Portal do Destino

Agatha Christie · Capítulo 21 de 31

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Portal do Destino

Capítulo 7 - O inquérito

CAPÍTULO 7

 

 

O inquérito

 

O médico-legista apresentou as provas forênsicas. Dois transeuntes prestaram depoimento. A família atestou a boa saúde do falecido; toda e qualquer pessoa que pudesse ter alguma inimizade com ele (como adolescentes repreendidos) foi convidada a colaborar com a polícia e declarou-se inocente. Empregadores também tiveram que prestar depoimento, incluindo a última patroa, a sra. Prudence Beresford, e o marido dela, o sr. Thomas Beresford. Tudo seguiu os trâmites e resultou no veredito: assassinato por uma ou mais pessoas desconhecidas.

Tuppence saiu do inquérito e Tommy a abraçou enquanto os dois passavam pelo grupinho de pessoas que esperava lá fora.

– Falou bem, Tuppence – elogiou Tommy, ao atravessarem o portão do jardim. – Bem mesmo. Melhor do que os outros depoentes. Com clareza e dicção. O juiz ficou satisfeito com você.

– Não queria que ninguém ficasse satisfeito – falou Tuppence. – Não me agrada a ideia de Isaac morto com uma pancada na cabeça.

– Pelo jeito alguém não gostava muito dele – disse Tommy.

– Mas por quê? – indagou Tuppence.

– Não sei – respondeu Tommy.

– E eu muito menos – disse Tuppence. – Mas me pergunto se não tem nada a ver conosco.

– Afinal, o que você quer dizer, Tuppence?

– Sabe muito bem o que eu quero dizer – falou Tuppence. – É este lugar. Nossa casa. Nossa nova e encantadora casa. Com jardim e tudo mais. Não é o lugar certo para nós? Assim pensávamos – disse Tuppence.

– Continuo pensando – rebateu Tommy.

– Você é mais otimista do que eu – disse Tuppence. – Tenho a sensação inquietante de que há algo errado aqui. Algo mal resolvido.

– Não diga outra vez – pediu Tommy.

– Não diga outra vez o quê?

– Aquelas duas palavrinhas.

Tuppence baixou a voz e cochichou no ouvido de Tommy.

– Mary Jordan?

– Sim. Isso passou por minha cabeça.

– E pela minha também. Mas que relação algo tão antigo pode ter com o presente? Que importância tem o passado? – questionou Tuppence. – Não deveria influenciar... os acontecimentos atuais.

– O passado não tem nada a ver com o presente... É isso que você quer dizer? Mas tem – falou Tommy –, de maneiras inimagináveis. Maneiras que ninguém jamais pensaria.

– O que acontece hoje é consequência do passado?

– É como um terço comprido, intercalando espaços e contas.

– Como na aventura com Jane Finn. Quando éramos jovens e ansiávamos por aventuras.

– E nós as tivemos – falou Tommy. – Às vezes olho para trás e fico imaginando como conseguimos sair vivos daquelas situações.

– E aquela vez que criamos aquela agência e fingimos que éramos detetives?

– Aquilo foi divertido – recordou Tommy. – Lembra...

– Não quero lembrar – falou Tuppence. – Não é hora de nostalgia, a não ser como ponto de partida, como se diz. Em todo caso, nos deu bastante traquejo, não é mesmo? Para enfrentar nosso caso mais difícil.

– Ah – falou Tommy. – Sra. Blenkensop, não é?

Tuppence caiu na risada.

– Sim. A sra. Blenkensop. Nunca vou esquecer do choque que tive – continuou Tommy. – Entrei naquela sala e lá estava você sentada fazendo tricô. Como teve presença de espírito, Tuppence, para fazer o que fez, fingir que saiu só para escutar minha conversa com o sr. Fulano. E então...

– E então a sra. Blenkensop – completou Tuppence, rindo de novo. – M ou N, ou “Gansinho, tolinho”.

– Mas acredita mesmo... – Tommy vacilou – que todos esses casos foram pontos de partida para o que está acontecendo hoje?

– De certo modo, sim – falou Tuppence. – O sr. Robinson não teria dito o que disse se não tivesse uma porção daquelas coisas na cabeça. Inclusive eu.

– Você inclusive!

– Mas agora – disse Tuppence – tudo mudou. Com Isaac morto, atingido na cabeça em pleno jardim de nossa casa.

– Pensa que isso tem conexão com...

– Não deixo de pensar nisso – falou Tuppence. – Não estamos mais investigando um inocente mistério do passado e coisas do gênero. Agora se tornou bem pessoal. Com o velho Isaac assassinado.

– Era muito velho e pode ter levado um tombo sozinho.

– Não ouviu o depoimento do médico-legista hoje de manhã? Alguém quis matá-lo. Por que motivo?

– Por que não quiseram nos matar se o problema era conosco? – indagou Tommy.

– Talvez ainda tentem. Talvez Isaac fosse nos contar algo. Talvez tenha ameaçado alguém que iria contar algo sobre a moça, os Parkinson ou aquele negócio de espionagem na guerra de 1914. Os segredos vendidos. Percebe? Então ele teve que ser silenciado. Mas se não tivéssemos vindo aqui investigar e fazer perguntas, nada disso teria acontecido.

– Não fique tão agitada.

– Estou agitada. Agora não estou mais nisso por diversão. Isso não é divertido. Agora é diferente, Tommy. Estamos no encalço de um assassino. Mas quem? Não sabemos ainda, mas podemos descobrir. Não é o passado, é o presente. Aconteceu há apenas seis dias. É o presente. Conectado conosco e com esta casa. E temos de descobrir e vamos descobrir. Não sei como, mas temos de ir atrás de todas as pistas e seguir cada desdobramento. Sou um sabujo com o focinho no chão, seguindo um rastro. Tenho de segui-lo, e você tem que ser o perdigueiro. Fazer diligências em diferentes locais. Como está fazendo agora. Descobrindo coisas. Providenciando para que... como você chama? A pesquisa seja realizada. Tem gente que sabe de coisas, não por experiência própria, mas de ouvir falar por outras pessoas. Histórias que escutaram. Boatos. Fofocas.

– Mas, Tuppence, não pensa mesmo que...

– Penso sim – falou Tuppence. – Não sei como, mas basta uma ideia real e convincente sobre algo sombrio, tenebroso e maléfico... E acertar Isaac na cabeça foi sombrio e maléfico... – Fez uma pausa.

– Por que não mudamos o nome da casa? – falou Tommy.

– Voltar a chamá-la de Swallow’s Nest em vez de The Laurels?

Uma revoada de passarinhos passou sobre eles. Tuppence virou a cabeça e olhou para trás, rumo ao portão do jardim.

– Antigamente chamava-se Swallow’s Nest. Como termina aquela citação? Aquela de sua pesquisadora. Portal da Morte, não era?

– Portal do Destino.

– Parece alusão ao que aconteceu com Isaac. Portal do Destino... O portão de nosso jardim...

– Não se preocupe tanto, Tuppence.

– Não sei por quê... – falou Tuppence. – É só uma ideia que tive.

Tommy a mirou com um olhar perplexo e balançou a cabeça.

– Swallow’s Nest é um nome bonito, sem dúvida – continuou Tuppence. – Ou poderia ser. Quem sabe um dia será.

– Você tem as ideias mais extraordinárias, Tuppence.

– “No silêncio dos pássaros mortos ecoou um pio.” É assim que terminava. Talvez tudo termine assim.

Pouco antes de alcançarem a casa, Tommy e Tuppence avistaram uma mulher no degrau da porta.

– Quem será? – indagou Tommy.

– Não me é estranha – falou Tuppence. – Mas não consigo me lembrar agora. Alguém da família de Isaac. Viviam juntos numa casinha. Três meninos, essa mulher e outra moça. Posso estar enganada, é claro.

A mulher na entrada virou-se e veio na direção deles.

– Sra. Beresford, não é? – disse ela, mirando Tuppence.

– Sim – respondeu Tuppence.

– A senhora não me conhece. Sou a nora de Isaac. Fui casada com o filho dele, Stephen. Stephen morreu num acidente. Era caminhoneiro. Um daqueles

caminhões grandes que puxam carretas. Foi numa dessas rodovias, na M1[1], se não me engano. M1 ou M5. Acho que foi na M4. Uma dessas. Já faz cinco ou seis anos. Eu só queria... falar um minutinho com a senhora. Com a senhora e seu marido... – Olhou em direção a Tommy. – Vocês enviaram flores para o funeral, não é mesmo? Isaac trabalhou aqui no jardim, não trabalhou?

– Trabalhou. Foi horrível o que aconteceu – lamentou Tuppence.

– Eu vim aqui para agradecer. Flores encantadoras. Bonitas. Clássicas. Que buquê bonito!

– Não podia ser diferente – falou Tuppence. – Isaac era um funcionário exemplar. Ajudou-nos bastante a organizar a casa. Contou muita coisa que não sabíamos, por exemplo, onde as coisas eram guardadas. E também me ensinou muito sobre jardinagem e horticultura.

– Era bom no que fazia. Só não trabalhava mais porque já era velho e sentia dores nas costas. Sofria de lumbago.

– Sempre amável e prestativo – disse Tuppence com firmeza. – Sabia bastante coisa sobre o povo daqui.

– Sabia mesmo. A família trabalhava no ramo há algumas gerações. Moravam aqui perto e ficaram sabendo de muitas histórias antigas. Não coisa acontecida com eles. Só de ouvir falar, como se diz. Não vou tomar mais o seu tempo. Só apareci para prosear um pouco e agradecer.

– Muito gentil de sua parte – afirmou Tuppence. – Muito obrigada.

– A senhora vai precisar de alguém para o serviço de jardinagem.

– Imagino que sim. Não somos bons nisso. Quem sabe a senhora... – Tuppence hesitou, com a sensação de que ia dizer a coisa errada na hora errada – saiba de alguém que gostaria de vir e trabalhar para nós.

– Assim de improviso não lembro, mas vou ver o que consigo. Vou mandar Henry passar aqui... Meu filho do meio. E mando avisar se souber de alguém. Um bom dia.

– Qual era o nome de Isaac? Não consigo me lembrar – indagou Tommy, quando os dois entravam em casa. – Quero dizer, o sobrenome.

– Bodlicott.

– Então aquela é a sra. Bodlicott, não é?

– Sim. Moram todos juntos naquela casinha em Marshton Road. Será que ela sabe quem o matou? – perguntou Tuppence.

– Não me deu essa impressão – falou Tommy.

– E que impressão daria? – quis saber Tuppence. – É bem difícil dizer, não é?

– Ela veio apenas para agradecer as flores. Não me deu a impressão de alguém... com sede de vingança. Nesse caso teria tocado no assunto.

– Teria. Ou não teria – disse Tuppence.

Entrou em casa absorta em pensamentos.

 

[1] M, abreviação de Motorway, termo britânico para autoestrada. (N.T.)