Portal do Destino

Agatha Christie · Capítulo 29 de 31

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Portal do Destino

Capítulo 15 - Hannibal e o sr. Crispin no front

CAPÍTULO 15

 

Hannibal e o sr. Crispin no front

 

I

 

Albert bateu à porta do quarto e, em resposta ao “Pode entrar” de Tuppence, enfiou a cabeça pela porta.

– A mesma senhorita que veio no outro dia – falou ele. – A srta. Mullins. Ela está aqui. Quer falar com a senhora uns minutinhos. Sugestões para o jardim, pelo que entendi. Eu disse que a senhora estava deitada e que não tinha certeza se poderia recebê-la.

– Você tem cada palavreado, Albert – falou Tuppence. – Está certo. Vou recebê-la.

– Bem na hora que eu ia trazer o seu café.

– Pode trazer outra xícara junto. Tem o suficiente para duas pessoas, não tem?

– Claro que sim.

– Muito bem, então. Pode trazer, coloque na mesa aqui do quarto e faça a srta. Mullins subir.

– E o que eu faço com Hannibal? – lembrou Albert. – Levo para baixo e tranco na cozinha?

– Ele não gosta de ser trancado na cozinha. Empurre-o para dentro do banheiro e feche a porta.

Hannibal, magoado com a falta de respeito em relação à sua pessoa, permitiu de má vontade que Albert cumprisse a determinação, o empurrasse para dentro do banheiro e fechasse a porta em sua cara. Mas não deixou de protestar com latidos ferozes.

– Quieto! – gritou Tuppence. – Quietinho aí!

Hannibal até concordou em parar de latir, mas deitou-se, enfiou o focinho na fresta embaixo da porta e ficou uivando de modo não cooperativo.

– Ah, sra. Beresford! – exclamou a srta. Mullins. – Desculpe o incômodo, mas achei que a senhora gostaria de dar uma olhada neste livro sobre paisagismo. Dicas para plantio conforme a estação. Espécies arbustivas raríssimas e impressionantes, bem-adaptadas ao nosso tipo de solo, embora certas pessoas afirmem o contrário... Puxa vida... é muita bondade sua. Sim, aceito uma xícara de café. Por favor, deixa que eu sirvo para a senhora, é tão difícil quando estamos acamados. Imagino, talvez...

A srta. Mullins mirou Albert, que em atitude serviçal puxou uma cadeira.

– Mais alguma coisa, senhorita? – perguntou ele.

– Não, obrigada. Minha nossa, é a campainha tocando de novo?

– Deve ser o leiteiro – falou Albert. – Ou quem sabe da mercearia. É a manhã que eles passam. Com licença.

Saiu do quarto, encostando a porta atrás de si. Hannibal deu outro uivo.

– É o meu cachorro – explicou Tuppence. – Está zangado por não participar da reunião, por isso fica fazendo todo esse barulho.

– Com açúcar, sra. Beresford?

– Um cubo – pediu Tuppence.

A srta. Mullins serviu uma xícara de café com leite. Tuppence disse:

– Não muito forte.

A visitante colocou a xícara na mesa de cabeceira ao lado de Tuppence e serviu outra xícara para si.

De repente ela tropeçou, apoiou-se numa mesinha e desabou de joelhos numa exclamação de desalento.

– Machucou-se? – indagou Tuppence.

– Não foi nada. Mas quebrei o vaso. Enrosquei o pé no tapete... como sou desajeitada... e seu belo vaso quebrou. Querida sra. Beresford, o que vai pensar de mim? Foi sem querer.

– Claro – disse Tuppence bondosamente. – Deixe-me dar uma olhada. Podia ter sido pior. Quebrou em dois pedaços. Vai dar para colar. Nem vai se notar o sinal da cola.

– Mesmo assim estou envergonhada – declarou a srta. Mullins. – A senhora deve estar doente e eu não deveria ter vindo hoje, mas eu queria tanto contar para a senhora...

Hannibal começou a latir outra vez.

– Pobre cachorrinho! – exclamou a srta. Mullins. – Posso soltá-lo?

– Não aconselharia – falou Tuppence. – Às vezes ele não é confiável.

– Puxa vida, é de novo a campainha lá embaixo?

– É o telefone – falou Tuppence. – Albert vai atender.

Porém, foi Tommy quem atendeu.

– Alô – disse ele. – Pois não? Ah, entendo. Quem? Entendo... Ah. Um inimigo? Tudo bem. Já tomamos as contramedidas. Obrigado.

Pôs o fone no gancho e fitou o sr. Crispin.

– Palavras de advertência? – perguntou o visitante.

– Sim – falou Tommy.

Continuou a fitar o sr. Crispin, que comentou:

– Difícil de saber, não é? Quem é inimigo ou amigo.

– Às vezes, quando se descobre já é tarde. “Portal do Destino, Caverna do Desastre” – recitou Tommy.

O sr. Crispin o mirou com certa surpresa.

– Desculpe-me – falou Tommy. – Por uma razão ou outra pegamos o hábito de recitar poesia nesta casa.

– Flecker, não é mesmo? Portões de Bagdá. Ou seria Portões de Damasco?

– Não quer subir? – convidou Tommy. – Tuppence está só repousando, não está doente nem nada. Nem um simples resfriado.

– Servi o café no quarto – falou Albert, reaparecendo de súbito –, com uma xícara extra para a srta. Mullins. Estão lá em cima com um livro de jardinagem.

– Sei – falou Tommy. – Tudo está funcionando direitinho. Cadê o Hannibal?

– Trancado no banheiro.

– Fechou bem a porta? Porque senão ele escapa.

– Fiz exatamente como o senhor disse.

Tommy subiu as escadas. O sr. Crispin foi logo atrás. Tommy deu uma batidinha na porta do quarto e entrou. Da porta do banheiro, Hannibal deu mais um veemente latido de protesto, então saltou contra a porta, a tranca cedeu, e num piscar de olhos estava no meio do quarto. Lançou um rápido olhar ao sr. Crispin e avançou com toda a energia contra a srta. Mullins, rosnando furiosamente.

– Ai, meu Deus – falou Tuppence –, ai, meu Deus.

– Bom menino, Hannibal – falou Tommy. – Não acha, sr. Crispin?

Virou a cabeça ao sr. Crispin.

– Conhece os inimigos dele... e os inimigos dos donos.

– Ai, meu Deus – falou Tuppence. – Hannibal mordeu a senhora?

– Sim. Cachorro traiçoeiro – disse a srta. Mullins, erguendo-se e olhando carrancuda para Hannibal.

– A segunda vez, não? – indagou Tommy. – Ele a perseguiu aquele dia em que estava escondida na moita de capim-dos-pampas, não foi?

– Ele sabe distinguir o joio do trigo – disse o sr. Crispin. – Há quanto tempo, não é mesmo, minha querida Dodo?

A srta. Mullins se levantou, mirou Tuppence, depois Tommy e o sr. Crispin.

– Mullins – falou o sr. Crispin. – Desculpe-me se não estou atualizado. É o nome de casada ou é seu codinome?

– Meu nome é e sempre foi Iris Mullins.

– Todo mundo lhe chamava de Dodo. Inclusive eu... É um prazer lhe encontrar aqui, mas acho melhor sairmos logo. Termine seu café. Imagino que não tenha nada de errado com ele. Sra. Beresford? É um prazer conhecê-la. Se me permite um conselho, eu não beberia o seu café.

– Meu Deus! Ainda bem que não tomei nenhum gole.

A srta. Mullins deu um passo à frente. Num átimo Crispin interpôs-se entre ela e Tuppence.

– Nem pense nisso, querida Dodo – avisou. – Pode deixar comigo. A xícara é da casa, sabe. E seria bom mandar fazer uma análise do conteúdo. Trouxe uma pequena dose, não é? É fácil administrar uma pequena dose na xícara na hora de servir um doente ou suposto doente.

– Garanto que não fiz uma coisa dessas. Tirem esse cachorro daqui.

Hannibal mostrava toda a vontade do mundo de persegui-la escadaria abaixo.

– Não vai sossegar enquanto não vê-la fora dos limites da propriedade – disse Tommy. – Ele é bem meticuloso quanto a esse detalhe. Só para de morder as pessoas depois que saem pelo portão. Até que enfim, Albert. Viu o que aconteceu, por acaso?

Albert apareceu na porta e correu o olhar pelo recinto.

– Vi muito bem. Fiquei espiando pela fresta da porta. A srta. Mullins pôs um pó na xícara da patroa. Discretamente.

– Não sei do que você está falando – defendeu-se a srta. Mullins. – Eu... ai, minha nossa, preciso ir. Tenho um compromisso importante.

Ela disparou para fora do quarto e correu escada abaixo. Hannibal lançou um olhar rápido e chispou atrás dela. O sr. Crispin não demonstrou sinal de animosidade; limitou-se a sair rápido no encalço de srta. Mullins.

– Espero que ela seja uma boa corredora – comentou Tuppence. – Caso contrário, Hannibal vai alcançá-la. Escreve o que estou dizendo! É um ótimo cão de guarda, não é?

– Tuppence, aquele era o sr. Crispin, recomendado pelo sr. Solomon. Chegou na hora certa! Creio que ele estava observando o que ia acontecer e esperando o momento de agir. Não quebre essa xícara nem jogue fora esse café até o colocarmos num frasco. Vamos mandar analisar para descobrir o que ele contém. Vista seu melhor chambre, Tuppence, e desça até a sala de estar para tomarmos um drinque antes do almoço.

II

 

– E agora – disse Tuppence – nunca vamos descobrir o porquê disso tudo.

Abanou a cabeça em profundo desânimo. Ergueu-se da poltrona e aproximou-se da lareira.

– Quer colocar uma acha de lenha no fogo? – indagou Tommy. – Deixe comigo. Está proibida de fazer esforço.

– Meus braços estão perfeitos – retorquiu Tuppence. – Até parece que eu quebrei um osso! Foi só um arranhãozinho de nada.

– Foi um ferimento à bala – afirmou Tommy. – Pode se orgulhar. É um ferimento de guerra.

– É verdade! – concordou Tuppence. – Pareceu uma guerra.

– Mas conseguimos – disse Tommy – pegar a srta. Mullins com a boca na botija.

– Hannibal teve uma atuação excelente! – elogiou Tuppence.

– Sim – reconheceu Tommy. – Foi ele quem nos contou, de modo enfático. Praticamente saltou em cima da moita. O olfato o alertou. Tem um olfato incrível.

– O meu olfato falhou – comentou Tuppence. – A srta. Mullins parecia a resposta a minhas preces. Esqueci completamente que só devíamos contratar alguém indicado pelo sr. Solomon. O sr. Crispin contou mais coisas a você? O nome verdadeiro dele não deve ser Crispin.

– Possivelmente não – disse Tommy.

– Ele veio aqui investigar? É muita gente fazendo a mesma coisa.

– Não exatamente investigar – disse Tommy. – Creio que ele foi enviado para cuidar da segurança. Para ficar de olho em você.

– Ficar de olho em mim – disse Tuppence – e em você também, eu diria. Onde ele está agora?

– Prendendo a srta. Mullins, calculo.

– É incrível como essas aventuras estimulam nosso apetite. Estou com uma fome danada. Com uma vontade incontrolável de comer siri quentinho com molho feito de creme e uma pitada de pó de curry.

– Pelo visto está boa de novo – afirmou Tommy. – É ótimo vê-la falando de comida desse jeito.

– Nunca estive doente – falou Tuppence. – Estive na alça da mira. É diferente.

– Sim. Hannibal disparou – falou Tommy – e nos alertou sobre um inimigo escondido na moita. Foi a srta. Mullins, vestida de homem, que se escondeu lá e atirou em você...

– Desconfiamos dela – falou Tuppence – e pensamos que ela tentaria outra vez. Fiquei presa à cama com meu ferimento, e fizemos nossos preparativos. Não é mesmo, Tommy?

– Sem dúvida – concordou Tommy. – Imaginei que ela ia ficar sabendo que um dos tiros tinha acertado de raspão e que você estava de cama.

– Então apareceu cheia de solicitude feminina – disse Tuppence.

– Nosso plano foi perfeito – disse Tommy. – Albert ficou em guarda permanente, observando cada passo que ela dava e tudo que ela fazia...

– E trazendo – completou Tuppence – uma bandeja com o café, sem esquecer a xícara adicional para a visitante.

– Viu a srta. Mullins (ou Dodo, como Crispin a chamava) colocar veneno em sua xícara?

– Não vi mesmo – admitiu Tuppence. – Ela fingiu que tropeçou no tapete, trombou naquela mesinha com o nosso belo vaso e se desmanchou em desculpas. Fiquei com a atenção voltada ao vaso quebrado, vendo se tinha jeito de colar. Por isso não percebi.

– Albert viu – disse Tommy. – Ficou espiando pela fresta da porta.

– E a ideia de prender Hannibal no banheiro foi genial, deixando a porta semitrancada. Hannibal é campeão em abrir portas maltrancadas. Ele pula como uma mola e aparece como um tigre no meio do quarto.

– Excelente descrição – falou Tommy.

– Agora suponho que o sr. Crispin, ou seja qual for o nome dele, termine as investigações. Mas tenho lá as minhas dúvidas. Como vai conseguir conectar a srta. Mullins com Mary Jordan? Ou com uma pessoa como Jonathan Kane, que existe apenas no passado?

– Só no passado, vírgula. Pode existir uma nova edição ou um renascimento. Não faltam novos amantes da violência a qualquer preço (a “sociedade da bandidagem feliz” ou coisa que o valha) nem superfascistas nostálgicos dos dias maravilhosos de Hitler e sua trupe alegre.

– Falando nisso, andei relendo Conde Hannibal – falou Tuppence. – Stanley Weyman. Um dos melhores livros dele. Estava lá no sótão, no meio dos livros de Alexander.

– O que tem isso?

– Fiquei pensando que hoje em dia as coisas ainda são daquele jeito. E sempre têm sido. Todas aquelas criancinhas indefesas que partiram para a Cruzada dos Inocentes, tão repletas de alegria, prazer e orgulho, pobrezinhas. Consideravam-se escolhidas pelo Senhor para libertar Jerusalém e achavam que os mares se abririam para elas como a Moisés. E hoje moças e rapazes bonitos vão a julgamento toda hora porque mataram a pauladas um velhinho que recém recebera a aposentadoria no banco. Sem falar no massacre de São Bartolomeu. Todas essas coisas se repetem. Há poucos dias comentou-se que os novos fascistas tinham tentáculos dentro de uma universidade dita respeitável. Sabe duma coisa? Acho que no fim das contas ninguém vai nos contar nada. E pensa mesmo que o sr. Crispin vai descobrir um esconderijo que nunca ninguém descobriu? Cisternas. Muitas vezes os assaltantes de bancos escondem o produto do roubo em cisternas. Lugar meio úmido, para o meu gosto, para se esconder algo. Pensa que quando o sr. Crispin concluir as investigações (ou seja lá o que for que ele está fazendo) ele vai voltar aqui e continuar a cuidar da minha segurança... e da sua, Tommy?

– Não preciso dele para cuidar de minha segurança – disse Tommy.

– Não seja arrogante – retrucou Tuppence.

– Talvez ele apareça para se despedir – ponderou Tommy.

– Ah, sim. Afinal, ele é muito bem-educado, não é?

– Vai querer ter certeza de que está tudo bem com você.

– Foi só um ferimento de raspão, e já tenho médico, obrigada.

– O curioso é que ele entende mesmo de jardinagem – comentou Tommy. – Pude notar isso. Trabalhou para um amigo dele, que por acaso era o sr. Solomon, morto há alguns anos. Bom disfarce, esse detalhe, pois ele pode dizer que trabalhou para ele, e o pessoal sabe que ele trabalhou. Então passa uma aura de completa confiança.

– Sim, é preciso pensar em todos os detalhes – falou Tuppence.

A campainha da frente tocou, e Hannibal saiu da sala como um tigre em disparada, pronto para matar qualquer intruso que se arriscasse a invadir o recinto sagrado que ele protegia. Tommy voltou com um envelope na mão.

– Endereçado a nós dois – anunciou. – Posso abrir?

– Vá em frente – autorizou Tuppence.

Ele abriu o envelope.

– Bem – disse ele –, isso abre perspectivas para o futuro.

– O que é?

– É um convite do sr. Robinson. Para você e para mim. Para jantarmos com ele sem ser na semana que vem, na outra, quando então ele espera que você esteja plenamente recuperada e com vigor. Na casa de campo dele. Em algum lugar de Sussex.

– Será que ele vai nos revelar alguma coisa, então? – quis saber Tuppence.

– Talvez – supôs Tommy.

– Será que devo levar minha listinha comigo? – perguntou Tuppence. – Sei de cor e salteado a essas alturas.

Correu os olhos pela lista.

– Flecha negra, Alexander Parkinson, Oxford e Cambridge, Grin-hen-lo, KK, estômago de Matilde, Caim e Abel, Truelove...

– Chega – pediu Tommy. – Parece maluquice.

– Não deixa de ser. Quem mais vai comparecer ao jantar na casa do sr. Robinson?

– Possivelmente o coronel Pikeaway.

– Nesse caso – comentou Tuppence –, é melhor eu não esquecer da pastilha contra tosse, não é mesmo? Estou curiosa para conhecer o sr. Robinson. Não acredito que ele seja tão gordo e amarelo como você o descreve... Ah!... Mas, Tommy, não é daqui a duas semanas que Débora vai trazer as crianças para passar o fim de semana?

– Não – retrucou Tommy. – Elas vêm no próximo fim de semana.

– Ainda bem. Então não tem problema – disse Tuppence.