
– Tive um amigo chamado George Underwood – comentou Tommy.
– Eu já conhecia o sobrenome Underwood. Mas Overwood eu nunca tinha ouvido falar.
– Homem ou mulher? – indagou Thomas, com certo interesse.
– Mulher. Rose Overwood.
– Rose Overwood – pronunciou Tommy, escutando o som do nome. – Não me soa bem, não sei por quê. – E acrescentou: – Depois do almoço preciso ligar para os eletricistas. Tome cuidado, Tuppence, para não cair naquele buraco da escada.
– Das duas, uma: morro de morte morrida ou matada.
– Ou de curiosidade – completou Tommy. – A curiosidade matou o gato.
– Não está nem um pouco curioso? – perguntou Tuppence.
– Não vejo nenhuma razão convincente para estar curioso. O que temos de sobremesa?
– Torta de melaço.
– Tenho de reconhecer, Tuppence: a comida estava deliciosa!
– Que bom que gostou – disse Tuppence.
– Que pacote é aquele na porta dos fundos? É o vinho que encomendamos?
– Não – respondeu Tuppence –, são bulbos.
– Bulbos? – indagou Tommy.
– Tulipas – esclareceu Tuppence. – Preciso falar com o velho Isaac sobre elas.
– Onde vai plantá-las?
– Acho que ao longo do caminho central do jardim.
– O coitado é tão velho que dá a impressão de que pode cair morto a qualquer minuto.
– Aí que você se engana – discordou Tuppence. – Isaac tem uma resistência fenomenal. Sabe, descobri que os jardineiros são assim. Ótimos jardineiros chegam à flor da idade na casa dos oitenta. Se aparecer um jovem forte e corpulento dizendo: “Sempre quis ser jardineiro”, pode ter certeza que ele não presta. A única coisa que sabe fazer é passar o rastelo nas folhas de vez em quando. Não importa o que a gente pede a eles, a resposta é sempre a mesma: não é a época boa. E como nunca sabemos qual é a época certa para fazer as coisas (pelo menos eu não sei), então, já viu. Eles sempre acabam enrolando a gente. Mas Isaac é fantástico. Ele sabe tudo. – Tuppence acrescentou: – Encomendei também alguns açafrões. Será que vieram junto no pacote? Vou lá dar uma olhada. Ele ficou de vir hoje e tirar todas as minhas dúvidas.
– Certo – falou Tommy. – Daqui a pouco saio para encontrar vocês.
Tuppence e Isaac tiveram uma reunião agradável. Desembrulharam as tulipas e entabularam discussões sobre as melhores alternativas. Primeiro, as tulipas precoces, que regozijam os corações a partir dos fins de fevereiro. Depois, a ideia de plantar as lindas tulipas papagaio, de pétalas ondulantes e bicolores. Por fim, as tulipas da espécie conhecida por Tuppence como viridiflora: de uma beleza extraordinária, com longos pecíolos de maio até meados de junho. Para realçar a atraente cor verde-pastel, combinaram de plantá-la em separado, num pacato canteiro do jardim, onde pudesse ser colhida e compor arranjos florais para a sala de estar, e também na trilha do portão da frente até a casa, onde despertaria a inveja dos visitantes ou até mesmo aguçaria a sensibilidade artística dos entregadores de carnes e mantimentos.
Às quatro da tarde, Tuppence encheu um bule marrom com chá bem forte e dispôs sobre a mesa da cozinha, junto a uma tigela de cubos de açúcar e uma jarra de leite. Convidou Isaac para entrar e recuperar as forças antes de ir embora e, em seguida, foi atrás de Tommy.
“Ele deve estar dormindo em algum lugar”, pensou Tuppence com seus botões enquanto procurava pelos cômodos da casa. Ficou contente ao ver uma cabeça saliente na plataforma entre os lances de escada sobressaindo de um sinistro poço no chão.
– Tudo certinho agora, madame – garantiu o eletricista. – Não tem mais perigo. Tudo novo em folha.
Ele avisou que o serviço continuaria em outro ponto da casa na manhã seguinte.
– Espero que vocês venham mesmo – disse Tuppence. E acrescentou: – Por acaso não viu o sr. Beresford por aí?
– Ah, o seu marido? Sim. Lá em cima no sótão. Deixando coisas cair. Bem pesadas. Acho que livros.
– Livros! – surpreendeu-se Tuppence. – Quem diria!
O eletricista sumiu de novo no seu mundo subterrâneo particular, e Tuppence subiu ao sótão convertido em biblioteca especializada em livros infantis.
Tommy estava sentado em cima de uma escadinha de três degraus. Vários livros estavam no chão ao redor, e havia lacunas consideráveis nas prateleiras.
– Então você está aí! – exclamou Tuppence. – Fingiu que não estava nem um pouco interessado. Andou olhando uma porção de livros, não? Bagunçou tudo o que eu tinha arrumado com todo o capricho.
– Vai me desculpar – falou Tommy –, mas pensei que não faria mal nenhum eu dar uma olhada.
– Algum outro livro com coisas sublinhadas em tinta vermelha?
– Não. Nada.
– Que desagradável – disse Tuppence.
– A meu ver é culpa de Alexander, nosso mestre Alexander Parkinson – disse Tommy.
– Tem razão – concordou Tuppence. – Um dos numerosos Parkinson.
– Deve ter sido um menino meio preguiçoso. Não que não dê trabalho ficar sublinhando tudo aquilo, mas não há mais informações sobre Mary Jordan – disse Tommy.
– Perguntei ao velho Isaac. Ele conhece muitas pessoas por aqui. Não lembrou de nenhum Jordan.
– O que você vai inventar com aquele abajur de bronze lá embaixo, perto da porta? – quis saber Tommy, descendo da escada.
– Vou levar na Feira do Elefante Branco – afirmou Tuppence.
– Por quê?
– Ah, sempre achei aquele negócio uma tolice completa. Compramos numa dessas viagens ao exterior, não foi?
– Devíamos estar meio birutas. Você nunca gostou. Sempre disse que odiava. Por mim, tudo bem. Sem falar que pesa uma tonelada.
– Mas a srta. Sanderson ficou encantada quando eu disse que eles podiam ficar com ele. Ela se ofereceu para apanhar aqui, mas eu disse que levaria de carro. É hoje que me livro desse trambolho.
– Se quiser, eu posso levar.
– Não, pode deixar que eu mesma resolvo isso.
– Certo – disse Tommy. – Quem sabe vou junto para ajudar a carregar?
– Ah, não vai ser difícil achar um voluntário para carregá-lo para mim – considerou Tuppence.
– Não vá fazer esforço físico.
– Pode deixar – prometeu Tuppence.
– Tem outra razão para querer ir, não tem?
– Só pensei que seria bom bater um papo com o pessoal – falou Tuppence.
– Eu nunca sei o que você está aprontando, Tuppence, mas pelo brilho no olhar sei quando está aprontando.
– Leve Hannibal para passear – sugeriu Tuppence. – Não posso levá-lo na Feira do Elefante Branco. Não quero ter que separar dois cães engalfinhados.
– Certo. Que tal um passeio, Hannibal?
Hannibal, como era seu hábito, de imediato respondeu que sim. Era impossível não entender as afirmativas e as negativas do cãozinho. Chacoalhava o corpo, balançava o rabo, erguia e baixava alternadamente as patas dianteiras e esfregava com força a cabeça na perna de Tommy.
– Isso mesmo! – parecia dizer o cãozinho. – É para isso que você existe, meu escravo querido. Vamos fazer um passeio encantador. Quero farejar muitos cheiros!
– Vamos lá – disse Tommy. – Vou levar a guia junto. Vê se não corre para o meio da rua como na última vez. Um caminhão quase o atropelou.
Hannibal levantou um olhar com a expressão: “Sou um cachorro bonzinho e obediente”. Por mais enganador que fosse o olhar, em geral convencia até mesmo as pessoas acostumadas a lidar com Hannibal.
Tommy colocou o abajur de bronze no carro, não sem reclamar do peso. Tuppence zarpou. Quando o carro dobrou a esquina, Tommy enganchou a guia na coleira de Hannibal e começou a descer a rua. Então dobrou na ruela da igreja e tirou a guia, pois naquele trecho era pouco o movimento de veículos. Hannibal agradeceu o privilégio rosnando e farejando vários tufos de grama junto ao muro da calçada. Se pudesse usar a linguagem humana, teria dito algo como: “Aqui passou um canzarrão. Aquele pastor alemão asqueroso que me mordeu, só pode. Não vou com a cara dele. Não perde por esperar!” Rosnou baixinho. “Ah! Que refrescância! Que delícia! Por aqui andou uma cachorrinha bonita. Preciso conhecê-la! Será que mora longe? Tomara que more nesta casa...”
– Saia já deste portão – ordenou Tommy. – Não vá entrar na propriedade alheia.
Hannibal fingiu não escutar.
– Hannibal!
Hannibal redobrou a velocidade e deu a volta por trás da casa, a caminho da cozinha.
– Hannibal! – esbravejou Tommy. – Não está me escutando?
– É comigo, Dono? – disse Hannibal. – Me chamando? Ah, sim, é claro.
Hannibal escutou um forte latido no interior da cozinha, fugiu apressado e grudou nos calcanhares de Tommy.
– Bom menino – elogiou o dono.
– Sou um bom menino, não sou? – perguntou Hannibal. – Sempre de prontidão! Se precisar de mim, estou a menos de um passo de distância, pronto para defendê-lo!
Chegaram a um portão lateral que dava para o cemitério da igreja. Hannibal, não se sabe como, tinha o incrível talento de mudar de tamanho ao bel prazer. Quando bem entendia, trocava a forma um tanto espadaúda, meio roliça, para se transformar num fiapinho negro. E assim conseguiu se esgueirar por entre as barras do portão com facilidade.
– Volte aqui, Hannibal! – chamou Tommy. – É proibida a entrada de cães no cemitério da igreja.
A resposta de Hannibal a isso, se houvesse, teria sido: “Já estou no cemitério da igreja, Dono”. Pulava contente nas aleias do cemitério com a aparência de um cão recém-largado num jardim especialmente prazeroso.
– Cachorro terrível! – gritou Tommy.
Abriu o portão, entrou e correu no encalço de Hannibal com a guia na mão. A esta altura, Hannibal alcançava o canto mais distante do adro e sem cerimônia tentava acessar a igreja pela fresta da porta. Tommy, porém, alcançou-o a tempo e o colocou na guia. Hannibal ergueu um olhar de inocência, como se fosse exatamente aquilo o que ele queria.
– Colocando a guia em mim, não é? – disse, abanando o rabo. – Legal! Isso tem lá seu prestígio. Prova que sou um cachorro de valor.
Já que não parecia haver ninguém para se opor a que ele caminhasse no cemitério na companhia de Hannibal, adequadamente preso a uma confiável guia, Tommy perambulou no local, checando talvez as investigações de Tuppence do outro dia.
Primeiro observou a laje apagada de uma sepultura, nas proximidades de uma portinhola de acesso à igreja. “Era”, pensou ele, “uma das mais antigas”. Havia várias delas ali, a maioria datando do século XIX. Uma lápide, entretanto, chamou a atenção de Tommy.
– Estranho – disse ele. – Pra lá de estranho.
Hannibal levantou o olhar. Não entendeu aquele trecho da conversa do dono. Nada naquele túmulo parecia capaz de despertar o interesse canino. Sentou-se e mirou o dono com olhos indagadores.