Portal do Destino

Agatha Christie · Capítulo 12 de 31

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Capítulo 4 - Expedição a bordo de Truelove; Oxford e Cambridge

CAPÍTULO 4

 

Expedição a bordo de Truelove; Oxford e Cambridge

 

I

 

“Seis coisas impossíveis antes do café da manhã... Pois sim!”, pensou Tuppence enquanto tomava a xícara de café e avaliava a possibilidade de comer o ovo frito remanescente no aparador, no meio de dois rins de aparência tentadora. “O café da manhã é mais útil do que pensar em coisas impossíveis. Tommy que se aventure atrás delas. Investigação, pois sim! Tenho lá minhas dúvidas se ele vai descobrir alguma coisa.”

Serviu-se do ovo frito e dos rins.

“Que bom”, continuou Tuppence, “ter opções diferentes no café da manhã.”

Por um bom tempo, ela se contentara com uma xícara de café e um suco de laranja ou de toranja. Eficiente para perder peso, esse tipo de café da manhã não era o que se podia chamar de saboroso. Pela força dos contrastes, pratos quentes sobre o aparador animavam os sucos digestivos.

“Isso”, refletiu Tuppence, “é o que os Parkinson deviam tomar no café da manhã. Ovos estrelados com bacon e talvez...”, vasculhou na memória cenas de antigos romances, “faisão desfiado, servido frio no aparador. Que delícia! Ah, eu me lembro, parecia delicioso. As crianças ficavam em segundo plano. Só sobravam as pernas para elas. Se bem que pernas de gamo são excelentes para mordiscar.” Abocanhou o último pedaço de rim e parou de murmurar consigo.

Ao mesmo tempo, barulhos singulares entraram pelo vão da porta.

– Estranho – disse Tuppence. – Parece uma orquestra desafinada.

Calou-se de novo, uma fatia de pão torrado na mão, e levantou o olhar quando Albert entrou na sala.

– O que está acontecendo, Albert? – quis saber Tuppence. – Não me diga que os operários estão tocando harmônio...

– É o técnico que veio ver o piano – disse Albert.

– Ver o piano? Para quê?

– Para afiná-lo. A senhora que me pediu para chamar um afinador.

– Ora, ora! – exclamou Tuppence. – Já providenciou? Como você é competente, Albert.

O olhar de Albert transbordou de satisfação. Ele sabia da extrema competência com que providenciava os pedidos extras do casal Beresford.

– Ele disse que estava na hora – afirmou.

– Imagino que sim – comentou Tuppence.

Terminou a xícara de café e passou à sala de estar. Um rapaz mexia no piano de cauda, que revelava ao mundo as suas entranhas.

– Bom dia, madame – saudou o rapaz.

– Bom dia – respondeu Tuppence. – Que bom que pôde vir logo.

– Ah, ele estava precisando ser afinado, e como.

– Sei disso – falou Tuppence. – Sabe, acabamos de nos mudar. E se tem coisa que não faz bem a um piano é ficar sendo transportado para lá e para cá. Se bem que fazia um bom tempo que não o afinávamos mesmo.

– Logo percebi – confirmou o rapaz.

Pressionou três cordas diferentes, uma após a outra, tocou duas notas alegres numa tecla branca e duas notas melancólicas em Lá menor.

– Belo instrumento, madame, se me permite observar.

– É um Erard – informou Tuppence.

– Não é fácil conseguir um piano desses hoje em dia.

– Ele já teve seus percalços – comentou Tuppence. – Superou os bombardeios em Londres. Nossa casa lá foi atingida. Felizmente não estávamos em casa, e os danos no piano foram superficiais.

– Sim. Os mecanismos estão em boa condição. Não precisam de nenhum reparo maior.

A conversação seguiu agradável. O rapaz tocou os primeiros compassos de um prelúdio de Chopin e desembocou numa interpretação de “O Danúbio azul”. Por fim anunciou que o trabalho estava encerrado.

– É melhor eu aparecer de vez em quando – alertou. – Seria bom daqui a um tempinho experimentar o piano de novo. A gente nunca sabe quando pode... não sei bem como me expressar... pisar na bola. Sabe como é, um pequeno detalhe que a gente não percebe na primeira vez.

Os dois se separaram com manifestações mútuas de apreço sobre música em geral e sobre música para piano em especial, e com as saudações educadas de duas pessoas que concordavam bastante quanto à alegria que a música proporcionava a suas vidas.

– Imagino o trabalhão que deu para arrumar esta casa – falou ele olhando ao redor.

– Ela ficou um tempo vazia antes de nos mudarmos.

– Ah, sim. Mudou de dono muitas vezes.

– Tem uma história e tanto, não é? – perguntou Tuppence. – Muita gente morou aqui no passado, e aconteceu cada coisa esquisita!

– Ah, sim, a senhora deve estar falando do que aconteceu muito tempo atrás. Não sei se foi na última guerra ou na anterior.

– Segredos navais – arriscou Tuppence.

– A gente escuta o que pessoal fala, mas eu mesmo não sei de nada.

– Bem antes de seu tempo – falou Tuppence, apreciando o jovem semblante do rapaz.

Após ele sair, sentou-se ao piano.

– Vou tocar “Gota de chuva no telhado” – disse Tuppence, que lembrara da peça de Chopin ao escutar o afinador executando um dos outros prelúdios do compositor. Deslizou os dedos nas teclas, fazendo o acompanhamento para uma canção, primeiro cantando com os lábios fechados e depois murmurando as palavras também.

Aonde meu amor foi passear?

Meu amor percorre que caminhos?

Na mata ecoa o canto dos passarinhos

Quando será que meu amor vai voltar?

– Estou tocando a nota errada – falou Tuppence –, mas pelo menos o piano está bom outra vez. Ah, como é divertido tocar o piano de novo. Aonde meu amor foi passear? – cantarolou. – Quando será que meu amor... Meu Truelove? – disse Tuppence pensativa. – Amor... Truelove? Quem sabe não é um sinal? É melhor eu sair e passear com o Truelove.

Ela calçou as botinas, vestiu um blusão e saiu para o jardim. Truelove havia sido empurrado não de volta a seu antigo lar em KK, mas para dentro do estábulo vazio. Tuppence o tirou para fora, puxou-o até o topo da colina gramada, passou um pano que trouxera para remover o mais grosso das teias da aranha grudadas em vários pontos, acomodou-se na charretinha de Truelove, colocou os pés nos pedais e o induziu a pôr-se em movimento, tão bem quanto suas condições lhe permitiam.

– Agora, Truelove – disse ela –, vamos descer a colina! Sem correr muito.

Levantou os pés dos pedais e os posicionou de modo a conseguir usá-los como freios, se necessário.

Truelove não parecia inclinado a ganhar muita velocidade, embora seu único esforço fosse deixar a força da gravidade agir colina abaixo. Porém, o declive acentuou de repente. Truelove acelerou o galope, Tuppence usou os pés como freios com mais energia. Os dois foram parar dentro de um jovem pinheiro chileno no sopé da colina, em uma posição bem mais desconfortável do que de costume.

– Que dolorido – falou Tuppence, desemaranhando-se do meio dos galhos.

Tendo se desvencilhado das grimpas da araucária chilena, Tuppence limpou a roupa e olhou ao redor. Chegara num trecho de arbustos fechados que abraçava o lado oposto da colina. Arbustos de azaleias e hortênsias. “Na primavera”, pensou Tuppence, “seria lindo de ver”. Mas naquele instante não tinha beleza especial. Apenas um bosque cerrado de arbustos. Entretanto, ela notou uma antiga trilha que penetrava no meio das moitas. O mato ficava cada vez mais fechado, mas dava para distinguir a direção da trilha. Tuppence quebrou uns galhos, forçou passagem por entre os arbustos e contornou a colina. A trilha começou a serpentear colina acima. Era evidente que há muito tempo ninguém passava por ali.

– Onde será que vai dar isso? – murmurou Tuppence. – Deve ter um destino.

“Talvez”, pensou ela quando a trilha deu duas curvas sinuosas em zigue-zague, “tenha sido isso que Alice no País das Maravilhas quis dizer ao se referir a uma trilha que de repente se sacode e muda de direção”. Os arbustos rarearam e surgiram loureiros, talvez os que haviam dado nome à propriedade. Uma trilha pedregosa, íngreme e estreita serpenteava morro acima por entre os pés de louros. Terminou abruptamente em quatro degraus cobertos de musgos. Os degraus levavam a um nicho outrora feito de metal, agora substituído por garrafas. Um santuário. Nele, um pedestal com uma escultura de pedra bastante deteriorada. Um menino de cesta na cabeça. Tuppence teve a impressão de que já vira algo parecido.

– Isso liga um local a uma data – falou ela. – Bem parecido com o que a tia Sarah tinha no jardim. Por sinal, um jardim com vários loureiros.

Suas memórias a remeteram até tia Sarah, a quem visitara em ocasiões esporádicas na infância. Lembrou das brincadeiras que faziam lá, como aquele jogo chamado River Horses. Para brincar de River Horses era preciso levar o bambolê junto. Tuppence, é bom que se diga, tinha seis anos na época. O bambolê representava os cavalos. Cavalos brancos crinudos de caudas graciosas. Com os cavalos, Tuppence atravessava em sua imaginação um relvado alto e espesso, alcançava um canteiro forrado de capim-dos-pampas, balançando as inflorescências plumosas ao vento, e subia por um caminho semelhante até chegar a um quiosquezinho no meio das faias, onde havia a escultura de um menino inclinado com cesta na cabeça. Tuppence, quando cavalgava os corcéis triunfantes até lá, sempre levava um presente para colocar na cesta; então dizia que era uma oferenda e fazia um pedido. E quase sempre o pedido se tornava realidade.

– Mas – lembrou-se Tuppence, sentando-se no último degrau da escada –, na verdade eu trapaceava. Eu pedia algo que eu sabia que era quase certo que ia acontecer. Então eu tinha a sensação de que meu pedido se realizava. Era mesmo mágico! Uma oferenda apropriada para um deus do passado. Mas não era um deus de verdade e sim um menininho gordinho. Ah... como era divertido todo aquele faz de conta!

Suspirou, retornou pela trilha e tomou o caminho da misteriosamente denominada KK.

KK parecia estar na mesma bagunça de sempre. Matilde tinha uma aparência desamparada e desprezada, mas duas outras coisas chamaram a atenção de Tuppence: banquinhos com as figuras de cisnes brancos na volta, feitos de porcelana. Um azul-escuro e o outro azul-celeste.

– Claro – disse Tuppence –, já vi esses bancos quando era menina. Decorando os avarandados. Uma tia minha, se não me engano, tinha dois. A gente os chamava de Oxford e Cambridge. Iguaizinhos a estes. Patos... Ou melhor, cisnes. Com essa mesma coisa estranha no assento, um buraco em S. A gente enfiava coisas dentro. Vou pedir para Isaac levar os banquinhos para fora e dar uma boa lavada neles. Então, quando o tempo melhorar, vou colocá-los na “varanda”, como diz o Tommy, ou na “galeria”, como o empreiteiro insiste em chamar. Acho mais bonito “avarandado”.

Deu meia-volta rápido rumo à porta, tropeçou em Matilde e...

– Ai, não! – exclamou Tuppence. – Que foi que eu fiz dessa vez?

Tinha chutado o banquinho de porcelana, que rolara no chão e se quebrara em pedaços.

– Ai, meu Deus – choramingou Tuppence –, é o fim de Oxford. Vou ter que me contentar com Cambridge. Não vai dar para colar Oxford. Os pedaços são muito irregulares.

Suspirou e ficou se perguntando o que Tommy estaria fazendo.

II

 

Tommy compartilhava lembranças com velhos amigos.

– O mundo anda cada vez mais bizarro – comentou o coronel Atkinson. – Ouvi falar que você e a sua esposa, como é o nome dela, Prudence (mas você a chama pelo apelido, Tuppence, isso mesmo), pois então, ouvi falar que foram morar no litoral. Num lugarejo perto de Hollowquay. Por que resolveram morar lá? Algo em especial?

– Encontramos uma casa barata – explicou Tommy.

– Ah, isso sempre é uma sorte, não é? Qual o nome dela? Precisa me deixar seu endereço.

– Estamos pensando em chamá-la de Cedar Lodge, porque tem um cedro magnífico lá. O nome original era The Laurels, mas carrega uma aura meio vitoriana, não é?

– The Laurels... The Laurels, em Hollowquay. Quer saber o que penso? O que anda aprontando, hein?

Tommy mirou aquele velho rosto ornado por um espesso bigode branco.

– Está metido em algo, não está? – indagou o coronel Atkinson. – Trabalhando para o governo de novo?

– Ah, estou muito velho para isso – respondeu Tommy. – Não me envolvo mais com isso desde que me aposentei.

– Não sei se acredito, não. Talvez seja uma resposta padrão. Talvez tenham lhe pedido para dizer isso. Afinal de contas, ainda falta descobrir muita coisa sobre aquele negócio todo.

– Que negócio? – perguntou Tommy.

– Ora, não leu ou ouviu falar sobre o assunto? O escândalo Cardington. Sabe, surgiu depois daquela história... das tais cartas... e do caso do submarino Emlyn Johnson.

– Lembro vagamente – disse Tommy.

– Não era o submarino em si, mas foi isso que chamou atenção para o caso. Aquelas cartas entregavam o jogo, politicamente falando. Sim. Cartas. Quem conseguisse colocar as mãos nelas teria feito um estrago. Teria atraído a atenção para pessoas tidas na época como as mais confiáveis dentro do governo. Impressionante como essas coisas acontecem, não é? Você sabe! Traidores infiltrados, sempre confiáveis, sempre sujeitos excelentes, sempre acima de qualquer suspeita... e todo o tempo... Bem, pouca coisa veio à tona. – Piscou para Tommy. – Quem sabe não enviaram vocês para dar uma olhada?

– Uma olhada em quê? – quis saber Tommy.

– Na casa. Não foi The Laurels que você disse? Às vezes, o pessoal brincava com The Laurels. O pessoal da segurança foi até lá e deu uma boa investigada, com o resto da turma. Pensavam que iam encontrar alguma prova útil na casa. Uma das hipóteses era de que as cartas tinham sido enviadas ao continente (à Itália para ser mais exato) pouco antes do alerta. Mas outra linha de investigação defendia que ainda estavam escondidas naquela região. O tipo de lugar repleto de porões, pedras soltas e recantos variados. Tommy, meu garoto, confesse que está de volta à caça!

– Garanto que hoje não faço mais nenhuma atividade oficial.

– Era isso que a gente pensava quando você estava naquele outro lugar. No começo da última guerra. Quando perseguiu e capturou aquele sujeito alemão. Aquele e a mulher com livros de cantigas infantis. Sim. Trabalhinho para lá de inteligente, aquele. E agora escalaram você para seguir outro rastro!

– Tolice – retrucou Tommy. – Não perca tempo enfiando essas ideias na cabeça. Não passo de um velhote aposentado agora.

– Não passa de uma raposa velha. Melhor que a maioria desses novatos. Sim. Fica aí sentado com esse olhar inocente... Mas vou parar com o interrogatório. Seria indelicadeza pedir que revele segredos estatais, não é mesmo? Mas peça a sua esposa para tomar cuidado. Sabe que ela sempre se arrisca demais. Escapou por um triz no caso do M ou N.

– Tuppence – afirmou Tommy – só está interessada na história do lugar, sabe. Quem morou, onde morou... Nas fotos das famílias antigas que um dia habitaram a casa, essas coisas. E na reforma do jardim. São nossos interesses básicos hoje em dia. Jardins e catálogos de tulipas.

– Só vou acreditar nisso se transcorrer um ano sem nada empolgante acontecer. Mas eu conheço você, Beresford, e conheço a nossa sra. Beresford também. Os dois formam uma bela dupla, e aposto que vão descobrir algo. Uma coisa é certa: se aqueles papéis um dia vierem à tona, o efeito no front político será devastador. Muita gente não vai gostar. Não mesmo. Gente vista hoje como pilares da retidão! Mas muitos analistas os consideram perigosos. Não se esqueça. Até os mais inofensivos têm conexões com gente muito perigosa. Então tenha cuidado e faça sua esposa ter cuidado também.

– Puxa – disse Tommy –, essas suas ideias estão me deixando entusiasmado.

– Vá se entusiasmando, mas tome conta da sra. Tuppence. Sou admirador dela, sempre foi uma boa moça.

– Moça é meio exagerado – avaliou Tommy.

– Ora, não fale assim de sua mulher. Não pegue esse hábito. Mulher como aquela é uma em um milhão. Tenho pena da pessoa que ela estiver investigando. Aposto que hoje ela está agindo.

– Acho que não. Deve ter ido tomar chá na casa de alguma velhinha.

– Hum... Velhinhas às vezes fornecem informações úteis. E crianças de cinco anos de idade também. Às vezes de onde você menos espera surge uma verdade sobre a qual ninguém sonha. Ficaria pasmo se soubesse...

– Sei que ficaria, coronel.

– Mas não devemos contar segredos – disse o coronel Atkinson, balançando a cabeça.

III

 

A caminho de casa, Tommy grudou o nariz no vidro da janela do trem e admirou a veloz paisagem rural. “Fico pensando...”, disse ele com seus botões, “... aquele velhote em geral está por dentro das coisas. Bem informado. Mas o que poderia haver lá que possa ser de interesse hoje? Ficou tudo no passado... não poderia haver nada importante antes daquela guerra. Nada que importasse hoje em dia.” E então mergulhou em pensamentos, que lhe pareciam estar atrás de sua mente em vez de dentro dela. Novas ideias dominavam o mundo... ideias de mercado comum. Em algum lugar, havia netos e sobrinhos, novas gerações... membros mais jovens das famílias tradicionais, com força, influência e poder na sociedade apenas porque haviam nascido na família certa. Se, por acaso do destino, não fossem leais, poderiam ser aliciados, poderiam acreditar em novas crenças ou em velhas crenças revividas, seja lá como se queira pensar no assunto. A Inglaterra vivia uma conjuntura engraçada, uma conjuntura diferente. Ou sempre estivera na mesma conjuntura? Sempre uma camada de lama sob a superfície lisa. Perto dos seixos, perto das conchas, no fundo do mar, as águas são turvas. Em algum lugar, algo vagaroso se move. Algo a ser encontrado e eliminado. Mas não numa província como Hollowquay. Hollowquay estava fora de moda, se é que um dia estivera na moda. Aldeia de pescadores que evoluiu e teve seu auge como uma espécie de Riviera inglesa, agora era um mero resort de verão lotado apenas na alta temporada. Hoje, a maioria prefere viajar ao estrangeiro.

IV

 

– E então? – indagou Tuppence ao se erguer da mesa de jantar naquela noite e encaminhar-se à sala contígua para tomar café. – Foi divertido ou não foi? Como vão os velhos amigos?

– Cada vez mais velhos – disse Tommy. – E que tal o chá na sua amiga?

– Veio o afinador de piano – informou Tuppence. – Choveu à tarde, então não fui vê-la. Uma pena, a velha deve saber coisas bem interessantes.

– Meu amigo sabia – revelou Tommy. – Fiquei bem surpreso até. O que pensa mesmo deste lugar, Tuppence?

– Desta casa?

– Não da casa, da aldeia. Hollowquay.

– É um lugar pacato.

– Como assim, pacato?

– Gosto dessa palavra. As pessoas costumam ignorá-la, não sei por quê. Um lugar pacato é um lugar onde as coisas não acontecem, e a gente nem quer que elas aconteçam. Ficamos felizes por elas não acontecerem.

– Ah, isso é por causa de nossa idade.

– Não é por causa disso. É bom saber que existem lugares onde as coisas não acontecem. Mas confesso que hoje algo quase aconteceu.

– Como assim, quase aconteceu? Andou fazendo alguma bobagem, Tuppence?

– Claro que não.

– Então o que quer dizer?

– Sabe a cúpula de vidro no telhado da estufa, aquela que balançou um pouco aquele dia? Pois é, veio abaixo. Por um triz não caiu na minha cabeça. Eu poderia ter virado picadinho.

– Parece bem inteira – falou Tommy, olhando para ela.

– Tive sorte. Mas ainda assim, me fez pular de susto.

– Agora vamos ter que chamar o velho rapazinho que costuma vir aqui fazer biscates, como é mesmo o nome dele? Isaac, não é? Precisamos chamá-lo e pedir para ele dar uma conferida nos outros vidros... Afinal, não queremos que você passe desta para melhor, não é, Tuppence?

– Quem compra uma casa velha sempre corre o risco de encontrar algo errado com ela.

– Acha que tem algo errado com esta casa, Tuppence?

– O que diabos quer dizer com errado com esta casa?

– É que hoje fiquei sabendo de uma coisa esquisita sobre ela.

– Coisa esquisita... sobre esta casa?

– Sim.

– Vai me desculpar, Tommy, parece impossível – duvidou Tuppence.

– Por que impossível? Só porque ela aparenta ser pacata e inocente? Bem pintadinha e reformada?

– Não. Bem pintadinha, reformada e inocente, tudo isso é por nossa conta. Parecia estragada e desleixada quando a compramos.

– Por isso saiu barata.

– Está meio lacônico, Tommy – disse Tuppence. – O que se passa?

– Bem, foi o Monty, o velho galã bigodudo, sabe?

– Ah, o galã. Mandou lembranças carinhosas para mim?

– Claro. Recomendou que se cuidasse e que eu cuidasse de você.

– Ele sempre diz isso. Mas não vejo por que deva me cuidar por aqui.

– Ora, parece o tipo de lugar em que é bom se cuidar.

– Quer ser mais claro, Tommy?

– Tuppence, o que pensaria se eu dissesse que ele sugeriu, ou insinuou, como queira, que estávamos aqui não de chuteiras penduradas, mas como agentes na ativa, que estávamos outra vez, como nos tempos de M ou N, a trabalho, enviados em nome da segurança e da ordem, para descobrir alguma coisa, para descobrir o que há de errado neste lugar?

– Não sei se é você quem está sonhando ou o velho bigodudo, se foi ele quem insinuou isso.

– Pois foi ele. Parecia pensar mesmo que estamos aqui numa espécie de missão, para descobrir alguma coisa.

– Descobrir alguma coisa? Que tipo de coisa?

– Alguma coisa escondida nesta casa.

– Alguma coisa escondida nesta casa! Tommy, quem está maluco, você ou ele?

– Cheguei a pensar que ele estava mesmo maluco, mas não tenho certeza.

– O que pode ser encontrado nesta casa?

– Sei lá, algo que alguém escondeu um dia.

– Um tesouro? Joias da coroa russa no porão?

– Não um tesouro. Algo perigoso para alguém.

– Curioso – falou Tuppence.

– Por quê? Achou alguma coisa?

– Claro que não. Mas parece que houve um escândalo neste lugar há um tempão. Ninguém se lembra de verdade, mas é o tipo de coisa que as vovós contam, e os empregados fofocam. Beatrice tem uma amiga que sabe algo do assunto. E tem a ver com Mary Jordan. Muito sigiloso.

– Está imaginando coisas, Tuppence? Retrocedeu aos dias gloriosos de nossa juventude, à época em que alguém entregou uma encomenda secreta a uma moça a bordo do Lusitania, aos dias em que respirávamos aventuras e

seguíamos o rastro do enigmático sr. Brown?[1]

– Minha nossa, Tommy, isso faz muito tempo! Nossa alcunha era os Jovens Aventureiros. Agora nem parece que foi real, parece?

– É, não parece. Nem um pouquinho. Mas foi real, sim. E como foi. Assim como tem um monte de coisa real em que a gente não consegue acreditar. Deve ter sido há pelo menos sessenta ou setenta anos.

– O que Monty disse mesmo?

– Cartas ou documentos – explicou Tommy – capazes de criar um grande motim político. Um poderoso que não merecia o cargo. Cartas, documentos, coisas enfim que o deixariam com as calças na mão se viessem à tona um dia. Toda sorte de intrigas, coisa muito antiga.

– Na época de Mary Jordan? Que estranho – ponderou Tuppence. – Tommy, tem certeza que não dormiu no trem e sonhou com tudo isso?

– Talvez – respondeu Tommy. – É mesmo estranho.

– Por outro lado – disse Tuppence –, bem que a gente poderia dar uma olhadinha, já que estamos morando aqui.

Ela correu o olhar pela sala.

– Nunca imaginei que havia algo escondido por aqui. E você, Tommy?

– Não parece o tipo de casa que alguém escolheria para esconder algo. Várias famílias já moraram na casa depois daquela época.

– Sim. Família após família, até onde eu sei. Eu suponho que algo poderia estar escondido no sótão ou no porão, ou ainda enterrado embaixo do piso do quiosque. Vai ser bem divertido! – animou-se Tuppence. – Quando não tivermos nada melhor para fazer, e nossas costas estiverem doloridas de tanto plantar tulipas, a gente pode dar uma procurada por aí. Só para pôr os miolos para funcionar, sabe. Partir da pergunta: Se eu quisesse esconder algo, que lugar escolheria para que ninguém conseguisse achar?

– Não acho que exista algo incógnito aqui – falou Tommy. – Não com jardineiros e pessoas, sabe, sempre bisbilhotando, e com diferentes famílias morando aqui, corretores de imóveis e tudo mais.

– Nunca se sabe. Pode estar até dentro de um bule de chá.

Tuppence levantou-se, foi até a cornija da lareira, subiu num banquinho e pegou um bule de chá chinês. Levantou a tampa e deu uma espiada.

– Nada aqui – falou ela.

– Lugar impróprio – desdenhou Tommy.

– Pensa – quis saber Tuppence, com uma voz esperançosa – que alguém tentou acabar comigo e afrouxou a claraboia de vidro da estufa para ela cair em cima de mim?

– Acho difícil – disse Tommy. – Mais provável que o objetivo fosse eliminar o velho Isaac.

– Que decepcionante – falou Tuppence. – Seria boa a sensação de ter escapado por um triz.

– Bem, é melhor você se cuidar. Eu também vou cuidar de você.

– Sempre me trata como criança – reclamou Tuppence.

– Não deixa de ser um cavalheirismo de minha parte – falou Tommy. – Deveria ficar satisfeita por ter um marido dedicado.

– Não tentaram atirar em você nem descarrilar o trem ou coisa parecida, tentaram? – indagou Tuppence.

– Não – respondeu Tommy. – Mas é melhor checar os freios do carro antes de sair na próxima vez. Ah, tudo isso é bobagem – acrescentou ele.

– Claro que é – concordou Tuppence. – Pura bobagem. Por outro lado...

– Por outro lado o quê?

– Só de pensar numa coisa dessas já é meio divertido.

– Pensa que Alexander foi assassinado porque sabia de alguma coisa? – perguntou Tommy.

– Ele sabia algo sobre quem matou Mary Jordan. “Foi um de nós...” – O rosto de Tuppence se iluminou. – Nós – falou ela com ênfase. – Temos que descobrir a quem Alexander se referia ao dizer “nós”. Temos que desvendar um crime. Voltar ao passado e solucioná-lo... descobrir onde aconteceu e por que aconteceu. Nunca antes enfrentamos desafio igual.

 

[1] Menção à primeira aventura dos Beresford, O inimigo secreto (1922). (N.T.)